Os Áureos Campos de Centeio
Manteiga


- Está quase pronto. – Observou em distração o velho e rabugento Lenhard. Sua pele banhada em tonalidades de um ocre fosco e com total enrugamento suava rios salgados por todos os poros possíveis de se imaginar. O calor de quase quarenta graus, de um bizarro modo antitético, não era empecilho para a tarefa desempenhada por aqueles homens velhos de quem ninguém se lembraria na hora da morte.
- Tenho de concordar. – Falou uma outra voz mais atrás, e o velho constatou que era Gertrude. Sua melodiosa voz rouca de quem estava na casa dos sessenta anos não era ouvida por ele já há algum tempo, o que de certa forma fez aquele encontro valer a pena.
- Eu só queria estar em casa, cuidando dos meus filhos. Queria estar longe disso tudo... Mas este maldito espantalho tinha que nos reunir mais uma vez! – Acentuou Lenhard enquanto coçava com seus longos e sujos dedos o cavanhaque branco desgastado que possuía. Pequenas unidades de uma terra nociva ficaram impregnadas entre os fios curtos, provavelmente saídas das unhas do próprio.
- Não tente nos enganar Lenhard. Todos sabemos que você nunca criou ninguém. – Soou novamente a voz da mulher, desta vez muito mais áspera do que o velho se lembrava. – Minto... Talvez tenha criado alguma aberração.
Ela e os outros presentes mergulharam em gargalhadas fúnebres esmagadoras de ossos enquanto o velho bufava, passando suas nodosas mãos pelo objeto de trabalho do pequeno grupo. O altíssimo espantalho estava pregado em uma tora de madeira que fora cravada ali, no meio do campo.
- Isso deverá manter os corvos afastados por um bom tempo. – Disse ele finalmente afastando-se do boneco a fim de o observar melhor. Estava envolto em um sobretudo azulado que tapava-lhe quase todo o corpo, menos as pernas, que vestiam calças negras, e a cabeça, que estava escondida sob um chapéu roxo medonho. – Fizemos um ótimo trabalho com este, dessa vez. Ficou mais natural. – Ele deu um risinho debochado e se juntou aos demais: Gertrude e mais três homens.
- Acho que o modo com que foi concebido lhe dá esse tom sinistro tão apropriado. – Comentou um dos outros três velhos. Era obeso, usava roupas elegantes e tinha um monóculo no olho esquerdo. Seu cabelo lambido fazia um contraste estranho com os bigodes acentuados. – Não podíamos ter feito um trabalho melhor, imagino eu.
- Uma lástima que o inverno já esteja aí, não é? Tanto trabalho por tão pouco tempo... – Dessa vez quem falou foi um outro, baixo, calvo, com olhinhos miúdos e feios. – Mas lamento mais que esse trabalho não possa esperar. Confeccionar espantalhos é muito mais desafiador do que muita gente imagina.
- Você se faz de bobo, não é McLean?– Resmungou Gertrude chegando perto do espantalho e batendo um pouco de pó da manga que cobria o braço esquerdo. Examinou bem o boneco crucificado e abriu um largo sorriso desdentado. Os fios soltos de seu cabelo grisalho rodopiaram com o vento. Ela passou suas mãos pelos cereais ali plantados, que reluziam de um modo esplêndido perante o sol amarelado. – Nosso tesouro está aqui... Está nesses grãos. Não podemos deixar que os corvos consumam tudo pelo que lutamos para cultivar. Sabe bem disso. E é temporário.
- Você diz isso há vinte e dois anos, Gertrude. Fica difícil acreditar que um dia essa situação mudará.

