Spoiler: Respostas


No último episódio: Os amigos chegam à conclusão de que um arcanjo é o responsável pela abertura do Enigma Milenar. Entrementes, dependendo necessariamente desse auxílio improvável, todos passam a bolar um plano de forma a assegurar a cooperação sem que, contudo, disso derive maior risco do que aquele que já enfrentam.

Este capítulo contém uma homenagem ao meu amigo @CarlosLendario, a menos singela de todas as homenagens. A você, irmão, meu muito obrigado, por ter contribuído de sobremaneira com os passos de Jason Walker no decorrer da sua saga. Àqueles que não conhecem as obras do Carlos, "Bloodtrip" e "Bloodoath" são leituras obrigatórias. Neste capítulo, parte do nosso universo se coaduna com o de Bloodtrip.

CAPÍTULO XV – O ÚLTIMO ARCANJO


Ferumbras levantou a cabeça, suspenso no ar, analisando friamente o que sobrara de Edron. Tudo estava absolutamente destruído. Tinha bastado dedicar menos de cinco minutos do seu precioso tempo. Seus sentimentos mais profundos lhe diziam que algumas centenas de vidas foram ceifadas naquela operação. Sinceramente, ele não se importava.

No segundo seguinte, seus olhos cheios de ódio encaravam a movimentada, superpopulosa e moderna Thais, que, agora, continha uma cicatriz em sua face. Ele fizera questão de levar o castelo abaixo, poucos dias antes. Agora, não sobraria pedra sobre pedra.

Se a incursão em Edron levou tantas vidas, era possível de se imaginar quantas delas seriam sacrificadas em Thais. Tudo, é claro, se justificava.
Ferumbras levantou seu cajado, iniciando seu mais ardiloso trabalho. Em breve, Thais se tornaria outra tumba, a exemplo de Edron.

*

Ele assistia àquele espetáculo raro da natureza com sentimentos mistos de alegria, devoção e paz de espírito. O antigo continente brilhava sob o sol do verão. Sol amarelo, sol vermelho. Raios de luzes se infiltravam através das nuvens, que pareciam infinitas sob o sol bicolor. Era impressionante como aquilo poderia impressionar os corações mais puros e os olhares mais intensos. À distância, lá embaixo, a bandeira vistosa de Carlin balançou ao sabor do vento.

E, então, a dor chegou. Excruciante, afetando cada centímetro da sua pele exposta. Seus olhos arderam pelo esforço que ele fazia de mantê-los abertos, e suas mãos tentavam inutilmente tatear algo físico e sensível no que pudesse se fiar, mas não havia nada. As inúmeras pessoas ao seu redor somente assistiam à cena, impassíveis, ocultas por um véu opaco de luz intransponível. Ninguém tentaria ajudá-lo. Estava certo de que morreria ali, da forma como Crunor decidira, sem poder lutar por sua vida.

No instante seguinte, Jason rolava pela grama, o rosto firmemente apertado contra a relva. O som de corpos caindo ao seu redor o levou a crer que não estava sozinho. Quando seus sentidos se desanuviaram e, finalmente, ele encontrou forças para se colocar de joelhos, sentiu-se como se tivesse renascido, mas num ambiente muito, mas muito indesejado. Lembrava-se muito bem dele.

Randal, John, Leonard e Zathroth também tentavam se colocar de pé, enfrentando muitas dificuldades, como Jason. Embora parecessem inteiros, davam a impressão de terem sofrido uma surra muito recente. Randal, certamente, era o mais afetado; seus olhos, fora de foco, estavam ligeiramente estrábicos, e demorou um pouco para que ele recobrasse totalmente os sentidos.

Quando Jason se colocou de pé, divisou os contornos de uma cidade destruída no horizonte. Estava bastante distante dela, mas a conhecia muito bem; passara certo tempo dentro daquela paisagem num passado não tão distante.

O limbo.

Uma infinidade de perguntas lhe espocou à mente: como Randal conseguira entrar no limbo para resgatá-lo semanas antes, sem contar com a intervenção de Zeus? Que encontraria no limbo, agora que Lúcifer estava trancado de novo? Quais eram as chances de que Afrodite os tirasse de lá em tempo, se sequer havia a certeza de que seriam capazes de sobreviver?

