Obrigado à todos que comentaram! Fico feliz que tenham gostado da escrita, eu queria saber se estava boa mesmo (principalmente esse primeiro capítulo que é uma chatisse)
E eu não sabia que aqui só podia postar histórias referentes ao jogo. Se moverem para o literatura, é capaz que eu pare porque é muito parado lá. Vou ficar por aqui enquanto ninguem percebe...
Primeiro Livro
II - Fita Amarela
Loran demorou a assimilar a informação. Ele e Nataniel nunca foram muito próximos, mas de qualquer jeito... assassinado? Quem iria querer matar ele? Tudo bem, ele era um arrogante de primeira, mas nunca fez mal a ninguém. Fisicamente.
- Assassinato? – perguntou Taylor.
- Sim... – respondeu o guarda erguendo a sobrancelha – Toda a cidade já sabe...
- Mas, como foi isso? Quando? – indagou Loran
- Ontem, durante a festa... – respondeu o guarda - Como vocês não conseguem se lembrar? A namorada dele fez um escândalo quando viu...
Então foi a namorada de Nataniel, a mulher chorando ao pé da escada. Eles estavam juntos desde antes das eleições para governador da cidade.
– Um tal de... – o guarda tirou um bloquinho de dentro de um compartimento do cinto - É... Sr. Slougart... Kator Slougart ligou para a delegacia para nos chamar.
Kator Slougart é um punk que surgiu na cidade faz quatro anos, o mesmo tempo que Taylor e sua identidade também surgiram. Kator nunca fez muitas amizades pela cidade, por ter sido rotulado pelo seu visual. Mesmo Taylor, que poderia ser confundido com um ladrão, fez alguns amigos.
Recentemente, Slougart fora contratado para trabalhar de garçom em um bar da cidade. Bar, o qual, Loran era o dono.
- E ele ainda estava vivo? – perguntou Loran – Ainda tinha como salvá-lo?
- Sr... – começou o guarda.
- Loran Lewis.
- Sr. Lewis, Nataniel Straits foi encontrado em seu quarto já morto. Não tinha nenhuma possibilidade de sobrevivência.
- Como foi que ele morreu?
O guarda pôs um dos pés no primeiro degrau da escada e falou:
- Subam. – e começou a subir os degraus.
Taylor hesitou, mas Loran começou a subir instantaneamente. Queria saber o que houve com Nataniel. Como conseguiu se esquecer de algo tão importante como um assassinato?
- Então, vocês não se lembram de nada porque foram embora antes ou estavam bêbados como os outros? – perguntou o guarda enquanto subia com facilidade as escadas mesmo com o peso da armadura.
- Bêbados. – respondeu Taylor de trás de Loran.
- Que outros? – perguntou Loran.
- Algumas pessoas - começou o oficial já chegando ao final da escada e entrando em um pequeno corredor cheio de quadros pintados e tochas apagadas – foram embora da festa antes de uma hora da manhã e não ficaram bêbados. As que permaneceram após este horário, ficaram.
- Só para constar eu só bebi ponche e...
- Alguém derramou álcool no ponche. Todos que beberam ficaram bêbados. E os que beberam bebida também...
Andaram pelo corredor passando por algumas portas ornamentadas com números. Parecia até um hotel. No fim do corredor havia dois guardas em pé de pernas abertas e braços para trás encostados na parede do lado da última porta do corredor.
O guarda que os acompanhava chegou à frente da última porta, deu meia volta e falou:
- Vocês estão preparados para ver isso?
- Amigo, eu acordei na calçada da minha casa hoje. Não estava preparado para nada disso.
- Então devo avisá-los: a cena que vocês irão ver é muito pesada. Vocês podem escolher entre ver ou não. Um homem da perícia que veio ver teve que sair.
