II
Eles chegaram. Haviam se passado três meses desde que partiram para cumprir a missão que lhes foi concedida. Pessoas por toda
Nova Thais vinham cumprimentar e parabenizar os seus heróis, vangloriá-los pelo ato feito. Porém, um homem olhava a isso com desdém, pois achava tudo aquilo fútil, inútil, sem frutos...
Quem achava isso?
- Idiotas, babacas, estão comemorando o que? Para cada um destruído, outros cinco no lugar surgirão... Imbecis.
Será que ele estava certo, correto? E, aliás, do que ele tanto praguejava?
Parou de olhar pela janela de seu quarto a cena que tanto o incomodava. Perambulava, nervoso e agitado, pelo aposento de aparência melancólica e todo feito de mármore, refletindo
“Porque ele?”, “Por que devo ficar à sua sombra?”, “Por que tudo para ele dá certo, por que só ele?”...
- Príncipe Wesser, seu irmão acabou de chegar da expedição. – As grandes portas de madeira rústicas, as únicas que davam acesso ao quarto, se separam e por elas entra afoito um homem com uma simples armadura de metal reluzente, tendo preso na cintura uma pequena espada mais singela ainda, avisando, e atrapalhando, o pobre príncipe que sozinho brigava com seus pensamentos, que por sua vez pára bruscamente de andar de um lado para o outro no aposento e olha para seu subordinado, com aparente repúdio em seus belos... E talvez até marejados... Olhos castanhos.
- Idiota, insolente! Não sabe bater na porta antes de entrar? Eu já o vi chegar, não precisava me avisar!
- Desculpe, meu príncipe, não sabia. – Fala o guarda, ligeiramente desconcertado - Mas o rei pede para que todos desçam antes do entardecer ao salão de festas, para comemorar com um banquete a chegada de seu irmão.
- Papai... O, o rei, fará isso para meu irmão? – Agora era visível a tristeza e indignação que se emoldurava em sua face, iluminada por uma nesga de luz que adentrava no recinto pela janela.
- Sim-sim, príncipe.
E logo depois faz um gesto com a mão esquerda indicando para que o guarda vá embora, o que é feito. Permanece sozinho, novamente, com seus pensamentos de...
Inveja?
Ninguém sabe. Nem o próprio príncipe conhecia a resposta. Nem ele mesmo tinha noção do que se passava em sua mente perturbada...
Transcorrido meia hora, já arrumado apropriadamente e elegantemente para o banquete, vai ao espelho, de um metro e meio de altura e possuidor de uma forma circular, localizado do lado direito de sua cama, para arrumar seus curtos cabelos negros e ajeitar sua camisa de seda suave e pura, dona de uma brilhante cor azul claro, como último ato antes de descer e ir de encontro a algo que ele tanto evitava.
Atravessa as portas de seu quarto, e anda a passos largos pelo ostentoso corredor do castelo, iluminado apenas por dezenas de archotes pendurados à parede. Chega às escadas e as desce apressadamente, quase derrubando uma pobre serva que pelas mesmas escadas subia, carregando consigo uma grande trouxa de roupas em suas mãos...
Estando no térreo, diminui seu ritmo e anda mais calmamente, virando à direita e se aproximando da entrada do salão onde, pelos ruídos que se ecoavam nos ares daquele lugar tão monótono, poderia perceber-se que já haviam começado a festa para seu parente de sangue. “
Desgraçados, nem me esperaram”, pensava, lamuriava. Arruma novamente suas vestes e, com uma cara de esnobe, espera um dos guardas, que guardava a entrada, abrir a porta para assim poder entrar no recinto.
É recebido por mais um servo que o encaminha até seu lugar habitual na mesa, do lado esquerdo do rei, seu pai.
- Filho, por que demoraste tanto para vim? Veja, seu irmão está de volta!
O rei,
Tibianus XVI, aponta para um canto do salão onde, em companhia de três meretrizes que lhe faziam carícias e elogios, se encontrava seu irmão, deitado em diversas almofadas postas umas sobre as outras.