A deusa do amor lhes dera uma hora, e nada mais do que isso, que era o tempo máximo dentro do qual ainda teriam chances de sobreviver. Após, as garantias se reduziriam progressivamente até zerar. Não parecia sábio perder tempo com questionamentos naquele momento, especialmente se tinham a intenção de sair vivos de mais uma aventura catastrófica; depois que aquilo passasse, haveria tempo o suficiente para sanar as dúvidas, se tudo corresse bem.

O fato de que John trazia junto de si a arca com o enigma milenar dava a Jason conta de que suas chances eram boas. Ao menos, até ali, tudo vinha correndo exatamente como tinham planejado, embora não contasse exatamente com o fato de que cada junta do seu corpo protestava de dor. Esperava, sinceramente, que não precisassem lutar.

Imediatamente, as atenções do grupo se voltaram para John, que levantou a cabeça, sentindo-se um pouco confuso. Esperava que seu senso desse um pouco de direção para o grupo mas, a julgar pelo golpe recente que sofrera de Zeus, achava que teria sorte se tivesse algum dos sentidos funcionando quando voltassem, se voltassem.

Não demorou para que um homem surgisse na cena. Usava uma espécie de manta térmica da cor da pele – ou seria um corta-febre? – e uma máscara bizarra e sorridente de teatro lhe cobria o rosto. Seus cabelos negros e espetados eram visíveis, em parte, sob o capuz daquela manta, firmemente preso sob um chapéu de abas largas que parecia estar bastante fora de contexto. Pelo fato de que trazia um cajado antigo consigo, era seguro dizer que se tratava de um feiticeiro. De uma forma ou de outra, sua presença não parecia maligna.

— Quem é você? — Jason perguntou.

De pronto, o cavaleiro sentiu os efeitos do limbo. Tudo parecia muito etéreo e distante, e sua própria voz ressoou em sua cabeça durante um certo tempo até que se acalmasse.

— Detetive — respondeu o homem. Sua voz era grave e reconfortante, ao mesmo tempo que transmitia muito poder.
— E o que você faz aqui?

O homem hesitou por um instante.

— Rastreio por baixo durante o dia, volto à superfície durante a noite.

Aquilo parecia significar algo, mas nenhum deles conseguiu concluir o que era.

— Concluo que procuram por sua jaula.

Jason assentiu uma vez, ainda atento.

— Tenho costume de auxiliar aqueles que necessitam de fazer sua passagem em paz. Mas, a julgar pelo excelente estado de saúde de todos, presumo que nenhum de vocês precise fazer a passagem, mas, sim, encontrar o que procuram e sair daqui logo em seguida.
— Bem, detetive — Jason respondeu, ainda um pouco incerto. — Sim, procuramos a jaula dele.

O homem deu-lhes as costas e passou a caminhar no sentido contrário, sem dizer palavra. Os cinco amigos entreolharam-se por um instante e puseram-se a andar atrás dele, seguindo seus passos. Não demorou para que chegassem ao ancião arco de pedra que sustentava a entrada da cidade destruída; o detetive ingressou na cidade sem nem mesmo parar por um segundo, e, agora de armas em punhos, os amigos o seguiram.

A destruição era avassaladora. Não restara pedra sobre pedra. Inobstante, não tardou para que Jason identificasse um certo padrão; a cidade se parecia muito com Edron, mas não tinha muito mais no que se sustentar.

Mais ao acaso do que por qualquer outro motivo, o detetive abatia lebres e pequenos camundongos com a magia de seu cajado aqui e ali, aparentemente entediado. Pouco tempo depois, ele começou a apertar o passo, e os amigos quase tiveram que correr para segui-lo. Eles emaranharam-se cada vez mais pelas passagens estreitas da cidade, saltando móveis quebrados, prédios reduzidos a pó, e encontrando até restos mortais em alguns locais, mas nada que parecesse oferecer muito grande ameaça.

Todos atravessaram a cidade de fora a fora, alcançando o ponto que parecia ser a saída norte. Ali, o homem fez um gesto vago com a mão, orientando-os a prosseguir; por alguma razão, parecia não querer cruzar aquele limiar. Jason agradeceu com a cabeça e o homem rumou de volta no sentido sul, deixando-os para trás.

Os cinco avançaram devagar e logo deixaram a grande e destruída cidade para trás, apertando os olhos para enxergar através da névoa rala que começara a se formar. Alguns passos adiante, a névoa simplesmente sumiu, e todos estavam diante de uma das construções mais bizarras de que se tinha notícia.

