Citação Postado originalmente por Edge Fencer Ver Post
E aí!

Primeiramente, parabéns pela promoção! Torço para que a experiência como jornalista daqui seja positiva e edificante pra você xD

Quanto ao capítulo, foi uma pausa bem-vinda depois de toda a ação dos últimos. É bastante curioso ver o Nightcrawler dessa forma, muito diferente do que você nos mostrou desde o começo da história; ele jovem até parecia ser um cara legal

Gostei da ambientação do capítulo também. Mesmo eu nunca tendo feito essa quest, não fiquei perdido nos cenários e consegui acompanhar tranquilamente a narração.

Bom, o próximo capítulo tem tudo pra ser bem movimentado e provavelmente nos trará alguns dos fatos que transformaram a aparência e personalidade do Suzio tão radicalmente. Tô bastante curioso por isso.

Abraço!
Opa Edge, obrigado pelo comentário e pelos elogios.


Nightcrawler, como havia dito, tinha seus motivos, e estive curioso para finalmente escrever esse capítulo. Digo isso porque todos os personagens dessa história já foram humanos como nós e já agiram como nós, se eles se tornaram algo um tanto irreal ou absurdo, foi porque algo ruim aconteceu em suas vidas. Então, talvez você goste um pouco mais do Nightcrawler depois disso.

Também nunca fiz a PoI, me guiei pelo TibiaWiki. Felizmente, consegui me conduzir bem escrevendo e parece que teve um efeito positivo.

Por fim, espero que entenda depois desse capítulo a mudança da personalidade de Suzio, e como ele ficou do jeito que ele está no tempo atual.

E eu também espero que o tempo de jornalista aqui seja bom






E aí, pessoal. Já agilizei essa nova parte pois quero terminar logo esse capítulo. Não era pra ser dividido, mas não imaginei que iria ficar tão grande. Tenho que me planejar melhor nos próximos.

Por fim, queria mostrar um desenho que fiz do Nightcrawler. Não sei desenhar direito, mas eu tentei:



É como imagino ele. Não fiz de corpo todo pois não tenho toda essa habilidade desenhística. Mas dá pra ter uma noção.

No mais, agradeço por quem continua acompanhando esta história e espero que continuem até o final!




No capítulo anterior:
Suzio reune-se com o grupo que irá partir para as Plataformas do Inferno, uma das missões lendárias de Tibia. Eles passam por todas as tarefas até chegar nos tronos, mas Suzio por pouco não se dá mal em uma delas. Agora, o grupo enfrentará o trono de Infernatil.




Capítulo 22 – Nightcrawler
Parte 3 – As Plataformas para o Nada II





Ao chegar, todos deparam-se com um local ardendo em chamas e preenchido por pisos negros. Há pontes e cruzamentos que levam devagar e sempre um grupo determinado a tocar o trono. Com isso, o time segue andando.

— Formação! — Ordena Zack, fazendo os cavaleiros tomarem a frente, os feiticeiros ficarem no meio, os druidas atrás e os paladinos dando cobertura pelos lados. O grupo segue dessa forma até o outro lado da primeira ponte.

Ali, o desafio começa. Demônios e mais demônios vão vindo até o grupo, mas são alvejados pouco a pouco pela formação eficiente organizada por Zack. Seja os vermelhos, os grandiosos cães do inferno, os dark torturers. Variados demônios tentam pará-los, sem êxito. Suzio, que estava no meio do grupo, fica impressionado com o que estão fazendo.

Um grupo de quatro cães do inferno vem direto para o grupo. Dois ficam para trás e o restante avança contra a parede de escudos dos cavaleiros. Os paladinos avançam e atiram, combinando seus ataques com magias santas. Os feiticeiros bloqueiam o caminho de volta e usam suas melhores magias, e os druidas finalizam com runas de avalanche ou icicle. Ao dissipar das paredes mágicas, os cães avançam, mas são contidos por ondas de magias dos magos logo atrás. Perfeito.

Essa formação consegue seguir com sucesso pelo lugar. Mesmo que ele seja incrivelmente quente, que as lacunas ao lado dos pisos sejam preenchidas por lava, e que o vapor muitas vezes complique a visão, o grupo segue perfeitamente, sem rodeios ou recuos. E é assim que eles chegam até próximo do trono do Implacável. Cinco demônios vermelhos, quatro cães do inferno e dois dark torturers os cumprimentam. O grupo divide-se para atacar os inimigos na esquerda e na direita, usando as mais variadas magias, combinadas com suas habilidades.