Dirige-se a ele e, atravessando o salão de forma displicente, ignorando todos que tentavam lhe dirigir a palavra, se esforça ao máximo para forçar um sorriso em sua face, querendo ser amigável, querendo mostrar que estava feliz com a volta dele. O que de certa forma não era verdade...
- MANINHO! – Grita o mais velho, se levantando das almofadas e largando sozinhas as mulheres que o adulavam, dando um forte e sufocante abraço no mais novo, que ainda tentava segurar o falso sorriso que seu rosto carregava.
- Oi irmão, demorou dessa vez!
“Oi irmão, por que não demorou mais?”
- Demorei, mas matei muitos deles! E mês que vem iremos partir novamente. Foi encontrado outro local de moradia desses monstrengos. Mas deixemos isso pra depois, vamos comemorar a volta de seu irmão querido!
Irmão querido... Ou odiado?
E a contragosto, o outro o segue...
Passam-se horas, os sóis irmãos já não se encontravam mais no céu, e ele já não agüentava mais aquela situação: Todos comiam porcamente, falando ao mesmo tempo. Bebiam até a última gota de vinho, rum, cerveja, bebidas de todos os tipos. Mulheres da vida e soldados que também haviam chegado de viagem se beijavam e se amavam ali, na frente de todos, sem pudor, sem acanhamentos. Ele estava deslocado. Não gostava daquilo, nunca gostou. Mas, não podia fazer nada...
- Filho, conte mais uma vez para o seu velho pai como matou cada dragão! – Dizia e pedia o rei Tibianus, alegre, feliz com a volta de seu filho... E bêbado, como quase todos os outros no local.
E lá ia seu irmão mais velho narrar novamente como havia derrotado cada um dos monstros...
"- Quantos eram?"
"- Você se machucou muito?"
"- Com que espada você os matou?"
"- Eram muito fortes?"
Admiração. Contemplação. Respeito. Todos ouviam com gosto cada palavra que o irmão maior contava, tentando imaginar cada cena que lhes eram ditas...
Bem, quase todos.
- E foi assim que matamos o último dragão do lugar, uma fêmea.
- Não havia nenhum macho por lá? – Pergunta por curiosidade o rei, seu pai. Mas já tinha quase noção da resposta que receberia, mais uma vez...
- Não, nenhum... De novo.
Com a paciência esgotada de tanto ouvir suas histórias e ver seu irmão sendo o centro das atenções, junto com a bebida que começava a subir para sua cabeça e fazer vir à tona seus pensamentos mais pessoais e banais, o mais novo não mede palavras e diz, com um aparente tom de sobriedade:
- Mas nem adianta...
No mesmo instante, seu irmão, que se localizava do outro lado da mesa, interrompe seu falatório heróico e repetitivo e se vira, com um largo sorriso no rosto, para seu parente de sangue:
- O que mano, o que você disse?
- Nem adianta você matar esses dragões. Pra que tanta comemoração? É i-nú-til.
Subitamente, ao mesmo instante, vários ao redor abaixam seu tom de voz ou simplesmente param de dialogar para poder ouvir mais claramente a briga, a discussão, que se iniciara.
- Do que está falando maninho? Inútil como? Matamos quinze dragões! São quinze a menos para nos atormentar!
- E hoje devem ter sido criados mais quinze, trinta, cinqüenta, CEM! DO QUE ADIANTA TUDO ISSO?
- Mas um dia conseguiremos! Se matarmos todos os que encontrarmos, um dia essa raça do inferno sumirá do continente!
- Até lá os recursos de
Nova Thais se acabarão ou seremos totalmente destruídos mais uma vez, ficando aos pedaços que nem a antiga cidade que era aqui,
Thais!
- Não se lutarmos pelo que é nosso de direito!
