Novos amigos e aventuras – Parte III
Abri os olhos com os raios de sol que sigilosamente queimavam-me o rosto e incomodavam-me. Já era hora de levantar — e eu sabia disso — mas estava com muita preguiça de levantar. Olhei ao redor... Apenas coelhos estavam ali.
Eu poderia descansar um pouco mais, pensei. Seguindo essa linha de pensamento, voltei ao chão, procurando, dessa vez, a sombra de uma árvore. Os sóis perseguiam-se fortemente no céu, o que gerava, na terra, um calor insuportável. Dormi até onde consegui — os sóis, imperdoáveis, impossibilitavam dormir mais. Decidi levantar-me, nadar um pouco para me refrescar e rumar para o centro da ilhota.
Alguns minutos após a natação, lá estava eu rumando para o centro de Rookgaard. Confesso, nesse dia ele estava movimentado. Eu me aproximei do poço, o qual ficava bem perto da Academia e fiquei por ali a ver o movimento. Foi quando uma mulher, morena e com um bonito corpo e de olhos dourados, aproximou-se de mim, tentando conversar. Ela se apresentou como Soraya, uma nômade do deserto de Darama.
Soraya, pensei,
lembro-me de Seth tê-la mencionado. Analisei-a, imaginando a possível relação entre ela e Seth. Eu não sabia explicar exatamente o porquê, mas senti-me enciumada imediatamente.
Falei para ela que conhecia Seth, um guerreiro de Ankrahmun. Ela disse-me que também o conhecia... E referiu-se a ele de forma carinhosa. Perguntei se entre eles havia alguma coisa e Soraya disse-me que eles estavam juntos. Eu senti um aperto no peito com aquelas palavras dela, mas,
estar junto, pensei,
não quer dizer nada. No fundo, eu queria acreditar que, por Seth não ter me dito nada a respeito da relação dos dois, aquilo não era real e em breve poderíamos estar juntos. Sim, eu estava gostando dele.
Preferi não revelar nada disso a Soraya — pelo menos não naquele momento. A nômade pareceu não perceber minhas intenções com Seth, então preferi deixar assim. Soraya parecia muito mais experiente que eu; inclusive, parecia estar pronta para ir ao Continente, mas ainda continuava por lá. Contei-lhe, então, sobre as missões que já havia realizado para Vascalir e que, a próxima, seria entrar no território dos trasgos do Norte. A menina de Darama olhou-me e ofereceu ajuda nessa missão. Fui falar com Vascalir para pegar algumas instruções sobre a mesma e, logo em seguida, partimos. Soraya é uma pessoa muito querida. Ela tem um jeito alegre e, sempre que podia, falava coisas para deixar-me feliz. Durante o caminho até o esconderijo dos trasgos responsáveis por atear fogo na biblioteca da Academia de Rookgaard, fomos conversando sobre diversos assuntos.
Finalmente, depois de combater alguns trasgos que apareceram em nosso caminho, chegamos a um buraco o qual Soraya disse-me ser ali embaixo o esconderijo dos trasgos. Dei uma espiadela por ele, mas, como estava tudo escuro, não consegui ver muitas coisas. Desci. Soraya ficou lá em cima, caso algo errado acontecesse ela me gritaria. Vascalir havia me dito para procurar por uma picareta em um baú de madeira dentro da caverna e destruir alguns pilares os quais os trasgos estavam erguendo para fixarem sua nova base ali. Eu demorei um pouco a encontrá-la, mas, assim que o fiz, segurei-a com firmeza — ela era pesada — e comecei a bater nos pilares que via pelo caminho. Percebi quando dois guardas trasgos apareceram, gritando e vindo em minha direção, mas o local já estava a tremer e eu me dirigi à saída quase correndo.
