Esses documentos de "proposta de governo" (que estão mais para uma "carta de intenções") são meio broxantes para uma comparação mais qualificada. Principalmente, levando em conta que os dois candidatos já conhecem a máquina pública. Tem a desculpa de "ahh, mas esses documentos são feitos para o povão ler", só que isso é balela, o público que se interessa a ponto de ler esse tipo de documento é qualificado o suficiente para entender propostas mais concretas.
Mesmo assim, separei alguns pontos de crítica dos dois planos nas áreas de Educação e Ciência, definidores de voto para mim:
Lula:
- Uma perspectiva mais social e integrativa de Educação, tradicional no pensamento de esquerda.
- Achei que o documento fala MUITO POUCO sobre o projeto em educação e de forma bem genérica. O de 2018 era melhor nesse aspecto (provavelmente pelo fato do Haddad ser da área).
- As referências às duas áreas são colocadas em contraponto à atual gestão. Traz menções à recuperar as perdas de aprendizado na pandemia.
- O documento lembra que temos um Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI), totalmente abandonado na gestão atual. Também fala sobre as agências de fomento, que também perderam relevância e recursos nos últimos anos. Mas não tem como falar sobre isso sem falar de onde o dinheiro virá e como será a gerência do recurso, que foi muito mal feita nos governos do PT.
- O documento lembra das áreas estratégicas em tecnologia (energias renováveis, inteligência artificial, nanotecnologia e biotecnologia).
- Ausências: o plano não fala de dois carros chefes dos governos anteriores do PT, que foram o financiamento educacional¹ e o investimento em expansão da rede federal.
Bolsonaro:
- Uma perspectiva mais tradicional e utilitarista de Educação, em sintonia do pensamento de direita.
- Interessante ver o salto de qualidade do documento desse ano em comparação ao de 2018, que era uma abominação (assim como a atual gestão foi, nessas áreas).
- O documento não se compromete com investimentos públicos em ciência. Não existe pesquisa de base no Brasil sem recursos públicos.
- Me surpreendi com um conteúdo mais extenso sobre educação, muito diferente do documento de 2018. O texto é tecnicamente perfeito, no sentido de diagnóstico. Muitos pontos, inclusive, estão totalmente na contramão do que a atual gestão aplica na prática do MEC.
- Ausências: o plano não fala sobre escolas cívico-militares. O que é uma coisa boa já que esse modelo apresentou desempenho pior do que escolas-modelo civis que recebem o mesmo montante de recursos.
É bem óbvio para mim que os dois projetos estão muito aquém do que é necessário para as áreas que eu considero mais estratégicas de um país como o nosso. O programa do Bolsonaro seria um bom programa de direita se não fosse o fato de ser brutalmente contraditório à realidade da gestão do MEC dele, com 4 ministros diferentes em 4 anos, e uma gestão onde os professores e gestores da educação viraram inimigos. Existe uma distância muito grande entre o que o Bolsonaro promete e o que ele faz, e duvido que isso vá mudar. O programa do Lula é muito genérico para um governo onde educadores tiveram algum papel, aparentemente ele espera definir seus apoios para definir para qual lado ele vai.
Infelizmente, todas as questões sobre esse tema que poderiam ser feitas estão sendo totalmente soterradas por fake news, conspirações (reais e irreais), pânico moral, pânico satânico e o uso político da religiosidade. Dá para dizer com facilidade que essa Eleição tá :umaporra: e que vamos ter, pelo menos, mais 4 anos perdidos em Educação e Ciência.
Minha tendência, levando em consideração essas áreas, é acabar votando no Lula simplesmente porque ninguém conseguiu me convencer de que um governo Bolsonaro vai parar de tratar cientista como conspirador comunista e professor como um leproso que não é digno nem de ser ouvido pelo poder público.²