Se me perguntassem por que criei um tópico para este conto, depois do concurso, não saberia responder.
Creio que é só uma ânsia mesmo para saber o que usuários daqui acharam, agora que é possível falar abertamente sobre cada conto e, frente a frente com quem o criou...
Pensei até - idéia que durou alguns segundos - em criar um tópico onde eu postasse só contos, tipo de texto que tenho dado exclusividade ultimamente. Mas, tenho motivos para não voltar para cá =d.
Porém, se eu mudar de idéia peço para editarem o título deste tópico mesmo, e editaria também este primeiro post, deixando apenas os links para os textos que fossem postados, para assim não precisar criar outro.
Enfim, taí o texto. Veio à cabeça dizer "Boa leitura" ou algo semelhante, contudo a maioria daqui já o leu!
Par ou Ímpar
E logo depois, no salão, o único som remanescente era o das pessoas, gritando, perplexas pelo ocorrido. Gritos, gritos, gritos...
...
Quase toda história tem um herói. Pois bem; meu conto também terá. Um aspirante a herói.
Seu nome? Não é necessário dizer. Não mudará os fatos aqui narrados.
Sua idade? Não precisa ser mencionada. Basta saber que é um pouco velho.
Heróis não surgem por acaso; precisam de acontecimentos perigosos, terríveis, para aparecerem, nascerem, como uma fênix.
E, aqui temos o cenário perfeito.
Onze horas da manhã. Ou meio-dia. Talvez até já fosse uma da tarde, não sei. Local: Um banco. Qual? Onde? Um qualquer em algum lugar. Senhores, isso não é importante!
O que nos interessa - me interessa - é o nosso herói.
Ah, claro, tem que ter o vilão!
Quem é? Alguém que decidiu assaltar um banco. Um tolo desprovido de qualidades interessantes. Um bandido medíocre, ignorante, estúpido. Pela aparência, diria que é até bem fraco, e excessivamente magro. Enfim, alguém que, com essas características, nunca seria um ser perigoso.
Porém, ele tem uma arma.
Então, é o vilão.
Nosso herói está indefeso. Ajoelhado no chão, com as mãos cobrindo sua cabeça carente de cabelos, tendo a coxa de sua perna esquerda o remoendo de dor. Treme, diz palavras desconexas, intraduzíveis. E tem uma arma apontada em sua direção.
Um gato cercado por um rato.
Claro, nessas condições nunca imaginaríamos que ele seria o salvador, o protagonista; parece ser uma reles vítima, que morrerá sem causar aflição ao leitor, ou gritará, sem ser notada.
Aliás, que pensamentos rodeiam alguém quando se encontra em desesperadora situação?
Se eu disser aqui de todos os reféns – que a propósito, são nove – demoraremos a chegar à conclusão disso tudo. Vamos focar nele.
Ele, não pensava em si mesmo, em sua proteção. Altruísmo; qualidade básica para ser um salvador!
Imaginava a mulher, imaginava o filho. Não poderia morrer covardemente e deixá-los sozinhos, sem ter como se sustentar.
Dia infeliz para se pegar um empréstimo! O terceiro no ano, vale ressaltar...
O que significa que nosso protagonista passava por dificuldades. Outra característica marcante, fundamental, para ser... Vocês sabem.
Dívidas. Relacionamento com a esposa esfriando. Para se aliviar um pouco, para, por um momento, esquecer de tudo, jogava. Mas jogava apostando dinheiro. E isso gerava dívidas. E o relacionamento com a esposa esfriava mais. E para se esquecer de tudo, jogava...
Carro vendido. Casa hipotecada. Filho, que antes ia a uma escola particular, tendo que se contentar com o precário ensino estadual.
Preciso esmiuçar mais a vida deste pobre ser?! Este miserável que desconhece há tempos o significado da palavra felicidade?! Não vou mais humilhá-lo, não! Ele é nosso herói!
E, ao que parece, será consumado por uma bala vindo de uma arma de uma pessoa igualmente ou até mais incapaz e fracassada do que ele.
Só que... Estar encurralado não significa, necessariamente, estar perdido. São nesses instantes que vemos do que somos capazes ou não. E aqui, senhores, vão presenciar o despertar do real ser desse real perdedor!
Ele pensa, medita. Analisa. Chora, também, sua de medo e pavor. No final, é só um humano...
Olha para o seu inimigo – o vilão! – com olhos marejados. O vilão rebate, com um olhar inquieto, avermelhado. Difícil dizer quem está mais amedrontado.
Repara a sua volta os outros “companheiros”, que se encontravam nas mesmas condições, nas mesmas posições. Um rezando, outro chorando, outro fazendo nada; parecia até já estar morto. Inúteis, serviam só como vítimas...
