Já peço desculpas mas achei seu post interessantíssimo e fiquei com vontade de quotar passagens.

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Ozco
Olha, eu discordo que a moda woke é nova e que é restrita a internet, o que é novo é apenas essa personificação do que já estava sendo feito na surdina durante décadas, o livro 1984 não foi feito ontem, é também como falar que a esquerda brasileira aparelhou tudo apenas nos ultimos anos quando foi um processo longo.
O livro 1984 não tem relação com cultura woke, George Orwell descreve o processo autoritário de qualquer regime desse tipo baseado nos exemplos que ele observou dos séculos XIX e XX. É por isso que você escutou citações positivas ao livro tanto do seu professor de História socialista quanto do tiozão patriota do zap, até mesmo dos mais autoritários desses dois espectros. Afinal, dificilmente alguém quer se reconhecer como um Ingsoc ou como o dono da fazenda (no caso do A Revolução dos Bichos).
O uso ideológico da
identidade é extremamente novo na sociedade e tem muita aderência com a forma como a internet funciona e como a tecnologia alterou as dinâmicas sociais. Esses conceitos de militância identitária, como lugar de fala, apropriação cultural e coisas do gênero, são releituras relativamente recentes de autores pós-modernos e pós-estruturalistas, tipo Foucault. Portanto, acho sim que é "moda nova". E a internet teve seu papel central como divulgar desse pensamento, embora eu reconheço que, hoje em dia, ele já está infiltrado em diversos meios offline.
Só que entendo que essa nova organização cultural tem MUITO POUCO tempo para poder ser associada a tantos eventos históricos e geopolíticos que vivemos. Para mim, é impossível analisar as coisas apenas desse ponto de vista. Sou um grande crítico do identitarismo, acho uma lástima o Brasil ter importado e assimilado essa cultura de forma tão extensa e passional, mas não consigo atribuir todos os problemas do mundo a identitarismo quando os problemas que vivemos possuem estruturas política, geográficas e socioculturais bem mais antigas (como religião, distribuição e organização do poder, escassez de recursos naturais e etc).

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Ozco
Eu me atrevo a dizer que os processos que causaram a bagunça já não são tão importantes, o Vietnã hoje é mais proximo dos EUA do que a China, Irã já foi inimigo do Iraque e o Talibã amigo dos EUA, isso explica a criação mas não o cenário atual, o palco mudou e também os interesses e objetivos. É o próprio exemplo da midia ocidental puxando saco do nula e ele ir correndo pular no colo do Putin.
Então cara, depende. Por mais que sim, o cenário geopolítico e histórico não seja o mesmo, é impossível desatrelar o presente do processo histórico, principalmente quando a gente analisa responsabilidades e consequências. E isso é essencial para que a gente não caia em narrativas de "vilões e mocinhos" e se atenha à aspectos materiais e factíveis do cenário. Por isso que citei como falar que "Israel prefere a esquerda como aliada" pode até ser verdade se, por "esquerda", você tem um entendimento único e enviesado. Mas não é verdade no processo histórico.
Seria diferente, para mim, se você tivesse dito que "país X prefere aliados com culturas e sociedades fracas". A gente até poderia discutir se o progressismo ou mesmo o identitarismo torna uma sociedade "fraca" mas aceito facilmente a premissa. Só que, quando você atribui essa preferência a apenas um aspecto ideológico restrito, não consigo deixar de pensar que está fazendo um recorte muito profundo e deixando muita coisa de fora.

