CAPÍTULO 4:
HISTÓRIA, CONFUSÃO E CIRCO
A propriedade dos Vertell era uma grande e espaçosa casa colonial. Naquele tempo, Kurt tinha dezessete anos, e sua mãe passava as tardes cosendo junto com a própria irmã. Seus dois irmãos mais velhos - um com dois anos a mais e outro com cinco - e ele faziam trabalhos pesados na plantação, carregando sacos de sementes, cavando e plantando. O marido da tia costureira arava e irrigava a fazenda, tendo ajuda de mais dois homens, antigos amigos que foram despedidos da fábrica têxtil em que trabalhavam e que foram convidados a morar junto com a família.
Cinco outros homens que ali trabalhavam eram ex-mendigos. De boa-fé, a mãe de Kurt havia aceitado que eles viessem para lá, ganhando comida e moradia em troca de produzir. Apesar de desconfiados no início, os Vertell tiveram que admitir que dera certo. Outra mulher que ali morava era a cozinheira. Era uma ex-escrava negra, que apesar de liberta, não fora muito bem aceita nos EUA. A família a acolheu quando ela pediu emprego.
Todos sempre acharam engraçado em que a casa ficava no Texas, mas a fazenda ficava em Louisiana, apesar de estarem, literalmente, grudadas. O clima seco e quente de lá era confortável, e por estarem na divisa dos dois estados, aproveitavam o melhor dos dois mundos. Há três anos seu pai morrera com os pulmões em frangalhos e totalmente bêbado (ironicamente, ele era especialista em problemas com o alcoolismo).
Todo final de semana um caminhão de uma fábrica passava na fazenda Vertell e comprava quase todo o estoque. O dinheiro era administrado por um mexicano que havia cruzado a fronteira ilegalmente, que se mostrara muito competente para o assunto. Antigamente, a grande fazenda era muito rica. Porém, quando o caçula era apenas um bebê, pela tamanha boa-fé da família, fora feito um roubo que arrancara todo seu dinheiro. Os Vertell passaram por maus bocados até que a idéia dos mendigos surgira. Mesmo assim, nunca tinham um negócio estável.
Todo esse tempo, Kurt estudou em uma escola pública no Texas. Logo após completar dezoito anos, entrou na universidade de Louisiana, por jogar em um time de futebol da escola, ganhando uma bolsa. Cursou Artes. Sua família arranjou um substituto para as tarefas do rapaz enquanto ele morava no centro, dividindo a casa com Kevin, um colega e amigo.
O fazendeiro fazia desenhos. Um dia, Kevin viu um dos desenhos - uma caricatura de um político - e gostou. Como seu pai trabalhava em um jornal local, conseguiu arranjar um emprego para Kurt como cartunista. E ele se estabilizou nos quatro anos que se passaram, fazendo cartuns para revistas e jornais famosos, tirinhas, escrevendo matérias (acabou ganhando uma coluna própria em um jornal local), etc. Até que sua mãe foi diagnosticada como tendo um tumor no estômago... E daí coisas estranhas começaram a acontecer.
***
Kurt estava abismado. Com o colarinho aberto, suava muito. Os olhos arregaçados, a respiração pesada; tinha à sua frente um ser que tirava a vida das pessoas. Ou melhor, como o próprio dissera, coletava almas. E ele também dissera que, como ele havia perdido o jogo, ficaria na Terra com o homem até que fosse realmente necessário partir.
Vertell não sabia se realmente queria que o ceifador ficasse com ele (e nem pensava em como seria). Enojado, cuspiu um catarro para fora da janela do hospital. Soltou um suspiro.
O coração do homem bateu mais forte quando viu a maçaneta se abrir (é a polícia que veio prender essa coisa?, chegou a pensar em um momento).
A porta parecia se arrastar lentamente, dando uma ânsia terrível em Kurt(que neste momento estava em um estado de cagaço total). Um pé avançou...
Era uma enfermeira.
- Senhor, está tudo em ordem? Pensei ter escutado algum barulho aqui.
