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A neve já havia cessado e, perto do mar, aos poucos sumia do chão. Em uma casa mais isolada, próxima a praia, dois tróllars ameaçavam um velho pescador e sua esposa idosa e cega, enquanto um outro, que até então estava escondido ensacava os peixes e carnes que eles haviam deixados do lado de fora para secar. Naquele lugar, provavelmente ninguém da Guarda Pacificadora, responsável pela ordem na cidade, iria ouvir o chamado. Lug limitou-se a olhar na direção da casa com um olhar bovino-ele não era muito afeto a brigas e certamente não iria lá fora pedir para que os perversos seres devolvessem o que haviam roubado. Os tróllars zombavam dos velhos desesperados quando diante deles apareceu uma pessoa armada com uma belíssima e imponente lança, enfeitada de pedras brihantes, conchas e plumas coloridas. Os que não estavam ocupados no peixes logo cobiçaram aquela arma impressionante. E, como eram três contra um, o otimismo e a confiança deles estavam altos. Sorriram. Levantaram suas pesadas clavas de madeira ossuda. Aproximaram-se da vítima. Se arrependeriam nos próximos minutos: não poderiam jamais imaginar quem era a pessoa na direção da qual avançavam...
Shirà pôde ouvir o velho pescador que vivia naquela casa isolada, mas não distante da dela. Sabia que ele não teria força contra os três fortes tróllars, esses humanóides de feições monstruoras. Costumam ter o cabelo avermelhado, que parte da cabeça até o meio das costas, como uma crina de cavalo. Andam sempre com o torso nu e uma tanga feita de pedaços de couro ou pano apodrecidos e geralmente cheios de pulgas e outros parasitas. A pele, de um marrom forte, mais se assemelha a um couro duro e áspero. Têm olhos pequenos e dentes salientes. Não costumam ser muito altos mas têm o corpo massudo e robusto, sendo mais fortes e perigosos do que parecem. Shirà não perdeu tempo. Cobriu-se com uma túnica para proteger-se do frio e, de um compartimento um tanto camuflado em sua casa, tirou a Vrýgherdsámsh'r, lança imponente que passou de geração em geração na sua família... Abriu a porta e avançou a passos largos em direção aos monstros.
Quem via Shirà se encantava com sua beleza delicada. Poucos sabiam e muitos outros recusavam-se a acreditar que naquela mulher, que mais parecia saída de alguma fábula, havia um lado preparado para a guerra. Era simples: não havia em Othialla; e talvez em nenhum povoado fyr quem usasse uma lança tão bem quanto ela. Em suas mãos, a pavorosa Vrýgherdsámsh'r não era senão uma extensão de seu corpo. Pobres tróllars... O primeiro avançou sobre a mulher e a lança chocou-se com a clava. Com um movimento circular, o tróllar foi desarmado e afastado com um chute. Sua clava estava loge demais para ser-lhe útil novamente. Um dos dois acertou Shirà, derrubando-a no chão, causando um ferimento em seu braço. Mencionei que o estupro era uma atividade recorrente entre eles? Pois era! E Shirà era linda. Façam a equação. O tróllar desarmado aproximou-se da mulher de aparência frágil, com o fito de imobilizar a lança, tornando-a presa fácil. Grande erro. Com um movimento gracioso, ela girou a cortante lâmina, destroçando a barriga do monstro que, desesperado, viu suas tripas serem lentamente espalhadas por onde passasse. Sua morte não tardou muito. Em um salto ágil, Shirà levantou-se. Como se nada tivesse acontecido. Os dois outros tróllars estavam furiosos. Partiram com tudo pra cima de Shirà. Com sua lança, ela logrou defender dois golpes ao mesmo tempo. Dessa vez, novamente com um rápido movimento circular, ela levou a melhor, e um tróllar teve sua mão decepada - caiu no chão junto com a clava. Nisso, o outro tróllar ainda inteiro atacou Shirà nas pernas, tentando derrubá-la novamente. E conseguiu! Subiu em cima dela, pisando-a. Tentou amassar sua cabeça com um golpe de clava fatal, mas Shirà conseguiu desviar. Com isso, desequilibrou a desengonçada criarura e soltou-se. Soltou seu braço que empunhava a Vrýgherdsámsh'r. O tróllar não viu o que aconteceu exatamente, mas no momento seguinte estava impalado. O último tróllar, agonizando por conta da mão perdida, rosnou e foi embora apreensivo. Primeiro encarando a improvável guerreira, depois, correndo e sumindo no mato.
Serena, Shirà olhou e sorriu para o anoso casal atônito. A neve voltou a cair e a mulher com sangue de tróllar na lança e no corpo voltou para casa enquanto o sol anunciava a sua despedida.
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Nomes que aparecem nesse capítulo:
- Vrýgherdsámsh'r: Lança confeccionada pelos antepassados de Shirà. Era feita com esmero, no tradicional estilo sámsh'r: lanças belíssimas geralmente ornamentadas com pedras, gravuras entre outros. Possuem uma lâmina cortante em um pólo e uma ponta perfurante no oposto. A empunhada por Shirà chamava atenção por sua cor prateada e as pedras azuis e vermelhas em seu redor...