Bom, queria tentar movimentar mais a seção e voltar a escrever pra cá, apesar de estar um pouco difícil atualmente pela falta de vontade.
Mas hoje pude trazer pra vocês um conto do ano passado que terminei ontem. Ele é baseado no Age of Mythology: The Titans, na campanha Nova Atlântida, fase 8. Alguns não vão manjar, mas beleza. Eu apenas misturei AoM com Tibia com o som de um bom rock.
Espero que gostem
(longo)
Tempestade de Areia
Aqui estou. Reescrevendo algo que muitos não iriam acreditar. Talvez sim, talvez não. É algo arcaico, estranho e perigoso. Estou velho, mas esta época, eu achava que estava novo demais para morrer. Ou não.
Meu nome é Ganhun. Eu era um sacerdote como muitos de Ankrahmun, caminhando pelo deserto ao norte de Darama, junto de quatro sacerdotes. Alguns soldados montados em camelos nos escoltavam, evitando algum ataque de nômades. Nós possuíamos um grande robe cobrindo nosso corpo, junto de um pequeno cinto confundindo-se como uma corda em nossa cintura, segurando um pano azul longo, simbolizando nosso lado e cor naquele local de guerra. Éramos sacerdotes dos Marid.
Estávamos, se não me engano, caminhando até um templo ao norte de Darashia – Um tipo de cidade pequena, junto do templo –, para uma pequena oferenda. Eu era o segundo sacerdote da fila, o primeiro carregava a oferenda: Um pássaro artístico, talvez uma fênix, com algumas jóias em certas partes do seu corpo, como no peito, asas e cabeça. A jóia do meio era uma safira.
Caminhávamos tranquilamente, sem problema algum. Até um soldado montado num camelo, muito apressando e ofegando muito, corria a nossa direção. Ele era um dos nossos, por possuir um pano azul na cintura. Tinha a aparência de um batedor.
Paramos, e ao chegar, ele saltou de cima do seu camelo, que também ofegava muito. Aproximei-me do animal e dei um pouco de água que eu carregava, esperando algo sair da boca do batedor.
— Senhores!... — Ofegava demais, mal conseguia falar direito. Um dos sacerdotes deu água a ele, e tentou fazê-lo se sentar ali mesmo. Quando ele se acalmou um pouco e aparentava estar menos cansado, assim como seu camelo, tentou falar. — Senhores... Desculpe-me por interromper o caminho de vocês... Mas é algo de suma importância!
— Fale, soldado. — Falava Neprut, o sacerdote mais experiente, que carregava a oferenda.
— Ank... Ankrahmun está sendo... atacada! — Tentava recuperar mais o fôlego, mas parecia não querer se lembrar de algo. Porém, continuou. — Ou melhor, destruída! Está sendo destruída por algo muito grande! Mais forte que qualquer demônio!
— O QUÊ? Fale logo o que é!
— É... Não tenho certeza... Talvez seja um titã!
Todos engoliram em seco. Ficaram calados por alguns segundos, e é claro, não acreditando no que o homem disse.
— E como isso seria possível?
— Eu estava patrulhando uma área um pouco afora de Ankrahmun, e vi uma tempestade de areia, tão alta que parecia tocar os céus, mais ou menos ao norte de Darama... E vi! Vi uma criatura colossal se levantando dessa tempestade, berrando e criando terremotos por onde passava! Tive que me dar o melhor de mim para evitar que o titã me visse, e consegui vir para cá para alertar a vocês! Consegui ver Ankrahmun sendo devastada por aquela besta do fundo dos infernos de Tibia, ou talvez pior! E ele deve estar vindo para cá, agora!
Minha existência, naquela época, nunca foi tão abalada como àquela hora... Eu, é claro, tinha ouvido alguns sons meio estranhos e abafados, porém fortes, da região de Ankrahmun. Não sabia o que era e fiquei calado. Não sabia o que fazer. Fiquei ouvindo atentamente tudo que ele dizia, quando já tinha deixado o camelo menos cansado. Neprut parecia até pior do que eu. Mas ele acabou falando algo, após segundos que pareciam uma eternidade.
