III
Com passos amplos e acelerados ele andava pelas estradas de barro, caminhando ao castelo de seu superior, o único para o qual esse ser agressivo abaixava a cabeça. Não era segredo algum de que os dois não se davam bem, não se gostavam, porém um deles nada poderia fazer a respeito disso...
Sem perceber, a estrada de barro acabara, e dava lugar para outra, essa toda ladrilhada e bem conservada, que guiava seu viajante para o castelo, moradia do rei de Carloc. E lá ia o general a andar por este caminho, com suas botas repletas de lama marcando e sujando o local por onde passava, a passos largos... E acelerados.
Nada ele precisava fazer ou falar para no castelo entrar. Os guardas o viam chegar, os guardas o deixavam passar. Ainda mais com tamanha fúria estampada em sua face, quem seria louco de essa criatura questionar?
Só um ser seria. Ele.
Rei Alidius I. Comandante da rebelião ocorrida no ano de 950 da Terceira Era, que destronara o antigo rei de Carloc. Respeitado por quase todos; isso se a palavra respeito fosse o sinônimo de medo... Odiado também por grande maioria dos habitantes da cidade, que nunca aceitaram sua forma de governo, que visava apenas gerar lucro e riquezas... Para si próprio. Desde a sua posse, Carloc sempre fora decaindo e ficando cada vez menos bela e mais pobre, exceto em um lugar... O castelo.
Finalmente, depois de todo o castelo cruzar... E sujar... O temível general se encontra com seu anfitrião, e assim dá-se início ao embate:
- Aqui estou, Rei Alidius. O que o senhor deseja?
- General Cádis, até que enfim chegou. Parabenizo-lhe pelo trabalho hoje feito, nos salvando mais uma vez desses malditos... Traidores.
“Meio contraditório alguém como ele proferir tais palavras”, pensava certo general que se encontrava no local...
Local que nada lembrava, para quem estivesse nele, de que se situava numa cidade tão deteriorada. Era precariamente iluminado, a não ser pelos fios de luz do sol Suon que teimavam em aparecer pela fresta da porta entreaberta pelo general. Além disso, o grande salão do rei tinha uma coisa que no resto de Carloc impossível seria de se encontrar: Riquezas. Tendo desde baús com moedas de ouro e prata até pertences de alto valor de ex-inimigos derrotados, aquele local, com certeza... Isto é, definitivamente, não fazia se lembrar da cidade que havia em volta...
- Obrigado, meu rei.
A cortesia e a falsidade faziam um pacto juntas naquele recinto.
Alidius se levantara de seu trono, feito de ouro e adornado por pedras esmeraldas enfileiradas horizontalmente em suas laterais, e caminhava vagarosamente em direção ao agora submisso general, que se encontrava com uma das pernas ajoelhadas, em forma de agradecimento e respeito à sua majestade... Que tanto odiava. O sobretudo que esse ser que tudo mandava vestia, feito da lã mais branca que poderia se encontrar em todo o continente, rastejava pomposamente suas pontas pelo chão, entretanto não se sujava, pois todo o piso daquele lugar, e de todo o resto do castelo, eram de limpeza impecável. Menos onde o general havia pisado com suas botas enlameadas...
Chegando perto de seu servo, o rei apenas pronuncia algumas poucas palavras, abrindo a boca e mostrando seus diversos dentes afiados e amarelos, de forma sarcástica:
- Não precisa fingir, general. Eu te odeio, você me odeia, nós nos odiamos. Vamos, levante-se!
- Sim, meu rei.
O cachorro obedece a seu dono.
- Bem, creio que deve estar se perguntando por que o chamei tão repentinamente – E agora se virava de costas para seu ouvinte, tocando e apreciando a cabeça empalhada de um minotauro, que se mostrava pendurada na parede, ao lado superior direito do trono... – Bela espécime eles eram, pena que se extinguiram, até onde sabemos... Então, chamei você até aqui para falar sobre algo, no mínimo, curioso: Um sonho.
Sonho?
- Sonho?
A palavra se repetia em sua cabeça como um martelo batendo incessantemente em um simples prego.
“Sonho”, ele pensava, Saiu de seu banquete, de sua comemoração, apenas para ouvir de seu superior, que tanto detestava, que ele queria falar sobre um...
- Sonho?
- Sim, não precisa repetir. Sonhei com algo que fará essa cidade se reerguer das cinzas, que irá fazê-la ser tão bela e próspera que nem era antigamente.
“Seria mais fácil fazer todo mundo gostar de humanos do que ter essa cidade do mesmo jeito de antigamente... Antes de você se tornar rei, antes de...”
- Está me ouvindo?
- Ah, sim, sim, meu rei. Continue.
Alidius andava morosamente pelo salão, com seus braços virados para trás, de mãos dadas, enquanto que seu ouvinte, de pé e sem se mexer, apenas o olhava incrédulo, ainda pensando:
“Sonho?!”...
- Creio que já deve ter ouvido falar sobre a existência de outros continentes e ilhas além desse em que vivemos, estou certo?