- Eu quero ver. – respondeu Taylor
- Eu vou tentar. – disse Loran
Taylor passou o seu longo braço para frente de Loran e passou sua frente andando até o quarto e entrando. Só entrando. Sem hesitação. Então Loran inspirou fundo e sentiu um pequeno odor doce entrar pelas suas narinas, mas ignorou e começou a andar para o quarto. Quando passou pelo guarda, este deu dois tapinhas no ombro dele.
Quando Loran entrou no quarto teve uma grande vertigem. O cheiro doce aumentou assustadoramente. Ele sentiu como se estivesse em pé numa tábua balançando com as ondas do mar.
Viu um corpo com camisa verde e calça preta jogado no meio do chão encharcado de sangue, o qual escorreu de um grande buraco entre os ombros do corpo decapitado. A parede a sua direita estava coberta de sangue e a parte de trás da porta estava salpicada de rosa escuro.
O mais surpreendente para Loran foi ver que os respingos sumiam perto da maçaneta da porta, e apareciam na parede atrás dele, correndo em direção à esquerda, até ver que havia outra mancha vermelha na parede esquerda, cercada de mais respingos rosa.
Baixou a visão até a cama de lençol branco com a cabeça de Nataniel pousada nela, exibindo um semblante de horror.
Cercando todo o quarto havia uma extensa fita amarela presa de lado a lado nas paredes escrito em preto:
Linha Polícia. Não Ultrapasse. Cena do Crime
Loran segurou-se na fita e curvou seu corpo por cima dela como se estivesse indo vomitar e ficou fitando o pequeno pedaço de chão onde não havia sangue.
- Vocês estão bem? – disse o guarda do lado de fora do quarto olhando para os dois.
- Taylor, que fitava o corpo sem nenhum tipo de emoção, respondeu:
- Estamos – e pôs a mão nas costas de Loran.
- Como isso aconteceu? – perguntou Loran.
- Bem, - começou a responder o guarda entrando no quarto e passando por baixo da fita amarela – A perícia disse que ele, provavelmente, estava sentado ali na escrivaninha – e apontou para uma escrivaninha em um canto do quarto perto do corpo.
- O assassino entrou no quarto – continuou o guarda – e chamou Nataniel. Ele levantou-se e caminhou até onde vocês estão – Loran virou o corpo e ficou olhando para o teto – O assassino pegou alguma arma, que acreditamos ter sido uma cimitarra, e cortou o pescoço dele na diagonal, de cima para baixo, em direção à direita – e apontou para a grande mancha de sangue na parede direita - A cabeça rolou e o corpo caiu morto.
- E os respingos no resto do quarto? - perguntou Loran olhando a parede acima da porta.
- Então, aqui – e apontou para uma parte do chão onde o sangue estava borrado – foi onde a cabeça caiu primeiro. Depois, acredita-se que o assassino pegou-a pelo cabelo, girou e atirou na outra parede.
- Mas pra que tudo isso? – perguntou Taylor.
- Não se sabe... pode ter sido demonstração de poder... difícil... nunca tivemos nada parecido com isso aqui.
- E ninguém viu um cara todo ensangüentado sair da festa? – indagou Loran.
- Ele conseguiu se limpar. Ninguém saiu nem com a mão mais vermelha do que devia... a namorada dele encontrou-o enquanto todos estavam no andar de baixo.
- E porque ele estava sozinho aqui?
- Isso não importa... o que importa é que ele foi morto e o assassino saiu daqui impune.
- E o que vocês pretendem fazer sobre isso? – perguntou Taylor.
- Estamos levando todos os convidados que estavam na festa depois de duas da manhã, que foi o horário que ele foi morto, para serem interrogados.
- Nós estamos incluídos nessa lista?
- Infelizmente.
---
Takeo Lyoto estava parado olhando a rua fria da janela de seu escritório. Seus braços estavam cruzados nas costas, as pernas estavam abertas e um olhar sério. Quando ele acordou às três da manhã, para ir à mansão de Nataniel Straits ver o morto, sabia que o dia ia ser cheio.