Ele pensava. Pensava nas infinitas possibilidades que lhe surgiam para conseguir desarmar seu opressor; e pensava também nos infinitos resultados. A maioria, ruins.
Permanecer como um covarde, esperar pelo socorro da polícia que, do lado de fora, esperava também, ou fazer algo de útil pelo menos uma vez, mesmo que não ganhasse nada com isso? Dúvidas, dúvidas, dúvidas...
Além da coxa, seus pés também começavam a doer; muito tempo ajoelhado. Desejava fazer algo para acabar com tudo, e logo. Mas seu bom senso dizia que não, “Espere a polícia”; porém a vontade de sair dali imperava “Vai pra cima dele!”; contudo a arma apontada para si sussurrava “Não se mova!”; mas seu coração desejava rever sua esposa e filho “Vamos, faça algo!”. Estava numa batalha interna, decidindo – tentando decidir – o que fazer.
Enquanto deixamos nosso herói sozinho com seus pensamentos, vamos nos aprofundar no vilão, que ocasionou isso tudo.
Por que ainda estava ali?
Porque era burro.
Entrou no banco. Ninguém reparou nele – e quem repararia em tal ser insignificante? – passou apressadamente pelo corredor dos caixas automáticos, de cerca de vinte metros de comprimento. Apenas duas pessoas na fila, esperando passar pela porta-giratória. Rende uma, agarrando-a pelo pescoço e apontando uma arma de brinquedo; deixa a outra escapar, se preocupando mais com o policial posicionado do outro lado da porta, surpreso. O bandido passa, a refém também. Conta uma, duas, três... Dez pessoas no banco. Rende todas, levando-as para o salão principal. Deixa o policial, desarmado – pegara a arma para si - observando a porta-giratória, para que impedisse a entrada de qualquer um que chegasse, dando alguma desculpa qualquer. Exige o que veio buscar, dinheiro. As mulheres do caixa demoram um minuto, dois, cinco, para abrir o cofre principal. Ele fica impaciente. Impaciência que se junta ao nervosismo que o corroia desde o início – novo no ramo - e o que faz não perceber que um jovem rapaz, uma criança, praticamente, escapara de suas mãos. Ela estava ajoelhada ao lado de nosso herói.
Notou tal fato tarde demais. Culpou o nosso protagonista, “Por que o deixou ir, seu imbecil?”, “Por que não me avisou? Por quê?”, gritava.
Não comandava mais o espetáculo.
Como forma de expressão por seu desapontamento e irritação, chuta fortemente a coxa esquerda de nosso personagem principal. E ele, gritou, repeliu o ataque? Não, ficou lá, parado, aguentando tudo; tinha ajudado um rapaz a fugir, e isso era um tranquilizante para seu sofrimento!
Nosso vilão agora está com medo, “A polícia virá logo” pensa, algo raro. O cofre fora aberto; corre até ele, aliviado, feliz como uma criança ingênua. “Não, não.”, decidira mandar os caixas pegarem o dinheiro; mais sensato. E é o que ordena. Resolvera observar mais de perto nosso herói; não quer cometer o mesmo erro duas vezes...
E aponta a arma em direção a sua cabeça.
Contudo, tarde demais; a polícia chegara, bloqueando tanto a entrada principal quanto a dos fundos.
E agora vilão, o que fará?
Pensa, pensa, pensa. Os reféns agora são sua moeda de escambo com os tiras; não pode simplesmente eliminá-los. Nem iria, se não fosse necessário. Nem queria ter reféns, se fosse possível. Tudo isso por causa de dinheiro; tudo isso por causa de...
... Dívidas.
Sim, dívidas. Era um débil completo, dominado pelo vício das drogas. Em suma, um viciado que não tinha dinheiro para pagar o que devia, e, tendo uma arma – de brinquedo - e uma mente limitada, decidira roubar um banco. O primeiro que viu, sem nem antes planejar.
Por isso e todo o resto, era burro.
Jovem. Solteiro. Branco, negro? Que diferença faz?
Está pálido. Transpira. Lágrimas se precipitam de seus olhos, excessivamente avermelhados, irritados.
Olha para nosso herói, que o encarava e murmurava algo que não conseguia entender. “Maldito”, pensa. Quer matar seu carrasco, que complicou um roubo que lhe parecia ser simples e rápido. Mas seria pior para si, tirar a vida daquele homem. “Não, não, antes ser preso apenas por roubo e sequestro do que por roubo, sequestro e homicídio”, reflete.
Admito, senhores, que ele até tem inteligência. Só que mal aproveitada.
“Você está cercado!”, grita um representante da ordem e da justiça, do lado de fora.