— Um Deus não envia um titã a terra. Os titãs que mandam os Deuses. Há algo maior aí.
— Tanto faz, mas é o fim! O fim está se aproximando!
— Cale a boca! Pare de falar isso! — Foi a única coisa que saiu de minha boca, não necessariamente vindo da minha cabeça. — Há uma maneira de pará-lo, eu sei disso!
— Neprut, vai ter que convocar o poder do filho dos deuses da areia, e não só isso, você sabe. — Quem disse isto fora Mayr, quarto sacerdote da nossa comitiva. Neprut estava com um olhar muito sério.
— Já usei deste poder. Não quero usar novamente.
— Daraman confia em você! É pelo nosso mundo! Por favor!
— Do que está falando, Mayr?
— Um deus misterioso, uma vez, enviou a Tibia, atrás do monte do templo dele, um guardião extremamente poderoso. Este seria usado para combater algo que os Deuses não fossem capaz de impedir. Quando não é criação de Zathroth, mas é igual, ele pode se ativar, apenas com o fornecimento de poder do mestre convocador, que no caso seria Neprut.
— Então temos que ir logo para lá! — Coloco a mão sobre o ombro do soldado, o chamando. — Você. Chame todos os habitantes de Darashia e os mande para o oeste, um pouco ao norte de Drefia. Há um refugio entre as montanhas e cavernas, os mantenham lá até que alguém venha buscá-los.
— Sim senhor! — Levantou-se rapidamente e fez o que lhe fora designado. Montou em seu camelo e dirigiu-se a cidade, o mais rápido que podia. Tive até pena do camelo.
Mais tarde, chegamos ao templo e deixamos a oferenda de pé sobre o altar ao fundo do local. Tal deus, dono do templo, viria buscar em breve. Deixamos Neprut conversar com o Deus no templo, e aguardamos do lado de fora.
O templo possuía longos paralelepípedos a frente dele, todos brancos e gastos pela areia. Um monte circulava o templo, e se estendia até o horizonte, do leste desde o distante oceano até o oeste, encontrando-se com as montanhas de Drefia. Atrás dele, ficava um pequeno acampamento e o mar. Aguardamos vinte minutos do lado de fora, eu estava muito impaciente com o fato de um titã estar lá adiante destruindo uma cidade tão linda e próspera como era Ankrahmun. Ninguém podia derrotá-lo. Era isto que me deixava mais aflito.
Próximo do templo, mais ao sul de sua região, ficava algumas casas, quartéis e fazendas. Por trás da montanha, a aldeia estava maior. Havia mais coisas, além do espaço criado para deixar a estátua do guardião.
Após Neprut sair do templo, os montes por trás do templo começaram a se mover, e de forma estranha, entravam em suas colunas de montanhas próximas a eles, como uma porta que corria. Por trás do caminho liberado, havia outra vila, maior e cheia de casas, outrora moradia de pessoas normais que cultuavam o misterioso deus, do qual o chamam de Ordis, hoje vazia por algum motivo. Quartéis subindo os morros, torres de guarda nos topos... Aquele parecia um campo de treinamento de exércitos.
Três templos circundavam a estátua, reluzente, cheia de joias e com ombreiras e partes da armadura feitas em ouro. O tal guardião estava imóvel como uma estátua, com uma espada longa de lâmina negra cujo cabo era envolvido por suas duas mãos com vários anéis enormes de ouro. O corpo do guardião era negro, e sua cabeça lembrava a de uma hiena misturada a de um lobo, e seus olhos pareciam fechados. Tinha vários metros de altura, era muito alto, talvez fosse da altura do titã. Quinze guardas, armados com enormes machados, estavam a frente da estátua. Não sei o que faziam ali, pois se fosse para protegê-la, teriam o mesmo valor que formigas perto do perigo que se aproximava.
— Olá, senhores — Disse um dos guardas que vieram a nós — O que lhes trazem aqui?
