Capítulo 26 - Assunto para Mortos
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Postado originalmente por
Neal Caffrey
Mais um excelente capítulo, Nightcrawler complexo como sempre, personalidade magnetizante.
Deixando de lado momentaneamente as questões envolvendo o próprio enredo em si, gostaria de lhe chamar a atenção ligeiramente a respeito da gramática. Não se esqueça dos acentos e, mais do que isso, se a sentença é narrada no presente, então a mantenha no presente em sua integralidade; não mescle o manuseio da frase entre passado e presente, sob pena de comprometer seu sentido e a própria narrativa. Exemplo prático:
Outro ponto onde desejo chamar sua atenção: a questão da transitoriedade dos verbos. Quem "reclama", reclama "de" alguma coisa, e não "alguma coisa", simplesmente. Isso porque reclamar "de" significa se queixar; reclamar "algo" significa atrair para si; entenda que a flexibilização do léxico cria sentidos diferentes. Senão, veja-se:
De mais a mais, gosto de pensar no caminho que a história toma e nas guinadas que costuma dar. A cada novo capítulo, a história parece transitoriamente se desenrolar num determinado sentido; de repente, ela assume outras feições e dispara em direção oposta, o que me agrada e me agrada muito. Atenções voltadas para Aika e para sua capacidade de síntese.
Aguardo ansiosamente pelo próximo capítulo.
Forte abraço, Carlos!
Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios. E perdão pelos erros, foi uma distração rápida na minha revisão.
A história deve estar no ritmo certo agora. Não consegui manter um clima depressivo, que era a minha intenção inicial, mas acredito que não será necessário por enquanto. Por hora, fazer com que os leitores entendam tudo é minha intenção primária.
Obrigado pela sua presença e conto contigo nos próximos capítulos. :)
Continuo essa caminhada para o final da história. E conforme ela vai se aproximando, coisas novas serão reveladas. Eu espero que tudo que está acontecendo até o momento esteja empolgando vocês.
Espero que gostem.
No capítulo anterior:
Dartaul relembra seu passado, ou o último dia em que esteve com seus pais. Aika está acordada e viva, e agora gera dúvidas e receio no grupo. Enquanto isso, eles planejam ir até Carlin para deixar Eloise em segurança.
Capítulo 26 – Assunto para Mortos
O porto de Carlin parece um cemitério.
Apesar de ser dia e do sol estar iluminando a cidade, ela não parece tão animada quanto a luz que a ilumina. O cais vazio, a falta de um guia e o movimento rápido das pessoas nas ruas indicam que a situação na cidade não parece ter melhorado muito. Nightcrawler e Trevor veem isso enquanto próximos do contramestre e do capitão do navio, já que estavam passando um bom tempo conversando ali até chegarem à cidade.
— Achei que a cidade estaria melhor, agora que há uma nova líder. Não parece ter mudado muito... — Comenta Trevor, inquieto.
— Carlin está melhor, mas os seus cidadãos não. — Responde o contramestre, um homem moreno com um visual comum de marinheiro e um chapéu triangular. — Ela tem reformado todo o norte da cidade mais rápido do que chuva de verão, e pelo que é dito, já está terminado. Logo os mercantes voltam pra essa cidade e as coisas voltam a andar.
— Você realmente pensa que tudo voltará a andar assim, como se elas tivessem sido atacadas por orcs? — Questiona Nightcrawler, com os braços cruzados — Eram membros da Irmandade. Eu andei olhando mais alguns relatórios que reuni e me lembrei de algo importante que devo ter deixado passar: Massacres promovidos pela Irmandade nunca são feitos por eles mesmo, mas sim pelas vítimas, conduzidas a matar umas as outras. Há os mesmos rastros em todas as que olhei. Então, só imagine como o psicológico de quem sobreviveu aquilo está agora, some com rumores espalhados pela cidade, e então...
O contramestre fica em silêncio, bem como o restante.
— Bem, você tinha me dito que está próximo de acabar com eles, não é? — Disse Harlow, sem se distrair com o mar ou com o assunto. — Se estiver, faça isso o quanto antes. Os tibianos não merecem sofrer por tanto tempo dessa maneira.
— Ou talvez sim. O destino sempre tem seus motivos para atuar.
O navio atraca no cais sem pressa. A primeira vista, não parecem saber muito bem o que fazer. A luz que Carlin sempre teve parece ter se dissipado, e a própria cidade parece inquieta com alguma coisa. Do convés, sobem Dartaul, Aika e Alayen, além de quatro marujos com um caixão. Nele, está Eloise, que já não é mais a rainha.
— Nosso trajeto será pelos esgotos. Não importa se a cidade está depressiva ou não.
Ninguém discorda. O detetive se despede de Harlow e diz que voltará em algumas horas. Feito isso, eles partem até um armazém próximo e encontram uma entrada para os esgotos. Vendo que ninguém está nas redondezas, eles descem, sendo Alayen o primeiro para guiar os marujos e assegurar a segurança do local, depois o caixão, e então o resto do grupo.
