O Domador de Ursos
Capitulo IV – Primeiros passos
Não eram muitos passos que separavam os dois aventureiros da frente da casa de Vera do portão norte do vilarejo. Se é que pode se chamar aquilo de portão, pois na verdade, o que havia ali, não passava de um largo vão entre as duas extremidades do muro de pedra, que tinha uma altura de uns três homens medianos. Durante a curta caminhada, era possível notar um brilho no olhar de nossos aventureiros, nunca visto antes por qualquer habitante de Senja, e esse brilho não era proveniente do sol, que naquele momento brilhava forte, ao menos para um lugar tão frio como aquele. Esse brilho era de uma felicidade imensa, de dois corações aventureiros que partiram, finalmente, para uma aventura de verdade.
Ao chegar ao vão norte entre os muros, vulgo portão norte, Norberto parou de caminhar, e logo em seguida o jovem Baltazar também, nesse momento o menino parrudo logo perguntou de maneira preocupada:
— O que houve Norberto?
O homem olhou para trás, em direção a sua casa, e rapidamente desviou o olhar para o jovem menino e disse:
— Não é nada meu jovem...
Na verdade, tinha sim alguma coisa, o fato é que aquele homem, acomodado a muitos invernos, não passava por aquele vão desde que tinha aproximadamente a idade de seu companheiro de aventura. E naquele momento ele pensou consigo mesmo:
— Será que vai valer a pena?
Ele tinha dois motivos para esse questionamento: primeiro, que ele já havia se decepcionado muito ao buscar emoções e aventuras e nunca ter as achado, e o segundo, era que ele, um sábio homem, tinha o conhecimento necessário para admitir que essas jornadas, por menores que fossem, nunca eram tão bonitas na prática quanto nas histórias lidas. Mas ao olhar para o menino, que parecia tão empolgado, logo ele tratou de esquecer esses pensamentos, voltou a caminhar calmamente, e sorridente, falou:
— Você não vem Baltazar?
O jovem menino fez uma expressão de que fora surpreendido com tal reação, e logo tratou de começar a caminhar.
Poucos passos após passarem pelo portão norte, eles chegaram ao ponto onde a estradinha de terra já era completamente tomada pela macia e brilhante neve, que naquela região, nunca se derretia por completo. E mais alguns passos à frente, eles atravessariam o primeiro pinheiro da floresta, e assim, por conseguinte, adentrariam a floresta de Alawar. Aquela floresta, já havia sido esquecida há muito tempo atrás, assim como o nome da mesma.
Alawar foi um dos colonizadores, que veio de Carlin atrás de riquezas nas terras árticas. Que segundo algumas lendas eram repletas de cristais raros, coloridos e brilhantes, perfeitos para joias e afins, ainda mais se fossem comerciadas em uma cidade repleta de mulheres, que por natureza eram fascinadas por essas coisas. Mas tudo que o colonizador encontrou em Senja foi a floresta de pinheiros, que era bem maior naquela época. Mas Alawar era um visionário, e tinha um dom para o comercio, sendo assim, ele resolveu se aproveitar de um dos mitos mais famosos por todo o mundo. O mito do gordo homem, de barbas brancas e roupas vermelhas, que durante os frios invernos saía pelas grandes cidades, sem ser visto, e distribuía presentes pelas casas onde boas crianças moravam. O ganancioso colonizador, logo lembrou que segundo os costumes, as famílias gostavam de plantar grandes e decorados pinheiros para que o gordo homem, chamado de Klaus, se sentisse agradado e deixasse os presentes em baixo deles. Então Alawar começou a desmatar a floresta, para comercializar os pinheiros durante os invernos. Foi naquele momento que Senja começou a prosperar, e alguns habitantes de Carlin e Porto do Norte, principalmente, viajaram até a ilha, para formar residência e trabalhar por lá.
A família de Norberto acompanhou essa onda. Seu pai, na época desempregado, viu ai a oportunidade de cuidar melhor de sua família. Então, foi ai que nosso aventureiro tomou seu lugar em Senja, com apenas oito invernos vividos. Mas essa prosperidade da pequena ilha, não perdurou por muito tempo. Cinco anos após essa “invasão” a Senja, alguns exploradores descobriram o que já achavam impossível, logo ali, menos de um mês a noroeste da ilha, através do quase congelado mar ártico, estava um imenso continente de neve e gelo, que fora chamado de Svargrond. E logo nas primeiras semanas, anunciaram a descoberta de alguns cristais raros por baixo das geleiras. Foi ai que a migração começou de novo, mas dessa vez, não provinha apenas de Carlin e Porto do Norte, como também de Senja, Thais e Edron (esta ultima é famosa por ser habitada por grandes e famosos cavaleiros que se tornaram ricos e poderosos com suas façanhas e expedições). E com isso, os tempos prósperos e festivos da pequena ilha, logo haviam acabado, e nessa nova onda, o pai de Norberto partiu, sozinho, para o grande continente gelado, com a promessa de que quando se estabilizasse lá, viria buscar sua esposa e seu jovem filho. Ele manteve contato através de cartas por aproximadamente um ano, até ser tido por morto, quando os rumores de que os nativos de Svargrond haviam reagido fortemente à opressão dos homens que vieram dos mares. Alguns meses após isso, a mãe de Norberto, depressiva, adoeceu, e permanecera assim por uns três anos, até seu falecimento. E desde então, o menino com apenas dezessete invernos vividos, fora aos poucos, se tornando o acomodado homem com barbas castanhas que decidira a pouco se aventurar acompanhado de um jovem parrudo.
Ao passar pelos primeiros pinheiros da floresta, Norberto sentira um clima totalmente diferente do que o belo dia de sol propusera a eles. O ambiente estava tenebroso, e ao resvalar a palma da mão sobre um velho pinheiro (todos os pinheiros de Alawar eram velhos), ele sentiu uma leve pontada de tristeza no coração, e um calafrio tratou de lhe arrepiar todos os pelos espalhados por seu corpo. O homem, talvez imaginando que tudo isso fosse coisa da sua cabeça, que há muito não passava por grandes emoções, nem falou nada a Baltazar, que no momento estava apreensivo e ansioso, e seguiu caminhando. Naquela borda, a floresta não era muito densa, e não muito tempo se passou para que, com extrema facilidade, o homem e o menino chegassem ao espaço devastado onde este teria encontrado o pobre Husky.
______________________________________
Aqui esta, o quarto capítulo. Comentem sobre o que acharam!
Abraços