— Um titã apareceu ao norte de Ankrahmun. Acreditamos que ele já tenha destruído a cidade e esteja vindo para cá. — Respondi, frio e muito direto. Como era de se esperar, ficaram boquiabertos e bobos, até um dos guerreiros que carregava um machado longo deixou cair no chão.
— Mas não há o que temer — Indagou Mayr, me olhando com uma cara de reprovação — Neprut, nosso melhor sacerdote, convocou a força de Ordis. Logo estará forte para despertar o guardião, para que o titã seja destruído.
— Não é necessário esperar, Mayr. Ele já está dentro de mim. — Disse Neprut, que deu alguns passos a frente. Em seguida, começara a dizer palavras indecifráveis, que a cada palavra aumentava um brilho por baixo de sua manta, que ia de um lado pro outro, enquanto o vento ficava mais forte.
Logo depois, Neprut começa a levitar, e levantando os braços, aceita o poder de Odris para enfrentar o titã. Assim, sua cabeça é tomada por pelos e penas marrons semelhantes a de uma águia, e sua boca e nariz somem. Surge um bico de uma águia em seu rosto e pequenas narinas, e seus olhos se dilatam e ficam da forma de um gavião, algo parecido. Ele recebe ombreiras de ouro, braçadeiras de ouro e o manto amarrado pela cinta toma uma cor dourada e um símbolo de uma fênix surge no centro dele. Seu bastão é substituído por um maior, dourado com um circulo na ponta.
Ao terminar a transformação, ele volta ao chão, muito mais poderoso que antes. Dando alguns passos a frente, disse:
— Guardas, peço para que recrutem todos os sacerdotes que conseguirem. Odris disse a mim que o titã continua destruindo Ankrahmun e irá destruir outras coisas que encontrar a seu redor. Mas agora, está vindo criaturas infernais para cá, simplesmente para destruir o templo. Alguém o convocou para destruir o templo de Odris e iremos impedir! — Disse ele, com uma voz similar aos sons de um gavião, aguda e forte. Tinha um leve parentesco com a voz de um Deus.
— Sim... Senhor! — Disse um dos guardas, que saiu correndo para a maior construção frente ao mar que ficava adiante. As pessoas dali se preparavam para o pior, que vinha sem controle algum, até aquela cidade. Eu enfrentaria até eu virar pó. Mas, por todos nós, daria o melhor que eu puder fazer!...
Isso se eu conseguir...
Passadas uma hora apenas, aproximadamente vinte sacerdotes se posicionaram na frente da estátua do guardião. À meia hora, Neprut começou a doar energia para o guardião, num ritual mágico para aumentar seu poder e o despertar.
A frente, logo após da cidade de Darashia — que já foi evacuada — surge um ser com feições felinas, enorme e malhado, possivelmente era um cão infernal. Não, era muito pior que um cão infernal.
Tinha feições negras e vários buracos que irradiavam uma coloração e brilho da lava, com chifres enormes na testa e olhos totalmente brancos. A velocidade era estonteante, vinha para matar e estraçalhar. Reconheci o monstro como um Cão de Devovorga.
Lancei-lhe uma esfera pequena e branca de meu cajado, e o acertou em cheio na cabeça. Os outros sacerdotes fizeram o mesmo: Tomaram a frente do templo fazendo uma barreira e lançaram as esferas de energia santa. Mas o monstro ainda não parecia derrotado.
Uma biga, puxada por dois cavalos cinzentos, e tripulada por dois homens, um com um arco e flechas, surgiu por trás de nós e lançou algumas flechas para interceptá-lo. Mais delas surgiam, e homens munidos de estilingues e lanças se posicionaram nos montes acima de nós. Lançavam pedras, lanças e flechas para enfraquecer o monstro. Num vacilo, consegui mandar uma bola santa na sua boca, enquanto rugia para os guerreiros acima das montanhas. Aquilo acabou com ele e tocou seu centro, que era uma bola de lava extensa no seu corpo, protegendo os órgãos.
Meu ataque explodiu a bola de lava, que acabou destruindo o monstro, que agora estava praticamente cortado ao meio, com muito sangue de coloração marrom saindo de seu corpo. Aquele era o primeiro monstro derrubado, de muitos.
