Capítulo 29 - Junketsu III
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Neal Caffrey
Grande Carlão. O Carlão da Regulagem. Aquele que tem uma jiboia do tamanho de um recém nascido.
Irmão, sua narrativa é só ladeira acima, contrariando as suas próprias expectativas iniciais. Aliás, destaco:
Sensacional, puta que o pariu. Você deve perceber que alguns excertos específicos me empolgam, e sua história tem muito disso. Esse pedaço (peço a permissão de chamar de "pedaço") é de uma riqueza literária, orgulha-me ver o quanto seus capítulos evoluem e o quanto a sua narrativa evolui também.
Peço perdão pela ausência, você deve ter percebido que a história de Jason Walker também não está caminhando na mesma velocidade das demais. Vou seguir teu conselho lá e farei os 5 contos; já existe um engatilhado na minha cabeça pra depois do fim da saga, e escreverei um conto somente, justamente pra não vincular todo mundo ao andamento da série como um todo.
No mais, fico no aguardo do próximo capítulo. Parabéns, mais uma vez. Só vejo você caminhando pra frente.
Um abraço!
Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos muitos elogios. É sempre ótimo ler elogios seus, sinto-me cada vez mais determinado a continuar escrevendo e confio mais no que estou escrevendo.
Não sei se você reparou, mas desde que sua história apareceu na sua seção e desde que comecei a ler ela, eu comecei a tentar melhorar minha escrita. Eu não sou nenhum outcaster de literatura, você se impressionaria em saber que não leio muitos livros, mas ainda assim, minhas melhoras partiram de mim mesmo e da ajuda das pessoas da seção. É por isso que eu aprecio todos os comentários que me ajudam e que dão críticas construtivas.
E cara, você escreve bem pra caralho, acho que muitos dos antigos principais da seção, de anós atrás, elogiam a sua escrita e te comparam a escritores brasileiros incríveis. Já te chamaram de Paulo Coelho da seção de Roleplaying, parceiro. E vendo isso, é impossível eu me comparar a você, não tenho a mesma habilidade e talvez eu nunca tenha. Mas isso não significa que pararei de escrever um dia. Estou sempre buscando evoluir e chegar no nível de escritores consagrados. Eu ficaria feliz pra um caralho se aparecesse numa crítica na internet ou num jornal que minha escrita se compara a, sei lá, J.K. Rowling. Que minha criatividade se equipara ao meu mestre, J.R.R. Tolkien. É meu sonho. E Bloodtrip é parte dessa minha jornada, uma vez que ela mudou totalmente meu modo de escrever e criar.
No mais, Neal, faça os outros dois contos restantes e não deixe essa seção por nada. Juntos podemos inspirar mais escritores e alimentar mais a literatura brasileira, mesmo que por simples fanfics. O começo de grandes criadores sempre vem de coisas pequenas.
ta comparando minha jiboia àquele recém-nascido que veio bem dotado? pois é verdade
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Postado originalmente por
Skirt Underdome
Hum, tivemos fan service nos últimos capítulos :lenny:
Dartaul afogou o ganso, molhou o biscoito:lenny:
Charles, suas tretas continuam imbatíveis. Eu sei que vc vai negar até o Juízo Final que são tretas ninjas e naruteiras, mas independentemente disso elas são a cereja do bolo de sua fic. Muito boas. Não se consegue enxergar o que vai acontecer a seguir em cada combate. Continue assim.
Sobre as revelações finais a respeito da Irmandade eu tenho uma teoria mas não vou revelar para que o suspense continue alto.
Então siga em frente, comboio sem freio. E brinde-nos com mais tretas naruteiras e ninjas porque são muito boas:lenny:
Opa Skirt, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Cara, eu não faço fanservice, juro pra você :lol: tudo aqui é parte do que eu desenvolvi pra essa história. Então, se tem uma cena de sexo na história, acredite, é pela história. Dartaul é um jovem de sorte mesmo btw
E eu continuo negando que há algo naruteiro aqui, não temos mechas de chakra nem nego soltando cobras pela boca, então deixa disso :fckthat:
A teoria pode acabar deixando o suspense ainda mais alto, então, se quiser, pode soltá-la. Adoro essas coisas.
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Senhor das Botas
Não dá, tenho que comentar; se o mestre já deu seu perecer, devo prosseguir.
Primeiramente, minhas desculpas por não comentar. Nem sei mais o porquê de logar no forum, acho que se eu fosse um mero visitante não iria fazer muita diferença :aeho:
Btw, antes de falar dos capítulos recentes, gostaria de falar da organização estrutural da sua história. Sério, nunca antes eu invejei de tal forma o quão bem preparada a sua história foi. Cada capítulo trazendo esclarecimentos, novas dúvidas, novos ganchos, e assim vai; em momento sequer, ao final da leitura de um capítulo seu, eu parei e pensei "capítulo filler esse". Sério, se o Kishimoto tivesse lhe colocado pra dar uma ajudinha no roteiro do mangá, coisas teriam saido mais suaves ( e loucas. Guerra Ninja não seria nada perto de você)
Quantos aos capítulos recentes... Caceti! Tive que refazer umas leituras pra pegar a imagem da coisa, e acho que vou reler os capítulos anteriores pra já ter uma ideia de desde quando Vermuda vem falando Dartaul. No mais, piadas à parte, o Dartaul é tão virjão que até uma virgem tinha mais experiência que ele :aliens:
E ao menos, obtivemos informações do que realmente aconteceu em Yalahar, com o retorno de Zoe... QUE TROUXE MAIS DÚVIDAS!
Enfim, no aguardo dos próximos capítulos. Você me motiva pra caralh* a voltar a escrever Carlão, e acho que vou começar a deixar a rotina mecânica de estudo/jogo :fckthat:
PS: Mas o age ainda tá aberto. Deu sdds
Meu amigo Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios. E poxa, logue ao menos pra comentar aqui, pô. Já disse que adoro comentários.
Cara, agradeço mesmo em saber que a história não está confusa. Eu tinha esse medo e acabei fazendo diversas mudanças na história pra que ela não fique estranha nem complicada demais. E sinceramente, se dependesse de mim, nem Guerra Ninja aconteceria. Ela teria outro nome: Reunião dos Cinco Kages. Dali, a história estaria dando seus passos pro final. Eu mudaria tanta coisa que Naruto ia ficar bem menor.
E rapaz, você comentou sobre Varmuda na cabeça do rapaz, e eu achei por um instante que esqueci de mencionar quando ela começou a falar com ele, mas já lembrei onde fiz isso. Capítulo 21, parte 3. Dartaul acorda novamente falando que Varmuda esclareceu tudo sobre Nightcrawler. Caso não tenha entendido direito, já expliquei aí. Agradeça-me, não costumo fazer isso. :soclose:
E volte a escrever, Botas. A seção não é a mesma sem você.