Suzio é responsável por conter os dois últimos. Estava finalizado. Bastava ir para o trono.

Os cavaleiros vão primeiro. Mas logo quando eles se veem a seis metros do trono, tudo começa a tremer. A lava começa a borbulhar com urgência. O chão parece até que vai ceder. O grupo retorna a sua formação novamente, para lidar com o que poderia estar vindo até eles.

Um sino sombrio e hipnotizante toca ao fundo. Em seguida, dezenas de demônios pulam da lava e pousam na plataforma. Uma grande mistura de sentimentos inicia-se entre os integrantes do grupo. Surpresa. Dúvida. Medo. Terror. Talvez outras coisas pudessem ser sentidas, mas não é como se eles tivessem tempo para saber o que estão sentido. Estão cercados.

Brelda grita para manterem a formação – e a coragem. Mas torna-se imensamente difícil fazer isso quando eles avançam e quebram a formação com chutes e pontapés. Agora, era cada um por si.

Primeira badalada. Dos treze, três – contando o caçador morto no trono de Verminor – já foram mortos. Suzio afasta-se de Estella e de Stercha e começa a lutar sozinho. Vai para perto do trono e coloca paredes mágicas perto de si e coloca as poções para flutuarem ao seu lado. Começa a disparar magias e runas para todos os monstros que tentam atacar seu espaço. Ele grita pelo nome de suas amigas.

Segunda badalada. Quatro mortos. Explosões épicas cortam o ar e eletrocutam ou congelam os demônios. Suzio revela suas habilidades de druida e começa a disparar magias de gelo sem se importar com sua mana, com seus braços, com sua voz. Conta cinquenta demônios ali.

Terceira badalada. Seis mortos. Muitos demônios caídos no chão, alguns novos vieram novamente da lava. Suzio foca nesses. Derruba-os de volta na lava com magias poderosas. Bebe frascos de mana em alta velocidade. Renova suas paredes. Vê os cavaleiros cortando e enchendo-se de sangue demoníaco. Vê um paladino sendo atirado direto para a lava e urrando em resposta. Dezenas de gritos. Um festival de berros desesperados e dolorosos ajudavam a compor os inúmeros sons que podiam ser ouvidos naquele lugar.

Quarta badalada. Nove mortos. Muito mais demônios estão caídos. Suzio para de prestar atenção nos membros para pensar em si mesmo. Lança mais uma explosão épica de gelo. Lança esferas de gelo, de energia, renova suas paredes, aumenta sua mana. Seus dentes estão cerrados, a adrenalina perambulando como um animal livre pelo seu corpo, as veias saltando de sangue correndo, o cérebro pesando. Sente que não vai aguentar por muito mais tempo.

Quinta badalada. Mortos? Suzio se importa agora apenas com os demônios mortos. Contou quarenta corpos. Logo acabará. Ele conseguirá. Ele sente isso. Uma explosão épica de gelo nova. O local já fede a sangue e queimado há tempos. Sua visão está concentrada nos demônios que tentam matá-lo. O mundo ao seu redor morreu. Ele deve proteger o dele.

Sexta badalada.

Um Dark Torturer cai na lava sem a cabeça. É o último. Suzio mal consegue acreditar no seu poder, na sua determinação. Não sabe o que responder diante daquilo. E quando as paredes cessam, seus joelhos falham. Ele ofega. Muito. Sua mente está em branco, tentando se recuperar da ação exagerada.

Um minuto se passa. Ele regenera-se usando duas magias de cura. Sente algumas veias queimarem ao fazer isso. Certamente seus circuitos mágicos já estavam no limite. Talvez ele não seja mais capaz de lutar como sempre lutou. Seu rosto arde muito, pois foi golpeado algumas vezes no rosto, então provavelmente há muitas queimaduras. Ele só consegue enxergar de um olho. Seu estado está lamentável.

Apesar de tudo, ele se levanta, apenas para perceber que é o único de pé.

— Ei... Pessoal?

Sem resposta.

— Pessoal... — Suzio engole em seco com o que vai falar. — Tem alguém... Vivo?

A voz de Suzio está um pouco rouca. A quantidade de pronuncias que fez naquele ataque foi sem igual, até mesmo pra ele. Mesmo fraco e esgotado, ele anda pelos corpos, e observa a situação pós-batalha.

