Voltei a escrever essa bagaça! Então de presente dois capítulos duma vez.
Capítulo VI – Fex Câmara Quadrada.
A figura que caminhava “alopradamente” encostou-se no rochedo e tirou de seu amarradinho uma banana madura. Descascou-a analisando o local em qual estava. Sentia a brisa soprar seus cabelos castanho avermelhado, finos e curtos. Seu olhar tranqüilo e brisa iam amenizando a situação dos outros, que de longe espreitavam a estranha figura. O homem que ali jazia era magrelo e cumprido, um narigão descomunal. Sempre com um sorriso largado. Vestia uma roupa fina, um paletó de tweed, uma calça de tom azulado, quase anil feita de gran-lã. Um cordão de platina luminoso e nos pés sapatos de couro amarelado. Ele mordeu a banana.
Seus dentes articulavam-se de cima para baixo mastigando massivamente a banana. “Delicioso” pensou. Tirou, então, do paletó de tweed, um maço de fumo e, colocou-se a fumar. Mordeu de novo a banana e deu uma tragada no maço. Virou-se e procuro um gramado, fitou o local e achou um aconchego próximo a um canto escuro da rocha. Caminhou cambaleando até o local e, deitou-se.
Os três elfos notaram o silêncio momentâneo e volveram-se para a parte frontal da rocha, rabeirando o olhar do estranho. Efhel comentou algo em élfico para Arion, Fex não notou nada de estranho na conversa e foi rabeirando até onde pode. Por fim deu de cara com o cabelo do magricela. Fex observou que a couraça do magricela dobrou-se com desdenho, ele, por sua vez, sentindo-se incomodado com a dobra virou-se para a esquerda...
Fex saltou retrucando para traz. “Ele me viu?” questionou a si mesmo. Suando frio e com pouca agilidade, Fex contornou o rochedo tremelicando. O homem do paletó de tweed ergueu a banana e deu outra mordida, sem desdenho. O maxilar do homem se contraia, no mesmo momento que uma gota de suor escorria nariz abaixo. A gota finalmente caiu e foi pingar no pé de Fex, que sentindo a gota explodir no solo, virou-se para Arion e soltou um berro seco. “Arion, tem água no seu cantil?” perguntou sedento por água. Estava muito calor, aquela noite fria fora apenas uma de poucas.
O elfo sentiu-se encurralado, pensando se os outros dois sentiam o mesmo. Arion ergueu-se pela pedra e entregou-lhe o cantil. Fex deu a última golada e fitou o estranho novamente. O homem despido de um paletó notou, de relance, dois homens olhando para sua “majestade”. Virou-se para a direita, pousando os olhos cintilantes na face do homem de loiros cabelos.
– Cê tava me espiando? – Indagou, lançando longe a casca de banana. O que viria a pensar um grupo de três elfos ao espiar uma estranha figura comendo e fumando sobre o sol matinal. E, o mais confuso, vestido num paletó de tweed.
Fex respondeu um “Não senhor” bem fraco, mostrando o medo que produzira sobre o estranho. O olhar caiu sobre a pedra, à bainha da lâmina soltou-se e a estranha figura continuava a fitá-lo com cara de mau.
O estranho virou-se para Efhel e deu grunhido, como se tivesse despertado agora.
– Moçinha, não tem ai um “coçador” de costa, não? – disse o estranho lustrando o semblante ao fitar a elfinha. Ele estava fazendo referencia a suas unhas, algo na grama havia incomodado-o e, agora coçava sem parar. O homem do paletó prosseguiu limpando a garganta, em tom monarca. – Sabino Drummond de Andrade, poeta e escritor, prazer.
Estendeu a mão para o primeiro elfo que avistou. Fex espantou-se.
– Fex – apresentou-se com vergonha.
– Só Fex, não tem sobrenome?
Arion largou uma gargalhada e, os outros o acompanharam. Tudo que fosse no mínimo comediante naqueles dias seria de tamanha ajuda para aqueles três. Já haviam passado maus bocados e, gargalhar agora era o melhor remédio.
Sabino consultou seu relógio de bolso e, em seguida, começou a pular num só lugar. “Estou em cima da hora” pensou, calçando os sapatos de palhaço. Sorriu para os elfos e seguiu seu rumo até a dobra do pedregulho. Os três fitaram aquilo de forma estranha, pensaram que o homem no paletó havia passado da conta. “Fumo demais” informou Arion. Fex entortou o pescoço confuso, pensou na estranha figura novamente e depois volveu-se para as bagagens. Informou aos dois que arrumassem tudo. Sentou-se no pedregulho e voltou para suas lembranças.
“Satiren sentando na cadeira rodando-o colar.”
– Fex, o importante é que ele me deu isso para que... – fez pausa e pousou sua enorme mão sobre o ombro do elfo, depois prosseguiu. – Para que algum dia eu desse isso a você. Não acha? – “Para mim. Pra que pra mim? O que eu represento para um homem que eu nunca vi?”
– Satiren. Estou cheio de perguntas...