Lyoto era o delegado da cidade Frolar desde quando tinha acabado de atingir a maioridade, com dezessete anos. A cidade o escolheu para delegado e continua no cargo há vinte e sete anos. Agora está velho, cansado e prestes a se aposentar quando completasse quarenta e cinco no próximo ano.
Fechou os olhos asiáticos e passou os dedos na têmpora. Virou-se para o escritório bem arrumado. Pegou um papel com uma lista de nomes em sua mesa e dirigiu-se à porta. No caminho, puxou uma cadeira encostada na parede e pôs perto da sua mesa.
Abriu a porta e chamou um guarda no corredor. Lyoto entregou para ele a lista e disse:
- Mande-os entrar nessa ordem. Um de cada vez, entendido?
- Sim, Senhor. – respondeu o guarda. Este bateu continência, virou de costas e começou a andar pelo corredor.
O delegado fechou a porta e ligou um interruptor. Uma lâmpada amarela acendeu acima de sua mesa. Ele contornou a mesa, puxou sua própria cadeira perto da janela que estivera olhando, sentou-se e esperou o primeiro da lista.
---
- Luckas Riann. – leu o guarda na sala de espera
Todas as oito pessoas presentes na sala de espera da delegacia olharam para quem estava do seu lado. Um jovem nervoso de cabelo loiro levantou os olhos arregalados.
- Eu... eu posso ser o último? – gaguejou
- Não. – o guarda apontou para o corredor de onde veio – Não bata. Só entre.
Ele suspirou sabendo que sua tentativa fora em vão. Apoiou-se nos joelhos e levantou. Foi andando e tremendo pelo corredor que o guarda apontou e abriu a porta, que trazia presa uma placa dourada escrito em maiúsculas:
— DELEGADO LYOTO, TAKEO —
O cheiro de charuto chegou a seu nariz e ele tossiu.
- Entre. – veio a voz grave de Lyoto de dentro da sala.
Luckas podia ver sua silhueta iluminada pela forte luz que vinha do teto. Ele entrou na sala, fechando a porta atrás de si, e sentou-se na cadeira que o delegado pôs ali.
Lyoto tirou o charuto da boca e apagou em um cinzeiro a sua frente. Suspirou, organizou alguns papéis e afastou o cinzeiro para o lado.
- Então, luckas... – começou – como foi o seu dia?
- Muita dor de cabeça... Senhor. Lyoto, senhor.
- Pode responder normalmente, filho... – o delegado coçou seu pescoço pálido com alguns fios de barba e perguntou – você... Você conheceu o sr. Straits como?
- Eu não o conhecia bem. – respondeu Riann.
- E como foi chamado? - perguntou Lyoto levantando uma sobrancelha.
- Eu estava no “Tillos" e...
- O bar de Loran Lewis?
- Sim, sim... Ele até estava na festa... – disse balançando positivamente a cabeça – o Nataniel chegou ao bar e... Saiu distribuindo convites para a maioria.
- Quem não foi convidado? – indagou o delegado inclinando-se para frente.
- Bom... O próprio Loran... Mas... – e pareceu se lembrar de algo – o Loran não estava no bar naquele dia.
- Quem estava, então?
- Slougart. Kator Slougart, o garçom e faxineiro...
- O punk? Ele estava na festa?
- Estava, mas ficou recluso, como sempre.
- Certo... – murmurou Lyoto se recostando na cadeira e olhando um papel na sua frente – Mais uma pergunta, para você poder ir embora: Onde você estava quando o crime foi cometido?
- Eu não sei o horário certo, mas... eu fiquei quase uma hora na fila do banheiro esperando a Bianca sair...
- Ela saiu e fez o quê?
- Bom, eu entrei no banheiro, mas quando eu saí, ela estava chorando perto da escada, então eu... acho...
- Tudo bem. Obrigado pelo seu tempo, Luckas.
Riann levantou-se e, sem se despedir, virou as costas e foi embora da sala.
- Bianca Colar. – chamou o guarda quando Luckas passou por ele – E você, continue aguardando no seu lugar.