Ele vê o corpo de Zack. Metade dele pra baixo está embaixo de um cão do inferno. Depois, de Brelda. As três garras enormes de um demônio vermelho estão nas suas costas. Vê mais alguns esmagados, outros queimados, outros com cortes enormes, membros faltando, buracos e rasgos feitos na carne de vários membros com alta profundidade, atingindo até mesmo seus órgãos.

Olha para o lado. Vê o corpo de Stercha. Suas pernas não estão mais lá. Seu robe está bem rasgado e chamuscado. O olhar morto dela expressa um terror jamais visto antes pelo mago. Ele quase vomita. Mas sente algo pior ao ver um corpo familiar próximo da lava. Vestido de druida.

—...Estella?

Ele fita o corpo que está em parte oculto pelo pé de um demônio vermelho. Com esforço, ele tira o pé, e antes que o corpo deslize direto para a lava, ele o puxa.

Péssimo ato.

É o corpo de Estella. Suas costas e metade das suas pernas estão esmagadas, sua perna direita tem uma fratura exposta: O fêmur quebrado atravessa as costas de sua coxa. Mas não se compara com o que está acima. Sua cabeça estava mergulhada na lava. Agora, só resta alguns fios resistentes de cabelo e uma caveira queimada.

Suzio solta o corpo e senta no chão, afastando-se. Mil pensamentos golpeiam a sua cabeça. As mais variadas imagens. As mais variadas cenas. Sente que aquilo pode ter sido culpa dele, ou o destino realmente conspirou contra ele. Mas logo ele não sabe o que pensar ou dizer. Aquilo está o enlouquecendo. Seu desespero está muito além do que um humano normal é capaz de suportar. Está ficando catatônico. Suas mãos esmagam sua própria cabeça. O grito está vindo.

— Ah... Então é assim que os humanos ficam quando o desespero os consome por completo.

Suzio acorda. Devagar, ele olha para trás. Um demônio vermelho, deitado no chão, quase morto. Seus olhos não eram verdes, e sim alaranjados. O mago já pensa que está louco.

— Ora... Demônios também sabem falar, seu animalzinho de quinta. Você perdeu tudo aqui, não é?

Suzio não responde. Apenas abaixa sua cabeça para o chão. Há sangue ali.

— É... Você destruiu a companhia onde eu lutava... Junto dos seus amigos. Mas só você sobreviveu, pois você foi mais... Esperto. Mas não me importo. Você fez um favor para mim.

Suzio permanece sem responder.

— Argh... Que merda. Muito bem... Mago. Aceite a realidade. Veja bem, sua amiga ali foi morta graças a um de seus companheiros. Ele a empurrou no chão e ela foi esmagada sem querer pelo meu primo, que também lutava comigo. A cabeça dela acabou caindo na lava e ela não conseguia se levantar, tampouco sua cabeça... E quando ele finalmente morreu, ela já estava morta. Ficou agonizando por vinte segundos, apenas.
“Sua amiga da Irmandade dos Ossos morreu tendo as pernas comidas por um cão infernal e levando um rombo no peito com uma magia de um torturador. E aquela mulher bruta que comandava vocês foi socada e chutada pelos demônios até que sua cabeça fosse chutada em direção das garras de um deles. Depois, ele a pregou no chão com as próprias, antes de acabar morrendo pra uma magia sua.”
“O feiticeiro mais poderoso daqui foi atirado em direção da lava. Morte humilhante. Na verdade, a de todos aqui foi mais que humilhante. Foi ridícula. Não sei direito o que aconteceu, mas sei de uma coisa: Você sobreviveu. É o único do seu grupo vivo. Se quiser vingá-los, se quiser honrar a morte deles e fazer jus as vidas que eles deram aqui, me cure e eu te ajudarei a sair daqui. Isso é uma promessa.”

Suzio olha por alguns instantes na direção do demônio. Ele falava tudo de forma convincente. Persuasiva. De certa forma, ele falava a verdade. E não havia opção para ele, pois sabia que se fosse sozinho para outro trono, morreria em vão. Há um motivo para ele ter sobrevivido, e ele deve encontrá-lo, em nome de quem morreu.

Apesar das dúvidas, Suzio atende o pedido do demônio. Cura somente uma ferida grande na região de uma costela da criatura e se afasta.