E não feche esse Age nunca. Não deixe o melhor RTS de todos morrer.
Yo galero, venho fazer a história caminhar mais com um capítulo que farão vocês começarem a duvidar mais do que eu posso colocar aqui. Também dedico essa parte a minha namorada que disse estar lendo minha história. Acho que logo ela chega nesse capítulo. Eu espero que esteja gostando de tudo da história e que não me mate pelas decisões que tomei até aqui :lol: e não esqueça que eu te amo, fofinha.
No capítulo anterior:
Zoe aborda Dartaul no meio do vazio e diz que ele quebrou um selo importante feito em Aika, e que a Irmandade está vindo. Com isso, dois deles surgem, um prendendo Trevor e Alayen, o outro atacando Dartaul e Aika. Mas Nightcrawler surge nos instantes finais para exorcizar Bryca. Mas, após isso ser feito, o corpo da Sangue é possuído por Zoe.
Capítulo 29 – Junketsu
Parte 3
O quarto parece tão silencioso que dói. Todos olham, ao mesmo tempo, para o corpo de Bryca, onde aparentemente está Zoe. Mas ninguém consegue dizer uma só palavra, tampouco mexer os braços ou pernas. Enquanto isso, Zoe vira a cabeça para a janela, aparentemente, sem jeito.
— Por favor... — Suplica Zoe, tentando esconder a vergonha de estar nua na frente de todos.
— Ah... AH! Porra, vocês tão olhando o quê? Saiam fora, vão! — Disse Alayen, se aproximando de Zoe e dando sua camiseta para ela. Também está sem jeito.
Numa cena cômica, Alayen está levemente corado e de costas para Zoe, que sentou-se de frente para a janela, sem que ninguém veja algo de seu corpo. Ali, ela colocou a camiseta laranja do rapaz, e uma calça azul que Trevor disse estar dentro do guarda-roupa do quarto. Ao sentir-se mais confortável e vestida, ela vira-se, mostrando não ser ela de verdade. Bryca tem olhos azuis, nariz fino, mas lábios carnudos. Possui uma estranha, porém, visível cicatriz começando do lado direito do nariz e indo até acima do olho direito.
Zoe levanta-se. Repara no montante de dúvidas a frente dela. Mas essa era a recepção que ela estava esperando.
— Muito bem, comece quando quiser, garota. — Disse Nightcrawler, com as mãos nos bolsos do sobretudo.
— B-Bem... É meio difícil explicar o que aconteceu comigo, pois nem eu entendi muito bem.
— Como não? Um dia atrás você morre e agora está em outro corpo? Isso seria alguma habilidade sua que você não revelou para nós?
— Não... Acho que, antes de tudo, preciso explicar o que seria a sociedade de onde eu vim.
O detetive apoia-se na parede. Quem sobrou de pé se sentou na cama, como se esperassem uma história interessante. Zoe coça o queixo, encabulada.
— A Sociedade dos Espíritos Claros é uma grande corrente formada nas ilhas geladas, originalmente em Senja. Ela se espalhou para outros locais das ilhas, como em Svargrond. Nós não somos como os xamãs, somos mais dotados de uma influência continental, a cultura de Thais ou Carlin. Temos uma base lá feita de tijolos que parece um pequeno castelo, no alto da montanha que circunda a cidade dos xamãs. Vivemos em paz com eles e cultivamos nossa religião principalmente no subsolo.
“Sempre fomos dedicados à meditação para encontrar o poder de nossas almas, ou para comunicarmo-nos com as almas que ainda desejam ficar neste mundo. Existem muitos de nós que já entraram em contato com um espírito ou com a nossa própria alma, algo bastante excitante, por assim dizer. Experiência própria, eu diria...”
“Mas, bem, nós desenvolvemos habilidades baseadas no poder de nossas almas. Nossos antepassados cultivaram essas habilidades e herdamos elas de berço. Não é algo difícil as desenvolver e usar quando você já é da Sociedade, o problema é se você vier de fora. Tínhamos muitas leis, regras, ordens e raramente ficávamos sem algo para fazer. Sonhar e nos conectar com o deus Nornur é algo básico na nossa rotina. Assim como com Crunor, Bastesh ou até mesmo Banor. Sabemos de muitos segredos desse mundo, por isso somos um grupo seleto e bem reservado.”
“Há muitas formas de desenvolver poderes. É dito que, quanto mais branco você for de pele ou de outra característica, como os cabelos, os olhos, os lábios ou qualquer outra parte do seu corpo, mais você tem poderes de alma. Caso tenha notado, somos conectados com espíritos brilhantes, ou seja, estamos sempre buscando a luz e evitando a escuridão.”
“Eu nasci albina. Meu corpo sempre foi claro. A probabilidade de eu aprender tudo que me ensinassem e que fosse algo da Sociedade era sempre muito alta. E, de fato, eu aprendi inúmeras coisas, além de segredos do mundo e dos deuses. E, por incrível que pareça, eu tinha uma irmã igualmente albina. Erámos os prodígios do grupo, o sinal de prosperidade da nossa Sociedade.”
“Mas eu e minha irmã fugimos, pois a pressão sobre nós era grande demais. Demais! E aquela não foi a primeira vez que tentamos isso. Tínhamos sempre que nos submeter a lições e tarefas difíceis e mal tínhamos amigos. Diziam que não podiam andar com seres poderosos como nós. Queríamos ser consideradas pessoas normais, como os outros membros da Sociedade! Lembro que fizeram minha irmã engravidar com pouco mais de 16 anos. Anos depois, foi minha vez, com 22. Eu peguei minha filha recém-nascida e fugi com minha irmã e a filha dela. Suportamos uma infância e uma adolescência inteira na mão deles, não largaríamos a vida adulta por nada.”
“Eu fugi pra Yalahar, e ela, pra Edron. Tornei-me jornalista. Conheci vocês recentemente. Mas acabei morrendo. Eu não sei como voltei a vida, apenas posso lhes dizer que os espíritos vão para o vácuo, o limbo, antes de irem para o paraíso ou para o inferno. Eu me uni com o vácuo, e me tornei ele próprio. Posso manipulá-lo a vontade, criar luz ou escuridão, enviar coisas para o vácuo ou tirá-las de sua realidade e levá-las para o meu domínio... São muitas coisas. Eu não sei de tudo. Mas sei que meu poder é extremo, como o de um deus. E isso tudo por eu ser albina. Eu me pergunto se o mesmo ocorrerá com minha irmã ou com minha filha, ou com a sobrinha dela. Elas também são albinas e, bem... Tenho medo que elas ganhem essa existência triste que eu tenho.”
