O Negro Destino de Marrom
Professor Girafales
Marrom, o pangaré, caminhava tranquilo pelo pasto, após os longos goles d'água que tomou no bebedouro. A grama estava verde, bem viva, após as chuvas da semana anterior. Foi de repente que Marrom se levantou sobre as patas anteriores, guinchando assustado. A cobra causadora do susto logo recuou, também assustada.
― Eita Marrom, não viu que sou eu? ― Disse a cobra.
― Ai Nádia, assim me mata do coração! Achei que era cobra malvada e não cobra amiga.
― Sabe que eu nem sou venenosa, e mesmo que fosse não iria nunca machucar um amigo.
Suspirando aliviado, Marrom perguntou:
― Mas então Nádia, o que tá fazendo aqui?
― Sabe como é né Marrom. Vim aqui visitar o gramado. Tá bonito, a chuva e o esterco de você e das vacas teve bom efeito.
― Pois é ... Eu vim aqui relaxar também, daqui a pouco vou levar o patrão lá no curral.
Algumas vezes por semana Marrom ia ao curral com seu patrão, para que este e os peões pudessem fazer os serviços da roça, como ordenhar o rebanho bovino. E lá vinha o patrão, nos seus quarenta e poucos anos parecia mais velho por causa da exposição as intempéries. Como sempre estava com a barba mal feita, fios grisalhos misturados aos fios negros. Usava um boné surrado com a propaganda de algum candidato a vereador, uma camisa xadrez e uma botina meio enlameada.
― Até mais Nádia, vou lá botar a cela e levar o patrão ao curral.
O patrão estendeu a mão e acariciou levemente seu cavalo predileto. Colocou nele o freio e com a corda o guiou até o barraco, onde o celou e terminou os preparativos para o passeio. Depois do córrego onde tinha sombra e água fresca, o curral era o local predileto de Marrom. Não pelo que podia fazer no curral em si, mas pelo caminho, no qual sempre via as bonitas éguas do fazendeiro vizinho.
Os dois, cavalo e cavaleiro então puseram-se a caminhar até o curral. Este não ficava muito longe. Havia somente dois pegadores no caminho, e entre eles o pasto no qual as vacas costumavam ficar se alimentando. Já afastados do barracão onde o cavalo foi celado, e da casa-sede do terreno, eles chegaram à primeira porteira. O cavaleiro não precisava descer para abri-la ou fecha-la. Bastava que o cavalo se posicionasse lateralmente para que ele fizesse o trabalho.
Os dois estavam agora no pasto estavam lá também todas as vacas. Surpreso, Marrom falou com uma delas, ainda com um pedaço de grama pendurado na boca:
― Ei Jurema, num era pra vocês estarem no curral?
― Nenhum peão veio buscar a gente, Marrom, hoje não é dia de tirar leite.
― Mas então porque eu estou indo lá com o patrão?
― Sei não Marrom... Quem tá lá é aquele peão novo, foi lá de trator...
― Eu hein...
E continuaram andando. Ao longe Marrom viu o motivo que lhe fazia ficar feliz sempre que precisava ir ao curral. Estavam ao lado da cerca, em outro terreno, 3 éguas:
― Oi Marrom, indo ao curral?
― Sim Amazona, é pra lá que vou. Estranho que as vacas não estão lá...
― Não?
Marrom sentiu uma leve chibatada no lombo. Era o patrão lhe apressando:
― Desculpa Amazona, tenho que ir.
Mais alguns minutos e eles estavam na porteira para o curral. Novamente o patrão a abriu e fechou de cima do cavalo, sem necessidade de descer.
Marrom viu o curral vazio, o chão sujo de bosta, e o trator parado no gramado ao lado de uma pequena goiabeira. "Porque o peão não veio no cavalo Damião?", "Porque só estou eu aqui?". As dúvidas povoavam a cabeça de Marrom, intrigado com tudo que estava acontecendo. Já dentro do curral, o seu dono desceu e o amarrou no cercado. Marrom continuava sem entender nada, quando viu o peão vindo em sua direção, um facão na mão. O dono e o peão começaram a conversar, enquanto o primeiro pegava uma garrafa com um líquido azul, que jogou em cima do facão. Com um pano que estava no bolso de sua jaqueta, o peão tirou o excesso de líquido do facão... E começou um momento inenarrável, o qual Marrom preferiria esquecer, mas do qual sempre se lembraria ao ver as éguas do vizinho. Ao olhar para elas novamente, nunca mais sentiria as emoções que antes sentida. Por mais que tentasse, não conseguia deixar de ficar indiferente.







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