Spoiler: Comentários


Capítulo 3 - A dama de gelo


Cuidadosamente o bardo seguiu pela passagem nas montanhas, se afastando de Darashia. Não poderia usar o porto da cidade para voltar a Venore, seria impossível esconder um escorpião gigante feito de areia viva. E mesmo tendo salvo a criatura de uma vida de escravidão e lutas na arena de um riquinho mimado, dificilmente escaparia de ser preso novamente por ter roubado a “propriedade” de alguém.

Voltando as areias do deserto sentiu o calor escaldante em seu pescoço. “Meu chapéu, ah que falta faz. Preciso arranjar outro logo”, pensava enquanto procurava ladear as montanhas o mais rente possível, buscando pelas sombras quase inexistentes. Estava fraco e com sono, na pressa de salvar o construto fora negligente com suas próprias necessidades. Não pensava direito e mais era guiado do que guiava o escorpião. A montaria estava indo bem, não precisava que indicasse o caminho. Pensando bem, ele nem sabia mesmo para onde ir.

Sentiu como se areia tomasse conta de seus olhos. Era quase impossível mantê-los abertos, como se uma magia estivesse em ação. A sede, o cansaço acumulado, a incerteza do futuro, a angústia de não saber como estavam as crianças, tudo contribuía, precisava urgentemente descansar. Muito sono, não dava para pensar. Pendeu a cabeça, ainda sentado. Ergueu o queixo quase de imediato “Não, preciso ficar acordado, a insolação vai me matar.” Mas suas pálpebras pesavam toneladas. Não notou as rédeas soltas sobre o escorpião. Quando sua saliva ficou áspera soube que havia algo estranho. E onde estava o brilho dos sóis? Tarde demais percebeu a tempestade de areia levantando súbita ao seu redor.

Debilmente levou os braços a frente do rosto. Tentava respirar em meio àquela nuvem sólida. Já não enxergava nada ao seu redor. A falta de orientação o fez cair da montaria. Por um momento pensou em desistir, ficar deitado e dormir, mas com dificuldade se levantou. Se ficasse ali seria soterrado. Andou a esmo para qualquer direção. Uma mão protegendo o rosto, a outra tateando o espaço à frente procurando a montaria. Foi quando sentiu algo envolvendo sua cintura. Depois do susto inicial percebeu que era a garra do escorpião. O alívio durou pouco, pois o animal o puxou com força para baixo e o derrubou. Com a outra garra tentava se enterrar cada vez mais. O bardo tentou gritar, iria morrer soterrado, mas sua boca encheu-se de areia. Não tinha forças para se livrar do poderoso aperto e viu tudo ficar escuro.

Quando acordou estava em uma caverna. Não, não era uma caverna. Parecia mais um corredor, feito com pedras amareladas, antiquíssimas. Ao seu lado, deitado, como guardando seu sono, o escorpião. O animal não havia tentado mata-lo. De alguma forma ele sabia da existência daquele espaço protegido enterrado. Instinto, talvez. Estavam em uma ponta de um túnel soterrado por areia. Provavelmente foi por ali que o escorpião o arrastou. Impossível saber o quanto de areia o separava da superfície. Restava, então, explorar o espaço que se estendia adiante. Não sabia para que lado caminhava, norte ou sul, leste ou oeste. Embaixo da terra toda sua noção de localização havia sumido. Sentiu mais uma vez a falta do pássaro. Tuna parecia sempre saber para que lado estava indo, não importava se não houvesse qualquer ponto de referência.

Andou por um tempo indeterminado. O ar era abafado, mas o calor havia cedido. Na verdade, no fim do corredor havia uma passagem que, estranhamente, parecia levar a um lugar mais fresco abaixo. Sem opção, desceu. Foram várias rampas indo cada vez mais fundo no deserto, se é que ainda estava no deserto. Se viu instintivamente puxando seus trapos de roupa para tentar cobrir um pouco mais de sua pele. Poderia isso ser frio? Encostou a mão na pele arenosa do escorpião que seguia a seu lado. Estava quase gelada. E agora estava delirando ou realmente caiu um floco de neve em seu nariz?

Recebeu o frio quase como um presente após meses no deserto escaldante. Procurou conscientemente seguir pelo caminho de onde parecia vir a brisa suave e refrescante. A neve não havia sido delírio, em pedaços esparsos das paredes havia uma fina camada de geada. Já ouvira falar de tumbas enterradas nas profundezas do deserto e julgava estar em uma, mas nenhum relato mencionava essa temperatura.