Mais uma vez, o cômodo é invadido pelo silêncio. É difícil dizer qualquer coisa frente ao que lhes foi dito. Zoe, uma deusa. Se é difícil acreditar? Talvez. Mas Nightcrawler, aquele que sempre observa, aquele que sempre está alheio a tudo, mostra indiferença a tudo que lhe foi dito, parecendo estar lidando com as paranoias literárias de um escritor de fantasia frustrado.
— Você, Zoe Nubila, é uma deusa? — Questiona ele, trazendo os outros a realidade.
— É... Acho que sim.
Nightcrawler dá uma longa e assustadora gargalhada. Parece desacreditado, ou simplesmente está achando graça. Um detetive cínico e realista jamais acreditaria em um deus se ele aparecesse na sua frente e lhe devolvesse tudo que ele perdeu um dia. Ele é do tipo que cuspiria na cara desse deus se as vidas que ele perdeu fossem trazidas de volta, e os itens que perdeu fossem recuperados por esse ser divino. Ele diria que está dando de volta o cuspe que o deus mandou nele. Que todas aquelas bondades foram como um cuspe daqueles bem carregados diretamente na sua vida e no seu sofrimento. Afinal, tudo que ele passou jamais teria feito sentido.
E agora, ele pensa que terá essa chance. A chance de cuspir na cara de um deus por ele estar tentando trazer de volta o que ele perdeu. Mas um simples olhar em Zoe já prova que ela não é esse tipo de deus, nem que ela pode trazer o que foi perdido de volta. Esse não é o papel dela. Frente a isso, só resta uma coisa para ele dizer.
— Prove.
As pessoas do cômodo ficam tensas. Se Zoe for realmente quem diz, o que ela poderia fazer em seguida?
— Er... Como?
— Não sei. Dá seu jeito.
— Bem... Eu morri e voltei em outro corpo... Isso pode ser alguma coisa, não?
— Não, não pode. Você pode facilmente ser a vadia que acabamos de matar tentando se passar pela pessoa que ela matou.
— Eu pensei na mesma coisa quando entrei no corpo dela... Mas vocês acreditam em mim, não é?
— Eu acredito, Zoe! — Disse Alayen, temendo o que pode vir a seguir naquela discussão e se metendo — Provavelmente você não sabe usar suas habilidades novas, então iremos te ajudar. Pode ser?
— Bem, eu...
— Não. Tenho uma ideia de como você pode provar pra todos nós que você é, de fato, uma deusa.
Zoe tem um mau pressentimento.
— Bom... O que é?
— Me mate.
A mulher se assusta com a proposta, assim como os outros. Trevor chega a dar uma risadinha.
— Boa piada, Crawler. — Disse Trevor, cruzando os braços.
— Vai se fuder, animal. Eu estou falando sério.
— Você só pode ter endoidado de vez ficando naquele quarto, seu retardado! — Vocifera Alayen, levantando-se e colocando-se entre ele e Zoe. — Ela não vai matar ninguém!
— É ela que decide, e não você, moleque. Agora sai da frente.
— Vai ter que me matar pra fazer isso.
— Ok.
Os poderes de Nightcrawler se manifestam, e seu braço é coberto pela aura quase transparente e alaranjada manifestada a partir de seu olho. Ele usa-o para jogar Alayen pra parede do lado direito do quarto, sem precisar tocá-lo. Em questão de segundos, um círculo aprisionador se manifesta na parede, correntes prendem seus braços e pernas e uma lâmina gigante e pontuda surge próxima dele e do detetive, esperando um único soco de Suzio para acertar seu alvo. Todas as coisas invocadas por ele possuem cores laranja e parecem um pouco transparentes. Aika se afasta para a cabeceira da cama, Trevor sai da cama e vai para trás e Dartaul também se afasta. Alayen está assustado, mas também bastante irritado.
— Manda ver, FILHO DA PUTA!
O detetive cobre ambos braços com esse poder, reforça-os, deixando a aura mais grossa, prepara seu soco e manda sem hesitar, sem algum receio, como se fosse algo natural. A lâmina vai em alta velocidade, e iria acertá-lo em menos de um segundo. Todos fecharam os olhos, menos o agressor. E Zoe.
Numa fração de segundos, ele vê. As pupilas de Zoe ganham uma combinação de azul e vermelho, parecendo estrelas num céu distante. Seus olhos estão escuros, e essa combinação de duas cores manifesta-se em suas mãos também. Ela levanta uma delas e parece abrir um feixe de luz em toda a área do corpo de Alayen que ia ser atingida. E então, a lâmina some. Em seguida, o círculo e as correntes. E assim, o feiticeiro cai na cama.
— É o suficiente.
O detetive está de volta ao normal, assim como Zoe. Ela ainda olha assustada para suas mãos e para o homem, que fora tão brutal dessa forma. O restante abre os olhos, vendo que Alayen está bem e que nada foi feito contra ele.
Ainda assim, Dartaul se levanta da cama, vai até o detetive e soca o seu rosto. Sua máscara cai.
— Volte pro quarto onde você estava entocado, seu psicopata. Ninguém precisa mais de você aqui.
Suzio sorri. Mesmo sabendo que Varmuda está mexendo com a mente do rapaz, ele entende que, de certa forma, isso está ajudando-o consideravelmente.
— Só não deixe essa... Deusa fazer alguma merda com vocês.
Suzio pega sua máscara do chão, vira-se e sai do quarto. Ele volta para o seu e fecha a porta. Tudo isso sem fazer barulho algum. É como se fosse uma breve miragem, ou uma imagem se movendo. Isso é normal vindo do detetive, que sempre atrai presenças estranhas.
As atenções caem sobre Dartaul. Zoe olha triste para a situação, pois não esperava que algo assim acontecesse caso voltasse.
— Bem... — Zoe não sabia nem onde colocar o rosto. Sentia ele queimar e uma frustração enorme forrar-lhe o estômago.
Dartaul vira-se e fita-a. Dá um pequeno sorriso de canto, como se entendesse como ela se sente.
— Olhando assim, você ainda parece bem humana, Zoe.
Ela levanta seu rosto e olha para Dartaul. Pouquíssimas foram as vezes em que alguém disse para ela que ela é humana, que ela é uma pessoa como qualquer outra, apesar de suas feições peculiares. Ela sabe que, daquele grupo, Alayen é o único que realmente não estranha ela e que gosta dela como ela é, que enxergava o mesmo em Borges por ele se preocupar com sua filha e com ela mesma, e que agora vê o mesmo em Dartaul.
Seus olhos brilham. Ela sorri e sente-se mais aliviada.
