Postado originalmente por
robin
Vou anular meu voto no segundo turno. Cá estão meus motivos, a quem possa interessar.
O Haddad poderia ter desistido de se candidatar, ou de prosseguir ao segundo turno, ante a evidência de que a rejeição ao seu partido minaria qualquer chance que ele pudesse ter. Desistir da candidatura e apoiar o Ciro jamais passou pela cabeça deles. Dizer que o importante é parar o Bolsonaro, então, é uma demagogia indecente, de um cinismo que causa fastio a qualquer diálogo com quem apoiou o PT já no primeiro turno.
Fui chamado de fascista, por defender propostas liberais, por dizer que a recessão se deve, muito mais do que a outros fatores, à política econômica petista, e também por cobrar dos meus amigos de esquerda que se posicionassem contra o regime de Maduro. Hoje, o Haddad finge reconhecer a culpa da Dilma, mas seu plano de governo herda a mesma boa vontade irrazoável, sem robustez prática, com o gravame de pretender ser aplicada a uma realidade três vezes mais problemática. O PT escondeu as cartas de suporte à ditadura venezuelana, mas seus representantes são irremediavelmente cúmplices do que acontece por lá, enquanto lutam contra o fascismo por aqui...
Como disse, fui chamado de fascista, várias vezes, por defender um plano econômico liberal. Por mais que eu saiba que uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra, é bastante chato receber este selo. Agora as mesmas pessoas se esforçam para achar posicionamentos em comum, e para me sensibilizar, com uma lucidez e disposição à conversa que teriam sido muito bem-vindas, alguns meses atrás, quando já faziam campanha para o PT. Não é rancor. Continuo gostando de todos os meus amigos vermelhos, do jeito que sempre gostei, porque sei que eles anseiam sinceramente por igualdade de oportunidades. Meus melhores amigos são de esquerda, moderados. Só discordo, visceralmente, da maneira com que pretendem alcançar isso, demonizando a riqueza e interferindo na liberdade das pessoas.
Não sou libertário, e talvez nem totalmente liberal, para dizer a verdade, porque acredito que o governo deve, sim, instituir mecanismos de distribuição de renda, principalmente por meio da educação, gratuita, e também manter alguns direitos trabalhistas, mínimos, como o salário mínimo - por hora trabalhada. O PT, longe disso, prega a manutenção de posturas que incontestavelmente fracassaram nos últimos anos. O país passa por um período de crescente desindustrialização, intensa fuga de capitais, de forma que os empreendedores estiveram temerosos do que o próximo governo petista faria. O que o partido propõe são medidas que, na minha leitura, inevitavelmente agravariam esse cenário. Não é só a concentração de renda que faz mal. Quando não se gera riqueza, não há, muito menos, o que se distribuir. Como é que se calcula o custo disso?
Quem é que conjecturou, e pormenorizou, para além do número de desempregados, o custo social que nós pagamos, por conta da política petista, lúdica, deslocada - no tempo e no espaço -, na saúde, segurança e educação, nesses últimos anos? Eu estou contabilizando as crises políticas, os escândalos, e, mesmo assim, parece claro que a política econômica deveria ter sido ajustada, há alguns anos, ao novo cenário internacional, e interno, que já não nos privilegiam tanto. Quanto as mentiras da Dilma, que acobertou criminosamente a situação do país, nos custaram?
Prefiro, mil vezes, o que diz o Paulo Guedes, ao que está escrito no plano de governo do Haddad. Esse é meu posicionamento ideológico, e aqui entendo que possa haver divergência. Entendam, no entanto, que os liberais estão surgindo aos montes. Muita gente está ansiosa por tentar um caminho diferente e essa vontade, legítima, não deveria ter sido repreendida da forma estúpida com que foi.
Mas o Paulo Guedes não é o candidato, e o Bolsonaro não é liberal. O Bolsonaro é conservador, nacionalista, e brada que quer mais liberdade na economia por esperteza, só. É uma artimanha vazia de significado, encenada. Nunca vi o Bolsonaro falar, com brilho nos olhos, e afinco, da liberdade econômica, como fala de suas pautas conservadoras. É por isso, aliás, que ele se furta aos pronunciamentos sobre economia - por mais que atribua isso a outras razões. Ele reproduz, com má vontade, o pouco que é capaz de assimilar. Como acreditar que ele realmente levará a cabo o que o Paulo Guedes diz, ou que está escrito no plano de governo? Ainda assim, mesmo que cumprisse à risca o plano de governo, no que diz respeito à economia, as atrocidades que ele diz não podem ser subestimadas. Ainda que, eu acredito, alguma parte do que ele diz se deva à sua limitação intelectual - do mesmo tipo que afligia a Dilma, atrapalhando-os a se expressar corretamente -, ele profere pensamentos violentos e racistas, e isso não pode ser, senão, a expressão do seu âmago. As palavras dele encorajam tendências nefastas, antiprogressistas, e são uma ameaça real a ganhos civilizacionais que foram conquistadas a um custo elevadíssimo, e muito tardiamente.
Quisera eu que meus amigos de esquerda tivessem tido o mesmo empenho em convencer mais pessoas a votar no Ciro, ou em pedir a renúncia do Haddad à candidatura, que têm ao atribuir àqueles que anularão o voto a responsabilidade pelo desfecho que se desenha. É fácil apontar o dedo na cara de um liberal. Eu queria ter visto vocês apontando o dedo na cara dos petistas, no primeiro turno, com essa mesma insolência. Quisera, igualmente, que meus amigos que votam no Bolsonaro, por ojeriza ao PT, tivessem se posicionado em favor do Amoêdo, que é verdadeiramente liberal – ao menos economicamente -, e não tivessem se aproveitado, ao que parece, de alguns argumentos justos, para defender, vivamente, o indefensável.
Queria eu ter escutado menos "ele é ruim, mas o outro lado é pior" e mais "nenhum dos dois é razoável", já no primeiro turno.
Eu não estou me omitindo, ao anular meu voto. Eu reprovo os dois, por motivos, no meu entender, bastante parecidos, como tentei explicar - ainda que a ameaça do Bolsonaro pareça mais aguda, por ferir mais descaradamente direitos fundamentais -, e o voto nulo é a maneira de expressar isso. Mas, para além de afirmar categoricamente que isso não é omissão, e ter que discutir semântica num debate infértil e irresolúvel, quero dizer que revi, nos últimos anos, muitos posicionamentos políticos que eu tinha, que eu também não sou flor que se cheire e que confio que os demais "isentos", como eu, sejam um indicativo de que o voto por medo fortalece os extremos. Não tem voto útil, ou veto, que dê fim a esse ciclo. Ao anular meu voto, permaneço “íntegro”, ao menos aos olhos dos menos compreensivos, para dialogar com todo mundo, sem o obstáculo do ressentimento. É claro que sou privilegiado, e talvez a sensação de urgência não grite em mim tanto quanto em outros - e talvez por isso, aos seus olhos, eu possa ser considerado imparcial -, mas a verdade é que nós perdemos essas eleições no 1º turno. Eu já estou militando pelas próximas, para desarmar esse mecanismo de ódio, em que os vilões se retroalimentam, então não me julguem mal.