Divagava ainda quando chegou a uma parede completamente coberta de gelo. A sua frente uma estranha moeda estava enclausurada em um bloco de gelo que cobria também parte do pedestal sobre o qual estava. Do lado um portal semicongelado bruxuleava, incerto se deveria ainda existir ou desaparecer. Era o fim da linha daquele caminho, mas voltar só iria levar Sparrow de volta ao túnel soterrado. Inseguro sobre o que fazer, mas sentindo a curiosidade crescer cada vez mais, o bardo tocou o portal. Sentiu seu corpo como que sugado por uma força mágica e em um instante estava do outro lado.

Sua pele arrepiou com o frio. Ao seu lado o escorpião escorregou em uma dança mal coordenada tentando manter o equilíbrio sobre as pedras congeladas do chão. Agora raros eram os pedaços de parede sem uma camada de gelo cobrindo. O chão lembrava um rio imóvel no período de inverno mais severo. Com passos hesitantes a dupla avançou. Falava com o construto, tentando manter a própria confiança. De sua boca saia fumaça como se uma fogueira ardesse em suas entranhas. Mas o calor de seu corpo não era o bastante e ele tremia agora, com os braços apertados em volta do peito tentando se aquecer o mínimo que fosse.

Parecia que realmente estavam em uma espécie de templo ou tumba. Corredores se misturavam e intercalavam com salões decorados com estátuas e pilares no estilo antigo de Ankrahmun. Ao fazer uma curva um pouco mais fechada seu coração disparou e a letargia causada pelo frio quase abandonou seu corpo. Um rosto pálido se projetava em sua direção com um esgar de raiva. Os caninos proeminentes se destacavam amarelos. A longa capa, negra como a noite, estava congelada no ar em meio a um movimento esvoaçante. Passado o susto inicial pensou estar em frente a uma estátua como tantas outras que vira no caminho. Mas nenhum artista poderia reproduzir traços tão realistas, aquele não era menos do que o corpo congelado de um vampiro real, em meio a um ataque.

Continuou o caminho e viu que outros seres também tiveram o mesmo destino. Na verdade, suspeitava que algumas das esculturas pelas quais havia passado também fossem figuras congeladas, apenas não havia percebido até o susto. Conforme o frio aumentava também aumentava o número de estátuas. Até que pela entrada mais adiante viu explosões de luz e centelhas de gelo voando. Sons abafados de um combate. Preponderante um brilho azul onírico. Se aproximou com cautela, fazendo o mínimo barulho. Seja o que for que estivesse lutando, com certeza era mais poderoso do que qualquer coisa que o bardo pudesse enfrentar em seu auge. Olhou aos poucos pela porta.

O brilho vinha de uma mulher caída, apoiada em uma parede. Seus cabelos loiros eram quase brancos, a pele não era de um tom muito mais escuro. Usava um vestido azul que deixava seus ombros expostos e estava rasgado na altura do abdômen. Ali uma grande ferida, exposta. O seu interior não era vermelho sangue como se esperaria, mas sim de um tom azulado pálido. Havia algo de diferente, mágico. Era impossível, mas o frio vinha de dentro da mulher e se espalhava pelos corredores. Era como se o inverno tentasse escapar de suas entranhas.
A sua frente uma múmia gigantesca, com vestes também azuis, mas de um tom profano, ornadas com pedras preciosas, parecia tentar um golpe. Mas algo não estava certo, o movimento parecia artificial, lento demais e desacelerando, como se tentasse andar em areia movediça. Uma voz gélida e profunda vinha da monstruosidade.

- Você não pode escapar da morte para sempre.

Algumas pontas das ataduras da múmia quebravam a cada centímetro deslocado. Sparrow notou que finos traços de magia saiam das mãos da mulher e envolviam seu inimigo. Com um grito de desespero final, ela fez com que sua magia brilhasse como um sol e a poderosa criatura foi congelada por completo. Ainda tentou forçar seu ataque, mas o corpo não aguentou e se estilhaçou como uma estátua de vidro.

A mulher escorregou um pouco mais até estar completamente deitada, fechou os olhos com um suspiro e ficou estática. Não fosse pelo movimento frágil de sua respiração o bardo teria certeza de que ela estava morta.
Se aproximou com cautela, tentando a todo custo não fazer barulho com seus dentes batendo. Encostou a mão na testa da mulher e puxou rapidamente. O frio era tão intenso que queimava. Ela abriu parcialmente os olhos e balbuciou.

- Victor...

- Shhh... não tente falar, você está muito ferida.

