
Postado originalmente por
GrYllO
Alcântara foi descontinuada?(!)
Logo depois do acidente de 2003 (ou um pouco antes, dependendo da versão), foi oferecido ao governo federal um projeto de investimento dos EUA através da Agência Espacial deles (NASA), com a contraparte de investimentos em infraestrutura na região pelo governo Brasileiro e um contrato de salvaguarda. O Aldo Rebelo, ministro do MCTI na época, recusou e fechou um acordo de 1 bi com a Ucrânia, que criou a "Alcântara Cyclone Space". Pelo sub-investimento para manter a infraestrutura durante os anos e com os argumentos de "é caro demais manter, não tem que pensar em espaço quando tem gente passando fome na Terra", o projeto foi descontinuado em 2015 pelo governo Dilma. Não sem antes ser um sifão de grana e propositalmente sucateado para justificar o fim, algo comum no Brasil.
Em 2017, o governo Temer retomou as negociações com os EUA (através do José Serra, o Chanceler da época) e em 2019, o Marcos Pontes conseguiu fechar um novo acordo de salvaguarda para lançamentos (bem mais restritivo e sem contrapartes tecnológicas como seria o de 2003). Mas o fato é que a gente já perdeu o bonde tecnológico e de pesquisa. E é uma retomada que demanda MUITO recurso de investimentos e umas duas décadas para a formação de novos pesquisadores da área.
Quem conta bem a história de Alcântara é o Sacani. Tem uma participação dele no "Xadrez Verbal" na época em que o novo acordo de salvaguarda com os EUA estava sendo finalizado, que é muito interessante:
P.S.: Abrindo uma parênteses importante: uma coisa que muita gente não entende é que parar qualquer projeto de pesquisa é muito mais do que simplesmente um "pause", em que eu posso dar um "play" e retomar tudo em outro momento mais oportuno. Quando Alcântara foi desmontada em 2015, todos os pesquisadores que trabalhavam lá foram embora do país, a maior parte dos equipamentos foi perdida (por defasagem tecnológica e/ou falta de manutenção) e, por não acompanhar o desenvolvimento tecnológico do mundo, qualquer retomada exigiria um início do ponto zero. É por isso que o termo "descontinuidade" serve muito bem aqui.
Foi basicamente o que aconteceu com qualquer resquício de indústria de alta tecnologia do Brasil, é o que basicamente acontece nesse momento em todos os centros de pesquisa desse país (exceto alguns abençoados, como a Embrapa ou a Fiocruz). Nenhuma alma da política brasileira consegue concluir que investimento tecnológico e científico é projeto de Estado, não ideológico ou de um governo. E sim, é caro, é de longo prazo, precisa ser bem pensado e que sim, em alguns momentos, vai trazer mais prejuízo do que benefícios. Até que traga tantos benefícios que tudo vai ter valido a pena. Como, por exemplo, a possibilidade de ser o único país da América Latina com capacidade de produzir circuitos baseados em semicondutores no caso da China resolver explodir Taiwan.
Mas sei lá, vai ver que eu tô maluco e seja um investimento mais interessante colocar todo esse dinheiro em um fundão eleitoral ou em cargos criados para manter governabilidade. O grande problema do país deve mesmo ser uma dúzia de cientistas chorando pelas migalhas do governo.