— Tsc. Francamente... Mas vamos lá.

Os olhos do demônio são preenchidos por losangos negros e por uma esfera laranja no centro. Eles começam a girar, ao mesmo tempo que a cabeça de Suzio também girava.

Suzio acorda de novo. Está em um quarto, onde há um tapete de estilo veneziano abaixo de seus pés, pisos de madeira maciça e paredes feitas de tijolos marrons. Também há uma escrivaninha atrás dele, onde se encontra seus itens.

E de repente, um conjunto de bordas brilhantes surge no fundo do quarto iluminado apenas por dois candelabros em cima da escrivaninha. O demônio de antes. Ele está sentado, apenas uma das pernas está no chão, a outra sustenta um braço seu.

— Bem vindo a minha dimensão... Suzio.

Ele engole em seco.

— Como... Sabe o meu nome?
—Ah, o ratinho sabe falar. Bem, ouvi as pessoas te chamando por esse nome, então imaginei que fosse este. Meu nome é Varmuda, a propósito. Irei te contar um pouco da minha história, então sente-se.

Suzio se vê sentado numa cadeira, apesar de não ter se movido desde que chegou naquele lugar.

— Bem, você também deve se perguntar no fundo por que eu te trouxe para uma dimensão, ao invés de te tirar do inferno. Pra falar a verdade, tenho meus motivos, mas para chegar neles, preciso contar o que já vivi. Tudo que ouvirá aqui é informação valiosa, ninguém no seu mundo humano, nem mesmo élfico, anão, minoico*, tampouco ogro ou morto-vivo sabe como funciona o inferno. Até porque, quem foi parar lá, nunca mais irá sair. É a regra.
— E o que eu significo para você pra saber sobre essas coisas?
— Muito. Logo você entenderá.

Varmuda pigarreia.

