Capítulo Sete
Atormentação


Dançava pelo ar fresco da manhã recém-chegada um aroma fétido carregado de morte. Trazia a perturbadora sensação de perigo inevitável, como se as Tropas das Sombras fossem saltar do meio da floresta a qualquer momento e invadir a cidade. Os moradores de Ab’Dendriel andavam pouco pelos campos e ruelas locais, olhando desconfiados para tudo que se movia ou respirava. Qualquer som ou vulto na escuridão podia ser uma ameaça, o que fez florescer entre os elfos o péssimo hábito de se preparar para atacar antes de perguntar.

Estavam todos reunindo-se perante o portão gigantesco. Eram meados das cinco horas da manhã. O sol pouco levantava-se no horizonte, mas mesmo assim sua presença era festejada com largos sorrisos, afinal ele não surgira no dia anterior. O vento frio começava a acalmar-se lentamente, e todas as nuvens que outrora habitaram o céu agora já haviam se dissipado. Havia um clima de esperança e de uma ânsia colossal entre todos os presentes. Em questão de pouco tempo abandonariam sua terra por um período de tempo que ninguém sabia dizer se seria curto ou longo.

Todos ali possuíam caixas e mais caixas que continham desde simples utensílios de cozinha básicos até extravagantes peças de vestuário. Os elfos não estavam deixando nada para trás. Havia algumas carroças de madeira com aparência impecável próximas à saída da cidade, sendo carregadas com os bens rapidamente pelos guardas. Todas as bagagens pesadas eram etiquetadas de acordo com os donos.

Sentada em um toco ralo e levemente putrefato, Angela observava toda a movimentação que era feita para aquela travessia continental com uma confusão mental já costumeira. Não sabia se admirava-os pelo ato insano ou se lhes desejava os pêsames. Apesar de a concentração da maioria dos exércitos do Condado do Norte estar se dando em Carlin, viajar pelas estradas comandadas pelas trevas ainda era perigoso. Ela sabia bem disso. Mas felizmente agora tudo está bem. Acordara já há quase duas horas e empenhara-se ao máximo para fazer sua poção. Como ela esperava, Faluae tinha todos os ingredientes para fazê-la, o que resultou em um rápido e eficaz trabalho em equipe. Dois elfos feiticeiros amigos de Faluae a ajudaram nas partes mais complicadas, embora ela soubesse que poderia fazer tudo sozinha. Só precisava misturar umas ervas com um pouco de água... Não havia mistério! O antídoto funcionara como o esperado, e ela já podia sentir sua energia mágica por todo o corpo.

E agora ela estava ali, parada melancolicamente observando toda aquela movimentação que lhe lembrava tanto o que vira em Venore alguns dias atrás. No dia em que perdera sua vida. Ouviu então o som de alguns passos serem dados na grama fofa perto dela. Ergueu a face e viu seu amigo elfo sentando-se no colchão verde ao seu lado. Ele sorria.

- É triste abandonar essa terra, mas sei que se não formos embora o Pentágono a destruirá. Prefiro vê-la triste e vazia do que cinza e mortuária. E sei que um dia voltarei a viver aqui como se nada tivesse acontecido.
- É, pode ser. – Disse ela emburrada. Brincou com a varinha que estava em seu colo e desviou levemente o olhar para sua mochila velha. – Onde está Zoroast?
- Na clareira. Quando lhe falei que os minotauros haviam partido ele ficou muito abalado mesmo... Acabou aceitando e creio que até preferiu assim, pois de outro modo teria vindo inutilmente até aqui, expondo-se ao ridículo. Deixei-o lá para pensar um pouco... Pobre coitado. – Ele fez um silêncio acolhedor que indicava claramente que não havia mais nada a ser dito sobre o assunto. Depois encarou-a com seus olhos verdes espectrais. – E você? Está taciturna demais. Duvido muito já a ter visto de modo tão depressivo.
- Não estou de bom humor hoje.
- Isso eu reparei. Aliás acredito que todo mundo já reparou. – Como se adivinhasse no que ela pensava, disse em seguida: - Não vai adiantar se culpar pelo que aconteceu a Wyda e muito menos ficar olhando o chão como se o mundo não estivesse desabando ao seu redor. Vai acabar cavando um fosso sombrio e se atirando dentro dele.