- Devemos esperar. Muito se especula sobre nosso trabalho. As cicatrizes do que fizemos ainda estão abertas nessa cidade... – Ela fez uma pausa enquanto arrancava alguns grãos dourados e os deixava cair – O centeio ainda não está bom o suficiente. E este campo fica em minha propriedade. Eu devido quando fazermos a colheita.
- Eu sempre disse o que deveríamos ter feito. – Sibilou a voz cortante e áspera de Daurgh, o quinto e último integrante do cortejo. Ele era o mais alto dos cinco, o mais mal-vestido e o mais fedorento. Aproximou-se calmamente da lívida Gertrude, que parecia um vulcão em erupção. – Deveríamos ter entregue o Clark e ficado com o dinheiro. Te-lo gasto de começo, quando ainda valia a pena. Agora não está tão bom. É por isso que ainda guardamos tudo aqui.
- Fique calado! – Xingou a anciã enquanto olhava nervosamente para os lados, deixando os outros três homens trocarem idéias entre si. – O campo é denso o suficiente para que alguém esteja nos ouvindo. Quer nos condenar?
- Há! Que hilariante! Estamos colocando um espantalho em um campo de centeio! Aonde já se viu isso? Podíamos pelo menos ter usado um trigal! – Ele estava berrando. – Quem foi o imbecil que sugeriu essa palhaçada?
- Se me lembro bem – Interveio McLean, apaziguador como sempre. – Você não teve objeção alguma na época.
- Eu era um idiota. Todos éramos. – Acrescentou rapidamente enquanto passava os olhos pelos quatro companheiros. – Já era velho o suficiente para saber das coisas, mas eu era burro demais. Acho que a conseqüência do ato me fez amadurecer. Mas sempre achei que devíamos ter nos afastado dele e de tudo que ele fazia.
- Você tinha é medo de arriscar, infeliz. – Censurou-o Gertrude, ensandecida. – Sempre foi um medroso. Estava com medinho de ser descoberto não é? Suas putas não teriam gostado se soubessem que você era um ladrão, não é mesmo?
- Cale a boca sua mal-comida! – Berrou Daurgh, erguendo a mão para a velha. Parou-a de imediato, bufando e passando por ela, que o amaldiçoava com todas as palavras chulas que conhecia. Daurgh deu um empurrão no homem gordo e em Lenhard, aproximando-se do espantalho e erguendo sua face branca. Estava com os olhos verdes escancarados e a boca formava um arrepiante sorriso forçado por pregos. – Tanto trabalho por essa porcaria. Está até fedendo! Ah! Fedendo à morte! Eu disse que devíamos ter o perfumado, esfregado os grãos nele! Os corvos vão é voar em cima dessa porra! E me refiro aos corvos reais!
- Pois é melhor que seja assim. – Gertrude ressurgiu, mais ácida do que nunca. Os outros três já estavam longe, falando animadamente sobre qualquer coisa. – Se os corvos estiverem em cima, ninguém vai querer mesmo chegar perto. Você sabe como são esses caipiras supersticiosos.
- Somos todos tolos. – Disse McLean por fim, chegando perto dos dois velhos, com os outros integrantes do grupo seguindo-o de modo vagaroso. – O espantalho, o centeio, o roubo... Devíamos ter ouvido Daurgh... Clarck era um maldito, e por culpa dele estamos até hoje esperando. Quanto tempo faz que ele sumiu? O dinheiro nunca vai cair em nossas mãos! Vamos acabar com esse teatro ridículo e pegar as coisas que enterramos. Vamos entregar o Clark e esperar a recompensa. Não há mais o que fazer.
- Vai ficar bundão que nem esse maldito aqui? – Gertrude agora indicava Daurgh, que a fuzilava com os olhos quase escondido pelas pelancas.
- E o que você sugere então, senhora sabe-tudo? – Lenhard falou pela primeira vez após incontáveis minutos de discussão.
- Vamos esperar o inverno. E faremos a colheita. Não haverá nenhum metido para furtar centeio desta vez, garanto. – Ela olhou sombriamente para o espantalho sorridente, que fedia agora mais do que nunca. Ela teve a nítida impressão de ver um filete de sangue curto saindo de seu olho esquerdo. – Ele disse que escreveria no inverno... Sim... E então vamos vender o que roubamos. Repartimos o dinheiro e nunca mais vamos nos ver.

- Gertrude... Você nunca foi tola. Está esperando demais daquele desgraçado! Ele nos traiu! Nunca vai escrever! Ele levou o dinheiro, levou toda nossa esperança. Vinte e dois anos já se passaram. Esqueça-o. Vamos salvar as nossas peles.
- Desista Lenhard. – Rugiu Daurgh enquanto roia as unhas da mão direita. Ele olhou para o espantalho, assim como McLean e o gordo o faziam. – Ela está cega. Deixou a família toda morrer pra ficar com o Clarck. Mas ele a abandonou depois que roubamos aquela maldita vila. E Como você disse, ele nos traiu. Bem quanto íamos fazê-lo, mas contra o próprio.
- Feche-se seu imbecil! – Sibilou a velha com a expressão facial de uma naja. – Clarck fugiu para se salvar da polícia. Ele foi o único reconhecido... Mas ele vai voltar. Sabe que estamos com boa parte dos móveis daquele casarão, e que só vamos vender quando ele voltar.
- Sua velha burra. Vai esperar sentada. Achei que fosse a mais esperta de nós seis, mas parece que me enganei.
- Não há honra entre os ladrões... – Disse o gordo olhando para o solo. Era o mais calado de todos. Jamais se esquecera aquele outono vinte e dois anos atrás quando ele e os outros cinco roubaram a incendiaram uma pequena vila. Sempre fora da opinião de Daurgh, de que deviam ter entregue Clarck e fugir com o dinheiro, mas era covarde demais para admitir.
- Não... Clarck vai voltar. Embora realmente já faça muito tempo... – A voz viperina de Gertrude era agora um murmúrio introspectivo.

- Então reconhece que já esperamos demais. Não podemos ficar fazendo espantalhos para cada um que incursa aqui. Só estamos nos sujando mais e mais. E já deveríamos estar limpos. – Disse Lenhard, fitando o campo à sua esquerda pelo canto do olho.
Ouviu-se então o som característico do centeio sendo esmagado. Os cinco viraram-se na mesma direção, o nordeste. Houve uma movimentação no lugar aonde todos olhavam e então teve-se a certeza do que era. Gertrude simplesmente pegou um pequeno revólver do cinto de Lenhard e apontou na direção de onde viera o ruído, disparando. O som do tiro ecoou levemente, e os ruídos produzidos no campo cessaram. Os cinco se aproximaram e viram ali, caído no meio do campo, um garoto de aproximadamente doze anos, com um furo nas costas. Remexia-se fracamente, com o sangue manchando suas vestes e os olhos castanhos outrora cheios de esperança agora vazios de descaso.
- Vamos ter de fazer outro espantalho. – Observou a anciã. Lenhard a encarou perplexo com tamanha frieza. Baixou a cabeça e encarou a criança, imaginando-a pregada no meio da imensidão dourada. As palavras de Gertrude ecoaram em sua mente.

E faziam um mórbido sentido.