Sem Título
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Os feixes de luz invadiam meu quarto, indicando-me o começo de um novo dia. Não era uma mansão, mas era aconchegante. As paredes eram de madeira e o aposento possuía alguns móveis, como um criado-mudo, um fogão, uma mesa e cadeiras, uma cama e um velho baú, que continha antigos troféus e utensílios domésticos. Pus-me de pé, encaminhei-me ao baú e vesti as únicas peças de roupas que ali estavam. Após isso, me encaminhei para minha loja, um modo para sobreviver quando demônios tornavam-se intragáveis. Algum tempo depois, um freguês adentrou e dirigiu-se a mim:
— Olá, Gorn!
— Bom dia, nobre cavaleiro. Estaria interessado em um de meus produtos? Eu vendo cordas, pás, tochas, mochilas e utensílios em geral.
— Na verdade, não. Estou aqui para lhe falar sobre algo de seu interesse. Baxter está na pista para a Excalibug novamente.
Senti como se alguém tivesse me dado uma panelada na cabeça. Baxter, meu amigo e companheiro de muitas aventuras, procurando pela espada de meus sonhos, sem ao menos avisar-me? Não podia ser, aquele desgraçado estava brincando comigo. Todavia, dispensei o sujeito e fui em direção ao palácio real, na esperança de encontrar um sorridente Baxter acenando-me. Infelizmente, não foi bem isso que achei.
Outro guarda, corpulento, de cabelos crespos, andava de um lado para o outro. Assim que me aproximei, um par de olhos negros penetrantes me olhou. E não só me olhou, me avaliou. Senti-me como se estivesse nu, no meio de uma multidão. Mas mantive a postura. Olhei-o com superioridade e disse:
— Saudações, guerreiro. Poderia me informar onde está o antigo guarda, Baxter? Preciso falar com ele urgentemente.
Fiz força para não demonstrar o medo que tomara conta de mim. Mantive a voz e o olhar firmes. Ele retrucou:
— Não faço idéia de onde ele esteja e nem diria soubesse. Fui convocado ontem pelo Rei e os motivos pelos quais Baxter foi demitido eu não faço ideia.
Surpreendi-me. Baxter era um dos soldados mais devotados e competentes.
— E por que ele foi demitido?
Assim que enunciei a frase, arrependi-me. Ele deu uma risadinha e disse:
— Com certeza estava ocupado demais mandando bilhetinhos e flores para seus companheiros.
A afirmação dele fez meu sangue gelar de raiva. Desembainhei minha espada e me preparei para lutar. Ele não mexeu um músculo se quer.
— Acha mesmo que lutarei com um velho todo quebrado?
Deu as costas para mim, rindo, continuando a andar pelos arredores. Senti-me humilhado, desonrado e ridículo. Percebi a besteira que tinha feito e guardei minha espada.
O mundo de Tibia não era mais igual ao de antigamente. A honra e o respeito haviam sido substituídos pela covardia e desonestidade. Receei que meu velho amigo Baxter tivesse seguido este caminho.
Thais sempre fora uma cidade modelo. As árvores eram bem cuidadas e o gramado era tão verde quanto a mais brilhante esmeralda. As ruas eram pavimentadas de modo excepcional e sem lixos. Fui, então, à casa de Baxter. Era uma casa bonita, digna de um guerreiro da corte. Devia ter uns 300sqm² e três andares. Ela era muito bem cuidada, afinal, Baxter nunca tinha sido relaxado. Durante o trajeto, pensava em duas possibilidades: ou tinha sido um idiota por ter desconfiado dele ou ele me traiu e armou uma nova expedição para procurar a Excalibug.
Chegando lá, meu coração bateu mais forte do que nunca. Um vulto estava agachado, cuidando das plantas. Aproximei-me do vulto e perguntei-lhe:
— Baxter?
O vulto virou-se para mim e sorriu. Ele levantou-se e cumprimentou-me.
— Gorn? O que faz aqui? Te devo dinheiro?
Quase chorei. Soltei todo o ar em meus pulmões, sorrindo largamente. E então lhe disse:
— Não, me desculpe por aparecer tão de repente. É que algum desocupado apareceu na minha loja para dizer que você estava atrás da Excalibug!
— Deve ter sido o Bozo. Ele disse algo sobre “fazer uma pegadinha com a sua demissão”.
Quando ele disse isso, sua cara se fechou. Todos sabiam que Baxter não partilhava da alegria corrosiva de Bozo.
— Mas qual foi o motivo da demissão?
— Na verdade, me aposentei. O Rei me ofereceu a aposentadoria, afinal, eu já estou velho. Não tenho mais os mesmos reflexos de antigamente.
— Mas e quanto a Excalibug? Descobriu algo novo sobre ela?
Perguntei isso esperando uma resposta afirmativa. Eu estava ansioso para mais uma pista. Uma que fosse. Apenas para ter a oportunidade de buscá-la de novo.
— Na verdade, não. Todos com quem falei disseram ser apenas um mito.
Quando ele disse-me isso, meu ânimo murchou. Afinal, eu já estava idoso. Ir procurar uma espada na velhice era insanidade, mas não cedi. Eu queria ter o prazer da aventura novamente.
— E que tal uma nova expedição?
Ele me olhou assustado. Percebi que ele não queria me contrariar.
— Não sei, Gorn. Já não somos mais tão jovens.
— Entretanto, nossa sabedoria aumentou. Já faz algum tempo desde a última expedição.
Percebi que ele não estava colocando muita fé na minha idéia maluca. Mas eu tinha essa vontade. Não queria morrer sem tentar encontrá-la pela última vez. Talvez ele tenha percebido isso, pois algo em seu olhar mudou. Um brilho que eu não via há muito tempo surgiu e a postura dele tornou-se a de um guerreiro preparando-se para uma guerra. Então, ele me confirmou:
— Tudo bem. Não temos mais tanto tempo nessas terras. Melhor aproveitar enquanto ainda temos dinheiro.