Um telefone branco, localizado numa mesa usada para receber os clientes, toca. Uma vez, e assusta o vilão. Duas vezes, e faz ele pensar se atende ou não. Três vezes, e vai em sua direção. Quatro vezes, e o pega. Era a polícia.
Nosso herói... Havia chegado a uma decisão. Determinou, oficializou, que enfrentaria o ordinário assaltante. Não pensou em erros; não tinha em mente que seu ataque poderia falhar, e que com isso, sua vida ficaria em risco. Permanecer como um covarde não lhe soava melhor do que tentar agir ferozmente contra alguém armado.
Iria atacá-lo por trás, enquanto estivesse no telefone, mudo, calado. “Quem seria?”, se perguntou.
Nosso inimigo só ouvia, não falava. A polícia o assustava.
Decidiram ser diretos, sem rodeios, sem se curvar a uma pária da sociedade. De forma resumida – e que nos interessa, apenas - disseram algo como “Mate um refém que seja, e ficará trinta anos na cadeia. Se entregue, e apenas alguns anos o aguardam dentro de uma prisão. Você tem meia-hora. Ligaremos de novo”.
Ou qualquer coisa assim.
O ultimato.
Desliga o telefone. O herói recua. Não era a hora, ainda.
Nosso vilão sofrera o baque. Atordoado pelo que ouvira, estava em frangalhos, mentalmente.
“Desista. Desista.”
A arma em uma das mãos. A outra vazia, mas cerrada, contendo todo seu ódio, tristeza, amargura.
“Não... Não...”
O combate se iniciara dentro de si! Não queria se entregar, não desejava ser preso. Mas como sair dali com as mãos carregadas de dinheiro e, principalmente, liberdade?
Pensou em pegar alguém e levá-lo rua afora, apontando uma arma em sua cabeça. A polícia certamente não o deteria. Mas, e depois? Para onde correria? Como, aliás, se livraria deles? Não, idéia descartada...
Imaginou se matar, e acabar com seu sofrimento. Até para um ser como esse, é um ato vil o suicídio! Deixou de lado...
Pensou, pensou. Vinte minutos se passaram, e sua mente não se encontrava muito diferente de vinte minutos atrás.
Enfim, achou uma saída; poderia sim, se render. Sem ter matado ninguém, ficaria pouco tempo na prisão, e quando saísse, por vontade da justiça ou por vontade própria, faria algo – ou seja, tentaria roubar novamente - para pagar o que devia.
Não era uma decisão boa, mas dentre todas as que tinha, era a menos pior.
“Desisto.”
O mesmo telefone, toca novamente.
“É agora.”, pensam os dois, vilão e herói.
O inimigo anda lentamente, cambaleante, em direção ao telefone. Nosso herói, só prestando atenção em cada movimento e cada gesto dele.
“E então?”
Era a polícia, como esperado.
E agora, nosso herói, tem seu momento de rendição, de glória, de deixar de lado os erros tolos cometidos! Seria o salvador daquelas pessoas desconhecidas! Provavelmente, assim que tudo acabasse, imaginava, teria uma vida melhor, mais digna. Sua mulher o olharia com afeição. Seu filho o admiraria tal como deve ser para com um pai. Deixaria de jogar, já que, além de dinheiro, não teria mágoas nem motivos para isso. Teria seus 15 minutos de fama na mídia, seria reconhecido pelo que fez. Mas o mais importante, teria também seus 15 minutos – ou mais, ou menos, dependeria dele depois - de felicidade, ao lado de quem amava.
Porém, tal como o desespero completo fecha nossos olhos, impedindo de ver as portas que poderiam ser a saída do infortúnio; o êxtase total, também, nos faz ignorar as armadilhas e cega nossa percepção das coisas. Se nosso herói tivesse prestado um pouco mais de atenção; se, não estivesse em um grande júbilo interior pensando nos resultados – positivos - de seu ato; se tivesse esperado só mais alguns segundos, teria ouvido nosso vilão dizer, no telefone...
“Eu me rendo.”
Mas não ouviu.
Nosso herói correra em direção ao inimigo. O inimigo estava surdo a tudo à sua volta. Dois seres, perdidos, inferiores, acabavam de, ao mesmo tempo, tomar a maior decisão que já tomaram em suas vidas infelizes!
O herói chegara por trás do vilão e agarrara seu pescoço. O pressionava com toda a sua – pouca – força.
O vilão, desnorteado, confuso, derruba o telefone, procurando um modo de se soltar, tentando achar um meio de parar seu agressor. A arma, a arma! Em sua mão esquerda, ela estava. Tenta levantá-la, tenta mirar numa pessoa que nem via!
Mas o herói se encontrava preparado. Tirando um dos braços do pescoço de seu inimigo, agarra firmemente o pulso esquerdo do mesmo. O segura, o levanta, e o bate na ponta da mesa onde antes estava o telefone.