- Sim, meu rei. Diversas vezes. Até há relatos de que há moradores nelas, como a desprezível raça dos elfos, que dizem por aí estarem acomodados em uma ilha longe daqui, muito bem protegida por magia.
E o soberano parara de andar sem rumo algum, permanecendo agora estático, contemplando na sua frente um sabre, de cabo dourado e com pequenos diamantes incrustados no mesmo, que descansava preso à parede por pequenos suportes, ao lado de diversas outras espadas de igual ou superior beleza. Dezenas dessas armas cortantes ele tinha, mas não possuía a que mais desejava e almejava...
- Pois bem. Deve saber também que não temos noção de como essas ilhas ou continentes estão agora. Aliás, nem sabemos como é atualmente todo o continente que moramos! Estamos simplesmente vivendo limitadamente em um canto apenas, nos protegendo desses demônios alados que nos atormentam sempre. Nossos recursos estão cada vez mais escassos, e se não arranjarmos um jeito de mudar essa situação, pereceremos aqui mesmo, nas garras desses dragões. Porém, em meu sonho, visualizei um lugar que tem a solução para o nosso problema.
- Como assim, meu rei?
Alidius desvia seu olhar da bela arma e observa de forma penetrante e entusiasta para seu subordinado:
- Tesouros! Ouro! Riquezas além do que qualquer civilização poderia possuir. E está lá, em outro continente, esperando por nós!
- Mas...
- Não sei como, mas em meu sonho pude ver o caminho até esse tesouro. – Ignorara totalmente a expressão de objeção do general, como se estivesse falando sozinho, sem ninguém o ouvindo - Pude ver cada local do qual passaremos até chegar nele! Está lá, sozinho, sem dono! Iremos lá pegar tudo que pudermos! E com essa riqueza absurda poderemos dar um fim de vez a esses malditos traidores!
Palavras não explicariam com exatidão o que o general via à sua frente. Uma criatura insana, doentia, cega à realidade, com seus olhos cintilando em cada abrir e fechar de boca, que enunciou aquelas... Loucuras. Acreditar em um sonho? Arriscar sua vida... Por um sonho?
- Mas, meu rei, me perdoe, porém... Isso foi um sonho. Como podemos saber se é verdade? Não podemos nos arriscar nessas terras por motivos fúteis e sem fundamentos. Não creio que haja...
Falou demais.
Alidius sai de sua forma animadora de segundos atrás e corre a grande velocidade em direção a Cádis. O empurra contra a parede e prensa seu braço direito no pescoço do agora assustado e surpreso general, que tenta inutilmente sair daquela situação, respirando com dificuldade. Alidius faz um urro ensurdecedor, que resulta em dois guardas entrando no salão para ver o que ocorria, mas que saem discretamente ao verem do que se tratava...
- GENERAL CÁDIS! – Continuou a berrar, mostrando mais uma vez seus dentes nada brancos e totalmente pontiagudos, enquanto que o general agora só escutava, conformado de que não conseguiria nunca se soltar, apenas olhando de forma amedrontada para seu atacante - Eu que mando aqui, você não. Quer que continuemos a viver aqui, para sempre, nesta cidade em pedaços com uma população da qual não se pode confiar? Nós somos orcs! Tentamos viver civilizadamente como nossos inimigos, mas no fundo ainda somos um bando de selvagens canibais. É questão de tempo até que sejamos vítimas de nossos próprios semelhantes! Ou dos dragões!
- Que nem... – Tentava o general retrucar, usando todas as suas forças restantes para falar, cuspindo a cada palavra que saía dolorosamente de sua boca - Que nem o que aconteceu há cinqüenta anos? Hein?!
A expressão em Alidius mudara mais uma vez. Seus olhos negros dilatam-se e mostram que sua raiva apenas aumentara com a frase dita. Seu braço esquerdo faz um movimento involuntário, se preparando para ir em direção ao rosto do general, porém pára bruscamente no meio do caminho.
- Deveria agradecer pelo que fiz a você... Ou que deixei de fazer. Entretanto, não podemos deixar tal presságio de lado. Iremos investigar. Sendo algo
“fútil” ou não.
E, dito isso, o lobo solta sua presa. Recompõe-se, ajustando o sobretudo que caía pelos seus ombros e limpando a baba que escorria de sua boca pelo canto esquerdo. Anda em direção ao trono, enquanto que o general massageia seu pescoço vermelho e dolorido, ao mesmo tempo em que tentava fingir que nada aconteceu.
Isso, nada aconteceu. Foi... Um sonho?
- General Cádis, creio que estamos entendidos. Arrume e prepare suas tropas, partiremos amanhã!
- Sim... Meu rei. – E sai, cabisbaixo, do salão onde ocorrera mais um “duelo”.
Outro duelo...
No qual foi derrotado, mais uma vez.
“E ao perdedor, a escravidão.”
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- Não saiu como esperávamos. Ele não foi sincero.
- Ao contrário. Pode não ter sido honesto, mas creio que isso não mudará nossos planos iniciais... Verá que não.