— Bem, eu venho de um clã que vive isoladamente no inferno. Nosso castelo é habitado apenas por demônios como eu, os vermelhos. Caso não saiba, todos os vermelhos são nobres no inferno, possuem direito a propriedades, a formar clãs e famílias, criar sua própria linhagem e ter até mesmo seu exército e influência política. Mas, para esses últimos, é necessário ter uma cabala. É a única dificuldade de um demônio vermelho. É necessário ter dinheiro e renome. Mesmo dentro do inferno, você precisa ter renome para ser reconhecido. Não tem jeito.
“Meu pai era dono de uma cabala pequena. Poucos demônios trabalhavam para ele, mas serviam só para proteger nossa casa. Esses demônios podiam ser qualquer tipo, exceto os de classe mais baixa. Todos eram bem treinados, e por consequência, bem remunerados. Meus irmãos e meus primos faziam parte do exército do inferno, que era dividido em 76 classes. Meus parentes eram das vinte primeiras. As habilidades deles eram incomparáveis.”
“O mais complicado dali era certamente eu. Não sei se você reparou, mas Varmuda é um nome feminino. Sou uma fêmea, com habilidades um pouco distintas. Eu era mais inteligente que meus irmãos, mas não tinha a mesma força. Também nasci com uma habilidade esquisita, que escondo desde que a descobri, e por sorte, ninguém da minha família descobriu. Seria uma desgraça se soubessem. Quem tem habilidades diferentes demais no inferno recebem destinos horríveis até mesmo para um demônio. E pra mim, bastava a vergonha de ser uma demônio fraca, incapaz até mesmo de fazer uma explosão, do que ser um monstro para demônios.”
— Essa habilidade... O que é? — Questiona Suzio, com uma voz desmotivada.
— Manipulação de Almas. Há várias coisas que posso fazer com isso, mas a principal é pular de dimensão em dimensão. É conveniente. Tanto que tenho a minha própria. Uso-a desde que era uma jovenzinha.
“Apesar disso, meus pais estavam perdendo a paciência com meu poder fraco. Para não ser atirada na rua, tive que buscar auxílio nas minhas habilidades. Deu certo por um tempo, até eu notar que eu não conseguia mais controlar meu olho laranja. Estava ardendo e ficando nessa cor do nada, sem meu controle. Fiquei com medo e fugi de casa. Percebi que tinha que lidar com o inferno frente a frente.”
“O inferno é jus ao seu nome. O verdadeiro, onde os demônios moram, está abaixo das plataformas, onde vocês andavam. Há grandes planícies, planaltos, montanhas, colinas e cavernas, assim como no seu mundo. A diferença é que não há grama, e se tem, ela é bem escura e chamuscada. Ela existe em palácios ou castelos, em cores escuras. Mas onde eu vivia, às costas de uma cidade, chamada de Vile, a grama era vermelha. E bem, quando fugi de lá, nunca mais vi grama. Passei a perambular por campos cobertos de terra avermelhada, pulando de poços de lava, evitando árvores caçadoras ou demônios que perderam a noção mental. Existe até mesmo estupro lá embaixo. Mas, por sorte, nunca fui estuprada.”
“Existem muitas cidades lá embaixo. Eu evitei a minha para viver nas mais baixas, onde não iriam reparar nos meus olhos laranja. E eu já tinha perdido o controle. Vivi nas ruas, fiz pequenos trabalhos, solucionei problemas. Eu era inteligente, e fui ganhando destaque. Mas chamei a atenção de gente errada, pois fui parar no exército pouco tempo depois. Um demônio da nobreza não deveria ficar vivendo nas ruas, trabalhando pra outros inferiores.”
“Fui parar na quadragésima classe. Terceiro esquadrão. Não era alto, nem baixo. Fui um demônio comum trabalhando dentro das instalações do exército do inferno. Era melhor do que viver na rua, onde você não podia dormir, ou certamente não acordaria no dia seguinte. Além disso, o exército comentava sobre como os tibianos profanaram várias vezes os tronos, e como os demônios enviados para lá nunca paravam eles. Diziam que logo a quadragésima classe começaria a ser enviada. Logo eu lutaria.”
“Não era para ser hoje. Eu trabalhava organizando papeladas, mas ainda ia entrar no processo de “treinamento perfeito” para ser uma militar genuína. Foi organizando papeladas que eu comecei a entender meus verdadeiros sentimentos. De destruir as estruturas do inferno, de derrubar os Implacáveis e me tornar a rainha do inferno. Eu daria mais orgulho para Zathroth do que aquele Apocalypse. Eu não tinha medo de nenhum Implacável, nem dos seus servos menores ou dos seus lordes da destruição. Mas eu tinha medo de ter que defender as plataformas dos tibianos. Era como se eles, juntos, pudessem eliminar qualquer coisa”
“No fim, os sinos soaram e o chão tremeu. Não entendi o que aconteceu, mas fomos rapidamente enviados para defender centenas de regiões do inferno. Os tronos foram um deles. Me jogaram para o meio da roda. Fui parar aqui, sem saber o porquê. Meu poder cresceu de forma incontrolável, como se as almas estivessem berrando e sendo sugadas aos milhões. Ainda assim, quase fui morta, sem um motivo especifico. Mas você, Suzio, você me salvou. E eu estou pronta para recompensá-lo.”

Varmuda coça o pescoço, na região da garganta. Falar tanto não deve ser algo usual dela. Já Suzio não sabe como reagir. Simplesmente abaixa a cabeça e começa a pensar.

Logo, ele sabe o que propor.

— Pode me dizer onde meus amigos estão?
— Bem, parece que alguns foram para o inferno e alguns para o paraíso. Mas não é como se eu tivesse liberdade para tirá-los de lá. Já disse. Sou da nobreza, mas fui tecnicamente expulsa. E sou um demônio comum.
— E como espera se tornar uma rainha? — Disse Suzio, levantando o rosto. Sua feição parece mais séria.
— Toda a nobreza tem direito de governar. E eu já estou construindo meu caminho até lá. Começou no exército. E agora está continuando a seguir, pois encontrei você.

Suzio fica em silêncio.

— O motivo de você ser tão importante é porque você é um prodígio. Sabe usar habilidades de duas vocações. São bem poucos os tibianos capazes de fazer isso. Nem mesmo os elfos são capazes de tal artimanha. Está muito mais propicio a receber o que irei lhe dar.
— E se eu não quiser?
— Tá aí a questão. Você quer. Deve saber que demônios são capazes de ver os sentimentos de um ser humano. Os mais profundos. E eu vejo que, no fundo, você quer poder. Quer principalmente para destruir os demônios. Eu tenho, mas você terá que se esforçar para aprender a usá-lo.

Novamente, Suzio fica em silencio. Começa a ficar complicado manter sua sanidade. Muita informação está sendo jogada para ele num curto espaço de tempo. E ele faz o melhor de si para absorvê-la, mesmo que isso significasse perder seu próprio eu.