- E se for isso mesmo que eu estiver procurando? – Ela encarou-o longamente, tentando forçar um olhar triste e sem vida ao máximo, mesmo sabendo que não adiantaria.
- Eu a conheço a mais de um século, acho que tenho autoridade para falar. Você não é nem nunca foi assim Angela.
Ela soltou um risinho debochado e largou a varinha, que rolou do seu colo para o gramado.
- Então como é que eu sou? Estou tentando descobrir isso desde que saí de Venore, e até hoje não achei a resposta! Não sei se sou brava, se sou burra, feliz, imbecil, insensível ou fraca! Me diga Faluae, o todo-poderoso, quem eu sou?
As últimas palavras foram ditas tão alto que chamaram a atenção de alguns elfos próximos. Faluae pensou por algum tempo e encarou-a bem, como se a analisasse profundamente. Então falou com o mesmo tom calmo de sempre.

- Você é como um labirinto, no qual todas as paredes estão constantemente mudando. Você é um quebra-cabeça sem solução, onde sempre sobra uma peça sem encaixe. Você é como os camaleões que mudam sua cor para se adaptar ao ambiente ao seu redor. Você é a entidade mais misteriosa que eu já conheci. Acho mais fácil compreender a morte do que sua personalidade. – Ela fez silêncio e encarou-o de modo vazio. – E eu gosto de você assim. Eu quando falo com você nunca sei o que você está pensando, o que pretende fazer. Estar contigo é sempre uma aventura nova, na qual eu nunca sei se vou sair rindo ou chorando. Quando encontro-te não sei se vai cantarolar e saltitar por aí ou se vai traduzir um livro de setecentas páginas em uma tarde.

Os olhos dela começaram a marejar.
- Você é o apoio que toda construção precisa. Se estou necessitado de risos você os dá, se quero conselhos, idem. Se faço algo errado você habilmente me dá uma bronca, se eu acerto é a primeira a me dar os parabéns. És uma incógnita maravilhosa, um livro de páginas inacabadas. Quando leio você, nunca sei o que virá na linha seguinte. Mas acima de tudo isso, Angela, você é uma bruxa habilidosa, sábia, divertida e que nunca desanima ou deixa transparecer o que sente.
A essa altura ela já estava fungando, tentando disfarçar os olhos molhados com os cabelos ralos. Faluae ficou encarando-a até que ela secou as lágrimas.
- Eu... Eu tenho uma tempestade na cabeça! Não sei se devo me comportar como uma elfa ou como uma humana. Não sei o que fazer, o que dizer... Faluae, eu estou confusa como nunca estive antes. Eu estou com medo.

O elfo ficou em pé.
- Pois livre-se das amarras que te prendem. Solte-se dessa teia confusa imbecil que você mesma criou. Wyda está morta, está. Mas isso é passado. Não pode mudar isso. – Ele fez uma pausa. – O que você pode fazer é lutar para impedir que outras pessoas sintam o que você está sentindo agora. Evitar que os demais se metam no buraco onde você se meteu. E sabe como você faz isso? Se aliando à Unie.
O vento soprou forte, fazendo algumas árvores em um morro próximo dançaram e gritarem de dor. O sol começou a invadir os campos com sua imponência dourada.
- Que... Que é isso?
- A única esperança. É a união de todas as forças revolucionárias que combatem o Pentágono. Faz uns seis meses que se uniram de vez, criando uma sede secreta em Venore. E é justamente pra lá que estamos indo agora. Os elfos decidiram se unir de uma vez por todas à Causa. Temos um bom número de soldados, sendo eles humanos, elfos, trasgos e até minotauros. Toda manifestação de vida capaz de lutar está se unindo a nós. Mas precisamos de ajuda. Precisamos de gente capaz de destruir exércitos inteiros com apenas algumas palavras, ou nunca seremos capazes de vencer essa guerra. Angela, você é uma grande bruxa. Pode vingar-se pelo que fizeram a Wyda. Eu a ajudaria. Sou o diplomata mais conceituado da Unie.

- Pare de tentar me controlar com suas palavras afiadas como facas. Não vai me pegar nesse joguinho de versos. – Ela ficou em pé e ajuntou a varinha, parando então para encará-lo da mesma altura. – E eu detesto lutar. Não quero me engajar ainda mais nesse combate que só vai resultar em mais morte! Faluae, o Pentágono precisa de tudo que é mal. E lutar é mal. Só iremos os fortalecer mais.
- Lutar pela justiça não é um pecado. E de qualquer modo, irá acabar se metendo nessa luta, cedo ou tarde. Raven não irá desistir até que tenha você em suas mãos. Esteja você aqui, em Thais ou no inferno, ele irá atrás de você para cumprir as ordens que recebeu.
Ela arregalou os olhos. Deu alguns passos para trás e olhou o chão desnorteada, como se tivesse levado uma bofetada na cara.
- O que foi que você disse? – Disse ela em um tom engasgado. A menção daquele nome estranho lhe era perturbadoramente familiar, causando um arrepio em sua espinha.