A jornada pelos fétidos corredores do subterrâneo da cidade mostra-se sombrio. O cheiro ruim de água suja e lixo distrai os sentidos de alguns membros do grupo, mas como estão sendo seguidos por Nightcrawler, sentem que conseguirão passar por ali sem muitos problemas. E conforme seguem em direção ao norte, sentem um cheiro estranho além do lixo entrar por suas narinas e confundi-los pelo caminho que estão seguindo.
Após alguns minutos, eles descobrem a fonte do cheiro. As águas dos esgotos do norte de Carlin foram convertidas em sangue. Nightcrawler respira fundo e o restante desvia o olhar.
O detetive acha uma saída ao lado do castelo de Carlin e, novamente, Alayen sobe primeiro, checa o perímetro e manda o caixão subir. Dessa vez, usam uma corda para puxá-lo, com um marujo atrás empurrando. Feito isso, o resto do grupo sobe para dar uma olhada na região. E como imaginaram, as casas estão limpas, com janelas trocadas e portas com novas maçanetas, indicando novas fechaduras. Não há mais nenhum rastro de sangue na região, apesar dela estar estranhamente vazia.
Eles caminham atentos até a entrada do castelo. Reparam que a Guilda dos Cavaleiros, o prédio que fica do outro lado do castelo, próximo da muralha, está desativado. O provável é que não encontraram ainda um substituto para Trisha, a antiga líder da guilda. E na entrada do castelo, o que encontram é uma guarda composta por doze guardas, dois na entrada, o resto andando pelo jardim destruído do castelo, que agora está convertido em terra.
Nightcrawler olha para Aika e faz sinal para que ela siga-o. Os marujos vem logo atrás. Após doze passos, as dez guardas ao redor surgem num instante ao redor do caixão, apontando suas espadas. As outras duas apontam as suas para o pescoço de Nightcrawler, que segue com as mãos no bolso, indiferente ao perigo. Aika parece assustada, mas mantém a calma.
— Homem. — Disse com desprezo a guarda na sua direita, uma mulher desconhecida, mas com voz firme. Usa um visual de cavaleiro completo, com capacete, armadura, ombreiras, caneleiras, luvas e capa — Acho melhor que tenha uma boa desculpa para ousar pisar mais do que dez vezes neste recinto nobre e feminino.
— Ô se tenho, recruta. É só olhar o caixão.
As guardas irritam-se com o comentário e Aika percebe que é o momento de agir.
— Perdoe a falta de educação de meu guarda-costas. Meu nome é Aika Danguian, e trago algo que recuperei em nome de Vossa Majestade.
As atenções são voltadas para a feiticeira, que não se sente a vontade. Dartaul, ao fundo, parece nervoso.
— O que seria?
— A falecida Rainha Eloise.
As mulheres parecem bem surpresas. As guardas que cercam o caixão abaixam suas espadas, mas as outras duas não. Parecem ter dúvidas. Isso é visível pela forma de como seus braços tremem.
— Eu preciso verificar o caixão.
— Só na presença da rainha atual. Nenhuma guarda deste reino pode profanar o descanso de uma antiga líder sem permissão, é uma completa blasfêmia.
A guarda à direita cerra os dentes, mas abaixa a espada, entendendo o pedido.
— Acompanhem-me, então.
— Gostaria de pedir que os outros membros do meu grupo me acompanhassem.
— Por?
— Questão de segurança. E todos eles tem a ver com o resgate do corpo.
A mulher fica pensativa.
— Bem, de qualquer maneira, tudo depende de Sua Majestade, que está em seus aposentos. Ficarão do lado de fora até que ela tome uma decisão a respeito disso.
Aika assente e faz sinal para o restante vir com eles. Enquanto passam pelo caminho no meio do jardim, eles recebem encaradas intensas das mulheres ao redor, forçando-os a caminharem mais rápido até o castelo.
O que encontram no caminho até o quarto da rainha é um chão que um dia já foi impecável, mas agora parece menos cuidado. Ele não brilha em reflexo das luzes dos dois lustres pendurados no teto, e não é mais tão branco que parece vidro. Agora, ele contrasta com as cortinas vermelhas nas janelas, com as paredes de mármore branco e com o tapete vermelho que leva até o trono, mas não mais da mesma maneira grandiosa de outrora.
As escadarias que levam aos andares superiores são feitas de mármore e serpenteiam até o andar seguinte. Eles passam por um corredor com vários quartos, mas, aparentemente, nenhum deles é o da rainha. Há portas feitas também de um mármore branco e fino, mas faltam polimento, portanto, estão escurecidas. E no andar onde está o aposento em questão, encontram algumas mulheres perambulando pelo corredor – Empregadas da rainha. Há duas guardas no final do corredor, onde está o quarto.
Por incrível que pareça, os homens presentes ali atraem mais a atenção do que o caixão. Cada mulher que os encara parece tirar mais de suas seguranças particulares, como se, no fundo, quisessem tirar suas masculinidades com as mãos. Dartaul não entende o ódio que elas sentem, mas não se importa com isso, apenas continua andando.
