-Não... não devia acabar assim.
Estava jogado ao chão, uma mancha vermelha se espalhava na grama seca, mas Duraha ainda estava vivo. Com dificuldade de respirar, removeu seu elmo e um grande suspiro soltou ao ar. Olhava para o céu alaranjado da tarde com sereno em seus olhos, parecendo resgatar memórias agradáveis.
Rookgaard, a academia de heróis. Quantos jovens já pisaram em suas terras com a esperança de mudar o mundo? Duraha foi um deles. Amante do mundo que nasceu, queria conhecer e compreender qualquer obra que os deuses lhe presentearam, desde aos pequenos vagalumes da cidade élfica de Ab'Dendriel até aos calabouços de seres titânicos. E por este motivo Duraha veio de terra longínquas, atravessando o mar nórdico, e desemborcou em Rookgaard. Isso sim são boas lembranças! Novos ares, novas esperanças, novos amigos que estava prestes a conhecer, até podia se esquecer de como cruel o mundo poderia ser. Isso nunca lhe importou, pois isto para ele é viver.
Inerte no chão sem conseguir se movimentar, sua armadura estava deteriorada. As placas, que antes eram firmes e imponentes, agora estavam amassadas e perfuradas, atrapalhando a respiração de Duraha e o machucando ainda mais em cada simples movimento. Até seu elmo de aço estava sujeito àquela situação, mas se não fosse sua qualidade Duraha já estaria entre os heróis muito antes.
Mas você deve estar se perguntando, porque aquele jovem cheio de sonhos estava naquele estado? A pergunta é exatamente a resposta. Ele estava atrás de seus sonhos, e por maior loucura que seja, não queria estar em outro lugar.
Isso foi umas das lições mais valiosas que Duraha aprendeu em Rookgaard, uma lição que mudou sua vida. Ele entrou na academia sozinho, mas saiu com companheiros. Nestes tempos, sua meta era ser um druida solitário, para conhecer o mundo e seu elementos, mas mal sabia que seu destino iria se entrelaçar com os de outros, mudando totalmente seus planos. Conheceu amigos que o ensinaram a ter confiança, e assim ele jurou protegê-los.
"-Por isso não acabará assim". Eu o vi dizendo sozinho para si, olhando para sua espada, uma espada larga que precisava de duas mãos para ser empunhada, algo que não estava possível no momento. Foi então que lembrara que o companheiro, Nogueira, havia lhe dado um presente para aquela situação, um frasco de mana, para curar seus ferimentos.
Foi o próprio Nogueira que também lhe ajudou a conquistar a sua espada larga, enterrada nas terras gélidas do norte. Não era a espada de heróis, mas era a espada marca de Duraha, e por isso esta espada larga é heróica para mim. Não é uma lâmina polida, que sangrou reis e decapitou demônios, que faz um herói. O que faz um herói são seus atos, e graças a Duraha eu estou aqui. E por ele estou repetindo suas palavras.
Não conheci Duraha em Rookgaard, o conheci em Venore, onde cresci e sempre vivi. Nunca tive tempo de perguntar por que ele deixou de ser Druida para ser um Cavaleiro. Mas imagino que seus atos já respondem isso para mim.
Quando ele usou a mana para se regenerar, conseguiu se levantar, e rapidamente se dirigiu a mim e à Nogueira, mas seu amigo já não estava entre nós. Nós estávamos feridos e acuados, Um dragão surgiu ao norte de Venore em uma região inesperada. Embora soubesse que aquele campo sempre foi perigoso, eu cresci caçando alces com meu pai naquela região e nunca imaginaria que um dragão estaria ali. Mas infelizmente naquele dia ele estava, e eu também. Quando a fera surgiu foi um misto de poder e crueldade. Era majestoso e imponente, mas implacável e vicioso. a grama vívida se tornou palha queimada com sua respiração. Foi assim que conheci Duraha e Nogueira.
Embora fossem apenas dois recrutas do rei, os dois Cavaleiros se arriscaram para me salvar, enquanto eu estava imóvel de medo e admiração pela criatura. Eles não tinham força para enfrentar o dragão, então corremos em direção de Kazordoon, a montanha dos anões, para procurar abrigo ao oeste onde estávamos. Foi nosso maior erro. Por acidente, acabamos de entrar justo na caverna da fera! Ficamos presos ali. O dragão era grande demais para entrar nas fissuras que nos escondíamos, mas também vigiava a saída, esperando suas presas virem até ele.
Depois de um dia e uma noite presos, conheci a história de Nogueira e Duraha. Na verdade só de Duraha, pois ele era quieto e reservado, fazendo Nogueira contar a história dele. Por causa disso pouco soube de Nogueira, apenas que ele era um Paladino em ascensão do reino de Thais. Nogueira também tinha um humor que nunca vi antes, sempre rindo ao lembrar de suas missões ao lado de Duraha, muito fiel ao seu amigo. Quando as provisões acabaram, Duraha resolveu distrair o dragão para fugirmos, e assim tentamos. Mas a fera era poderosa para ele. E o resto você já pode imaginar o que aconteceu.
O dragão queria presa viva, e depois que tombou Duraha, Nogueira lutou com ele para me proteger. O arqueiro feriu seu olho lhe cravando um lança, mas faleceu após sofrer da fúria flamejante do dragão. Quando Duraha voltou, eu estava escondido e me sentindo culpado, pois nada fiz.
-Está enganado, disse Duraha. Você está superando obstáculos além de suas capacidades, isso é evoluir. Não desista agora. Isso sim seria em vão.
Jamais pensei que uma frase me faria levantar e sair do pânico. Eu consegui voltar a raciocinar e assim seguir as ordens de Duraha. O dragão precisava se alimentar e aquela foi a melhor hora de sairmos. A fera precisava de algo maior para se alimentar, devia estar faminta, por isso ignorou a nós e ao Nogueira caído por alguns instantes. Isso me deixou por um instante feliz, não queria que o pobre arqueiro sofresse mais aquela crueldade. Saindo da caverna foi a última vez que eu vi Duraha, empunhando sua espada contra o dragão enquanto eu corria.
Sei que Duraha também faleceu, e por isso estou aqui hoje. A última palavra que ele me disse nunca sairá de meus ouvidos: "Não o odeie, é parte da natureza". Não sei se foi por coincidência, mas eu também vim de Rookgaard como Druida. Como Duraha, eu também quis conhecer cada criatura deste mundo. Mas agora vejo além disso. Estou aqui pelo legado de Duraha, que deixou de ser druida para me proteger, para proteger Nogueira, tornando se o maior Cavaleiro que eu já conheci,e me ensinar a não ter raiva do dragão e por nenhuma criatura, pois elas apenas querem viver. Nogueira também faz parte de mim, sua lealdade e otimismo o fazia colocar os outros acima dele, um ato muito nobre para o ser humano. Por isso até hoje nunca matei um dragão. Até hoje. Agora conto esta história por que eu vi o dragão. Ele estava na mesma região ao norte de Venore, lugar que eu nunca havia retornado antes. Seu olho estava marcado como naquele dia, dragões se regeneram de forma incrível, mas a lasca da lança de Nogueira em seu olho esquerdo era uma estigma inconfundível. Eu, mais velho e experiente, lhe dei o último inverno, o cobri com uma manta fria e ele entrou num eterno sono gélido, como se já esperasse por aquilo. Agora me pergunto, diante do dragão que eu apaguei a chama da vida. Isso foi um arrependimento de tudo o que aprendi?