- LUTAR! Foi por causa de lutas que eles tomaram Tibia de nós, ou pelo menos é o que dizem as lendas. Então dificilmente será lutando uma batalha sem fim que retomaremos Tibia! Você é patético! Você e seus soldados marionetes que fazem tudo que lhe mandam, os enviando à morte para causas sem fim! RIDÍCULO!
Extrapolou. Exagerou. O rei, cansado e triste por ver tudo aquilo, se levanta de sua cadeira e com súbita rapidez leva sua mão direita ao ar, aberta, para logo em seguida conduzi-la de encontro ao rosto pálido de seu caçula, dando-lhe um tapa forte e arrebatador. Deixando marcas vermelhas em sua face. Deixando marcas, também, em seu coração...
- PEÇA DESCULPAS! PEÇA AGORA DESCULPAS AO SEU IRMÃO VASSILI!! ELE, DIFERENTE DE VOCÊ, ESTÁ TENTANDO FAZER ALGO PARA ACABAR COM TUDO ISSO, E NÃO FICA O DIA INTEIRO LEVANDO UMA VIDA ERRANTE!! AQUI QUEM ESTÁ SENDO PATÉTICO É VOCÊ!! PEÇA DESCULPAS!!
O mais novo, Wesser, ainda pasmo e chocado pelo tapa recebido, não reage, não responde, só olha com ódio e ao mesmo tempo medo para seu pai, que com um semblante vermelho, não tirava o olhar dele, um olhar de profunda raiva, e desgosto...
- Pai, deixa ele, bebemos muito, é comum exagerarmos um pouco. – O mais velho tenta, sem sucesso, apaziguar e destruir o pesado clima que ali se instalara, mas é ignorado por seu genitor.
- NÃO! Está na hora dele ser mais educado, de ter limites no que diz! Vai Wesser, o que está esperando? Peça desculpa a ele!!
- Não! Não irei retirar nada do que disse, é tudo verdade! – Diz o mais novo, com seus olhos vermelhos, que escorriam lágrimas por sua face, também vermelha, pela bofetada recebida.
O rei se preparara para dar outro tapa em seu descendente, que por sua vez cerrava os olhos e se encolhia na cadeira temendo o pior. Mas o soberano, se segurando ao máximo para não fazer isso mais uma vez, a abaixa e com a outra mão chama os dois guardas que vigiavam a entrada.
- Levem-no para alguma cela qualquer do subsolo. Deixem-no por cinco dias preso, com apenas uma refeição ao dia. Isto deve ser o suficiente para ele saber que aqui, ele não é NADA! NADA!
- Me larguem, seus idiotas! Me soltem! – Grita desesperadamente o mais novo, enquanto é pego nos braços pelos guardas, sendo arrastado para fora do salão, indo em direção ao que seria seu novo
“lar” por cinco luas... – Me soltem, seus palhaços!
Todos fixavam seus olhares ao príncipe, que desaparece, ainda gritando e xingando com todas as sua forças. Um silêncio perturbador se instala no local por alguns segundos, quebrado pelas palavras do outro príncipe que iam em direção à seu pai:
- Pai, não precisava fazer isso, só foi uma briga e...
- Calado! Eu o respeito muito, mas não admito que questione minhas ações! Quer ir também para fazer companhia ao seu irmão?
Ele abaixa a cabeça, humilhado, tácito, e, não se importando com o que aconteceria, abandona o salão, a passos pesados e apressados...
- Fim de festa! Todos, vão embora! – Ordena a majestade aos seus subordinados, e, um a um, vão saindo do local, ainda perplexos pelos eventos ocorridos, deixando apenas a vossa realeza sozinha.
- Ei você! - Chama ele um dos guardas que estava quase saindo do salão junto com a multidão.
- Sim, Vossa Majestade?
- Chame o profeta Karídis. Diga que preciso falar urgentemente com ele.
- Sim, meu rei.
E assim mais um dia se fecha na que era até agora calma
Nova Thais, com um rei desanimado e sentido pelo que houvera ali, pensando agora na próxima tarefa que iria por fazer:
- Droga, nem consegui contar a eles sobre o sonho...
Sonho?