E ao chegarem no quarto, a guarda que os acompanha pede que fiquem do lado de fora, esperando, enquanto as guardas de fora e algumas serviçais desarmam eles por questões de segurança. Após alguma inquietação e diálogos, ela aparece de novo, mandando, surpreendentemente, todos entrarem.
O quarto da rainha é menor do que o que Eloise possuía, portanto, não é tão grande. Possui uma cama de solteiro rica e ornamentada no canto esquerdo à porta, uma janela relativamente pequena, um armário branco comum à direita, um criado-mudo de mesma cor ao lado da cama e uma cômoda marrom ao lado da porta. Há uma mesa de montar feita de madeira bem polida no centro do quarto, onde a rainha se encontra, com um vestido simples e vermelho com um cinto de couro. A mesma coroa que antes Eloise usava agora está em sua cabeça, em seus cabelos presos numa grande trança que passa pelo seu ombro e um pouco além de seu peito.
A mulher é bela e jovem, alguém que não viu tantos invernos. Possui um cabelo cor avelã, um corpo magro e comum para as mulheres carlinídeas, olhos verdes, nariz e lábios finos. Seu olhar é firme, porém, encantador. Ela está de pé frente a essa mesa, onde há alguns pergaminhos reunidos, além de um pote branco de tinta com uma pena sobre ao lado. Suas mãos estão juntas frente a sua barriga, que parece bem reta e sem destaque algum.
O grupo faz uma reverência para a rainha. Exceto Nightcrawler, que permanece parado.
— Não é necessário. Levantem suas posturas, por favor. — Disse a líder, com um pequeno sorriso no rosto. Sua voz é doce e calma, porém, possui autoridade.
— O oferecimento do nosso respeito à Vossa Majestade é necessária, principalmente nesta situação. Agradeço por aceitar nossa presença aqui, senhorita. — Disse Aika, preocupada com o que diz.
— Eu entendo, mas não é necessário. Vocês dizem ter algo de uma importância realmente surreal, que nem mesmo Vania, a mulher que lhes trouxe até aqui, teve coragem de dizer. Este caixão... Pode deixá-lo no chão e abri-lo, por favor.
Os homens do grupo vão para os cantos do quarto e deixam Aika tomar a frente. Nightcrawler fica próximo da garota, enquanto os marujos abrem o caixão e deixam-no ao alcance da visão da mulher, para depois saírem do quarto. E ao ver o rosto pálido da sua antiga líder, sua expressão muda.
— Não devo ter me apresentado ainda. Sou Elisângela, sobrinha de Eloise. A rainha teve um filho, mas este foi banido do reino por uma relação proibida. Como ela não conseguiu gerar uma criança mulher, eu, filha de sua irmã, Êdora, assumi o trono e o governo do reino de Carlin. Minha mãe faleceu há alguns anos, e desde então, estive vivendo em Ab’Dendriel. E vocês, os que resgataram minha falecida tia, quem são?
Tanto Nightcrawler quanto Dartaul parecem incomodados com o fato dela não se incomodar tanto com a presença do corpo de Eloise a sua frente.
— Sou Aika Danguian, venho de Porto Esperança.
— Entendo... Há muitas pessoas de olhos puxados por lá. E vocês?
— Dispense apresentações dos membros, rainha Elisângela. — Corta Nightcrawler, direto e sério. Estranhamente, a mulher não se importa com isso. É como se ela estivesse esperando que algum deles fizesse isso.
— Se é o seu desejo, visitante...
— Eu sou o atual líder desta companhia. Estivemos em Yalahar para recuperar o corpo de sua parente.
— Entendo... Você é Nightcrawler, não é? Sei do seu título... O Conde Mascarado de Yalahar. Você é aquele homem corajoso que persegue a irmandade responsável pela morte de Eloise.
— É por aí. Passamos por bastante sufoco para recuperar o corpo dela. O motivo foi descoberto por nós recentemente. Peço para que preste atenção.
A rainha não diz nada, apenas concorda com a cabeça.
— Nenhuma vítima da Irmandade do Caminho de Sangue está morta. Elas estão num estado de coma induzido, muito semelhante com a morte. Estão lidando com pesadelos, um atrás do outro. Só sairão desse estado quando toda a Irmandade for exterminada. E é o que eu busco, no momento.
Elisângela mostra uma expressão de surpresa pela primeira vez, mas seu semblante continua indiferente, tornando todo o resto falso.
— Então... Eloise continua viva?
— Exato. Mesmo agora ela pode possivelmente nos ouvir, mas não sairá do estado de coma.
— Entendo. É uma grande descoberta, detetive.
— De fato, é. Por isso resgatamos Eloise. Ela precisa de cuidados e proteção.
— Pois bem. Eu compreendo.
Um silêncio surge de repente no quarto. Algo parece se divergir entre os pensamentos da rainha e do grupo.
— