
Postado originalmente por
Bob Joe
Ma rapaz, te falar que eu tenho um doutorado em Ciência da Computação com tese na área de Redes e Telecom, sou especialista em desenvolvimento de software embarcado e já dei bastante aula de cybersec e DevOps no nível de pós-graduação e não acho que é uma parada que "qualquer um como o mínimo de instrução faz". Uma coisa é saber o nome de ferramentas e aplicações e o que elas fazem. Outra é operacionalizar isso tudo na parte técnica e na vida real.
Por exemplo, tu já tentou recompilar o kernel dum Tails (ou qualquer distro linux cybersec) para fazer um hardening de memória para evitar UAF, usercopy, stack smashing, page poisoning e outras baguncinhas? E burners phones no Brasil? Boa sorte ao usar infraestrutura de ISP local para rodar o tráfego de roaming internacional.
O negócio não é se dá pra fazer, é se dá pra escapar de um perito da DCIBER com uma piroca dura, um mandado do Xandão na mão e um contato da Interpol. Pra virar o "hacker" de Araraquara não custa.
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Tudo supostamente, ninguém aqui vai fazer nada disso aí não. Salve, agente da Abin.
Parabéns pelo doutorado, eu nem sabia que você tinha formação na área. Pelo tamanho dos textos, pensei que você tivesse feito letras.
Vamos por partes:
1) Kernel do Tails e Hardening:
Você tentou puxar a sardinha pra "hardening nível kernel", mas ignorou solenemente o básico do modelo de ameaça focado em anonimato. O Tails rodando sobre Tor não foi feito pra ser um snowflake impenetrável e sim pra ser indistinguível.
Quando você recompila kernel, mexe em mitigação de memória, stack ou comportamento de baixo nível, você não está ficando "mais seguro" nesse contexto, você está aumentando a sua superfície de fingerprinting e destruindo o seu anonymity set. Isso é ir literalmente contra a cartilha da ferramenta. A defesa aqui não é ser o bunker fodão, é ser só mais uma agulha perfeitamente igual às outras no palheiro.
2) Burner phones e a realidade brasileira:
Aqui você tocou num ponto real e admito que simplifiquei antes (pra você tanto faz, mas olha o nível de idiota que gosta de defender cybercrime aqui). No Brasil, a correlação entre CPF, SIM, IMEI e ERB da operadora é violenta. Isso não é teoria, é a nossa infraestrutura. Mas isso não torna o problema "impossível", só o torna operacionalmente um inferno:
Sem SIM: Viver de Wi-Fi público, e aí o BO vira análise de correlação (horário, deslocamento físico, logging de roteador, captive portal).
Com SIM: Usar chip internacional/alternativo reduz o vínculo direto, mas o fantasma do KYC em algum ponto da cadeia, regras de roaming e padrão de uso continuam lá.
Resumindo, não tem passe de mágica, mas também não é o bloqueio absoluto que você faz parecer. O gargalo aqui é disciplina operacional e acabou.
3) "Qualquer um faz":
Você tá batendo num espantalho. Ninguém disse que qualquer pessoa aleatória vai operar isso com perfeição na vida real. O ponto é que montar o ambiente hoje é acessível, o que é foda é manter a OpSec por meses sem dar um escorregão. E é aqui que 99% roda:
Mistura de identidades (cruzando persona fake com real).
Repetição de padrão de comportamento.
Descuido na rotina operacional.
Vazamento indireto de dados.
O caso do Walter Delgatti que você mesmo citou prova exatamente isso, não teve quebra de criptografia ou zero-day mirabolante, teve burrice, ego e erro humano acumulado (bolsonarista é amador e ególatra, sempre).
4) O ponto central que você ignorou:
O seu erro é tratar isso como um problema técnico de laboratório, e não é. Escapar da DCIBER não é sobre saber compilar kernel, usar a distro X ou dominar a ferramenta Y.
É sobre conseguir operar por tempo indeterminado sem cometer um único erro correlacionável. E isso, meu caro, não escala com QI alto nem com diploma de doutorado, escala com disciplina paranoica, tipo a minha quando eu brincava de quebrar OT e sites aleatórios e escondia com medo de responsabilização, até desmontar o HD e jogar no lixo por via das dúvidas. Atualmente eu tenho Tails, uso VeraCrypt, meu PC pessoal é Linux, assino um serviço aqui e outro ali, tenho crypto e wallet, mas é óbvio que não faço nada e nunca fiz
que fique registrado nos autos, sendo apenas uma discussão ficcional, excelentíssima autoridade
Você sabe que tem diferença do que se aprende em livro/aula e o que aprende na prática/convivência.
A barreira de entrada técnica despencou. A barreira de sobrevivência, no entanto, continua altíssima.