Eu criei o personagem Sparrow para a segunda edição das Justas Tibianas (na verdade só adaptei um personagem que já uso na mesa de D&D5 que jogo atualmente de vez em nunca) e pretendo utilizá-lo apenas para Justas, sem desenvolver (muito) sua história fora delas. Mas devido as limitações impostas pelas regras das justas, eu sinto que os textos ficaram em algumas partes meio truncados. Então resolvi criar esse post para ser uma espécie de versão do diretor, corrigindo pequenas passagens e amarrando melhor os textos. Pretendo também colocar um epílogo inédito pra fechar esse arco da história. Pra começar, nesse post mesmo, coloco um prólogo, que foi o texto enviado para a @Iridium como inscrição.

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Prólogo


- E por que quer saber, menina? Não me diga que pretende se juntar a qualquer uma dessas corjas.

O rapaz estava sentado em um precário banco de madeira, em uma precária sala da precária sede das Irmãs de Kirana, um abrigo para meninos e meninas órfãs como ele mesmo. A sua frente um grupo de crianças escutando fascinadas as aventuras e desventuras do bardo. Volta e meia alguma delas não conseguia segurar a curiosidade e implorava por mais detalhes. Como fez Ollia agora.

- N…Não! Eu… eu… só queria saber qual delas você acha mais legal! E se existem mesmo…

- Rá, então acha que estou inventando? - Sparrow riu alto, jogando a cabeça para trás e batendo as mãos nas pernas. A tensão criada pela pergunta foi quebrada e as outras crianças riram também.

- Sim, elas existem, essas três que você falou e outras. Ou vocês acham que só Thais, Venore e Carlin tem coisas pra esconder? Essas tais agências podem parecer legais, bacanas, cheias de aventuras e agentes secretos. Mas não se enganem! - Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e aproximou o rosto das crianças, um tanto ameaçador, mal contendo o riso. - Elas escondem terríveis segredos. Soube que uma delas mantém um laboratório secreto para fazer experiências com criaturas terríveis. E nas profundezas de Thais existe toda uma cidade de monstros escondida e o TBI sabe, mas esconde dos habitantes da capital.

A tensão voltou ao rosto das crianças. Era sempre assim quando Sparrow visitava o orfanato improvisado, histórias que iam das gargalhadas ao espanto e terror. Logo a tensão havia passado de novo e as crianças riam com gosto. Na entrada da sala uma senhora observava com um leve sorriso no rosto. Era mais baixa que a média, provavelmente devido as costas curvadas pelo peso de longos anos. Seu vestido era simples, azul claro, sem adornos ou qualquer sinal de que fosse ela a matrona da Ordem das Irmãs de Kirana. Quando as risadas diminuíram um pouco ela se aproximou.

- Muito bem, crianças, já é tarde e a cama está esperando vocês.

- Ahhhhhh, só mais uma históia, pur favô! - disse um garotinho que mal conseguia pronunciar as palavras.

-Outra hora, agora já é tarde. Vamos, vamos, já para cama.

Resignadas as crianças foram dormir. Ao sair, cada uma delas beijou a mão da senhora. Finalmente sozinhos, Sparrow se pôs em frente a matrona, se apoiou em um joelho, reverente, e também beijou a mão.

- Sua benção, Madrinha. - Se levantou e gentilmente a abraçou.

- Senti sua falta, garoto. Não demore tanto da próxima vez. Todos sentiram sua falta.

- Ah, tive que ir mais longe dessa vez. Mas estou melhorando! Você precisava ver como me aplaudiram em Edron! E olha que aqueles esnobes não se impressionam fácil. - O sorriso não deixava passar qualquer dúvida de que ele dizia a verdade. Mas era mentira. Não estava fácil arrecadar qualquer moeda com suas apresentações. Não que fossem ruins. Longe disso. Só não eram excelentes. Mas o sustento do orfanato fora obtido com sucesso. Os nobres de Edron podiam ser difíceis de impressionar, mas seus bolsos eram fáceis de aliviar. A matrona não sabia, claro. Jamais aceitaria o dinheiro se não fosse obtido de forma honesta. Mas ele era um bardo, afinal, ou gostava de acreditar que era. E a mentira é o ofício desses aventureiros. Não que ele tivesse colocado os pés em Edron, de qualquer forma.

- Já viu sua irmã? Já é tarde e ela logo vai estar dormindo.

- Sim, já vi. - O rosto dele mal escondeu o pesar. - Mas quero me despedir dela, pretendo viajar ainda essa noite. Com sua licença. - Deu mais um beijo na matrona e saiu.

Enquanto isso, no quarto das crianças, Ollia terminou sua prece e subiu na cama. Esperou que todos estivessem dormindo e pegou um pergaminho velho, meio sujo, apenas um pedaço rasgado, que estava escondido no seu travesseiro. Pé ante pé, sem que um ruído escapasse, foi até a janela onde uma fresta deixava a luz bruxuleante de um poste próximo entrar. Leu pela centésima vez o pedaço de papel e foi deitar novamente. Enquanto o sono chegava, já quase sem consciência, ela repetia em sua mente a única frase inteira que sobrou de um cartaz maior: “Venore Precisa de Você, Junte-se a Nós na AVIN.”