Uma mulher que estava com o rosto pousado sobre as mãos, e encoberta pelos cabelos negros, levantou o rosto pálido cheio de tristeza. Sua íris era dourada, mas o branco de seus olhos estava vermelho. Combinando isso com seu rosto inchado, podia-se perceber que estivera chorando muito.
Ela se levantou com as pernas bambas, respirou fundo soluçando e andou pelo corredor. Quando passou por Luckas, ele encostou a mão no seu braço.
Bianca encostou sua mão na porta no fim do corredor e empurrou, desanimada. O delegado Lyoto, ao vê-la, levantou e foi até ela. Abraçou-a por um minuto, então puxou a cadeira e indicou para que ela sentasse.
- Então, Bianca – começou Takeo – deve ter sido uma noite difícil para você, não é?
- Pare. – murmurou fraca – Acabe logo com isso e me deixe ir. O que você quer saber? Eu não o matei. É absurdo pensar nisso...
- Tenho que pensar em todos. Você é uma grande suspeita, sabe disso, não sabe?
- Como pode pensar nisso? – perguntou horrorizada.
- Você era a namorada do cara mais rico da cidade. Você o encontrou morto. Foi a única a ser vista saindo lá de cima.
- Eu estava no banheiro quando ele morreu. O Luckas pode comprovar...
- Ele já disse, mas eu não posso tomar como prova a palavra de vocês, entende?
- Não. Sinceramente, não.
- Olhe... – suspirou o delegado – O que você ficou fazendo no banheiro esse tempo todo?
- Não interessa! – exclamou Bianca, para a surpresa de Lyoto – Não importa o que eu estava fazendo no banheiro, porque ele estava sendo decapitado enquanto eu estava lá! E não é como se eu me transportasse magicamente de um lugar para o outro ou... ou existisse um túnel invisível do banheiro para o andar de cima! Eu NÃO matei o Nataniel e não vou responder mais nada!
- Você sabe das Leis do Interrogatório da cidade, não sabe? - perguntou Takeo calmamente.
- Sei. Pode me prender se quiser.
Takeo analisou bem o rosto de Bianca. Uma máscara de sofrimento, mas ainda sim linda com seus olhos dourados, sua pela branca e macia e seu cabelo negro curto e negro.
- Você sabe que se não acharmos o culpado você que irá ser presa, não é?
- Sei. Posso ir?
- Vá – respondeu.
Rapidamente, Bianca levantou-se da cadeira e foi embora batendo a porta.
---
Loran estava sentado em sua cadeira de madeira na sala de espera nervoso. Sabia que não havia feito nada, mas havia uma lei em Frolar que permite que a polícia prenda a pessoa que der menos informações, caso não encontrem o verdadeiro culpado.
À sua direita estava sentado Kator Slougart, o empregado do seu bar. O homem de cabelo negro espetado, com indícios de maquiagem no olho. Kator estava balançando a perna nervosamente enquanto mexia no seu nariz.
- Ei, ...? – disse subitamente Kator se inclinando totalmente para Loran, olhando-o com aqueles dois olhos azuis.
- Que foi, Kator?
- Eu... – começou passando a língua nos lábios com freqüência – Eu preciso de um favor.
- É um aumento? Adiantamento? – perguntou nervoso Loran – se for algo parecido, isso não é hora de...
- Não, não, chefe. – disse balançando as mãos negativamente - Eu acho que eles vão te chamar agora.
- Eu sei, Kator. Não notou que eu estou um pouco nervoso?
- Desculpe, mas eu preciso que você minta para mim lá dentro.
- Como? – exclamou Loran assustado olhando rápido para o guarda parado perto do corredor. Que droga você fez?
- Eu pus um pouco de vodka no ponche. – jogou o garçom
Loran hesitou. Não sabia dizer se o seu empregado estava brincando com ele ou se realmente foi ele quem embebedou todos na festa. Uma coisa era certa: de um jeito ou de outro ele ia ser despedido.