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Ozco
Eu entendo sobre lobby, na guerra da Ucrania eu já falava que era um puta teatro e esquema pra lavar dinheiro apenas (o mesmo que o assange denunciava no afeganistão), essa guerra falsa só persiste porque ambos os lados querem, a guerra real é a cultural.
Eu sei como a China trata os muçulmanos em seu território, mas novamente, isso é irrelevante, a Russia também foi um ninho de progressismo e hoje persegue qualquer manifestação desse tipo na Russia, mesmo o atual lider sendo membro da antiga KGB. O modus operandi é sempre o mesmo, usa-se esse tipo de gente para causar instabilidade e caos para tomar o poder, e uma vez com o poder, você não precisa das ferramentas revolucionárias, e sim de ferramentes de manter a paz, e começa o processo de perseguir os próprios aliados radicais. Não é por acidente que China e Russia estão mais próximos de um regime fascista.
E vamos supor que os muçulmanos sejam os inimigos numero 1 dos conservadores, quem está fazendo lobby, ameaçando empresas, financiando migrações em massa e perseguindo quem é contra? É a própria galera LGTBHDMI+, o ocidente lacrador, incluindo israel, que financia ONGs pró-imigração islâmica pro país dos outros ao mesmo tempo que expulsa os de seu território. O imigrante islâmico é apenas uma ferramenta, um instrumento desestabilizador.
No Brasil é o lumpemproletariado o instrumento do caos usado pela esquerda, seguindo direitinho a cartilha marxista de tomada de poder, e não coincidentalmente o mundo está se "brazificando" na leniência criminal, novamente, não pense que é consequência de estupidez, é tudo planejado e proposital parte de um plano de tomada de poder.
Então cara, é aqui que a gente diverge mais e, inclusive, acho um pouco contraditório com um trecho que você vai colocar abaixo.
Eu não acredito em "guerra cultural" (ou espiritual), não da forma que você coloca. Acredito em processos históricos, econômicos e geopolíticos, que podem ser independentes, co-dependentes ou relacionados, mas que não necessariamente são frutos de um pensamento único e de um "planejamento central". Inclusive, como você deve imaginar, boa parte dessa construção eu atribuo à teorias de conspiração, que fazem sentido até um certo ponto mas que carecem de lógica interna para explicar processos históricos complexos, principalmente quando estamos vivendo esses processos.
E eu falo isso porque acompanho também o "outro lado", oposto ao seu, e percebo que eles também possuem teorias que tem uma construção muito semelhante, a de que existe um inimigo internacional organizado, mal-intencionado e que segue uma cartilha ideológica muito específica. E aí vira uma guerra de percepções ideológicas, vieses de disponibilidade e muita crença embutida. Não que algo seja inválido por conter essas coisas (afinal, estamos vendo uma guerra cujo um dos motivos é a partilha de uma terra supostamente "sagrada" e que tem relação com escatologia teológica), mas para mim soa sempre uma jeito fácil e organizado de analisar um processo caótico.
Quando eu digo, por exemplo, que o islamismo é a principal ameaça para a cultura ocidental, não é exatamente um juízo de valor ou uma atribuição extrema de organização ao islamismo, mesmo sabendo que existe a teologia da Jihad. Mas é uma constatação de que o islamismo, da forma com que ele se organiza e interage com as sociedades nas quais foi implementado, provoca eventualmente uma uniformidade de pensamento e fagocita outras culturas e expressões filosóficas.

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Ozco
Also: Eu sei que como você é acadêmico vai sempre tentar ver as coisas pelo lado social e histórico das coisas, só que nisso aí você teria que ver mais no lado selvagem, humano, no lado de um grupo de psicopatas bolando planos de queimar o próprio país para que eles possam governar sobre as cinzas.
Então, eu acho essa passagem do seu texto uma contradição. Eu super considero o aspecto mais primitivo, violento, psicótico, tribal, territorialista e ganancioso do ser humano. Na real, acho que todos esses aspectos vem antes de qualquer valor mais racional, como crenças religiosas e moralidades. E é por isso mesmo que, para mim, não faz sentido algum a existência de uma "guerra cultural", que pode ser resumida a pensadores do século passado tendo deixado instruções de tomada de poder e as mesmas estarem sendo seguidas, de forma coordenada e sincronizada, por elites econômicas de contextos sociais, históricos e geopolíticos diversos. Eu nunca superestimaria o ser humano dessa forma.
Agora, eu ter um perfil mais "acadêmico" me faz sempre ter o olhar um pouco mais crítico em relação à explicações muito simples para fenômenos muito complexos. Então, de largada, eu tendo sempre a descartar grandes conspirações ideológicas e a ver todos o processo histórico como extremamente estocástico e que, por mais que existam padrões, eles sempre se apresentam de formas sutilmente diferentes. Também tem o fato de que eu, particularmente, não busco qualquer tipo de "solução" para o mundo.