Uma torre de vigia ao lado do monte, mas um pouco a frente, agarrada ao monte, podia lançar rochas a quem se aproximasse e que fosse inimigo. Podiam ver o que estava vindo para a batalha e alertar aos soldados logo abaixo.
Logo de inicio, viam vários cães de Devovorga correndo como loucos até o templo, e mais tarde viam ciclopes de feições estranhas, pois possuíam um chifre na cabeça e não tinham cabelo, e levavam consigo uma clava de madeira enorme. Mais alguns surgiam, agora eram os Ciclopes Ferreiros, só que maiores e com cabelos avermelhados. Os vigias acima da torre sempre nos alertavam, e também sempre vinham guerreiros para nos ajudar, munidos de muitas armas: Alguns levando lanças, clavas e machados, outros com arcos, com lanças e estilingues. Alguns montados em bigas com camelos prontos para combate, outros montados a camelos e à cavalos. Alguns aventureiros fortes também apareciam para expulsar os ciclopes e as outras criaturas, dando tempo para o guardião despertar.
Ouvimos um rugido poderosíssimo vindo de trás das montanhas da divisa entre Darama e Darashia. O monstro ainda estava forte e consciente de sua missão, e logo viria para nossa região.
Voltei para trás e fui até Neprut.
— Quanto tempo falta? — Perguntei, ansioso.
— Não muito — Respondeu, sem virar seu rosto para mim — Mas acho que não vamos ter tempo o bastante para despertar o guardião até o titã vir para cá. Ele é Cérbero, é um cão de três cabeças que anda sobre duas pernas e é quase todo negro. Quando perceber nossa presença, não demorará nem cinco minutos para ele vir pra cá.
Novamente fiquei muito aflito e perplexo, e ele parecia apenas piorar a situação. Mas era inevitável. Aquele ser estava realmente vindo para cá.
Passou-se meia hora e estava muito próximo do guardião despertar. Incontáveis ciclopes, minotauros maiores que o normal e com pelos marrons e grossos, cães de Devovorga, demônios vermelhos e o que eu acreditava ser hellhounds, no entanto, com coloração muito mais escura já tinham vindo até nós. Mas agora, parecia que a real ação ia começar.
Com mais sacerdotes e soldados da Cidade do Templo a nossa volta, estávamos preparados para o que estava por vir. Apesar de muitos de nós ter caído frente às criaturas das profundezas do inferno, ainda éramos muitos – possivelmente, mais de duas centenas –, todos prontos para resistir ao titã.
Ou era isso que nós pensávamos.
Do horizonte quase próximo do pôr do sol, a criatura rugiu novamente. Um urro infernal, fortíssimo e profundamente assustador que fez meu corpo tremer, e que garanto que muitos sentiram a mesma coisa. Até que ele veio.
Saltando de trás das montanhas, um cão colossal de três cabeças, negro, com olhos avermelhados e uma estranha aura vermelha sobre todo seu corpo. Ele virava as cabeças para os lados procurando pelo que veio buscar. Por instantes, parecia que eu estava recuando, muito hesitante. Mayr estava do meu lado, e colocou a sua mão em meu ombro, olhando-me com um olhar encorajador. Em seguida, sorriu, sem se importar com o que estava a sua frente. Aquele foi o último sorriso que ele deu em sua vida.
O titã, após minutos que mais pareciam uma eternidade, finalmente viu-nos do local donde ele estava. Lambeu os beiços e saltou pronto para matar qualquer coisa que estivesse em seu caminho. Percebi que alguns soldados, ao presenciar aquilo, hesitaram por algum momento, alguns chegaram a fugir, e outros, possuindo montarias, mal conseguiam controlá-las direito por estarem totalmente assustadas com a criatura colossal que avançava rapidamente até nós. Tínhamos ainda algum tempo para que o guardião despertasse. Por sorte – se sorte realmente se aplica a nossa situação –, o espírito de Odris naquela estátua estava próximo, muito próximo de despertar. Neprut apressava-se para passar as energias. E então, alguns sons, pequenos, porém sentidos vinham da estátua. Mas ainda assim, o guardião não iria chegar imediatamente no momento em que Cérbero nos alcançasse. Por falar neste cão, naquele momento, ele já passava por Darashia, destruindo os edifícios em seu caminho, fazendo sons poderosos e altos. Os sacerdotes já se preparavam para enfrentá-lo, com seus bastões energizados e prontos para confrontar o titã.