— Queria acreditar nisso — Disse Zoe, levemente cabisbaixa — Mas eu ainda me impressiono muito com o que sou capaz de fazer. No momento, penso que é melhor manter distância de vocês.
— Não! — Disse Alayen, saindo da cama e indo até Zoe — Você é parte desse grupo, por que diabos iria querer deixá-lo?
— Pois eu sou uma presença divina que pode atrair qualquer membro da Irmandade até do outro lado do continente. — Disse ela, triste — Eles possuem forte aptidão em reconhecer coisas divinas... É uma das coisas que aprendi durante minha ausência.
— Pensando bem, isso é uma boa dica sobre o que está por trás deles... — Disse Dartaul, cruzando os braços.
— Por isso irei atrai-los para longe. Veja, essa garota já foi uma garota normal, uma filha de um poderoso guerreiro de Svargrond, que também era muito habilidosa. Ela morreu, pois se tornou uma valquíria carlinídea e os xamãs a amaldiçoaram por isso. Eu irei levá-la de volta para Svargrond e tentar dar a ela sua vida de volta. Ela está morta, mas não significa que eu não possa ressuscitá-la. Afinal, ela morreu há pouco tempo e ainda está no limbo.
— Então por que “tentar”?
— Existe a chance de não dar certo... Ela pode querer não voltar a viver, ou os xamãs não autorizarão seu retorno, nem seu pai. E aí não haverá nada que eu possa fazer. Mesmo assim, isso vai atrair a Irmandade até mim, e eles pensarão que vocês estão me acompanhando. E desistirão daqui.
Dartaul e Alayen parecem pensativos a respeito. Isso pode dar certo, mas os Sangues não parecem tão burros. Ainda assim, é algo bom para se tentar.
— Tente então, Zoe. Ainda vamos precisar pensar no que faramos contra eles. — Disse Dartaul.
Zoe concorda com a cabeça. Ela pensa que Nightcrawler é o melhor para pensar nessas coisas, mas lembra-se que eles não estão a fim de conversar sobre nada relacionado a ele.
— Então eu já vou indo. Usem o restante da noite para descansarem.
— Acho difícil fazer algo assim depois de tudo que aconteceu aqui. — Disse Trevor, que se manteve quieto desde o que Dartaul fez — Mas tentaremos. Boa sorte, Zoe.
— Obrigada. Boa noite pra todos vocês, e lembrem-se que estarei sempre desejando o melhor pra vocês.
Zoe sai pela porta, rumando pelo corredor. Ela desce as escadas rapidamente, sem olhar pra trás. Com isso, parece que o clima mudou relativamente.
— Isso é demais. — Murmura Alayen, perplexo.
O mago espadachim vai até o corredor e desce as escadas. Nenhuma das pessoas do quarto pensa em pará-lo.
— Gritem se precisarem de algo. — Disse Trevor, também saindo do quarto e fechando a porta.
Dartaul respira fundo. Aika também, apesar de ter sido praticamente ignorada o tempo todo.
Zoe está saindo pela porta. Entretanto, Alayen para ela, agarrando seu braço.
— Espere.
A garota vira-se rapidamente. Não é o rosto dela, mas sua expressão é muito parecida com as que a jornalista costuma fazer.
— A-Alayen? O que foi?
— Me deixe ir contigo. Estou cansado de seguir aquele cara.
— Por quê? Você sempre dizia que gostava dele e que queria ser como ele...
— Antes de conhecê-lo de verdade, sim, eu queria. Agora eu sinto que ele é um verdadeiro lixo humano. Não hesitou em tentar me matar ali. Nunca hesitou em arriscar nossas vidas. Ele é maluco, e eu sinto que vou morrer se continuar acompanhando ele.
Ela fica cabisbaixa. Sabe que o que precisa dizer irá deixá-lo irritado e não irá convencê-lo.
— Mas ainda assim é melhor do que me seguir. Os membros da Irmandade não irão atrás de você.
— Foda-se os Sangues, eu quero ir contigo! Não posso deixar você se arriscar sozinha! Mesmo que você seja uma deusa ou sei lá o que mais... Eu não vou deixar você sozinha.
A mulher sorri. Há anos Alayen nunca deixou a moça sozinha, sempre indo atrás de novos furos noticiários para colocá-la na frente dos jornalistas de Yalahar. Algumas vezes isso até a colocou em risco de morte, mas ele sempre aparecia antes para defendê-la, apesar dela ser naturalmente mais poderosa do que ele. Mesmo que ele apanhasse, mesmo que fosse humilhado, ele ajudava ela. E nunca deixou de dizer a frase que ela sonhava em ouvir desde sua adolescência.
— Você ainda é uma humana pra mim. É humanamente impossível passar por todos esses tormentos só.
Ele nunca deixou de dizer que ela é humana. Diferente de outras pessoas, que a comparavam a um monstro ou a um fantasma.
Por causa disso, ela dá dois passos até o rapaz e beija-o. Durou um minuto. Mas pareceu uma eternidade. Uma feliz e confortável eternidade.
— Eu te amo, Alayen. Você sempre fez muito mais do que o suficiente pra mim. Ainda assim, eu estou disposta a sofrer todos os tormentos desse mundo se for pelo bem dos outros. Pois você fez o mesmo por mim quando eu nem abri minha boca para pedir.
Raras eram as ocasiões em que aquele mago ficava sem saber o que fazer. Essa é uma delas.
— Não se preocupe. Eu estarei sempre próxima de você, mesmo que eu não pertença mais a esse mundo.
Zoe dá meia volta e segue pela rua de pedra, sem olhar para trás. Quanto mais ela se distancia, mais doloroso parece o clima daquele lugar. E mais dolorosa é a sensação de impotência que Alayen está sentindo, quando finalmente a ficha cai sobre a inferioridade dele frente ao poder que a ex-jornalista tem agora.
Pela primeira vez em anos, ele entende o que Lea sente. Ela é uma mulher tão importante quanto a sua mãe, e a frustração dela é a dele também. E por isso, um ódio por Nightcrawler começa a nascer dentro dele. É pequeno, mas suficiente para causar problemas.
Próximo: Capítulo 30 – Além do Limite
eu nunca fui tão romantico em historias assim, meu deus do céu
Capítulo 31 - Resmonogatari I
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Carlão,
Não se esqueça da nossa referência, Aveyard. Não a negligencie. Você se enxergará nela, eu garanto.
Em tempo:
Gente matando demônio? Gosto! Essa é uma das melhores abordagens que um thriller pode ter e, ainda que não seja exatamente um conto de terror, é muito envolvente como se suspense fosse, em muitas ocasiões. Desenvolva isso. Pode se tornar uma razoável tábula rasa.