- Você... diga que está tentando me assustar!
- Não... – respondeu baixando o olhar – Eu fui colocar no meu copo, mas eu esbarrei e ele começou a derramar na bacia que estava o ponche. Quando eu percebi a garrafa já estava na metade!
- E agora você quer que eu minta? Como assim?
- Eles vão me considerar culpado ou algo assim se eu contar que fui eu!
- Ah, e eu não vou ser? – riu nervoso Loran.
- Você tem menos chances de ser preso! Veja, - ele se remexeu na cadeira, passou a língua no lábio e continuou – Eu sou novo na cidade, não falo com ninguém, todos os guardas da cidade me olham estranho pelo meu jeito... se eu falar que derrubei a vodka no ponche, vão me prender na hora! O senhor não... você nasceu aqui em Frolar, não foi?
- Não, eu vim e nasci em uma embarcação, mas cresci aqui.
- Eu não! Eu fui criado do outro lado do oceano em uma escola de freiras! Quando cheguei nem fui bem recebido!
- Não somos muito acolhedores com forasteiros...
- Me ajude, chefe! – implorou Slougart – Se o senhor for preso eu falo que fui eu, mas me ajude!
Loran estudou a expressão de Kator. Não viu nenhum assassino ali. Parecia mais uma criança idiota de maquiagem. Enquanto pensava, viu Bianca sair do corredor, a passos rápidos, e sair da delegacia. Loran e Kator pularam quando o guarda chamou:
- Loran Lewis!
Ambos se olharam por um segundo com olhos arregalados.
- Certo! Mas você está muito perto de ser demitido, Slougart! Muito perto! – disse Loran rápido enquanto se levantava.
- Obrigado, chefe! – murmurou Kator
Loran andou pelo corredor até a porta fechada. Girou a maçaneta sem bater e foi entrando. Quando percebeu o erro hesitou, mas o delegado Lyoto fez sinal para que entrasse.
- Olá, Loran... – disse ele – já faz um tempo.
- É, né... – respondeu Loran esfregando a palma da mão na calça, nervoso.
- Então, o que você lembra?
- Nada. Mesmo. Eu tive alguns flashes essa manhã, mas nem me lembrava de assassinato nenhum.
- Olha, estou cansado das perguntas idiotas e vou direto ao ponto com você, Lewis – e apontou o dedo para Loran – Eu acho que foi você que derramou a vodka no ponche e não vou descansar enquanto eu n...
- Fui eu mesmo.
Takeo hesitou.
- Como?
- Eu derrubei vodka no ponche. – disse calmo, mas logo emendou - Sem querer!
Takeo ficou parado olhando para Loran, assustado. Ele tinha a intuição de pegar o dono do bar na mentira ao comparar com outros depoimentos, porque tinha certeza de que fora ele ou o garçom, mas não achava que ele iria se entregar assim.
Loran apertou os lábios esperando que o delegado acreditasse. Pelo jeito que ele o olhava, percebeu que era exatamente o que ele esperava.
Esperto, Slougart. – pensou.
- E... – voltou Lyoto – E porque você fez isso?
- Já disse. – respondeu Loran, agora, com firmeza – Eu estava pondo um pouco no meu copo. Quando eu apoiei na mesa, perto da tigela do ponche, eu, acidentalmente, esbarrei com o cotovelo.
- E você espera que eu acredite nisso?
- Bom, espero. É a verdade, então...
Lyoto olhou mais um pouco para Loran e o dispensou.
- Até mais, delegado. – disse fazendo uma saudação e foi embora.
Fechou a porta atrás de si e andou pelo corredor escuro pelo qual havia passado antes. Quando o guarda mais na frente o viu já chamou:
- Taylor Sroll!
Dois braços gigantes saíram do repouso do chão, apoiaram-se na cadeira e Taylor levantou ajeitando a máscara. Andou, capengando e curvado, até o corredor. Quando passou pelo guarda disse:
- Esse teto é muito baixo.
