Um dia, ao retornar do trabalho na lavoura, Arborius se depara com uma cena em relação à qual talvez sequer pudesse imaginar a possibilidade de tal cenário pertencer aos seus mais tormentosos pesadelos...
Naquele dia os homens da comunidade haviam zarpado para uma grande pescaria e Arborius considerou ser mais útil lavrar a terra, uma vez que os pequenos barcos estavam lotados.
Mas no centro da aldeia, estavam Mulheres, idosos e crianças do vilarejo, apavorados, cercados por fluxos de lava que emergiam do subsolo como serpentes incandescentes...
De pé, contemplando a cena, em locais diferentes ao redor, como se estivessem se divertindo com o terror estampado nos rostos daquele grupo de indefesos e vulneráveis, três feiticeiros manipulavam a lava de modo ameaçador, fazendo menção de jogá-la sobre os infelizes aldeões...
Arborius percebe, então, que o feiticeiro mais afastado do círculo de lava que ameaçava os camponeses, como se supervisionasse, à distância, a perversa “brincadeira”, é o mesmo que combatera, anos atrás, no penhasco...
Ao perceber a chegada do discípulo de Dravos, o feiticeiro diz, com um sorriso de satisfação em meio a uma expressão de perversidade: __ Arborius... então eram verdadeiros os relatos que nossos batedores produziam... há um mago vivendo entre esses camponeses... e pelas descrições, tudo indicava que só poderia ser você. Não sei como conseguiu sobreviver à queda do penhasco, há tantos anos... De qualquer modo, desta vez me certificarei que não volte mais do “túmulo”...
__Por que fazem isso??? Indaga, indignado, Arborius. __Por que não me esquecem??? Nada mais tenho a ver com a guilda da lava! Tenho uma vida nova e diferente agora!
O feiticeiro responde: __Não existe isso de “vida nova” para aqueles que abandonam Demona. A penalidade para os desertores é a morte. Paira sobre você uma sentença de Mestre Zarabustor. E ela será cumprida hoje...
__D-Demona? Indaga, surpreso, Arborius.
__Sim. Esse se tornou o nome de nossa organização, ou guilda, se preferir. É também o nome de nosso complexo subterrâneo...
__Vocês se envolveram na guerra de Thais contra Ferumbras? Indaga, curioso, Arborius.
__Sim... Mestre Zarabustor ajudou Ferumbras. Mas aquele velho idiota não foi capaz de subjugar o Reino Thaiano. Doravante Demona promoverá seus próprios ataques aos reinos da superfície...
Tendo confirmado suas suspeitas, Arborius exclama: __Se é a mim que querem, deixem essas pessoas inocentes livres. Libertem-nas do círculo de lava!
_Oh, que nobre... Responde sarcasticamente o feiticeiro. __Mas você não tem condições de reivindicar nada. Vamos executar a sentença de Mestre Zarabustor e depois decidimos o que fazer com esses camponeses... talvez os usemos como exemplo para os demais que estão pescando... talvez possamos nos divertir com eles, após matá-lo...
Ao ouvir a resposta do feiticeiro, Arborius enche-se de ira e, decidido a reagir, apesar de há muito não usar seus poderes, começa a irradiar fortemente seu mana, de modo que uma auréola vermelha pode ser vista ao redor de seu corpo.
Um dos outros dois feiticeiros que acompanham o líder, ao ver isso, exclama: __M-mestre Dersimus...
Dersimus, no que é seguido pelos dois outros feiticeiros, começa a elevar o nível de seu mana e a irradiar uma forte e agressiva energia a partir de seu corpo.
Mas, ato contínuo, os dois seguidores de Dersimus são atingidos, por disparos de flechas, vindos de trás, em seus respectivos pescoços. As flechas atravessam suas curvaturas cervicais, fazendo com que as pontas dos projéteis apareçam nas gargantas. Os dois feiticeiros cospem e expelem muito sangue pela boca, sofrem enormes convulsões e caem mortos no solo.