Alguns dos tibianos que estavam conosco queriam criar algum tempo. Afastaram-se de nós e correram até o titã, sem medo, em alta velocidade. Os tibianos eram de todas as vocações, eram muito experientes e fortes e segurariam o titã por algum tempo. Meia dúzia de sacerdotes os acompanhava. Não seria o suficiente. Aliás, jamais foi.
A besta não teve misericórdia. Dos aproximadamente vinte tibianos que foram em direção aquilo, dez morreram de imediato apenas com um terremoto seguido do fogo subindo para cima. Tempestades de raios, nevascas, raios sagrados e cruzes douradas, todo o arsenal daqueles aventureiros estava sendo usado ali. De nada adiantou, já que o titã era tão alto quanto uma montanha, e os tibianos eram como filhotes de besouro perto deles. Rapidamente foram eliminados, e então, Cérbero, de olhos cor de fogo, olhou para nós como se fossemos insetos invadindo uma dispensa. Então, colocou as mãos no chão e saltou, como um cachorro fazia, e bem na nossa direção.
— Por Tibia! — Berraram, enquanto uma chuva de flechas, pedras, lanças, esferas brilhantes, espadas, tudo que tinham em suas mãos que poderiam jogar, foram lançados na direção do gigante. Muitas delas ricochetearam em seu peito musculoso e voltaram de volta, outras cravaram firmemente dentro e as magias e esferas tiveram um bom efeito. Mas aquilo não o pararia de jeito algum.
Ao chegar ao chão, a terra abaixo de nós tremia com tanta força que parecia que ia rasgar e nos engolir. Rachaduras longas se estenderam até o templo e até os montes, a areia formou uma tempestade enorme sobre nós, ocultando nossa visão, e fogo espalhava-se de forma maravilhosa e aterrorizante. A torre ao nosso lado caiu para trás lançando blocos para os lados, caindo sobre alguns dos soldados e os matando. No meio da tempestade, fogo e brasas chegavam até nós, queimando nossas roupas, bloqueando nossa respiração e queimando nossos pulmões. Soldados montados perdiam suas montarias pois elas fugiam tão desesperadas que escorregavam e caiam na areia, berrando tão forte quando a torrente de sons do local.
A tempestade simplesmente desapareceu e deu lugar ao titã, tão alto que parecia tocar as nuvens. Era totalmente negro, contendo músculos enormes e areia impregnada em seus pelos, dando-lhe alguns tons de cor. Eu não sabia o que fazer. Nós tínhamos sido reduzidos a algumas dezenas em menos de um minuto, e ainda assim parecia que o titã tinha feito pouco. Eu estava a frente daquilo, paralisado de medo, com o cajado caído no chão, aguardando a morte. Enquanto isso, os sacerdotes do lugar lançavam tantas esferas que pareciam uma chuva de brilhos. O titã se afastava um pouco, apenas para dar uma pisada no chão e fazer tudo tremer de novo e a areia subir novamente. Os montes faziam cair rochas enormes até nossa direção, atingindo os outros sacerdotes em cheio. Aos poucos, apenas eu e uns seis sacerdotes sobraram.
O chão, como eu temia, se abriu a minha direita, se estendeu mais para cima e fez três sacerdotes caírem. Éramos quatro agora. Mayr ainda estava vivo e me socou para eu voltar a realidade.
— Venha, venha! O guardião está vivo!