O guarda resmungou alguma coisa. Loran riu quando passou pelo amigo e tentou tirar a máscara dele, como sempre, mas Taylor era rápido e segurou sua mão no ar.
- Não é dessa vez. – e continuou a andar pelo corredor.
Loran entrou na sala de espera e sentou-se no seu lugar ao lado de Kator, que parecia agitado.
- E aí, chefe? – perguntou quando viu Loran ao seu lado.
- Tudo certo. – disse Loran cruzando os dedos da mão sobre a barriga e inclinando-se para trás até sua cabeça tocar a parede – Você estava certo. Ele nem desconfiou de mim.
Encaixou a abertura do chapéu no rosto e fechou os olhos.
Acordou assustado com alguém dando dois tapas em sua perna. Tirou o chapéu da frente do rosto e olhou. Taylor já havia voltado e Kator estava indo. Provavelmente foi o empregado quem deu os dois tapas. Olhou para Taylor e perguntou:
- Ele é o último?
- Não, não. – respondeu o gigante – Acabei de voltar. Ele é o próximo.
- Quem falta?
- O João... Franco... e o... – disse olhando em volta. Quando viu quem procurava, mesmo que não visse seu rosto, Loran percebeu que ele ficou abatido – Ah não... – murmurou – não.
Loran virou o olhar para onde Taylor fitava. Quando viu a pessoa que estava sentada ao lado de seu amigo João, percebeu a lamentação do amigo. Era Fineas “Risonho” Pilgar, o irmão mais velho deficiente de João. Ele conseguia fazer tudo, mas em situações de desespero, sua musculação facial retesava e ele não conseguia falar. Ele apenas ficava com um sorriso débil no rosto e podia durar por dias.
Fineas estava de cabeça baixa e João estava curvado falando com ele, segurando sua mão. A bochecha de Fineas já estava tremendo. João olhou para o lado desesperado e viu Loran, que deu um sorriso encorajador para o amigo.
Na sala do interrogatório, Lyoto falava sério com Kator.
- Eu quero saber se foi você que derramou a bebida no ponche!
- Mas o meu chefe acabou de dizer que...
- Não interessa o que seu chefe disse. Ele está te defendendo, eu senti isso!
- Escuta! – exclamou Kator dando um soco na mesa – Você acha que fui eu quem matou o Nataniel, não é?
- Eu suspeito de você!
- É só por causa do meu jeito? Eu nem conhecia ele! Eu não conheço quase ninguém e eu moro aqui já faz três anos!
- E porque ele te chamou?
- Eu não sei! – gritou – Eu estava cuidando do bar, ele chegou com alguns convites e distribuiu! Pergunta para... – e fechou os olhos com força pensando em quem estava no bar – Pergunta para o Luckas! Ele recebeu o convite lá!
- Então o que você fez a festa toda, Slougart, já que diz que não conhece ninguém?
- Eu disse quase ninguém.
- Então quem?
- Jean Nylls. Eu conversei a festa toda com ele. Estávamos sentados em uma mesa que fica na sala. Em certo momento, ele virou e saiu correndo da festa.
- Por quê? Isso foi que horas?
- Um pouco antes da Bianca achar ele.
- Então... ele já estava morto, no horário?
- Acredito que sim.
Takeo virou-se para a janela e ficou parado ali.
- Pode ir, Slougart.
Kator, que já estava em pé, tirou a cadeira da sua frente, fazendo barulho e saiu da sala.
- Franco Lyoto. – chamou o guarda
O garoto com traços asiáticos, idênticos ao do pai levantou de sua cadeira, mas o guarda continuou:
- O delegado Lyoto, disse que já interrogou você em casa. Você pode ir, se desejar.
- Obrigado. – disse Franco fazendo uma saudação e saindo da sala
Todos da sala acompanharam o único filho do delegado sair da delegacia sem ser interrogado. Kator chegou mais perto de Loran e murmurou:
- Aposto que foi ele quem matou o Nataniel e o pai está encobrindo ele para não ficar mal.