– É compreensível.
Satiren levantou-se e foi até sua estante. Passou o dedo por vários livros, até parar no que queria. Fez cara de felicidade, e balbuciou com lábio algo sem sentido. Abriu um livro pequeno, de capa azul claro, o título ilegível. Passou as páginas amareladas, de um papel fino. Parou num com poucas frases.
– Está aqui...
Fex aproximou-se e dobrou-se para ler as primeiras linhas.
FILABONTE MARCHETEON
Filabonte era a união de duas palavras élficas arcaicas. Fila com três sílabas “Fi-l-a”, pronunciava-se Fãle e, Bonte com uma sílaba, sendo a palavra toda tônica. Bonte se pronunciava Boíte. Juntas as palavras tinham significados simples, porém separadas eram a complexidade em pessoas, como yin-yang.
Fex franziu o cenho.
– Filabonte é uma palavra antiga que significa Câmara. Ela é representada pelo símbolo de um peixe. Como delta. Pode ser elevada a três tipos de palavra. Adjetivo, Substantivo e Locução Adverbial. Sendo-as todas usadas antes yuk, preposição. Yuk damekz fãle.
Satiren confirmou.
– Sim, além disso, as palavras separadas significam Câmara Quadrada. Que em élfico atual se diz damekz, como você disse.
– Enquanto a Marcheteon, nunca ouvi essa palavra antes.
– Já ouviu sim, você a escuta muito. Troque a ordem.
Fex trocou mentalmente a ordem das palavras.
– Teonmarchê! – exclamou saltando do banco. – Que na língua contemporânea significa...
Satiren interrompeu.
– Fex! Isso, parabéns conseguiu decifrar o que significa Filabonte Marcheteon. Fex Câmara Quadrada. – Satiren sorriu. Fex também.
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Capitulo VII – O poeta que riu.
A felicidade de Fex de tão grande, quase explodiu. Seu olhar ponderado de sempre agora estava mudado, seus olhos se enchiam de alegria que, nem mesmo ele sabia explicar de onde vinha. Não sabia o que significava “Câmara Quadrada”, mas mesmo assim aquilo lhe trazia felicidade. As chamas que iluminavam o papel, não o iluminavam mais. Fex sentiu o ar quente das tochas se ligarem de novo. O ar o aquecia enquanto mantinha fixo seu olhar sobre as letras em élfico. “C-â-m-a-r-a Q-u-a-d-r-a-d-a” soletrou mentalmente. O anão voltou a seu aposento depois de ter religado as tochas. Fitou o elfo que ainda olhava para o livro de capa azul.
– Pequeno elfo – chamou. – Senti-se bem?
– Sinto-me mais leve. Mais não compreendo o porquê.
– Como já te disse antes, é compreensível.
Satiren sorriu. Fex não sorriu, pois já estava sorrindo. Alias, todo o tempo que passava Fex mantinha seu sorriso de ponta de boca. Satiren tornou a pegar o colar e rodá-lo mostrando-o ao amigo.
– Ah – bufou o elfo desistindo. – Cansei-me, queira fazer o favor de me explicar?
Satiren passou a mão na barba e pousou seu olhar nos olhos de Fex. Eles brilhavam. Tensos para ouvir o que vinha a seguir. Nem fez questão de limpar a garganta, apenas prosseguiu em tom calmo e explicativo. O cuco ainda fazia barulho e, ouviam-se passadas á metros dali. O ar quente, fora aos poucos esfriando. Fex tomou o horário tirando o olhar um instante de Satiren e, em seguida voltou-os novamente ao mentor.
– Vamos deixar a calmaria de lado, vou contar-lhe tudo – disse Satiren, finalmente em voz compenetrada. – Sei que acredita em Deus e, acima de tudo em um Deus bom, mas o que vou contar-lhe não convém à obra deste Deus. – Fex sorriu.
– Vai me contar sobre um demônio?
– Exato.
Os dois riram, como numa piada de Arion. Fex olhou para cima, não acreditando no que ouviria. Suspirou e disse:
– Muito bem, então vá em frente.
– O nome dele era Hiot.
Fex arregalou os olhos. O elfo não consegui falar, tentava e acaba gaguejando letras. Quando recobrou as forças, ordenou em tom ameaçador:
– Satiren veja lá o que vai me contar! Tenho que dormir está noite.
Ele fez uma pausa e fitou o olhar disperso de Satiren, que agora mal podia falar. Fex, então prosseguiu:
– Não entendo, estava falando muito bem dele antes...
– Fex – interrompeu o anão. – Hiot não era santo, nem demônio, não era mortal nem imortal.“Então ele era o que? Um vazio?” refletiu o elfo.
– Deve estar pensando em alguma resposta para tudo.
Satiren adivinhou. Fex pesquisou no seu banco de dados interior, qualquer explicação lógica ou metafórica sobre o que o amigo havia dito. Qualquer barulhinho tirá-lo-ia dos seus pensamentos. O barulho de passadas lá fora tirou sua concentração, e invés de voltar a pesquisar parou e voltou a olhar para Satiren, talvez buscando resposta.