As suas últimas palavras. Abriu-se outra rachadura enorme na nossa frente e Mayr foi direto nela. Peguei sua mão, enquanto seu cajado ia embora ao vazio negro daquele buraco sem fim. Não tivemos tempo de compartilhar palavras de apoio ou algo assim. Tudo tremia, e eu não consegui usar isso ao nosso favor para puxá-lo para cima. Sua mão escorregou da minha e o mesmo caiu na escuridão. Olardil, o ultimo sacerdote de nossa comitiva, tinha sido levado pelas rochas. Então, apenas eu estava ali. Por sorte ou ironia do destino, eu estava ali. De frente para o titã que convocava tempestades de areia, terremotos e incêndios. Prestes a ser morto. Em um ato de desespero, corri até a direção do templo, do qual não o via mais, oculto pela areia, enquanto bolas de fogo caiam na minha direção. Sem crer em algum futuro, tropecei e cai. Me virei para fitar minha morte, que vinha lenta e envolvente, naquela bola de fogo vindo devagar em minha direção.
Parecendo loucura ou não, um raio branco de bordas azuladas atravessou as camadas de areia extensas pelo local e acertou o peito do titã em cheio. Rochas de proporções enormes atingiam as bolas de fogo e o titã. O que veio em minha direção era uma chuva de pedras pequenas e flamejantes e muita poeira, do qual tive que me proteger. Em seguida, da areia alta e da poeira, surgiu um vulto negro com tons dourados em seu corpo que fora em direção ao titã, atingindo-o em cheio e o lançando para longe. Raios e mais raios o acompanhavam. O vulto parou no chão para que ao menos pudesse ser visto: Era o esperado Guardião. Com sua espada cheia de itens de ouro, seu corpo negro e temido, sua aura azulada, viva e sagrada, seus olhos abertos e dourados, vivo e muito mais mortal do que nunca, estava pronto para enfrentar o titã.
O combate quase não podia ser visto. A areia estava muito grossa e em grandes proporções. Eu via apenas alguns vultos na poeira, lutando entre fogo e brilho. Raios e mais raios cobriam o local. Era um combate mortal e muito intenso, eu podia perceber. Tão poderoso que o chão não parava de tremer um segundo sequer. Pedras e muita, mas muita poeira cobria o cenário. Aquilo não parecia ser real, parecia algo que você vinha apenas em pesadelos, onde você não sabia distinguir o real do falso. Eu estava no meio daquilo tudo, deitado no chão, desprovido de qualquer conhecimento, sem saber como mexer os braços e as pernas. Pelos deuses, por Daraman, faça isso parar! FAÇA ISSO PARAR!
E então... Eu consegui voltar a ver. No meio da confusão de sons e poeira, eu distingui o guardião e o titã. O guardião segurava um dos braços do titã, enquanto sua mão que segurava sua espada era segurada pelo titã. O gigante, esperto, deu-lhe um chute na coxa, e o fez se ajoelhar. Em seguida, veio um soco flamejante tão intenso que novamente a areia parecia subir, e várias pedras negras saiam da face socada da estátua viva. Veio a revanche, e o guardião empurrou o colosso até um monte próximo, fazendo sons intensos. Veio um, dois, três socos no rosto da besta, e uma vez este se ajoelhou e sentiu o peso de um gancho de direita do guardião. Caiu sobre o chão levantando a areia novamente e fazendo tudo voltar a tremer. Vi raios cruzarem a poeira grossa e acertarem o gigante. Então, alguém, que com certeza não era humano, veio me socorrer. Um brilho poderoso vindo de sua mão dava-me as forças de volta. Deu-me de volta meu cajado, dizendo-me algumas palavras que não entendi direito. Sua cabeça de águia me confirmou quem era: Neprut, ainda vivo.
Levantei-me com sua ajuda enquanto ouvia o combate dos titãs. Ele me levou para um pouco longe, perto do templo, que ainda estava de pé, porém danificado. Deixou-me sentado com meu cajado enquanto foi em direção do combate. Sumiu diante da poeira grossa levantada pelo combate. Eu pude distinguir, tão fraco quanto estava, raios e fogo. A poeira se dispersava as vezes e vinha na minha direção, e logo após fechar e abrir os olhos, podia ver os titãs lutando, e Neprut ajudando o Guardião com raios que saiam de seu cajado.
