Obrigado a todos pelos elogios. Aqui a história começa a tomar o rumo certo. Até mais!

CAPÍTULO 5


Sentado, novamente olhando as estrelas, Gerena estava arquitetando o seu ataque. O primeiro deles. Era simples. Tudo que ele tinha de fazer era dar um sinal de alerta ao presidente tirando-lhe um dos melhores funcionários.

O outro homem não estava. Gerena apenas tinha em suas mãos um celular lacrado, que apenas recebia ligações, e lhe fora entregue pelo próprio mestre. Apenas o mestre tinha o número e não havia modos de se rastrear a chamada.

- Bruce Fletcher... como é ingênuo.

Apesar dos contatos recentes, Gerena sabia que o homem com quem estava não era o mestre. O mestre nunca mostraria o rosto, nem para o seu atacante imediato, no caso, Gerena. Todos os contatos que tivera com o mestre real foram por telefone, e através de conversas com uma sombra num monitor de plasma instalado pelo outro homem que sempre estava com ele. Era uma teia enorme de traições, nem sempre um traidor só representa o esquema inteiro.

Enquanto isso, na Casa Branca, o radar ainda mostrava, intermitente, uma região montanhosa do Afeganistão.

* * *

Thurman dirigiu-se para a sede do FBI com muita coisa arquitetada na cabeça. Bruce Fletcher pode se tornar um problema, ela pensava, enquanto cruzava a Rua C, saindo do complexo da Casa Branca.

Fletcher, por sua vez, fizera toda a volta e estava se dirigindo para a filial da NSA próxima à casa governamental. Não suspeitava de nada. Thurman parecia o tipo de mulher grosseira mas confiável. Mal sabia ele. Enquanto fazia o caminho para a sua instituição, mal lhe passava pela cabeça o motivo de uma conversa particular com Jackeline Thurman. A presidente do FBI quer conversar comigo particularmente? Seja o que fosse, Fletcher não tinha a menor intenção de tornar o encontro casual, ou secreto. Ele já decidira que, caso a agente quisesse se encontrar com ele, seria em via pública, bem na frente do olhar de outras pessoas.

A noite caía aos poucos sobre Washington, D.C. Thurman descreveu a curva final e chegou à sede do FBI. Phillman estava saindo do complexo quando ela chegou. Cantando pneus, o Citröen Xsara Picasso descreveu um arco de 360º e estacionou em perfeita sincronia com as marcas designadas para o alto escalão. Phillman sempre achava muita graça daquilo. Thurman, apesar de delicada e bonita, não era do tipo “garota boa”.

- Chegou tarde, Jack. Temos muito assunto para tratar.

Thurman desceu do carro, dando-lhe um sorriso falso. Outro maldito filho-da-mãe que poderá pôr tudo a perder.

Ela estava atônita consigo própria. Como conseguira enganar a todos? Como conseguira a confiança de Springfield tão facilmente? Entrar na mansão do governo na Avenida Pensilvânia não estava em seus planos mas acabou acontecendo mais cedo do que lhe fora designado. Não sabia como Springfield não desconfiara de nada, mas não era algo com o que se preocupar. Estava tudo arquitetado por uma mente maior. Alguém mais poderoso.

- Entre, Jack. Precisamos resolver os problemas.

Ela entrou.

Em seguida, dois pequenos flashes silenciosos mas nítidos cortaram o ar dentro do complexo. Os tiros de silenciador acertaram em cheio. Não, não temos nada sobre o que conversar.

Sem falar mais nada, entrou no Picasso. Com a certeza de que ninguém ouvira absolutamente nada, e de que não deixara rastros, pisou no acelerador mansamente e deixou o complexo. Estava na rua novamente. Telefonando para Bruce Fletcher.

* * *

Fernanda analisava os dados cuidadosamente. Intermitentemente, as montanhas do Afeganistão estavam se mostrando no radar com certa nitidez. Era o ponto brilhante mais sobressalente em escutas radiofônicas que ela já vira na vida.

Os radares sônicos da NSA tinham o poder de varrer uma área de aproximadamente 60 mil quilômetros quadrados, o que correspondia ao diâmetro da Terra somado a mais uma metade deste valor, com margem de erro de 10 metros. Diversas vezes a NSA colocou estes radares em disposição do FBI e da CIA de forma a orientá-los na captura de prisioneiros foragidos. No entanto, a tecnologia maior estaria num satélite da NASA utilizado por outra instituição governamental, o NRO. Porém, o lançamento do satélite falhou quando, assim que deixou a base, o foguete de lançamento explodiu, levando a cabo uma máquina de 1,2 bilhão de dólares.

