...Quarto cap:
Capítulo quatro - Um homem em desgraça
O grupo de Chad ia sendo levado ininterruptamente em direção à prisão, sob o frio cortante da noite da cidade de Fernonia. Jyvia ia ficando maior a cada segundo que se passava, revelando detalhes sobre sua estrutura. Era feita de enormes pedras irregulares, muitas maiores do que um humano. Um enorme portão maciços feito de algum aço negros protegia seu interior. Duas horrendas gárgulas estavam posicionadas de cada lado do portão, como dois guardiões implacáveis e imóveis. Havia incontáveis janelas gradeadas por toda sua extensão, dispostas num padrão regular, provavelmente as janelas pelas quais os prisioneiros podiam observar o mundo exterior. Vários guardas, parecidos com os que guardavam a porta levadiça do navio, protegiam a entrada.
Abriram passagem para o grupo quando este se aproximou, sem dizerem palavra alguma. Achavam-se agora numa espécie de recepção, um aposento quadrado, com quatro grandes arcos de pedra em cada lado, que levavam ao interior da prisão, e um deles, para fora. Várias mesas de madeira estavam espremidas nos cantos, iluminadas por lampiões e por archotes nas paredes, onde se sentavam escrivães, que liam pergaminhos velhos e amarelados. Ali também havia vários guardas. Um dos guardas do grupo aproximou-se do que parecia ser o chefe dos escrivães, um homem calvo e de cabelos brancos, e os dois começaram a conversar. O guarda fez algumas perguntas ao homem, que respondia sempre negativamente. Por fim, o escrivão disse muito claramente num tom de voz irritado, que pode ser ouvida por todos no silêncio da noite:
- Jogue-os nas mais vazias que acharem. – E voltou a ler um de seus pergaminhos, num gesto claro de dispensa ao guarda.
O guarda voltou ao grupo e o dividiu em três, e cada um seguiu por um dos arcos de pedra. O grupo de Chad foi pelo arco da esquerda. Subiram por uma longa escadaria. Os únicos barulhos ouvidos eram o ruído metálico que faziam as armaduras dos guardas quando eles caminhavam, o barulho de suas pisadas no chão, e o ocasional cantar de um grilo no lado de fora.
Chegaram num longo corredor, ladeado por celas, divididas entre si por paredes de pedra. Seguia, invariável, até fazer uma curva brusca para a direita. Iam seguindo pelos corredores, e os guardas deixavam vez ou outra um preso em uma cela, trancavam-o e seguiam o caminho. Chegaram numa cela e um soldado abriu-a. Depois, empurraram bruscamente três pessoas para dentro da sala. Chad, o velho de aparência esquelética e cabelos sujos do navio, e Ferus, que Chad não havia reconhecido antes, pois seus rosto estava completamente desfigurado por hematomas roxos. Chad arregalou os olhos de surpresa.
- O que faz aqui, homem? – Perguntou ele em tom de assombro, quando foram jogados na prisão. Era uma cela bem simples. Havia quatro beliches nas paredes com cobertores finos por cima. Uma janela ficava ao fundo, por onde podia se ver o mar e toda a cidade de Fernonia, abaixo. Por ela, entrava uma brisa gélida, como a que varria a cidade abaixo.
- Fui capturado logo depois de você, companheiro. – Respondeu Ferus, dirigindo-se para um dos beliches. Sentou-se e passou as mãos pelos hematomas, mas parou na hora, com uma careta de dor. O homem esquelético foi para outro beliche, sem dizer nada. – Cryus Anvet foi substituído por um tipo muito estranho, cujo nome nem sei. – Começou a explicar Ferus - Sua primeira medida foi tentar capturar os marginais de Cátir, por isso enviou um bando de seus melhores soldados à cidade. Alguns deles estavam no bar, lembra? Uns sujeitos encapuzados que saíram logo depois de dizermos que éramos ladrões.
Chad fechou os olhos e bateu a palma na mão na testa, ao mesmo tempo que resmungou um palavrão. Lembrou-se dos sujeitos, e deduziu o que deveria ter acontecido. Eles entraram no bar para beber alguma coisa, e proveitosamente ouviram-no dizer que era um ladrão. Então saíram e preparam uma emboscada para ele em uma ruela deserta. Foi abatido e, de algum modo, levado ao navio, que navegou até Jyvia. Então, perguntou como Ferus havia sido capturado.