Saudoso, poderoso e imperial Nightcrawler. Estaríamos nós diante de uma faca ancestral, como a que Ruby deu a Sam Winchester em Supernatural?
Todos os personagens de Bloodtrip são deveras insinuantes, Carlos, mas vou deixar meu destaque novamente para Nightcrawler. Gosto também do personagem de Dartaul, que tem lá seus pontos altos e seus pontos baixos. Neste capítulo, especialmente, a forma de abordagem dele e as informações que somente ele poderia passar enriqueceram o enredo de forma bastante elucidativa. Obviamente, quem nasceu pra ser Dartaul nunca será Nightcrawler, mas, né? Existe chão pela frente.
Aguardo pelo próximo capítulo, Carlos. Desculpe pela demora; havia criado dentro de mim o propósito de te incentivar no contínuo ato em que seu capítulo fosse postado, mas, realmente, não houve tempo até agora. Espero não o ter decepcionado.
Um abraço!
Opa Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Não esqueci de Aveyard, como eu tinha dito, tô sem capital pra comprar o livro dela que você me indicou, então terei que usar da internet para ver como ela escreve.
Sinto em dizer que essa parte dos demônios não será tão desenvolvida em Bloodtrip. Eles são bem mais desenvolvidos na minha outra história, O Mundo Perdido, com um personagem que sabe derrotá-los perfeitamente. Aqui, os demônios são nada mais do que anti-heróis observando o que tá rolando e vez ou outra intervindo.
Achei que tinha disfarçado o fato de que essa arma será bem importante pro Dartaul :lol: não vai chegar a ser algo como a faca ancestral ou a Colt de Supernatural, mas vai ter uma utilidade tão grande quanto. Mas a parte do rapaz já acabou por aqui, então terá que esperar pra ver como ela será útil e como ela será usada. E Dartaul talvez ganhe mais do seu respeito futuramente, como apontou. Ele tem potencial grande.
No mais, agradeço pela presença constante e espero que goste deste capítulo!
Fiquei um tempo sem publicar devido a alguns problemas pessoais, mas finalmente darei início ao arco final. Preparem-se e vamos lá!
No capítulo anterior:
Nightcrawler livra-se de sua conexão com Varmuda e abandona o time. Mas antes de ir para Chaur cumprir sua última missão, Dartaul aborda-o para conversar e tentar entender porque ele está agindo daquela maneira. Agora, ele é o único que entende perfeitamente quem é Suzio.
Capítulo 31 – Resmonogatari
Parte 1
Yalahar sempre foi bela. Jamais perdeu sua beleza encantadora e seu poder invejoso.
De lá, apenas os melhores saiam para desbravar o mundo e mostrar seus conhecimentos. Após muito estudo, noites de sono perdidas, certificados e diplomas conseguidos, para um estudioso ou profissional yalahari, é o mesmo que dizer “O mundo é meu”.
Este é o sonho daquele rapaz de quinze anos a frente de um prédio no norte de Yalahar, próximo de uma das universidades da grandiosa cidade. Seu objetivo lá dentro é tornar-se o melhor alquimista que o mundo já viu. E o Centro das Almas de Ferro é o melhor para tal. Supera até mesmo a Academia Noodles de Magia de Edron em seus estudos da alquimia e assuntos relacionados. Um alquimista saído de lá sempre tem mais confiança que os outros e tem uma carreira mais duradoura, pois pensa-se que, não importa o que aquele alquimista está fazendo, ele sabe o que está fazendo.
Ele entra no prédio, passando pelos portões de ferro abertos e belas colunas escuras que sustentam sua entrada; hoje é dia de palestras, então o local estará aberto para o público. Sua entrevista foi marcada para aquele dia, mas ele duvida que o entrevistador esteja em sua sala.
O grandioso interior difere-se das estruturas comuns de Yalahar. Suas paredes são cinzentas e possuem vários parafusos expostos, contrastando com painéis de alumínio de vários tons espalhados pelas paredes, dando um aspecto diferente e incomum para o lugar. Há corredores indo para ambos os lados, e escadarias em forma de arco rumando para o topo. Tanto em cima quanto abaixo delas há portas escuras com guardas.
O rapaz se aproxima deles e, curiosamente, eles o deixam passar. Ao entrar, ele está de frente para um grande auditório, com centenas de cadeiras vermelhas organizadas com escadarias para cada doze cadeiras para chegar até as fileiras. Naquele dia em especifico, há um público realmente grande assistindo outro rapaz discursando com um quadro verde próximo dele. Ele senta-se na última fileira e presta atenção na palestra.
Sente-se maravilhado, com uma sensação incrível arrepiando-o. Um calafrio corre pelo seu corpo, assistindo aquele rapaz discursar com tamanha naturalidade e conhecimento. Tudo isso porque havia escutado há pouco que ele tem apenas 14 anos, mas está abordando sobre os temas mais complexos da alquimia. Um gênio está a sua frente, enquanto o sentimento de superá-lo está consumindo-o por dentro.
Não demorou muito para a palestra terminar, já estava no fim. Ele sai junto dos restantes e ruma até a sala onde deve ocorrer a entrevista, onde encontra mais dois rapazes. Assim como ele, estão em trajes sociais, usando casacos brancos de botões e calças negras de couro, além de sapatos marrons bem encerados. Ele está com uma pasta debaixo do braço direito, aguardando ansiosamente para ser chamado.
“Sua carta deve vir em breve. Até lá, pode considerar-se parte deste colégio.”
É uma das frases mais marcantes que o rapaz já ouviu na sua vida. Ele pensa sobre enquanto está sentado nas escadas que levam até o prédio, no meio de uma tarde ensolarada e bonita. Mas ela não o impressiona, uma vez que ele já viu muitas vezes aquelas tardes lindas de Yalahar.
Alguém senta do seu lado. Está com um pirulito de limão na boca, retirando-o para dizer alguma coisa peculiar.
— Você está tentando entrar na gaiola dos sábios?
Ele olha para o lado e vê o mesmo rapaz da palestra. Ele possui uma pele um pouco morena, além de cabelos que vão até os seus ombros, cujos são negros e sedosos, parecendo ser bem cuidados. Seus olhos são vivos e cheios de energia, com uma coloração estranhamente azul. Está com o uniforme do colégio: Um casaco que vai até sua cintura, de cor branca e com bordas negras e amarelas próximas dos botões que o fecham, e calças e sapatos de cor preta.
— Não sei o que quer dizer...
— Se não sabe o que quero dizer, é melhor não entrar aí!
O rapaz não parece gostar muito do comentário. O outro percebe rapidamente.
— Não que eu não queira rivais, pois não passa de um conselho. Esse colégio não é a maravilha que todos dizem. Alguém como eu não tem a liberdade de ir além do que foi estabelecido para estudarmos.