Ao regressar à superfície, vi que Soraya continuava ali. Sorri para ela, que retribuiu o riso, e então seguimos de volta para o centro da ilhota, para eu conseguir relatar o sucesso da missão. Fizemos o caminho até a superfície da ilha animadas, conversando muito. Porém, em um determinado instante, ainda distante da escada que nos ligava a essa, Soraya começou a cambalear e sentir-se tonta, a ponto de desmaiar. Conseguimos, então, ainda subir a escada, até Soraya desmaiar, sem forças, perto de umas ruínas e da escada que fazia conexão da superfície de Rookgaard com uma grande caverna. Eu entrei em desespero! Não sabia o que fazer, não havia ninguém ali perto para me ajudar. Eu comecei a sacudi-la e rezar para que Crunor me ajudasse, afinal aquele lugar era um pouco hostil e em breve poderia anoitecer.
Chamei seu nome inúmeras vezes, a sacudi... Mas nada a acordou. Até que, depois de um bom tempo esperando, já resignada com o estado de Soraya — porque não tinha forças para carregá-la, sozinha, até o centro de Rookgaard, a mesma acordou, gerando uma espécie de alívio em meu corpo. Perguntei se estava bem, se ela precisava de algo. Soraya ainda parecia distante do mundo; mas, aos poucos, foi me explicando que aquilo acontecia com ela regularmente. Nem ela mesma compreendia o porquê, só acontecia. Achei aquilo curioso; mas estava mais preocupada com minha missão. Soraya afirmava estar bem, então, logo partimos de volta para o centro da ilha.
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Chegamos à tardinha na Academia de Rookgaard. Vascalir, como sempre, estava cercado de jovens exploradores. Aproximei-me dele, triunfante por uma missão cumprida, enquanto Soraya aguardava-me: ela havia dito que me ajudaria em quantas missões fossem necessárias. Conversei durante um bom tempo com o enviado de Tibianus III — a próxima missão parecia-me estranha e eu nunca havia ido até um cemitério. Vascalir também me disse que eu iria enfrentar esqueletos, criaturas que, para mim, eram muito assustadoras. Confessei-lhe meus medos, mas ele disse-me para não me preocupar. Entregou-me um colar de alho e disse que o mesmo me ajudaria contra essa criatura morta-viva. Sorri para ele, agradecida, e fui encontrar Soraya, quase dormindo, a minha espera. O cheiro que saia do colar de alho era forte — não sei se a incomodei — mas, de qualquer maneira, seguimos sem falar nada sobre.
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Seguimos para o cemitério. O local era sombrio; a sua volta, muitas árvores mortas, túmulos e animais nojentos. Como Soraya já havia visitado o lugar anteriormente, foi nos guiando. Nós seguíamos cuidadosas pelos estreitos corredores daquele cemitério, a pouca luminosidade e algumas estátuas tornavam o clima muito pior. Eu estava com medo, assustada, mas a nômade sempre dizia para mim ter calma e coragem. Foi quando vi o primeiro esqueleto. Ele avançava contra nós, feroz, sem expressão no rosto. Seu andar era mecânico e o som que sua caminhada produzia era de arrepiar os cabelos. Eu recuei ao vê-lo, mas Soraya foi a frente, encarando-o. Tomando seu gesto como exemplo, avancei contra o esqueleto que, depois de diversas investidas de minha sabre — espada que Vascalir havia me dado nas últimas missões — desfez-se.
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Soraya, sempre que podia, elogiava-me. E isso era reconfortante. Por um minuto, imaginei como deveria ser os momentos entre ela e Seth — mas uma pontada de ciúme tomou-me novamente e desejei esquecer tudo aqui. Balançando a cabeça para os lados, desvencilhei-me daqueles pensamentos e voltei a seguir Soraya. Até que a mesma parou próxima a um sarcófago e disse-me que o local era ali. Eu a fitei, um pouco incrédula. Vascalir realmente havia me dito que um túmulo diferente seria o local onde estaria o osso carnudo. Mas... Aquilo... Era um sarcófago... Para múmias.