Dersimus, surpreso, volta-se para trás e só tem tempo de ver uma amazona cavalgando rápido em sua direção e trespassar-lhe o tórax com uma lança, erguendo-o do solo e disparando com seu cavalo na direção de um dos casebres mais próximos, na aldeia. Dersimus é cravado pela lança na parede do casebre e, como seus dois auxiliares, expele grande quantidade de sangue pela boca, antes de sofrer fortes convulsões e baixar a cabeça, morto e pendurado à parede. Seu algoz é, simplesmente, Ingrid.
Um comando de amazonas, seguindo Ingrid, irrompe na aldeia, inclusive as arqueiras que haviam abatido os dois feiticeiros sob as ordens de Dersimus, além de alguns adolescentes que conseguiram se evadir, quando da chegada dos três warlocks de Demona e assim alertar as amazonas do acampamento a oeste.
Arborius, ante o desfecho do que parecia ser um final trágico para ele e para os habitantes do vilarejo, cai de joelhos aliviando a tensão e dissipando grande parte da forte energia que emanava de seu mana, uma vez que o combate contra os três warlocks acabara por não acontecer. Em seguida, levantando-se, desfaz o fluxo de lava, produzido pelos feiticeiros e que prendia os aldeões. Grande parte dos camponeses corre para Arborius, abraçando-o e agradecendo.
Outros aldeões vão cumprimentar as amazonas salvadoras, como também os adolescentes que conseguiram alertar as guerreiras.
Ingrid se aproxima de Arborius e diz: __Parece que você não nos contou toda a verdade a seu respeito...
Arborius, constrangido, reconhece que não fora totalmente honesto, quando narrou seu passado, a fim de ser aceito pela comunidade da aldeia. Então se põe a contar tudo o que ocorrera em sua vida pregressa e que havia omitido, anteriormente... sua origem thaiana... os acontecimentos relativos à antiga guilda da lava... a morte de seu mestre e de outros na sublevação de Zarabustor... a perseguição dos Warlocks sob a liderança de Dersimus... o combate travado no penhasco...
Após o relato, ou confissão, Ingrid e as amazonas dirigiram a Arborius olhares severos, não muito dispostas a relevar, por parte do mago, as omissões em relação a fatos importantes de seu passado. Mas Arborius já havia, com o passar dos anos, conquistado o respeito e o afeto dos aldeões que não se importaram muito com o fato do mago não ter contado tudo a respeito de sua vida pregressa. As amazonas, diante disso, cedem e abrem mão de impor qualquer pena ou censura sobre Arborius; ainda mais, no caso específico de Ingrid, que nutre uma espécie de gratidão por Arborius ter cuidado de sua mãe, Maissa.
Mas Arborius julga que seu tempo como habitante da aldeia cumpriu um ciclo agora já esgotado. O mago resgata em sua mente os pensamentos e as ideias relativas aos antigos fundadores da guilda da lava: Alawar e Gesnar. Sua antiga intenção de procurá-los e falar a respeito da revolta de Zarabustor, caso ainda estejam, evidentemente, vivos. Além do mais, pensa Arborius, muito provavelmente Zarabustor, após tomar conhecimento da morte de Dersimus, enviará outros warlocks em seu encalço, o que poderá, mais uma vez, colocar em risco a vida e a segurança dos habitantes do vilarejo.
O discípulo de Dravos decide, então, partir, não sem a forte oposição dos habitantes da comunidade, pelos quais Arborius é considerado uma espécie de patriarca ou conselheiro-mor, praticamente um sucessor de Maissa. Mas a decisão está tomada e, após uma longa e calorosa despedida, tanto em relação aos aldeões como também em relação às guerreiras de Ingrid, Arborius, portando um alforje e um cajado, empreende nova jornada, desta vez a procura de Alawar e Gesnar, os velhos companheiros de Benicio e cofundadores da antiga guilda da lava, hoje conhecida como... Demona.