— Alguém como... Um sábio?
— Talvez. — Disse, rindo um pouco em seguida — Eu não gosto muito desse colégio, mas eu gosto de descobrir as coisas novas que podemos estudar lá. Acredita que nosso mundo como conhecemos surgiu há só três séculos e ainda assim conhecemos tanta coisa? Pra falar a verdade, o conhecimento de Yalahar deve ser algo restrito de Yalahar, então pode ser o conhecimento reunido de milênios de vida dos yalahari.
— O quanto você sabe sobre esse mundo?
— Sei lá! Que pergunta besta. — Disse, novamente rindo — Nunca há como sabermos o suficiente desse mundo com o pouco tempo de vida que cada ser humano tem. Mas seria legal conseguirmos passar por essa barreira e aprendermos o quanto quisermos, né?
— Seria... Nem precisaríamos ser imortais.
— Uns 500 anos pra mim já tá bom.
Ambos riem, descontraídos. A presença daquele jovem gênio realmente o alegra. Era fabuloso falar com alguém num nível superior e que sabe ser humilde ao mesmo tempo.
— Meu nome é Nuito. E o seu? — Disse o rapaz de cabelos longos, sorrindo.
— Ah... Senzo é o meu nome.
— É um nome raro por aqui! Significa que você é legal e diferente.
— Não... Só estranho.
Senzo provavelmente diz isso por ser pálido, magro e esguio, apesar dos seus cabelos negros e rosto comum.
— Ah, qual é! Você não é estranho. Na verdade, você parece ser bem legal. Deve ser famoso com as garotas.
— Está brincando comigo... Você deve ter beijado garotas que eu nem consigo imaginar. Tampouco em pensar nelas notando a minha existência.
— Pior que não. Minha amiga Ember costuma se meter na frente e assustá-las o tempo todo pra ficarem longe de mim. É um saco! Ela diz que é para eu não me distrair e que elas são falsas, só querem ficar perto de mim por eu ser inteligente e importante. Ela vê coisas onde não existe, sinceramente.
— Ela quer te ver bem... Eu acho.
— Eu duvido!
Nuito levanta-se e olha para os lados.
— Senzo, né? Preciso voltar pra casa, então te vejo por aí!
— Tudo bem... — Disse o rapaz, apesar de sua voz não ter saído alto como deveria. Agora, parece que ele nem mesmo foi ouvido.
Senzo levanta-se também. Ele sorri disfarçadamente, sentindo-se feliz por ter conseguido a atenção de alguém importante. Apesar de ter sempre toda a ajuda de seus familiares, ele nunca sentiu que eles eram realmente superiores a ele. Nuito é apenas um ano mais novo do que ele, mas inspira conhecimento para todos.
Em sua cabeça, tudo que resta é que ele deve superá-lo. E irá lutar muito para que isso aconteça.
Foi naquele dia que conheci o demônio.
Senzo voltou para a sua casa naquele dia, e no dia seguinte, recebera a carta. Começa semana que vem. Foi bem na entrevista, orgulhou seus pais. Sua irmã agiu com indiferença, como de costume. Seus amigos próximos ficaram bem felizes, mas tristes por não poderem mais vê-lo com frequência. Estar lá significa estudar muito e ocupar seu tempo apenas com as matérias e lições passadas. Apesar de tudo, Senzo está preparado para o que está por vir. É o seu sonho, afinal de contas.
Sua frequência no colégio era impecável. Notas boas, mas não máximas como as de seu companheiro Nuito. Sua pesquisa sobre armamentos novos e armaduras parecia ir bem. Seu amigo entendia sua fixação em armamentos e em como pareciam combinar com os animais certos. Dessa forma, ele sentiu-se incentivado a criar algo grande.
Após um ano no colégio, ele iniciou seu projeto do qual nomeou de Yoru.
— Hm... Yoru? — Disse Nuito, observando os vários papéis com desenhos complexos na parede do quarto de seu amigo. Eles dormem em dormitórios próximos.
— É hanrajiinês. Mas eu não consegui descobrir com exatidão o que significa essa palavra.
— Ué... Vai dar um nome pro seu primeiro grande projeto que nem sabe o que significa?
— Quero deixar os outros adivinharem. — Disse Senzo, confiante.
Os desenhos implicam em um tipo de armadura para animais especial. Que se move sozinha.
— Olha, Senzo... Não quero te desmotivar nem nada, mas ninguém garante que isso vá dar certo. É um inseto gigante que vai andar e agir sozinho, tô certo?
— Sim, mas ele será mais limitado em sua primeira versão. Não será para combate. Ele vai no máximo saber alguns truques ou simplesmente andar para que o pessoal se interesse mais, daí posso fazer uma nova versão com mais coisas, e...
— Calma lá, cara! Foque no primeiro. Você quer que ele faça truques?
— Algo pra impressionar o pessoal da próxima feira. Sabe? Pular pra trás, bater palmas, dançar ou algo assim...
— Bom, isso poderia mostrar que ele funciona.
— E será um louva-a-deus. Ele é bonito e suficiente para esse projeto.
Nuito não consegue deixar de notar a empolgação do amigo. É realmente um bom projeto para alguém que chegou há pouco tempo. Mas ele teme que não vá dar muito certo. Tanto o projeto quanto a apresentação.
Ele causou tudo aquilo pra mim.
A tal feira mencionada por ele, conhecida como Feira Internacional das Maravilhas, é um evento anual de Yalahar, que costuma acontecer dentro do próprio Centro das Almas de Ferro. Naquele ano, mais pessoas estão prometidas para aparecer nesse evento, com isso, os projetos serão mais acirrados e disputados. Apesar de tudo, dificilmente alguém previu que algo como o que Senzo planejava fazer ia aparecer.
Nuito o acompanhou com curiosidade e dúvida. Sabe que Senzo só é respeitado e não sofre perseguição de ninguém, pois vive do lado dele. Além disso, ele é um rapaz de renome, um gênio de Yalahar, prodígio reconhecido pelos alquimistas. Se o jovem pálido consegue chamar a atenção desse gênio, significa que ele é realmente inteligente e importante. Mas a verdade é que Senzo não o vê apenas como um gênio, mas como um bom amigo, dando prioridade ao seu lado sentimental e entendendo suas dificuldades. Mas naquele momento, ele não sentia que o seu amigo seria capaz de se virar sozinho num evento desses.