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Olhei novamente para Soraya, dessa vez questionando-a. A nômade achou graça da minha pergunta e riu, mas disse não haver nada demais ali e que eu poderia abri-lo. Foi o que fiz. Um osso nojento estava lá dentro. Ele ainda parecia incrivelmente fresco, mas com um odor fétido. Agradeci, naquele momento, por estar com o colar de alho... O cheiro era realmente disfarçado. Coloquei com cuidado aquele grande osso dentro de minha mochila para mim e Soraya regressarmos a Academia. O caminho de volta foi fácil, pois já conhecíamos as criaturas as quais iríamos enfrentar. Eis que, perto da saída, encontramos Ray, a menina a qual eu achava louca. Ela estava estrangulando alguns ratos e decidi parar para cumprimentá-la. Soraya nos observou um pouco silenciosa, mas, logo em seguida, apresentou-se.
A garota estranha — com jeito de valente — ainda nos enrolou um pouco... Perguntamos o que ela estava a fazer ali, naquele lugar asqueroso, e ela simplesmente disse estar de passagem. A maneira como a garota falava me irritava um pouco, pois ela era muito arrogante. Como Ray estava entre mim e Soraya, procurei me mexer de forma a conseguir enxergá-la, chamando-a para ir embora. A nômade do deserto de Darama rapidamente concordou, porém, antes de sairmos de lá, questionei Ray se ela gostaria de ir conosco. A garota insolente nos seguiu e juntas, as três, retornamos para o centro da ilhota.
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Chegamos ao centro com os sóis já distantes. Dessa vez, Vascalir estava sozinho, então não hesitei e aproximei-me dele. Soraya e Ray ficaram próximas à entrada da biblioteca, me aguardando. Ao relatar a Vascalir minha missão, ele abraçou-me alegre, e sua alegria me contagiou... Questionei-lhe, intrigada, sobre o que estava acontecendo, até que me respondeu:
— Está chegando ao fim de sua missão... Jovem Amanra.
Olhei-o sem acreditar. Aquele fato me deixava um pouco triste, pois sabia que, cedo ou tarde, teria que deixar Rookgaard e isso era ruim para mim. Vascalir deu-me uma espada, a qual parecia bem mais forte e pesada do que o sabre. Imediatamente o descartei, testando a espada no ar, alegre. Vascalir ainda me disse para descansar um pouco. Ele e algumas tropas de Tibianus III estavam conseguindo fazer algumas criaturas recuarem e — claro — com a ajuda de muitos jovens, Kraknaknork estava bem mais fraco. Ele avisou-me que as próximas missões seriam demoradas, complicadas, e que eu deveria me preparar muito bem.
— Assim farei, senhor Vascalir. — E o reverenciei e despedi-me.
Enquanto eu conversava com Vascalir, pude perceber, simultaneamente, que Soraya e Ray não estavam se dando bem. Ray, sempre atrevida e inquieta, fazia várias coisas para tentar irritar Soraya, que, por sua vez, tentava ficar impassível fechando a cara e cruzando os braços. Eu me virei para fitá-las. Soraya foi logo se adiantando, dizendo que havia chegado o grande momento... No entanto, antes mesmo dela terminar, eu agradeci a ajuda delas e disse que precisava descansar.
— Será essencial para o meu bom desempenho. — Reforcei.
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As meninas pareceram compreender e, logo, Ray virou-se e foi-se embora. Soraya ainda permaneceu alguns instantes ali comigo, antes de eu ir até a hospedaria de Amber. Disse-me palavras reconfortantes sobre o confronto com o orc mago, mas xingou, também, Ray.
Era difícil alguém gostar dela, pensei. Não pude deixar de concordar com suas palavras e, com um sorriso e um aceno, agradeci-lhe novamente tudo o que fez para me ajudar. Soraya acenou de volta para mim e finalmente dirigi-me para a hospedaria de Amber, descansar.
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