Ela virou os olhos para o lado e o bardo seguiu seu olhar. Viu um guerreiro congelado com uma espada cravada no peito. Não havia nada a ser feito por ele, mas carregava uma mochila que talvez pudesse ter algo útil, caso o seu conteúdo tenha resistido ao frio. Puxou com cuidado e conseguiu desprender do guerreiro. Dentro havia, entre outras coisas, uma espécie de cantil mágico que mantinha a água líquida apesar do frio. Havia também um grosso cobertor. Usou para embrulhar a mulher e tentar aquecê-la. Tentou conversar, mantê-la acordada. Aos poucos o frio da sala parecia começar a ceder.

- Qual seu nome?

- Nora... Nora Friss.

- Bem, Nora, tente ficar acordada. Eu preciso que alguém me distraia do medo. Você parece ter uma relação intima com o frio, o que faz aqui no deserto?

- Victor... ele queria – precisava – matar Dipthrah. Mas sua espada era inútil contra o conspirador, minha magia era necessária.

Com um espasmo fraco ela tossiu. Ele levou o cantil até sua boca.

- Beba. Você está fraca e precisa de água.

Com a ajuda do bardo ela ergueu a cabeça e os ombros para beber. Desta nova posição pode ver a imagem do guerreiro congelado. Algumas gotas pingavam nos pontos em que o gelo começava a ceder. Ela arregalou os olhos e puxou o cobertor com força acima do que seu estado permitia, expondo novamente seu ferimento. Imediatamente o frio voltou a inundar a sala e uma gota petrificou no meio do ar, estilhaçando ao atingir o chão. O bardo cambaleou e convulsionou, o frio era maior que antes.

- Victor não pode derreter. Ainda posso salvá-lo, mas se o gelo ceder será o fim.

- Você está muito ferida, não pode se mexer.

- Na mochila tem uma caixa de madeira com runas inscritas, traga para mim.

A caixa continha diversos frascos, alguns com líquidos, outros com pós. Algumas ervas estavam separadas em saquinhos vedados. Com dificuldade, quase desmaiando, Nora pegou um recipiente e se pôs a misturar ingredientes, murmurando sílabas desconexas e amassando com um bastão curto e grosso. No fim havia uma pasta gelatinosa que ela pediu que ele aplicasse na ferida aberta. Ela não teria a força necessária. Quando a mistura tocou em sua carne exposta, Nora deu um uivo longo e agudo da mais genuína dor. Por um instante o bardo achou que morreria ali, de pura solidariedade. Seu coração esqueceu de bater por um instante.

No fim a ferida estava selada e a substância tomava uma aparência vítrea. Nora arfava com o esforço, mas parecia se recuperar aos poucos.

- Obrigada, eu vou sobreviver. Não preciso do cobertor, use-o para se aquecer. Há comida na mochila, eu preciso de alimento, e você também.

Dividiram um tipo de pão gelado recheado com frango e ervas, coberto com um creme salgado amarelado. Não parecia com nada que o bardo houvesse comido, mas era delicioso.

- Preciso dormir agora, quando acordar terei forças para nos tirar daqui.

E assim o fez. Ele vigiou seu sono pelo que pareceu uma eternidade. Dormiu também, por duas vezes. Na terceira vigília ela acordou. Ele calculava que haviam passado alguns dias. O gelo ao redor não cedeu nem uma fração. Ela levantou, ainda fraca, mas forte o bastante.

- Neste estado minha magia só nos levará até a superfície. Calculo que seja noite agora, mas o calor ainda pode descongelar Victor. Enrole-o no cobertor e o coloque sobre seu escorpião, por favor. No deserto nos apressaremos para alcançar a passagem para Tiquanda, de lá poderei levar Victor para casa.

E assim foi feito. Com a magia da mulher emprestando velocidade conseguiram chegar ao pé da passagem antes do dia nascer. Não houve pausa para maiores diálogos, mas Sparrow notou a ternura com que Nora cuidava do guerreiro. Se houvesse uma forma de preservar a vida dele, ela iria achar ou morrer tentando. Observando aquela ligação o Bardo sorriu. Queria que suas músicas pudessem expressar tanta emoção.

- Lhe agradeço pela nossa vida. Fique com a espada de cristal de Victor, ele não vai usa-la por um bom tempo. Daqui consigo chegar a Port Hope sem ajuda, mas você pode vir conosco, se quiser. E sua companhia será mais do que bem-vinda.

“Não é realmente uma escolha”, ele pensou. Precisava desesperadamente chegar em Venore e estava ao lado da pessoa mais poderosa que já havia conhecido. E ela agora era sua amiga.
Alargou ainda mais o sorriso para Nora, ergueu a mochila e perguntou:
- E o que estamos esperando?