Capítulo X
Dwacatra
Os risos e acusações de indigentes que estavam a ponto de se matarem não doíam. O que doía era ser presa injustamente. Não podia ter cometido todos aqueles crimes, era impossível! Não tinha distúrbios mentais nem dupla personalidade, não podia ter matado aquelas pessoas, roubado aqueles lugares... Não podia ter feito tudo o que os guardas disseram que fez. Tinha de ser um engano, era a única explicação aceitável! Mas seria difícil provar aquilo.
Engoliu as lágrimas, e, sem protestar, foi jogada na terra quente e seca da ilha de Dwacatra. Ali, chegara ao inferno. Chegara ao fundo do poço, chegara aonde jamais queria ter chegado. Chegara ao extremo que um ser vivo poderia chegar. Dali, nunca sairia. E se um dia, por acaso, saísse, seria morta. Mesmo com tal perspectiva, não perdeu as esperanças. Ava e Henry iriam salva-la, ela precisava acreditar naquilo! Sabia que era impossível, mas precisava acreditar.
Olhou para a porta que fora fechada na torre de pedra que marcava a entrada da prisão. Do lado de fora havia certamente dezenas de guardas fortemente armados. Na torre havia atiradores e soldados empunhando bestas e arbaletas. Seria loucura acreditar que uma fuga poderia ser possível. O sonho de liberdade apodreceu, murchou, morreu. Ficou ali, encolhida, olhando a lava. Queria chorar, mas o calor era tanto que as lágrimas sumiam antes de caírem. Queria gritar, mas a voz morrera com a esperança. Chegara ao inferno, chegara ao local de onde ninguém regressa. Iria morrer ali, seca, queimada, mutilada. Não importava como, mas iria morrer.
Sentou-se e olhou ao redor. Gêiseres de lava explodiam do chão, pedaços inteiros de terra e pedras se desprendiam e afundavam na lava. A ilha desapareceria um dia, e certamente que estava preso afundaria com ela. Havia buracos no solo acidentado, por onde a lava nascia. Torres de madeira em combustão, fortes de pedra mal empilhados e buracos por todos os cantos marcavam os territórios das tribos. De um lado orcs, presos provavelmente desde o último grande confronto com os anões. Minotauros também estavam ali, junto com ciclopes e anões traidores. De humana ali, só ela.
Sentiu-se só, perdida entre estranhos ameaçadores. Queria pular na lava mas as imagens de Ava e Henry impediam o suicídio. Tremeu e sentiu-se desmoronar ao ver os olhos acusadores dos demais presos, empunhando as armas e marchando lentamente em sua direção. Andou para trás, sem nem olhar. Para onde ia não importava. Importava que ia a algum lugar: a lava incandescente. Era seu destino morrer como culpada para libertar os inocentes. Que perspectiva mais nobre, seria admirável se não fosse a parte em que ela morria.
- Saiam todos! - Urrou uma voz forte e explosiva das costas dela. Virou-se assustada e viu, sobre uma pedra gigantesca, um anão em pé, empunhando um enorme martelo de madeira. Tinha uma longa barba ruiva como seus cabelos igualmente enormes. Usava trapos podres e queimados, de cor marrom. Seus sapatos eram botas de ferro sujas de fuligem e seus olhos negros transmitiam ódio e vingança. Os demais obedeceram, voltando aos seus afazeres. Parecia ser uma figura de tremendo respeito ali, alguém de quem se deveria ter medo. Ele a encarou - Você quem é?
- Chronus Tamos - Disse com a voz firme e a cabeça erguida, enfrentando-o com os olhos. Não deixaria de ser a mulher forte e decidida que sempre fora por causa do medo e da injustiça. Passaram-se minutos incontáveis até ele responder.
- Tamos, por que está aqui?
- Fui condenada injustamente. Sou inocente.
Todos - menos o anão - riram. Alguns até caíram no chão de tanto gargalhar. Mas ao verem a expressão assassina na face do anão, calaram-se e voltaram a fazer aquilo que ele mandou que fizessem.
- Claro. - Ele se virou - Não tema. São sempre assim com novatos.
- E você quem é?
Ele desceu da pedra e parou. Uma pergunta que há muito não ouvia, nem sabia se tinha a resposta para ela. Seu eu se perdera quando fora jogado cruelmente para apodrecer ali, no lugar que mais admirava. Cansara de mandar criminosos bastardos para Dwacatra, mas jamais pensara que seria um deles. Mastigou bem sua resposta, perdido em identidades que tivera ou nunca teria.
- Um homem de quem toda Kazordoon teve orgulho uma vez. Um homem que foi desgraçado por mentiras daquele que mais odiou.
Chronus arregalou os olhos e sentiu seus miolos queimarem. Do que raios ele estava falando? Não seria tão mais simples dizer seu nome?
- Mas qual seu nome? Quem é você de verdade? - Ela se viu dizendo.
- Não tenho nome. Ninguém sou. Minto, sou alguém. Sou a sombra de um alguém glorioso, preso por um engano.
- Quem fez isso com você? - Disse ela o encarando fortemente, com a curiosidade aumentando cada vez mais. Sem notar tinha quebrado a barreira do respeito ao passado e estava agora num fogo cruzado.
Ele levou um tempo pensando. Quando disse, pareceu morrer pela boca pronunciando aquela simples palavra, mas que em seus lábios era uma faca rasgando sua carne e fazendo-o sangrar.
- Basilisco.