Foram seis árduos meses de trabalho. Criar um autômato já foi a ousadia de muitos alquimistas, antes considerados geniais, mas Senzo não era nem de perto considerado assim. Isso porque seus projetos não eram mostrados a ninguém. Ele é restrito, e seu projeto não estava nem mesmo sendo construído no colégio, e sim no largo quintal de sua casa, com a ajuda de três amigos, que são Nuito, Ember e Norbron, um mago mais velho e experiente que há muito aconselha o jovem pálido. Este tem cabelos negros, de corte social, e usa um longo robe vermelho com um cinto branco contendo um grimório* e várias runas de tamanho pequeno dentro de bolsinhas.
— As baterias devem estar bem conectadas ao resto do autômato, sabe bem disso, não é?
— Óbvio, Norbron. O esqueleto das fiações foi feito com essa prioridade. — Responde Nuito, mexendo em alguns fios de uma das patas do autômato.
Senzo está com sua cintura segurada por fortes cabos. Há quatro postes de aço ao redor do inseto de ferro, que já tem forma. Dali de cima ele trabalha nas baterias e na fiação, juntamente com Nuito logo abaixo e Norbron. Ember está sendo algo como uma vigia, já que foi ela que ergueu os postes, colocou os cabos e levantou os muros improvisados de estanho ao redor do quintal para que o projeto não fosse visto por ninguém.
— Tá quase pronto, hein, Senzo! — Disse Nuito, com empolgação, fechando os painéis que protegem os fios de uma das patas. — Você foi rápido fazendo tanto em poucos meses. O evento é mês que vem.
— Vai dar certo. Eu acredito nisso. — Disse Senzo, concentrado, sem tirar os olhos.
Ember desce dos muros e vai até Nuito. A garota é uma elfa legitima, com orelhas pontudas, nariz fino, olhos grandes, sardas e cabelos ruivos e trançados. Ela é magra e esguia, alguns até a confundiram com um garoto se estivesse bem coberta. Ela está com um capuz verde, usa um casaco élfico de cores verdes e amarelas, possui uma pequena capa amarrada na cintura que cobre o cinto e vai até alguns dedos do joelho, e usa uma calça marrom. Usa sapatos vermelhos e um pouco puídos, mas úteis. E também conta com seu arco e aljava nas costas.
— Ora, Nuito. Tá pronto ou não? — Questiona ela, um pouco incomodada.
— Não, poxa. Falta várias coisas ainda.
— Mas ele já tá pronto, não é? Olha, ele já está de pé e posicionado.
— É por isso que você não está no mesmo colégio que eu. — Comenta ele, rindo. Ember se irrita, fazendo-o parar.
Ela olha pra cima. Mesmo sendo dia, com um sol forte batendo no robô e principalmente em Senzo, ele não parece perder a concentração de jeito algum.
— Senzo sempre foi sozinho?
— Ele é um rapaz isolado, mas é uma boa pessoa.
— Eu sei, mas ele vive nisso... Enfiado nos livros, apenas pesquisando, lendo, fazendo essas coisas. Parece que não vive. Sinto pena dele.
— Não sinta. Ele se sente bem fazendo essas coisas. Senzo não maquia sua personalidade se forçando a fazer parte do que é comum na sociedade, como ficar com garotas, andar bem arrumado e ir para festas. E é uma das coisas que mais gosto nele! Essa sinceridade escancarada, essa falta de medo de mostrar que é um estudioso aficionado, mais fixado em livros do que em bocas femininas. Isso que é algo legal!
Por algum motivo, Ember parece ficar um pouco sem jeito com a menção a “bocas femininas”. Lembra a ela de quando Nuito costumava dizer que ela não tinha nada de feminino em seu rosto e que era muito bruta para isso. Ela ficou magoada, mas Nuito correu atrás de seu perdão elogiando seu corpo ao invés disso. A elfa ficou envergonhada, e mesmo o perdoando, literalmente o chutou da sua casa.
Mas desde então, ela nunca deixou de pensar que o rapaz havia notado muitas coisas a seu respeito. Então, ela começou a se sentir mais a vontade sem o corpo coberto. Mesmo que naquele dia ele ainda estivesse totalmente coberto.
— Acho que o entendo melhor agora...
— Senzo é um bom rapaz. Ainda arrumarei pra ele uma boa boizinha.
— Não use esses termos de fazendeiro!
— Por quê? É bão demais, sô!
Ember soca a lateral do peito de Nuito com raiva, principalmente por ele estar rindo. É como se ele não tivesse sentido nada, fazendo ela o socar mais vezes, mesmo com Norbron pedindo pra que ela pare.
Esses dias pacíficos de trabalho foram a rotina dos três últimos meses antes da feira. Senzo esteve feliz em todos eles, pois estava acompanhado de seus melhores amigos e trabalhando ao lado deles com seus pais o apoiando. Tudo estava perfeito para o rapaz.
~*~
É chegado o dia da feira.
Senzo está atrás de cortinas espessas com o inseto autômato chamado de Yoru. A exposição já está acontecendo, várias maravilhas e genialidades yalahari estão expostas ao longo de um largo pátio no fundo do colégio. Ali é possível encontrar muitas barracas com criações diferentes, como páginas transparentes, um pó que revela qualquer digital com total exatidão, pequenos robôs para diversas utilidades aqui e ali, armas mais resistentes que o normal, até mesmo um projeto de algo semelhante a uma cabine sustentada por hélices acima dela e nas laterais, dentro de discos sem fundo, capaz de voar e se manter no ar.
Mas logo as exposições maiores começariam através de exibições para o público. Falta apenas dez minutos para elas começarem, e o primeiro a ir é uma estudante de pele escura e um cabelo negro tão longo que ia até o fim de suas costas, mesmo preso num rabo de cavalo, enquanto usa uma regata branca. Ela vai apresentar algo semelhante a um elixir que pode fazer coisas destruídas por ácido serem reconstruídas instantaneamente.
Segundo os anfitriões do colégio, aquele era o ano com mais genialidades naquela feira. Nuito, como sempre, não apresentaria nada, apenas irá ajudar o amigo. Ember e Norbron estão na exposição conferindo as novidades.
— Ele já é capaz de correr, não é? Já testamos ele no seu quintal. — Questiona Nuito, observando Yoru.
— Sim, ele é. E é capaz de muito mais. Yoru se mostrou muito mais flexível e compatível com outras coisas do que o normal.
— Então surpreenda-os, amigo. Assim como me surpreendeu ao mostrar que ele estava com a carcaça pronta depois de apenas um mês. Bateu recordes.
Senzo sorri e aperta a mão do amigo num cumprimento. Ele está agradecido pela ajuda prestada pelo seu amigo e gênio do colégio, e agora é só questão de tempo até ele ficar na história do Centro das Almas de Ferro.
Ela começa. Primeiro a garota com o elixir, depois um rapaz com uma espécie de tartaruga que fala, cuja ganhou o público, e pra finalizar, um rapaz que criou uma pílula capaz de guardar objetos pequenos maiores do que ela. Agora, é a vez de Senzo e sua criação, Yoru.