O domo parecia ser perfeitamente quadrado e conter algo entre seis e oito metros quadrados. As paredes eram compostas por celas de ferro firme, e o chão era feito de terra batida. Não havia portas, fechaduras ou emendas, de modo que tudo se parecia com um único conjunto bisonho e aterrador. Enclausurado dentro das quatro paredes de ferro, estava ele – alguém a quem Jason sinceramente esperava nunca mais ter de ver na vida, ou na semivida.

Era exatamente como se lembravam: cabelos cuidadosamente repartidos de lado, barba muito bem feita, smoking impecável e gravata borboleta. Naquele momento, estava sentado sobre as pernas cruzadas e encostado na parede oposta da cela. Parecia entediado, mas seu olhar se iluminou ao ver o conjunto de pessoas aproximando-se de sua cela devagar. Logo ele pôs-se de pé de um salto, atravessando a cela e agarrando as barras no sentido oposto, apertando o rosto entre elas.

— Não é possível — ele murmurou, de olhos esbugalhados. — Jason e John Walker, Randal, Zathroth e Leonard Saint. Ou Crunor decidiu libertar-me de meu suplício, ou chegamos no ponto alto do milênio, em que começo a ter alucinações.
— Ah — Leonard murmurou, parecendo finalmente dar-se conta de onde estava. — O capiroto!
— Em carne e osso — Lúcifer sorriu, maníaco.

Ele relanceou um olhar para a arca selada com o enigma milenar, franzindo o cenho.

— Gostaria muito de saber o que esse objeto diabólico faz aqui.

John sorriu para ele, decidindo tomar as rédeas da situação.

— Acho que sabe o que está acontecendo no mundo real, por assim dizer.

Lúcifer soltou um assobio baixinho, como quem dissesse “e como”.

— O limbo se sacudiu de uma forma impressionante. Achei que as barras fossem ceder. Aparentemente, Crunor acha que ter-nos vagando no mundo ao mesmo tempo é uma situação indesejada. Nem mesmo a sua fúria rompeu as amarras da cela.
— É, pois é, que seja. Deve saber que caçamos as relíquias ultimamente e reunimos quase todas. Por acaso, a Túnica Rubra está aqui dentro — John deu dois tapinhas na caixa. — E adivinhe quem Ferumbras definiu como o único capaz de abri-la?

Ele se retesou um pouco ao ouvir o nome, mas seu rosto se abriu no mesmo sorriso maníaco outra vez.

— O homem sabe o que faz — disse, também em tom de quem sabe das coisas.
— Talvez, talvez — John respondeu, em tom amigável. — O que acha de botar esse braço torneado para fora e tocá-la enquanto ainda temos chance de salvar tudo que existe?

Lúcifer sustentou o sorriso enquanto avaliava a proposta que lhe fora feita.

— Sem acordo.

Foi a vez do sorriso de John se desfazer. Ele se sentiu ligeiramente amuado.

— O que quer?

Lúcifer deu dois tapinhas numa das barras da cela.

— Vamos trabalhar nesta belezinha aqui?

Jason franziu os lábios, decidindo ingressar na conversa.

— É, veja, a contraprestação que você exige deve ser um pouco menor do que essa. Queremos desfazer um erro que foi cometido, e não praticar outro com o fito de encobrir o primeiro. Sabe como é.
— Deixe-me ver se entendi — ele levou a mão ao queixo e começou a andar pela sala, dramatizando. — Estou trancado numa merda de menos de 10 metros quadrados por toda a eternidade. Do lado de fora, existe um enigma milenar que só pode ser resolvido por mim. Se não o for, então o mundo não tem condições de prosseguir.

Finalmente, ele parou, fitando Jason nos olhos.

— Acha mesmo que a minha liberdade vale menos do que a sua sobrevivência?
— Acho que a sua liberdade mina a nossa possibilidade de sobrevivência de sobremaneira. E não pense que não existem outras formas de vencer. Você pode manter o que tem, isto é, a merda de menos de 10 metros quadrados, ou sucumbir junto do restante de nós, porque o limbo é o próximo passo, depois de Ferumbras destruir a Terra, o purgatório, o inferno e o paraíso. Acha que será poupado? Tente novamente. A simpatia da qual você goza com ele não é maior do que a que temos por você.

