Capítulo 10
Taura acordou cedo, o sol ainda nem nascera. Suspirando, levantou-se da cama para recolher seus poucos pertences: dinheiro, equipamentos, e roupas, além de seu livro. Pôs tudo numa mochila de couro um pouco velha. Iluminista acordava nesse mesmo instante. Com os olhos incompletamente abertos, ele se dirigiu para onde estava a irmã e começou a fazer o mesmo que ela.
Após terem arrumado tudo, o que não demorou muito, eles desceram para o andar de baixo. Os dois foram para o jardim de casa, pois os pais ainda dormiam. Sentaram-se na grama e ficaram longos minutos observando-a.
-É difícil, não é? Eu sempre quis me aventurar e conhecer novos horizontes, mas...
Ao ver que Iluminista não conseguiria completar a frase, Taura segurou a mão do irmão, a fim de consolá-lo. Não sabia o que dizer. Tampouco desejava fazê-lo. A dor seria maior ainda. Assim eles permaneceram, juntos, quase abraçados.
Com uma sutileza divina, o sol raiou, aquecendo tudo. Porém, era um calor agradável, confortante. A porta rangeu, indicando que os pais haviam acordado. Olga, com os olhos avermelhados, falou:
-Queridos, peguem suas coisas. O navio partirá daqui à uma hora.
O pai acrescentou:
-Não se preocupem com a comida. Haverá um lanche durante viagem.
Alguns minutos depois havia quatro vultos abraçados na entrada da casa. Lentamente, todos começaram a andar. O porto situava-se na porção sudeste da ilha, lugar onde Taura nunca estivera. Apenas alguns mendigos vagavam pelas ruas, ninguém mais.
Em pouco tempo, eles chegaram ao local. Era um lugar grandioso, onde inúmeras pessoas andavam, até mesmo àquela hora. Várias caixas eram carregadas de um lado para outro por homens altos e musculosos enquanto um outro gritava em alto e bom som:
-Ilha do Destino aqui! Mostrem seus bilhetes!
Herman voltou-se para os filhos e disse, tocando-lhes o ombro:
-Aqui estão as passagens. Acompanharemos vocês até o embarque. – e, rapidamente, ele retirou do bolso algo peludo, que cabia perfeitamente na palma de sua mão – este é Jim, um esquilo mágico. Tratem-no bem e ele mostrará seus poderes.
Com uma piscadela, ele olhou para o homem que se esgoelava:
-Chamada final: viajantes para a Ilha do Destino aqui!!
O chamado do capitão indicava que chegara a hora da despedida. Dirigindo-se para a fila dos bilhetes e dando um último beijo nos pais, os irmãos entraram na imponente navio. Eles soluçavam alto e ouviam os pais gritarem:
-Nós sempre amaremos vocês! Adeus...
Essa última palavra funcionou como uma flecha para o coração de Taura. A menina, emocionada, não conseguiu fazer mais nada, além de acenar, a mão visivelmente trêmula.
O navio começava e se movimentar. Os pais rapidamente transformaram-se em pontinhos embaçados. Taura continuou observando a ilha, que cada vez mais se distanciava. Engoliu em seco, sua garganta tinha um nó.
Ela queria, ainda que pela última vez, ver Rookgaard, lugar em que nunca mais voltaria. Aos poucos a brisa fresca da manhã logo se transformou num vento frio e salgado , que adentrava os cabelos da jovem e despenteava-os.
Uma lágrima gélida deslizou pelo seu rosto, indo misturar-se com o mar infinito.
-Taura, venha comer!
A voz de Iluminista a sobressaltou. A menina respondeu-lhe:
Não estou com fome, prefiro ficar aqui.
O irmão, que parecia já ter feito novas amizades, saiu conversando com outros rapazes de sua idade. Taura continuou ali por mais um incontáveis minutos, ou até horas. Afinal, o tempo não importava mais... Ela supunha que o almoço já estivesse sendo servido, pelo doce aroma que entrava por suas narinas. Até esse momento Jim, a criaturinha peluda, roçava seu pescoço, enquanto guinchava. Taura observou-a melhor. Era idêntica a um esquilo, porém menor e mais gorda, além de seu pescoço ser menos comprido. Rindo sombriamente para o novo mascote, Taura se dirigiu sem entusiasmo para as mesinhas redondas dispostas ali perto.
O almoço estava delicioso, digno de deuses. Ela sentara-se na mesma mesa do irmão, onde um grupo de jovens falava e ria alto, como se a dor da separação não os afetasse. Um deles, aquele que parecia ser o líder, talvez por seu carisma; cantava alegremente uma canção de infância. Agitando os braços de forma a encorajar os outros a cantar, ele animava o ambiente agradavelmente. Seus cabelos escuros caíam por sobre os olhos claros elegantemente. Dando-se conta de estar fitando perdidamente o rapaz, Taura mudou rapidamente seu foco de visão.
Mas como poderia distrair-se, se aquele jovem despertava nela uma curiosidade estranha, misteriosa. Varrendo tais pensamentos da cabeça, percebeu que Iluminista, apesar de não estar tão á vontade quanto os outros, não mais tinha seus olhos avermelhados e ria das piadas contadas.
Aos poucos, após observar a algazarra e a alegria provocada por eles, ela acabou sendo contagiada, como o irmão. Ao final do saboroso almoço a descontração era total. Passaram a tarde inteira passeando pelo navio. Visitaram o depósito, apinhado de alimentos, água e armas, a cozinha, sempre com um aroma todo cheio de vida e até mesmo a cabine do capitão Kurt, homem misterioso, porém simpático.
A noite caiu rapidamente, cobrindo o céu com seu manto negro. As estrelas eram ainda mais belas quando vistas do mar. Taura e Iluminista observavam-nas tranquilamente. Já passava da meia noite, e muitos no navio dormiam. Inclusive Nevan, o rapaz de olhos claros e penetrantes.
Porém os irmãos não tinham sono, nem ao menos uma ponta de cansaço. Uma luz foi avistada ao longe. O que seria? Ela foi aumentando á medida que o navio deslizava pelas águas. Era um farol, avisando que a viagem havia chegado ao final.
O capitão Kurt, saindo de sua cabine, gritou:
-Bem vindos à Ilha do Destino!
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