- Fui surpreendido logo depois de você, quando sai do bar, por outro grupo. Mas foram mais gentis comigo, não me deram um safanão na cabeça, como em você, pelo que soube. Não pude fazer nada, eles eram em maior número e mais hábeis na espada do que eu. – Terminou ele, com amargura. – Fui enviado a uma caravana na saída leste da cidade, onde já estavam vários outros bandidos capturados. A população da cidade deve ter sido reduzida pela metade. – Brincou, com uma risada rouca, embora ainda com a voz amarga. – Havia muitos cavalos puxando carroças. Todos os abatidos foram postos em algumas delas. Outras estavam carregadas de suprimentos para a viajem até a costa leste. Havia vários presos no mesmo estado que você, inconscientes. Os soldados captores iniciaram viagem para o leste viajando num ritmo muito rápido. O que sei é que seus cavalos não eram normais. Eram maiores e mais saudáveis do que cavalos comuns. Nem o corcel da melhor linhagem poderia se comparar a eles. Atingimos a costa em um tempo recorde, quatro dias. Havia...
Mas nesse instante foi interrompido por um ruído gutural muito alto. Chad e Ferus olharam para os lados, assustados. Então viram o homem esquelético estirado na beliche, roncando profundamente. Ambos riram, e Ferus retomou sua explicação:
- Então quando atingimos a costa, havia um navio nos esperando. Era maior do que qualquer outro que eu já tenha visto, e não tinha velas nem remadores visíveis. É estranho, primeiro os cavalos e depois o navio, sinto que não conheço nada sobre o mundo onde vivo. Depois disso, você pode deduzir o que aconteceu.
Chad assentiu com a cabeça, pensativo. Pelo jeito ficou inconsciente por vários dias, sem receber nenhum tipo de alimento.
- Como consegui sobreviver até aqui sem comer nem beber? – Perguntou ele, e imediatamente, a fome e a sede assaltaram-no novamente, com força total. – Tenho que sair daqui! – Exclamou ele, depois de uma pausa. – Não posso apodrecer numa cela de prisão a vida toda!
Ferus ergueu uma sobrancelha.
- E vai fazer o que? Essa prisão é mais bem guardada do que qualquer lugar que eu já tenha visto. Parece haver mais guardas do que prisioneiros. E supondo que você consiga sair da prisão, como vai escapar da ilha? Talvez você não tenha notado, mas estamos numa ilha. Vai pegar um navio e sair navegando-o sozinho até achar terra? E quanto a como você sobreviveu, você não ficou inconsciente por vários dias sem alimento, isso seria impossível. Os outros que desmaiaram acordavam as vezes e os guardas davam de comer e beber a eles. Depois, voltavam a desacordá-los com pancadas. Não sei porque faziam isso apenas com alguns e não com todos, mas provavelmente foi assim com você também, mesmo que não se lembre.
Chad foi até a janela e olhou para baixo, sem dizer nada. A cidade estendia-se até o mar, ao longe. Várias torres de vigia estavam dispostas a intervalos regulares por toda a costa visível da ilha. Chad percebeu um padrão nas construções da cidade. As mais altas eram as mais próximas da prisão; as casas perto do mar não tinham mais de um andar. Era uma cidade pequena, pouco maior que Cátir. Então, Ferus quebrou o silêncio:
- Já está tarde, e seja lá que planos mirabolantes você esteja pensando para fugir, deixe-os para serem executados amanhã. Vou dormir agora.
Mas neste instante, ouviram um barulho de passos que se aproximavam no corrredor. Então, dois guardas apareceram em frente as grades da cela. Seguravam um rapaz de rosto jovem, cujos olhos muito negros combinavam com os cabelos curtos da mesma cor. Parecia abalado, mas de outra forma, inteiro. Um dos guardas abriu a porta e forçou o jovem para dentro, depois trancando-a de novo.
- E temos mais um companheiro de cela. – Disse Chad, olhando para o recém chegado com sobrancelhas erguidas.
- Qual o seu nome? – Perguntou Ferus – E o que fez para estar aqui?
O jovem encaminhou-se lentamente para o beliche restante, e desabou sobre ele. Ficou quieto por um minuto, seu rosto impenetrável. Só então olhou para Ferus, e disse num tom de voz inexpressivo:
- Meu nome é Geibridor, e sou um homem em total desgraça. – Então deitou-se na cama e colocou uma das mãos sobre os olhos, tampando-os. – Agora, quero dormir. Se quiserem fazer mais perguntas, façam pela manhã.
- Um homem em total desgraça? Sem dúvida, está exagerando, não? – Perguntou Ferus, uma expressão estranha em seu rosto, mas rapidamente disse: – Muito bem então, boa noite a todos, como falei, está tarde, e amanhã teremos todo o tempo do mundo. – Dito isso, virou-se de lado e não falou mais nada.
Chad ficou mais alguns minutos olhando pela janela, mas logo recolheu-se também, para a escuridão aconchegante do sono.
@Arctic Wolf:
Não se preocupa não, não é sempre que se tem tempo pra ler histórias aqui =P
Sobre a quebra de ritmo entre o um e o dois, já reparei que foi muito brutal e quebrou o clima da história. Agora a história focará alguns capítulos em Chad e nas situações da prisão, mas não por muito tempo.
De qualquer forma, obrigado novamente por acompanhar e por gostar da história. :)