Combinamos que iríamos no próximo entardecer. Ele entrou em sua casa e trancou-se lá. Eu me dirigi à minha e, chegando nela, abri o velho baú. Nele, peguei tudo que julguei importante: mapas, livros, poções, runas e minha velha armadura. Deixei tudo separado, em cima da mesa de imbuia. Deitei-me na cama e adormeci.
Trovões me acordaram. Os grossos pingos de chuva martelavam o telhado de minha casa. Não me levantei de imediato. Fiquei refletindo um pouco e decidi por onde começar: Avar Tar, o grande herói de Edron. Falaríamos com ele primeiro.
Tateei em busca dos meus trajes especiais. Entre eles, estavam: uma armadura, feita de ouro, ganhada de um poderoso mago. Um elmo, simples, feito de um metal comum. Um escudo cedido por um vigoroso dragão. Um par de calças, feitas de um metal comum também. Um par de botas, que me tornavam mais veloz e minha velha espada, que parecia emitir luz própria, de tão brilhante. Após vestido, fui em direção à Taverna de Frodo.
A Taverna de Frodo não ficava longe de minha loja. Tudo se resolvia lá, com uma caneca de rum e petiscos de carne de dragão. Adentrei o ambiente, que por sinal era medonho, e dirigi-me ao Frodo:
— Bom dia, Frodo. Como vão as coisas por aqui?
- Meu bom e velho Gorn, é sempre bom te ver. Nada de anormal, mas entre um rum e outro aparecem sujeitos estranhos. Por exemplo, ontem à noite, um herói de Edron apareceu por aqui. Não parava de contar seus feitos e de exibir sua espada.
— E ele disse para onde ia? – Perguntei com interesse.
— Na verdade, não. Mas os guardas passaram aqui depois para tomar um refresco e contaram que ele seguiu em direção a Venore.
Fiquei receoso e achei melhor não arriscar. Rumei para a casa de Baxter e contei-lhe da possível busca de Avar Tar e da urgência da partida. Ele concordou e partimos no mesmo instante. Porém, não sem antes de fazer uma prece para Banor. Dirigimo-nos para o templo, onde a sacerdotisa Lynda orava e pedimos proteção divina.
O caminho de Thais para Venore era muito belo, porém, eu não estava atento. Concentrava-me apenas na estrada e nada mais. Meu companheiro estava igualmente mudo. As árvores, montanhas e rios eram belíssimos. A água era cristalina, com diversos peixes nadando, as árvores eram, na maioria, frutíferas e frondosas e as montanhas eram imponentes e ameaçadoras.
Chegamos ao deserto de Jakundaf no entardecer. Não era um lugar agradável para passar a noite, afinal, muitos segredos encontravam-se debaixo daquele solo arenoso. Baxter me olhou e eu meneei a cabeça afirmativamente. Continuamos a jornada noite adentro.
O deserto nos castigou muito. As tempestades eram freqüentes e feras também apareciam. Porém, quase ao amanhecer, conseguimos sair do deserto e, após andar um bom pedaço, chegamos ao nosso destino final: As Planícies da Destruição.
O lugar em si era horrível. Defuntos apodrecendo, urubus comendo as carniças e um cheiro muito desagradável. Mas, no fundo, me causava uma dor profunda em saber que esta poderia ser minha última visita. Agüentei o tranco e prossegui. Não demorou muito para encontrarmos uma tenda armada em um local seguro, com um sujeito dormindo dentro. Aproximamo-nos e constatamos o óbvio: Era Avar Tar.
Com um cutucão, Baxter acordou-lhe. Ele virou-se, mal-humorado e resmungou:
— Quem ousa me acordar?
— Bom dia, Avar Tar. Acho que estamos aqui com o mesmo propósito. – Respondi-lhe.
— Mas de que diabos está falando?
— A Excalibug.
Os olhos dele arregalaram-se. Com certeza, ele não esperava por essa resposta. Mesmo assim, recuperou a postura e disse:
— Tudo bem, nobres pupilos. Aceito a tarefa de ensinar-vos tudo que sei. Peço, humildemente, que não me incomodem enquanto medito.
Dito isso, ele nos expulsou de sua tenda. Algum tempo depois, saiu de lá vestido como de costume e nos disse:
— Vão indo. Vocês conhecem o caminho, eu estarei aqui para protegê-los de qualquer perigo.
Quase ri dele, mas me contive. Afinal, ele poderia vir a ser útil.
Eu não me lembrava do caminho. Dei o mapa para Baxter e ele, rapidamente, localizou-se e nos levou a uma caverna oculta. Diferentemente do que muitos pensavam, nós havíamos descoberto que se a Excalibug de fato existisse, não estaria nos Poços do Inferno. A caverna oculta havia sido cavada por nós mesmos, há muito tempo atrás.
Não preciso dizer que nada aconteceu. Cavamos, cavamos e... Nada. Ou devo dizer que fiquei com uma terrível dor nas costas?
Enfim, vocês acharam mesmo que nós iríamos encontrá-la? Leram essas memórias na esperança de encontrar mais um clichê escrito por um velho comerciante de Thais?
Perdoem-me. Às vezes, sinceridade demais acaba tornando-se agressividade. Avar Tar inventou uma história fabulosa cheia de demônios, Baxter continuou cuidando de suas plantas e eu continuei fornecendo tochas para recém chegados.
• • •
Observações do escritor:
— Grande parte dos acontecimentos narrados nestas memórias são verídicos, retirados de diálogos reais com NPC’s.
— Os lugares (com exceção da última caverna) também são reais.
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