O vilão grita de dor, abre a mão, derruba a arma no chão. Mas, tendo menos pressão em seu pescoço, consegue, agora com as duas mãos livres, se soltar das garras do salvador.
Olha para trás...
“Você!”, diz, vocifera, com a voz falha.
O vilão vira todo seu corpo, e dá um soco no nariz de nosso herói, que cai no chão.
Gritos...
Nariz ensangüentado. Orgulho ferido. Vontade e raiva ainda maiores.
O vilão procura a arma, única fonte de salvação, de tão fraco que era! Não podia com aquele homem, mais velho, mas bem mais forte; não podia com nosso herói!
Acha a arma. Se agacha para pegá-la, mas sofre um novo ataque por trás. Dessa vez, um chute na perna esquerda, o levando ao chão, gritando mais uma vez de dor.
“Dói, não é?” diz, com sarcasmo. Ele estava por cima. Ele estava vencendo. Ele estava...
Sofrendo outro golpe.
Com a perna direita, o vilão derruba nosso protagonista. Rastejando, se aproxima dele, que se encontrava caído pela segunda vez.
O vilão o levanta pela camisa, erguendo seu braço esquerdo para mandar outro soco no nariz quebrado de, agora, não mais agressor, e sim vítima.
Ou ao menos, era o que ele pensava...
Nosso herói levanta sua cabeça rapidamente, chocando-se com a testa do vilão.
Outra virada.
O vilão, deitado no chão, põe suas mãos à cabeça, tentando amenizar, engolir, a dor. Nosso herói começa, freneticamente, a chutá-lo. Um chute, dois chutes, quatro chutes, todos na barriga. O movimento de vai-e-vem aumenta a dor de sua coxa esquerda que se tinha diminuído, mas ele não se importava, nem ligava, quem sabe nem notava. Estava destilando toda a sua fúria para cima daquele pobre coitado, que urrava de dor.
Ele, por sua vez, nada conseguia fazer a não ser sentir os chutes impingidos pelo herói. A arma, a arma! Cadê? A via, a menos de três metros de distância. Mas mal se mexia, mal conseguia se movimentar...
O herói parara com o ataque. Por quê? Porque a dor em sua coxa era maior que seu desejo de continuar. Sentia-se, declarava-se, o vencedor; se tornara, oficialmente, um herói.
Ajoelha-se, mas agora não porque mandaram; apóia as mãos no chão, ofegante, cansado. Mas com a sensação, a rara sensação que há muito não sentia, de vitória, de alívio.
Salvara todos de um perigo que, mal sabia ele, nem aconteceria. Mas um pouco de ignorância é boa, em algumas ocasiões...
Gritos, gritos...
Olha para trás para ver a razão de tal alvoroço. Via o vilão. Enxergava uma arma em sua mão. Apontada em sua direção.
O vilão, deitado, se esforçava para mirar a arma em seu refém rebelde. Mal conseguia acreditar na capacidade, na força de vontade, que teve para conseguir se arrastar e assim pegá-la, possuí-la, novamente.
Mas, outro fator lhe preocupava:
Compensava matar aquele homem?
Já tinha decidido se render. Se demorasse demais, se houvesse barulho de tiros, a polícia entraria, e sem se importar com o trato feito, o mataria, certamente. Contudo, o instinto lhe dominava. Queria matar aquela pessoa. Queria tirar-lhe a vida. Foi sufocado, socado, chutado, por aquele infeliz. Que se dane a prisão! Poderia tentar fugir depois, uma, duas, quantas tentativas fossem necessárias, mas, estava convicto; o mataria, sem remorso!
Nosso herói se encontrava sem saída. De novo. Estava a quatro metros de distância do vilão; antes de chegar perto dele seria perfurado pelas balas mortais daquela arma.
Encurralado, perdido.
Agora só aguardava pela vontade de seu provável futuro assassino. Ele tentou, mas não virou o salvador daquelas pessoas “Que Deus as ajude.”, pensava. Não seria mais visto por todos como um herói, e sim como um simples ser inocente sem juízo que reagiu a um assalto. E pior, sem ele saber; quando tudo já estava terminado.
A última vez que viu a mulher, discutiram. O último olhar que recebeu do filho, mostrava a apatia e o desgosto, que havia em seu coração, pelo pai. Não queria ter como últimas lembranças deles tais imagens tão...
Som de tiro. Não, tiros. Dois, três. Quatro. Três no peito, um na perna.
E logo depois, no salão, o único som remanescente era o das pessoas, gritando, perplexas pelo ocorrido. Gritos, gritos, gritos...
Nosso herói estava morto.
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