Loran só assentiu com a cabeça só para a conversa não se estender. Já conhecia o delegado Lyoto e não acreditava que ele faria algo assim. Ele sempre teve a fama de ser honesto e bom em seu trabalho, além de ser um dos anciões de Frolar. Sua família foi uma das primeiras a povoar a ilha.
- João Pilgar. – chamou o guarda
Fineas ergueu a cabeça rapidamente para o irmão. Seus olhos mostravam desespero, mas sua boca estava com um sorriso de orelha a orelha. João suspirou olhando para o irmão e com determinação, levantou-se e foi andando pelo corredor.
Abriu a porta da sala do delegado com a palma da mão aberta já gritando:
- Você não pode interrogar o meu irmão!
- Como é, senhor Pilgar? – perguntou Lyoto virando as costas para a janela com uma expressão séria.
- Eu não vou deixar você interrogar o meu irmão. – repetiu – Você sabe da condição dele!
- Senhor Pilgar, eu não posso deixar de interrogar alguém.
- E o seu filho?
- SENHOR PILGAR! – berrou o delegado – Sente-se, agora!
João puxou a cadeira e sentou-se.
- Agora fique calmo.
- Eu estou calmo. – bufou João.
- Agora, com calma, me diga o que você se lembra da festa.
- Eu levei o meu vídeo-game. Eu e o Loran jogamos a noite toda. Eu lembro perfeitamente, eu não bebi o ponche.
- Bom, bom.
- Meu irmão estava sentado em uma poltrona ao nosso lado. Não sei dizer o que os outros estavam fazendo, pois estava prestando atenção no jogo. Só tirei minha atenção dali quando ouvi o grito da Bianca no andar de cima.
- Certo. Mais alguma coisa? Viu algo suspeito?
- Na verdade vi... uma hora o Loran deu um pause no jogo para pegar mais ponche. Quando eu me virei, vi Jean Nylls sair correndo porta afora.
- Ok, pode ir, senhor Pilgar.
- E o meu irmão? – perguntou João apertando o braço da cadeira.
- Eu disse que você pode se retirar, senhor Pilgar.
João levantou-se e saiu. Takeo esperou alguns segundos em sua mesa e também saiu. Andou pelo corredor e viu João falando com o guarda. Então, o próprio delegado, chamou:
- Fineas Pilgar!
João virou-se para Lyoto com os olhos arregalados. Lyoto indicou João para o guarda com a cabeça e o guarda segurou o braço do irmão Pilgar mais novo e o puxou para fora da sala de espera, mesmo que com protestos e chutes de João.
- Venha, Fineas. – chamou Takeo indicando o corredor para ele
Fineas levantou tremendo e foi conduzido pelo corredor. Loran e Taylor assistiam à cena horrorizados.
Takeo abriu a porta de sua sala para Fineas e esperou ele passar. Indicou a cadeira para ele e contornou a sua mesa.
- Então, Fineas... – começou – Está nervoso?
Fineas abaixou a cabeço franzindo o cenho e fazendo um bico com a boca.
- Escute, eu preciso de alguma informação sua. – continuou Takeo – Você pode simplesmente me dizer o que fez ou...
O bico de Fineas estava tremendo. Às vezes ele se abria, mas com esforço ele voltava a fechar e tremer. Takeo suspirou.
- Fineas, você sabe o que eu terei que fazer se você não falar nada, não é?
A boca do irmão Pilgar mais velho tremia cada vez mais. Fineas levou a mão à boca, certa hora.
- Fineas, eu vou ter que perguntar, então! – exclamou Takeo impaciente. – Você matou Nataniel Straits?
A boca de Fineas ficou descontrolada. Ele tirou as duas mãos da frente e sua boca se abriu em um sorriso. Seus dentes eram brancos e certos.
Takeo suspirou.
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