Até que o guardião empurrou o titã para trás, deu um salto sensacional e cravou a espada no peito duro do titã. O que veio em seguida foi um urro com a força de muitos ventos, que dissipou toda tempestade de areia que cobria o cenário. O mesmo se ajoelhou junto do guardião enquanto torrentes de raios atingiam seu corpo. Das imensas rachaduras no chão, subia um fogo intensamente poderoso. O urro ricocheteou pelos montes e fazia as casas da vila caírem. Tudo parecia ruir com aquele golpe. Então, o guardião ganhou tanta força que foi capaz de levantar o colosso com a espada ainda cravada dentro dele até o mais alto que podia, e então lançá-lo de volta ao chão. E mais uma vez este cravou sua lâmina no titã, e torrentes de fogo e lava saíram de dentro do mesmo, e urros enfraquecidos ele provocava. Até que finalmente, depois de segundos que pareciam séculos, o mesmo deixou que sua cabeça e seus braços caíssem no chão, sem vida. Seu espírito maldito e sua aura infernal desapareceram e deixaram o mundo para dar de volta alguma paz.
Meu alivio não poderia ser maior. O titã estava morto. O pesadelo tinha acabado. Então, tudo que fiz foi desmaiar nas escadas que iam ao templo e lamentar-me pelas imensas perdas que tivemos.
Acordei uma semana depois. Neprut voltou ao normal, e estava ao lado de minha cama. Não sabia onde estava. Mas devia estar seguro em casa, ou em algum templo próximo. Depois de tudo aquilo, depois de tudo que eu vi, só consegui perguntar uma coisa:
— Tudo acabou?
Neprut sorriu e parecia aliviado. Aliás, parecia bem normal, como sempre foi.
— Sim. Cérbero caiu. O mundo está livre daquela maldição. Como os deuses queriam.
Pela primeira vez em minha vida, eu fiquei irritado de ouvir a palavra Deuses. Meu primeiro ato rebelde ao cargo que tinha.
— Deuses? Onde estavam os deuses quando este titã se levantou? Onde eles estavam quando nossos amigos morreram? Onde eles estavam quando todas aquelas pessoas morreram? Onde eles estavam quando Ankrahmun foi devastada?
Neprut me olhou com imensa surpresa. Eu nunca, em minha vida, questionei os deuses. Dessa vez, tudo fazia sentido para questionar. Se eles existiam, jamais deixariam que tamanha ameaça andasse sobre seu mundo.
— Ganset, não se questiona os deuses! Se eles não apareceram, eles estavam ocupados com outra coisa ou...
— O que seria mais importante que seu mundo e suas criações? Meu amigo Neprut, os deuses não se importam conosco. Os deuses preferem que nos destruamos a cuidar de nós e resolver seus problemas em nosso mundo. Os deuses de nossos mitos e histórias não existem. — Levantei-me tão normal e recuperado como antes de tudo aquilo, e me dirigi a porta. Neprut não pronunciou uma palavra sequer, apesar de sua enorme experiência. Era impressionante alguém como eu, cujo era tão religioso que parecia até desnecessário, se libertar deste fardo de respeito aos deuses. Abri a porta e notei que estava num pequeno templo, no andar de cima, e havia vários quartos ao lado do meu.
Fui até a escada que descia para o térreo e desci com enorme naturalidade, e me dirigi até a porta. Estava vestido com uma nova roupa de sacerdote semelhante a anterior e não tinha nada em minha cabeça, deixando meus cabelos negros e um pouco cinzentos livre. Meus trinta anos de vida não me impedia de me mover de forma rápida. Abri as portas do templo e vi uma tempestade de areia, no horizonte, vindo a nossa direção. Parecia que estava próximo das montanhas que davam a Drefia. E fiquei a observá-la. Pois nenhuma tempestade se compararia a que tinha visto há pouco tempo. Uma verdadeira tempestade de areia.
(Imagem do confronto no Age of Mythology)
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