– Posso continuar? – indagou Satiren. Fex fez que sim com a cabeça.
– Fex vamos. Está tudo pronto!
Efhel e Arion já se encontravam á metros dele. Fex estava parado pensando quando fora chamado por Efhel. Notando a distância ele correu ao encontro dos outros dois. Os pensamentos e lembranças de Satiren se deceparam novamente.
Andaram até a encruzilhada de rochas a trezentos metros. Quando estavam para cruzá-la perceberam alguém correndo. Sentindo o sangue gelar os três recuaram até um canto da rocha e ficaram observado cautelosos. A figura pulava nos calcanhares, era Sabino. “É o Sabino” comentou Arion virando-se para Fex que se escondia atrás de uma rocha cacaria. Drummond parou de repente e vasculhou o local com os olhos, “já estive aqui” pensou. Fex já estava saindo para mostrar-se, mas fora impedido pela mão de Efhel que apertava os olhos para ver algo. “O que foi” perguntou.
– Espionagem – disse Arion.
– Hã?
– Olhe a tiara pendurada na mochila.
Fex não havia reparado na primeira vez que vira o homem magrelo. Porém agora, olhando com outros olhos havia notado. Na ponta da tiara estava escrito:
ANÃO HONORÁRIO
– Anão honorário? – perguntou Fex.
– Sim, é comum isso – respondeu Efhel.
Fex hesitou, e retrincou com medo. “Comum” pensou. Olhando novamente para a figura, disse assustado:
– É comum os anões contratarem espiões?
– Não. Você entendeu errado. – Ela começou a dar risadinhas. – É comum os anões darem prêmios as pessoas que fazem boas ou más ações.
– Más ações?
– Missões do exército.
– É melhor emboscá-lo – sugeriu Arion.
Os outro concordaram. “Pelo bem, pelo mau” pensou Efhel. Fex desembainhou sua espada e correu na direção de Sabino. Arion e Efhel correm atrás dele gritando. O instante congelou. Fex inerte a espada parada na garganta do magrelo, Efhel e Arion agarrados nos membros do mesmo.
– Não o solte – pediu Fex.
– Ora, o que está acontecendo?
– Não se faça de desentendido! – reclamou, com cara séria.
Os quatro ficaram ali se atracando, por cerca de minutos. Volta e meio um gritava algo. Sem notar que o espião real não era o pobre poeta e sim um anão grotesco que se escondia sobre o relevo. Os olhos grandes e cintilantes, fuzilavam á pequena batalha. A barba ruiva contornava seu rosto, deixando a boca toda coberta. Na cabeça um elmo, estilo viking. Usava á capa para camuflar-se nas pedras. Notando o cansaço momentâneo dos outros, aproveitou e passou para o outro lado se arrastando, aumentou seu campo de visão.
Sabino estava perplexo com á falta de educação dos elfinhos. O ser alto, totalmente preso, deixava á cena ainda mais pitoresca. Um gigante entre nanicos. Após mais alguns instantes de batalha, o poeta começa á compreender a situação. Mostrando-se educado, parou de se mover e respondeu em tom nobre:
– Há um mal entendido aqui.
– O único mal aqui é senhor – respondeu Arion, inerte.
O poeta riu.
– Acham que sou um espião, correto?
– E não é? – questionou Fex, mostrando-se confuso assim como Efhel e Arion.
O poeta novamente riu.
– Não. Sou escrivão da corte.
– Não creio.
Os três estavam de queixo caído. Um sentimento surgia no rosto deles, um sentimento chamado remorso. Haviam lutado com o escrivão da corte e pior perdido tempo à toa. Deixaram uma lágrima cair, de cansaço. “Ora, nós somos um incompetentes. Está ai o motivo para Satiren nunca falar de assuntos de guerra comigo” refletiu Fex.
– Desculpe-me senhor. Não foi a intenção machucá-lo.
– Exato, exato... – disse o poeta limpando a poeira da calça.
Uma pausa momentânea para todos recobrarem o sentido. A pausa foi suficiente para torturá-los. Sabino notando á tristeza dos elfos, disse com calma:
– Não sou tão importante assim. Não precisam ficar com remorso. Sei que tenho cara de ladrão.
Os três ainda olhavam dispersos. Na cabeça de Fex ainda passavam á vergonha que passara. Os demais haviam sentido o mesmo, porém ficaram calados retratando o que sentiam. Arion sorriu enquanto obcervava os pássaros voando. Ás árvores ainda balançavam seus longos galhos – que derramavam suas folhas verdes sobre o campo de cor igual – quando á magrela figura convidou os elfos para caminharem ao seu lado. Ele vinha contando suas histórias sobre como se tornou escrivão. Á noite já havia derramado seu manto negro sobre o sol e, exatamente no momento em que á lua surgiu no céu, os viajantes que caminhavam pela estrada de terra, chegaram aos portões da cidade verde.
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Até.