Lúcifer mordeu a língua várias vezes, ansiando por dar a Jason uma resposta negativa que tivesse um mínimo embasamento no qual se fiar. Todavia, a argumentação do cavaleiro era válida até certo ponto. A partir desse ponto, ele sabia que tinha um alto poder de barganha, e que poderia ser a única chance que tinha de utilizá-lo para fazer algo para si mesmo diante da danação eterna à qual certamente estaria submetido se deixasse a oportunidade passar.

Precisava, contudo, de um pouco mais de tempo para pensar. A julgar pela forma direta como conversavam, era razoável pensar que seu tempo era limitado. Eles corriam contra o relógio, mas Lúcifer também, porque precisava capitalizar em cima daquela chance.

— Creio que podemos chegar a um meio termo.
— Que significa…?
— Não peço para que me tirem do limbo, mas, ao menos, livrem-me desta cela. O detetive e eu teremos muito sobre o que conversar no restante das nossas vidas aqui dentro.

Impaciente, Jason arrastou John para longe dos olhares e ouvidos de Lúcifer, deliberando.

— Quais as chances de isso dar errado?
— Se fizermos, terá de ser no limite do momento em que Afrodite tentará nos reanimar — argumentou. — Com as nossas forças exauridas, não sei até que ponto temos condições de segurá-lo se ele quiser lutar.
— Não foi essa a pergunta — Jason relanceou um olhar para a cela, onde Lúcifer tamborilava os dedos sobre uma das barras, aguardando. — Quero saber o que ele poderia fazer fora da cela. Crunor o trancafiou por alguma razão; existe alguma chance de ele progredir do limbo para a Terra?
— Sem um soil, é impossível, tendo em vista que ele não tem um receptáculo corpóreo para ser reanimado. Preocupo-me mais com as nossas hipóteses de sair dessa vivos.

Jason marchou de volta à cela, sentindo o peso da sua decisão nas costas. John correu para acompanhá-lo, não se sentindo exatamente certo sobre se era o que deveriam fazer, no final das contas.

— Fechado — Jason murmurou.

A reação dos demais foi instantânea; todos levantaram a cabeça e o encararam como se nunca tivessem visto nada parecido na vida. Zathroth era o único cuja reação não se sobrepujava à dos demais; parecia calmo demais, como quem aceitasse determinado destino. Jason estranhou o posicionamento dele.

— Façam a transação e eu ficarei — ele sentenciou, soturno. — Se alguém precisar segurá-lo aqui, creio que sou aquele que tem as melhores hipóteses.

Repentinamente, o corpo de Randal caiu duro no chão. Jason saltou para trás, surpreso, quando o mesmo aconteceu com o de Leonard, e ele não pode avaliar a proposta adequadamente.

Tic-tac — murmurou Lúcifer, arqueando as sobrancelhas. — Dois de vocês já foram reanimados. Quem será o próximo?

John também caiu, um segundo depois. Desesperado, Jason pegou a arca nas mãos e aproximou-se da cela, oferecendo-a a Lúcifer.

Sem hesitar, o arcanjo colocou um dos braços para fora e tocou a arca, ao que ela se abriu com um estalido breve. Jason não parou para avaliar o que havia dentro; quando deu um passo para trás, agarrando-se à arca como se fosse a última coisa viva na qual se fiar, ele também mergulhou na inconsciência, sendo subitamente arrancado do limbo.

Zathroth sorriu amarelo, sacando sua espada.

— Prepare-se para uma luta sem fim.

Ele adiantou-se e começou a serrar as barras da cela, trabalhando devagar. A teoria se confirmou; embora ela não pudesse ser aberta de dentro para fora, era uma cela de ferro como outra qualquer de fora para dentro. Depois de um certo tempo de trabalho, a primeira barra cedeu; sem esforço, Lúcifer envergou-a para trás, em seus dois pedaços, abrindo um buraco enquanto Zathroth começava a trabalhar na segunda barra.

Quando ela também cedeu e Lúcifer arrancou suas partes de qualquer jeito, saltando para fora e cerrando os punhos, o detetive ressurgiu, avançando para Zathroth numa velocidade impressionante para alguém que carregava tanta roupa.

— Sinto muito, Zathroth. A hora da sua travessia chegou.

Ele tocou-lhe na testa e Zathroth mergulhou na inconsciência, preparado para abraçar os Campos Elíseos, tendo os berros indignados de Lúcifer sido a última coisa que ouviu em vida.

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