Agora, de frente com uma impressão de ESV – Earth Scanning View, tecnologia de segredo militar da NSA –, Fernanda tinha ainda mais a impressão de que estava bem abaixo dos padrões aceitáveis para uma futura presidente do FBI. A tecnologia que todos dispunham estava anos-luz à sua frente, mesmo que ela soubesse manusear os próprios equipamentos.

Um aparelho telefônico tocou ruidosamente ao lado dela. A chamada não foi identificada pelo identificador do aparelho. Ela e Jordan, as duas únicas pessoas da sala, só poderiam ter chegado a uma conclusão: era Gerena. Lentamente, ela levou a mão ao fone e em seguida ao ouvido. A voz do outro lado era mecanizada, mas mesmo assim a presunção do interlocutor fazia com que ela soubesse quem era.

- Olá, minha adorável Fernanda. Como vão as coisas por aí?
- Absolutamente bem. A propósito, aproveitando seus últimos dias de liberdade?

Gerena gargalhou ruidosamente.

- Você nem imagina o quanto.

Vários segundos se passaram, sem que qualquer um dos dois pronunciasse mais qualquer uma palavra. Então, Jordan assumiu a chamada.

- O que é que você quer, Gerena?
- Ah, Frank Jordan! É um prazer estar conversando com você novamente. Como vai?

Jordan revirou os olhos, como quem já esperasse aquele tipo de brincadeira. Resolveu ser mais enérgico.

- Não seja idiota, Gerena. Você não ficará livre por muito tempo.
- A minha liberdade de agora me basta, amigo.

Jordan e Fernanda se entreolharam. O que é que esse maldito desgraçado quer dizer?

- Explique.
- Com prazer, Jordan. Já ouviram falar na Rua C?

Jordan assentiu, silenciosamente.

- Ótimo. Na próxima hora, esteja pregado à janela para ver o que acontecerá ali. Falando nisso, Springfield não está, não é?

Fernanda sentiu o sangue gelar. Assumiu o telefone.

- Você vai matar o presidente, desgraçado?

Gerena gargalhou novamente.

- É só uma pequena parte do plano. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas vocês vão notar, também, que o PT Cruiser Classic de Jordan não está mais no estacionamento da Ala Sul. Springfield está dentro dele.
- Não seja um imbecil, Gerena. Meu carro possui sonar e localizadores GPS. Podemos encontrar o veículo facilmente.
- Todos os sistemas foram desativados por um dos meus agentes. Se quiser pagar para ver, será na Rua C, na próxima hora. Esteja atento – o tom de voz tornou-se mais severo – porque é aqui, e hoje, que começa a vingança.

* * *

Springfield gemia, enquanto sentia o corpo dolorosamente castigado por seu raptor. Não sabia o que motivara aquele ato de extrema selvageria, mas alguns instantes antes, ele havia sido pego dentro da Casa Branca por Greggy, conduzido até o Cruiser Classic debaixo de pancadas e tinha sido amordaçado e amarrado no banco traseiro do carro pelo próprio agente em quem confiara por um longo tempo.

Greggy agora o encarava com uma fúria infernal nos olhos. Springfield não entendeu porque sentia medo, mas sabia que aquela combinação de emoções nos olhos de Greggy se tornaria perigosa cedo ou tarde. Ele trazia uma escopeta de cano serrado em uma das mãos, visivelmente recarregada até o talo por munições.

O corpulento agente desatou as mãos do presidente, mas ainda manteve os braços colados ao corpo. Sorrateiramente, jogou-o ao porta-malas do carro.

Alguns minutos depois, o walkie-talkie de Greggy soou.

- Greggy na escuta, senhor.
- Solte-o.

Greggy, por um instante, pareceu hesitar. Ele me pediu para capturá-lo e agora manda soltar?

O PT Cruiser Classic estava estacionado num beco na saída da Rua C. A voz no walkie-talkie insistiu.

- Solte-o, Greggy. Ele vai pelos ares junto do veículo.
- Sim, senhor.

Greggy desceu do carro e foi até a parte traseira. Desatou totalmente o presidente, que desceu do carro em seguida, com expressão confusa. Caminhou poucos passos, ficando a cerca de 1 metro do carro. Mas não houve mais tempo. Um helicóptero MD 520 Notar passou rasante sobre a cabeça de ambos e disparou um projétil contra o veículo. O PT Cruiser Classic irradiou em chamas, enquanto dois corpos carbonizavam lentamente sob o fogo. Os prédios nos arredores pegaram fogo no térreo ao passo de que o carro era consumido pelas chamas.

Da Casa Branca, Fernanda e Jordan assistiram todo o espetáculo. Não havia o que fazer. Greggy e Springfield estavam mortos.