O Destino de Alice


Não demorou muito para que a notícia da chegada de Alice May Susan se espalhasse pela cidade e, menos de quinze minutos depois, cinqüenta por cento das mulheres adultas da cidade despencavam na estação, trinta e oito delas amontoadas em volta da pobre criança, quase sufocando-a. Felizmente, em poucos minutos Eulalie Falkirk assumiu o controle, como sempre fazia, e organizou uma lista para todas abraçarem e beijarem a criança e olharem estupefatas e fazerem estardalhaço e se preocuparem e fofocarem sobre ela.

Nos meses seguintes, a lista mudou a fim de incluir os cuidados reais com a pequena Alice May Susan. Ela foi passada das mãos de uma mulher casada para outra, mudando de sobrenome a cada mês, à medida que ia de família em família. Era uma menininha muito querida, todos diziam, e Eulalie teve dificuldade para decidir quem deveria adotar a criança.

Sua decisão foi baseada em uma coisa simples. Enquanto a mulherada se ocupava tomando conta do bebê, a maioria dos homens se revezava para tentar abrir o tal do baú.

Parecia fácil abri-lo. Tinha cerca de 1,80 de comprimento, 90 de largura e 60 de altura. Era amarrado com dua correias de couro e tinha uma velha fechadura de latão, do tipo cujo buraco de chave é tão grande que dá pra enfiar o dedo inteiro. Só que ninguém mais fez isso depois que Torrance Yib colocou o dedo e, quando tirou, faltava a ponta, cortada bem na junta.

As correias também não se soltavam de jeito nenhum e, do que quer que fossem feitas, não era de um couro que as pessoas em Denilburg já tivessem visto. Era impossível cortá-lo ou rasgá-lo, e as correias levavam todo mundo que tentava abri-las à loucura, de tanta frustração

Suspeitou-se de magias exóticas ou diabólicas, até que Bill Carey – que entendia mais de bagagens que a cidade inteira junta – apontou para uma placa de latão na parte inferior em que estava escrito: “Fabricado nos EUA. Baú a prova de roubo”. Então todos ficaram orgulhosos e elogiaram tal progresso científico, só era um pena que o nome da empresa tivesse sido raspado, pois ela teria feito bons negócios com a população de Denilburg, se eles ao menos soubessem onde encomendar baús como aquele.

O único homem da cidade que não tentou abrir o baú foi Jake Hopkins, o farmacêutico. Então, quando Stella Hopkins disse que eles gostariam de adotar o bebê, Eulalie Falkirk teve certeza que não desejavam fazê-lo por estarem interessados no conteúdo do baú.

Portanto, Alice May Susan juntou-se à família Hopkins e foi criada com as filhas biológicas de Stella: Janice, Jessie e Jane, que na época tinham dez, oito e quatro anos. O baú foi posto no sótão e Alice May Susan tornou-se, para todos os efeitos, mais uma das meninas Hopkins. Não havia nela nada de extraordinário, era apenas uma típica garota de Denilburg, com uma vida bem parecida com a das irmãs mais velhas.

Até 1937, quando completou dezesseis anos.