Capítulo III
"Os Rebeldes é que sabem viver bem"


- Não posso voltar - Repetia a si mesmo o assustado Orcus, que via em cada sombra e forma desconhecida um orc pronto para executa-lo. Uma vez fora um general glorioso, repleto de honras e braço direito de Grimgor Grutater, o maior líder orc de todos os tempos - desde Ulderek, é claro. Orcus não era nem sombra do que Grimgor era, mas sonhava ser. Tudo que seu ídolo outorgava, ele acatava submissamente, nunca negando nada. Mas agora, naquela situação de foragido, era só mais um orc esperando um humano vir e mata-lo. Agora aquela era sua sina. Caminhava - ou melhor, tropeçava - pelos barrancos enlameados do Monte Fêmur. Era assim chamado por ser um local gigantesco e ponto importante em qualquer rota comercial. E bélica.

Comandado por goblins, o Monte era uma das capitanias de maior destaque do Império dos orcs. Freqüentemente eles invadiam o lugar sobre ordens de algum general anônimo, fosse para matar humanos desavisados, fosse para saquear o que eles escondiam. E naturalmente, os goblins facilitavam.

Andou ali, encarando os pés por horas. Imaginava-se usando a pesada armadura de aço e ouro, negra como a morte, segurando uma enorme e afiada espada de duas mãos, reluzente e prateada. Montava sobre um lobo enorme, com os olhos amarelos brilhantes e um latido raivoso e saía por ai, matando aqueles bípedes repulsivos claros que se denominavam humanos. Mas logo se viu de novo, um ser verde asqueroso, que com sua armadura larga e ombreiras de metal carregava uma espada torta e suja, que arrastava-se pelo chão arrancando pequenas folhas da grama cheia de orvalho. Era um anônimo na madrugada. Vez ou outra cruzava com um goblin, tão verde quanto ele, que o cumprimentava com um baixo “olá general”. Ele sequer o olhava, passava reto.

Precisava dar um jeito de fugir, de deserdar. Ai sim seria perseguido, mas era melhor que morrer nas mãos de Grimgor. Falhara na realização da missão para qual fora designado, e agora precisava decidir em voltar pra morrer como fracassado ou fugir para viver como fracassado. Como receberia a alcunha de fracassado em ambos os casos, era preferível permanecer vivo. Mas o que poderia fazer para sobreviver? Praticamente o mundo todo era mandado pelos homens, que se o vissem nem ponderariam antes de assassina-lo a sangue frio - não que ele fosse diferente. E onde não havia humanos, havia criaturas com medo, sob repressão dos orcs, que falariam que ele passara por seus lares para preservar suas vidas. Era um sistema patético de coexistência.

Parou e sentou-se na relva.
- Os rebeldes é que sabem viver bem... - E sibilando isso para si mesmo ele teve a idéia mais traidora de sua vida, mas aquela que o manteria vivo.

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Manteiga.