- A criatura que lhe atacou. Chama-se Raven. É o mais importante dos membros da Mão da Morte, a guarda pessoal de Konar, líder do Condado do Sul. É leal até o fim e nunca falha em suas missões. Dizem inclusive que ele participou do assassinato de Tibianus III, seja lá como foi que se deu. Ele nunca faz nada sem ter sido ordenado diretamente por Konar. Angela, se ele realmente mandou Raven ir atrás de você, pode estar certa que ele não vai parar até completar seu objetivo. E não adianta suplicar ou falar. Só poderá detê-lo se o matar.
- Mas... Faluae, isso é incabível! O que eu poderia fazer para que o Pentágono tivesse tanto interesse assim em mim?
- Isso não importa. Enquanto você estiver a solta, será procurada. Pessoas morrerão e cidades serão destruídas enquanto a procuram. E não adianta acreditar cegamente que pode com Raven. Aquela coisa transpira maldade. Você pode sentir ele antes mesmo de o ver, e tudo por que ele faz o ar ficar pesado e tudo que há de ruim dentro de você aflorar de repente. Enquanto estiver sozinha e confusa como está, não terá chances.

- Oh Faluae... Eu não desejei carregar esse maldito fardo em momento algum! O que eu fiz para merecer essa perseguição insensata? – Sua voz estava espremida e ás vezes reduzia-se a um quase silêncio involuntário. As coisas ditas pelo amigo caíam como bombas em seu ânimo, mas de um jeito ou de outro ela sabia que tudo era uma verdade tenebrosa. Eu sou a caça.
- Eu acredito no destino. Talvez tudo isso seja apenas para você entrar na Unie. Talvez os deuses estejam jogando com seu futuro. Talvez você esteja destinada a destruir o Pentágono e vingar-se de Raven. Ou talvez tudo não passe de uma coincidência ou obra de um plano maior de Konar. Provavelmente nunca saberemos. Mas... O que me diz, afinal? Irá ficar sozinha e fugir até morrer ou irá se unir a nós e partir para Venore?

E ela pensou. Relembrou mais uma vez toda a sua trajetória desafortunada desde que abandonou os pântanos até o momento em que chegou ao antigo lar. Acabou lembrando-se de como achara Wyda morta, caída perto da casa, com a garganta cortada e uma expressão de serenidade absurda cravada no rosto. Ela morreu para me salvar. Deve ter tentando enganar Raven... Pensou em como Zoroast se expôs para destruir uma caveira que a ameaçava, sendo que ele era um minotauro e eles nunca antes haviam se visto. E por fim reviveu o momento em que viu Faluae novamente após tanto tempo. Ele fez de tudo para me deixar entrar porque sabia que eu corria perigo. Todos ao seu redor haviam lutado por ela. E agora era chegada sua vez de decidir se ia ou se fraquejava. Era difícil, pois ela teria de lutar não só contra a morte, mas ainda contra todos os seus princípios. Mas nada disso importava mais. Sua confusão definitivamente morreu no momento em que seus lábios se moveram para recitar duas palavras que rodopiaram pelo campo em um tom decidido.
- Eu irei.
"Unie" é "união" em holandês. Lê-se como "Uni". Espero que tenha ficado um nome apropriado, pois demorei semanas para escolher.

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Bem, nada de muito novo ou inesperado. Capítulo singelo com diálogos bme superficiais e diretos, apenas para não adiar o inevitável. Terminamos aqui o épico "Angela confusa" para entrar agora nos rumos da hitória (e já não era sem tempo). Criamos mais algumas situações aqui e veremos aonde vai dar tudo isso. Não quero que pensem que Angela é uma sem opinião por ter decidido tudo tão rápido. Devemos sempre lembrar que Faluae é muito convincente e que ela encontrava-se fragilizada devido aos últimos acontecimentos. E Angela não é uma pamonha: reconheceu que não havia outra saída. É, fiz uma boa armadilha para nossa amiga.

Anotei os comentários feitos, principalmente sobre repetições. Acho que não ficou muita coisa nesse estilo no capítulo, eu pelo menos cuidei muito para que não ocorresse. Por fim, sei que não ficou muito empolgador, mas era um capítulo simples para se introduzir o resto da história. Se eu colocasse essa parte em qualquer outro capítulo ficaria ruim e se eu criasse mais situações nele eu estaria enchendo linguiça.

Manteiga.