Citação:
Para conseguir a mesma sensação de prazer, a pessoa que faz uso contínuo da maconha precisa aumentar constantemente a dose. A conclusão é do pesquisador João Villares, do Departamento de Psicobiologia, que analisou necrópsias de cérebros de usuários crônicos da droga catalogados no Banco de Encéfalos da Unifesp. A explicação científica: o uso prolongado da Canabis sativa provoca alterações nos receptores que captam o princípio ativo da droga no cérebro.
Para chegar a esse resultado, Villares estudou tecidos cerebrais de 12 usuários crônicos de maconha e comparou ao de um grupo formado por outros 12 que não consumiam a droga. Todos tiveram seus órgãos liberados por familiares para a pesquisa.
Segundo a pesquisadora Ana Regina Noto, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), ligado à Unifesp, embora estudos comportamentais já tenham comprovado que o usuário crônico desenvolve uma tolerância cada vez maior à maconha, ainda não se conheciam os efeitos bioquímicos do uso da droga no cérebro.
Quando o usuário fuma maconha, o tetrahidrocannabinol (THC), princípio ativo da droga, passa dos pulmões para a corrente sangüínea e atinge todos os órgãos. No sistema nervoso, o THC se conecta aos receptores cannabinóides, do tipo CB1, presentes nos neurônios. Esses receptores participam de diferentes aspectos fisiológicos, como o controle da ingestão de alimentos, e estão ligados às sensações de prazer, memória, coordenação motora e alterações cognitivas.
De acordo com o estudo, o THC provoca uma diminuição do número de CB1s, responsáveis pela recepção do princípio ativo no cérebro. “Essa redução foi registrada no hipocampo e nos gânglios da base, áreas onde ficam localizados os receptores responsáveis pela resposta ao estímulo da maconha.”
Villares verificou que o THC age no DNA, provocando a redução da expressão do RNA mensageiro, que controla a produção dos receptores. Os CB1s passam então a ser fabricados em menor número, e para alcançar o efeito que obtinha anteriormente o usuário tem de consumir maior quantidade da droga. “Precisamos de novos estudos para responder à questão principal: como o THC age sobre o DNA”, explica o professor.
Não vicia?