Ele chega no palco, de frente para um mar de pessoas. Os holofotes, cuja iluminação é mágica, está direcionada para o rapaz. Ele fica algum tempo olhando para a plateia, e finalmente ganha coragem suficiente para falar.
— Boa tarde a todos vocês. Irei apresentar um projeto meu de longa data. Dei a ele o nome de Yoru e espero que todos gostem.
Com uma espécie de controle remoto, ele traz Yoru sem sair do lugar. O grande autômato anda sem dificuldades até o palco, já arrancando a surpresa do público, que assiste empolgado a cada movimento do robô.
— Ele é um louva-a-deus. Esses insetos são originários de Porto Esperança e também podem ser encontrados na Baía da Liberdade. Eu o construí usando várias peças de alumínio e reforçando com placas de ferro. Seu interior possui uma fiação completa ligando todos os pontos a um local só.
Yoru anda aleatoriamente pelo palco enquanto Senzo fala para a plateia. Ele então para, e o rapaz começa a mostrar algumas das coisas que ele é capaz de fazer.
Ele começa fazendo ele levantar as patas dianteiras como em sinal de prece. De forma abrupta, Yoru começa a dançar, dando passos rápidos para trás e para os lados enquanto bate palmas. A plateia vai a loucura, e Nuito, que olha próximo das cortinas, observa-o com orgulho. A dedicação de Senzo mostra frutos inesperados.
Agora, ele faz o autômato trotar. Depois, pular. Cada movimento faz todos ficarem mais impressionados. Parece que já estava óbvio quem ia ganhar o prêmio de melhor trabalho da feira. Afinal, os movimentos de Yoru eram perfeitos demais para um autômato. Cada movimento dele gera mais palmas, mais entusiasmo, e mais empolgação de Senzo, que não consegue tirar o sorriso do rosto. Nuito também está aplaudindo ali perto do palco.
Então, chega o clímax. Yoru chuta o ar com uma das patas e volta sem fazer um barulho sequer. Engenharia perfeita. Aquilo ultrapassou o que um alquimista pode fazer. Tudo está ganho para Senzo. O que restar pra ele falar ou fazer será lucro.
Ele vê Norbron na plateia aplaudindo ele com orgulho bem visível em sua face. Empolgado, ele aumenta a força dos movimentos de Yoru para que ele pareça mais bruto, e manda ele dar um soco no ar.
É tudo culpa dele.
Deu errado.
A mão de Yoru sai do lugar junto com vários fios e cai exatamente em cima de Norbron. Ele sente dificuldade para se levantar, mas tudo se complica mais quando uma das baterias se vê forçada e dá um curto-circuito poderoso, que acerta o mago antes que ele possa ser ajudado pelo público.
Um grito estridente ecoa pelo pátio. 60 segundos.
Nos primeiros 10, os alquimistas começaram a agir para parar a descarga junto de Senzo, que mesmo em choque, corre para salvá-lo.
Em 20 segundos, os fios ainda não foram cortados, a energia das baterias está se desviando para a mão que está esmagando Norbron. Nuito sai de trás das cortinas com peças de ferro de um metro para atrair a energia para outro ponto.
Em 40 segundos, a plateia está correndo para fora, soldados correm para tentar tirar com seus piques a mão de cima de Norbron, mas já não conseguem mais distinguir um rosto humano ali. Os olhos do rapaz estouraram, a pele está derretendo, sangue demais já saiu de seus orifícios.
Em 50 segundos, Norbron ainda está vivo, seu corpo está ardendo em chamas e os fios estão sendo cortados conforme a energia é desviada de volta. O pátio está sendo esvaziado. Os alquimistas conseguem aos poucos empurrar a mão pesada do autômato. As baterias estão sendo desativadas.
Um minuto. Norbron morre. O corpo está carbonizado. Os fios cortados. As baterias desativadas. O autômato parado como o tempo para os presentes ali. E só quando toda aquela eternidade passara que o tempo volta a andar para Senzo, que está sentado no chão, com o controle entre as pernas, arrasado.
Ele foi suspenso pelo resto do ano do colégio. O prêmio de melhor item da feira foi para a garota por trás do elixir. Depois de Yoru, a alquimista quebrou relações com a engenharia. Senzo marcou a história do colégio matando o próprio amigo na frente de todos enquanto trinta pessoas tentam parar o curto sem serem eletrocutados juntos. Aquelas baterias foram construídas usando discos condutores com soluções feitas em água dentro. Quando aquele tipo de bateria foi criado uma década antes, era a prova de que alquimia e engenharia podiam coexistir.
Senzo provou que todos estavam errados.
Ainda assim, ele voltou para o colégio no ano seguinte, mesmo ganhando todo tipo de olhar por onde passava. Protegido por Nuito e Ember, que o visitaram o tempo todo enquanto ele esteve em sua casa, lamentando-se pela morte que causou, ele conseguiu continuar seguindo em frente. Principalmente por causa da dona de um projeto de elixir semelhante ao da vencedora, que visitou-o no meio da suspensão sem ser convidada.
Uma garota magra e relativamente alta, que possui um torso bem definido, com braços levemente musculosos. Seus cabelos são negros como a noite, sua pele branca e livre de impurezas, seus olhos azuis como o céu. Quando Senzo fita-a na entrada de sua casa, ele não entende nada. Ele simplesmente abre a porta do muro da casa e não diz nada, apenas a espera falar.
— Você é Senzo Saisho Damasukas, o criador de Yoru? Tenho certeza que é. Eu queria conversar contigo a respeito dele, pois soube que você está realmente triste com tudo o que aconteceu.
— E você se importa?
— Sim... Pois você me encantou a partir do momento em que apareceu naquele palco, mesmo com toda a pressão sobre as suas costas e o nervosismo o consumindo.
Senzo arregala os olhos e cora. Seu coração bate mais rápido.
— Q-Qual é o seu nome? — Questiona o rapaz, ignorando a frase da garota e tentando se manter firme.
— Eu me chamo Miraya. Estou feliz em conhecê-lo. — Disse ela, abrindo um dos sorrisos mais lindos que Senzo já viu em sua vida.
É por isso que ele está ali, no colégio, naquele instante, esperando para se encontrar com aquela garota de novo. Ele está apaixonado por ela.
E quando ele a vê no corredor, vindo em sua direção com um sorriso parecido com aquele, ele entende. É o começo de uma longa história.
Próximo: Capítulo 31 – Res II
Notas:
*Um grimório é um livro que contém vários feitiços, rituais e encantamentos mágicos medievais. Eles realmente existem, sendo coleções interessantes de serem lidas.