Ah, sim. Tudo está em ordem, menos o fato de que tem uma porra de um esqueleto vestindo preto e com uma foice na mão do meu lado! (e também não se esqueça do horário, menina! Já são 5:30!)
Então Vertell percebeu que ela não estava vendo aquela criatura. Ou não podia vê-la (e que provavelmente ela estava cumprindo sua função naquele horário da porra). Ela repetiu:
- Senhor?
- Ah, me desculpe, é que eu estou um pouco, hm... Abalado, sabe? Eu deixei cair a minha, ah... Maleta.
Obviamente, a moça percebeu que isso não tinha acontecido. O rapaz tinha feito um péssimo trabalho com aquela mentira. Não havia maleta naquela sala, e isso qualquer um podia ver. Porém, a enfermeira ignorou. Sabia identificar uma mentira tanto quanto sabia quando uma pessoa estava mentindo por uma necessidade ou por outras intenções. Saiu silenciosamente pela porta, fechando-a (apenas mentirosos sabem identificar uma mentira, por sinal.).
- Sabe, nos primeiros anos o trabalho até que é legal... Porém com o passar do tempo tu enjoas. Então os ceifadores fazem folgas, pertencendo á humanos. Geralmente isso acontece quando nós perdemos a aposta, como aconteceu contigo. Então, nós podemos bagunçar um pouco a Terra. - Boquiaberto, Vertell escutou as palavras da Morte, que interrompera o silêncio. - Opa. Tem algo que você gostaria de ver.
Subitamente, a mão ossuda segurou o braço de Kurt enquanto descrevia um símbolo no ar, que ia sendo preenchido por um brilho ostro. O homem preferiu não reagir e deixou que, com a foice, a criatura fizesse um corte no ar, no centro do símbolo. O ceifador abriu o corte e entrou, junto com seu carona, para dentro dele. Kurt, ao entrar, sentia como se estivesse flutuando em um abismo sem fim (o que era verdade), e uma estranha culpa fazia com que ele se inquietasse. Estava tudo negro, porém a brancura dos ossos expostos ao seu lado era fácil de identificar. Escutou o corte apático e seco do instrumento mais uma vez. E então uma luz, fraca, porém suficiente, saiu do portal.
O ceifador novamente segurou o braço do rapaz e o guiou até ele perceber que havia um chão sob seus pés, um céu acima dele. Era um parquezinho, com grama, fontes jorrando água e pássaros cantando. Porém um pequeníssimo detalhe passava despercebido por todas as crianças, adultos e cães do lugar: Uma imensa ruptura se abria aos poucos, como se ainda estivesse sendo escavada, ao lado de uma fonte em que um homem soltava água límpida pela boca.
O mais estranho naquela singular cena era que mesmo com um buraco sendo feito no meio da praça, as pessoas simplesmente passavam andando pelo ar, como se não houvesse nada de errado com o chão. Várias perguntas (e várias outras que ele tinha preferido esperar para expor por causa do cansaço do dia) pipocavam em sua boca, prontas para serem entregues à Morte. Como se lendo sua mente, a resposta veio:
- Apenas observe.
E então Kurt se deu conta de mais uma coisa: O Sol já tinha nascido?
Viu uma mulher com cabelos loiros crespos, estatura mediana alta, usando um vestido branco. Tinha os olhos cor de mel, o rosto delicado e bonito. Um sorriso ansioso, brincalhão, brotava do rosto dela. Os dentes bonitos, de uma brancura formidável. De alguma forma, ela parecia ser a única que olhava diretamente para o buraco.
De repente, algo começou a sair do buraco. No início parecia apenas uma massa branca, mas foi se acomodando e formou algo parecido com um circo. E então, tomou uma forma mais exata; uma faixa Parque Circense apareceu.
O ceifador colocou a mão na cabeça do homem. Kurt sentiu um sono inexplicável e fechou os olhos.
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Espero que tenham gostado. A primeira parte é mais explicativa, pra não deixar o passado de Kurt no mistério.
Cya.
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