— Suzio, eu estou para lhe oferecer algo muito melhor do que a oportunidade de matar os demônios. Eu irei lhe oferecer a oportunidade de destruir a primeira cabala: Os Sete Implacáveis. Destruir o inferno e reconstruí-lo das cinzas. Isso será muito melhor do que matar simples demônios.

A proposta começa a parecer tentadora.

— Mas terá que viver uma vida normal em Tibia.

E agora parece incerta.

— Por quê?
— Pois se você estiver comigo no inferno, não conseguirei fazer nada. Tentarão te matar a todo instante. E o seu lugar não é lá. Não se preocupe, na hora certa, você eliminará os cuzões ao meu lado. Mas não posso garantir que verá todos os seus amigos, pois como eu disse, alguns estão no inferno e outros no paraíso. Aquela Estella está no céu, apesar do sofrimento que teve. E é melhor que continue lá.

Suzio assente com a cabeça. Seu olhar é baixo e seu semblante esgotado. Sente um enorme vazio dentro de si.

— Amor é a última prioridade para todo este plano, Suzio. Eu nunca tive um. Também não tive experiências carnais. Se eu tivesse, eu viraria uma Fúria ou um súcubo, e eu não quero isso. Nossa prioridade será mudar as estruturas do inferno.
— Tanto faz.

Varmuda parece surpresa.

— Desculpe, o quê?
— Disse que tanto faz. Desde que eu possa me vingar de quem tenha sido o responsável por aqueles sinos e por ter feito seu grupo vir para os tronos, não importa o que eu terei que deixar de mão. — Disse Suzio, levantando-se. Seu olhar já é vazio, ao ponto dele não conseguir mostrar raiva, determinação, nada. — Estou preparado para o que tiver que fazer.

Suzio dá alguns passos para frente e fita a demônio.

— Dê-me poder, Varmuda.

A criatura sorri como nunca antes em toda a sua vida.


~*~


Suzio emerge do chão. Dessa vez, está usando uma Máscara Yalahari, dada por Varmuda. Ainda usa sua varinha, e está com sua mochila nas costas. Tudo ainda nos conformes. Ele olha para os lados e vê as Planícies do Horror praticamente vazias. Terras fantasmas, habitadas por ninguém. O mago caminha por essas terras, priorizando retornar para Venore.

Ele sobe a escada da entrada e passa pelo guarda, chamando um pouco a atenção do mesmo. Suzio está totalmente revigorado, apesar de ter perdido boa parte das suas habilidades mágicas combatendo nas plataformas. Enxerga dos dois olhos, apesar da íris do olho ferido quase não existir mais. Ele evita o depósito principal, pois sabe que há pessoas ali que desejaram-lhe sorte, assim como para a sua companhia, para que ele conseguisse a recompensa por passar pelos tronos.

Ele vai até o segundo depósito, no andar de baixo, na última cabine. Ele a abre e vê. Como prometido, Varmuda lhe garantiu as recompensas das plataformas, como um Par de Botas Macias** e um Bastão Arcano, como pedido por ele. Também lhe deixou alguns livros especiais. Ele pega um deles.

Primeiro Volume de Perícia Investigativa: Básico.

Versão Yalahari.

Para futuros investigadores de Yalahar.


Ele toma esse livro para si. Depois disso, ele continua investigando as recompensas. Um raríssimo Casaco do Caçador de Bruxas***, talvez o único do Tibia. Ele não se importa com a sua raridade ou o quão valioso ele é; apenas veste-o no lugar da capa anterior. Também toma um chapéu negro, coloca as botas na mochila e fecha o baú.

Ele dirige-se ao andar de cima e conversa com o banqueiro para retirar uma quantia de moedas de platina.

— Muito bem, aqui estão... É... Não me lembro muito bem de você, acho que é a primeira vez que te vejo. Qual é o seu nome?
— Me chame de Nightcrawler.





Próximo: Capítulo 23 – Negado




Notas:

*: É uma forma que encontrei de me referir aos minotauros, apesar de ser a palavra para se referir ao povo que habitava Cretas e de onde surgiu o mito do minotauro.
**: Tradução livre para Pair of Soft Boots.
***: Tradução livre para Witchhunter’s Coat. É inclusive a jaqueta que o Nightcrawler usa no flashback de 10 capítulos atrás.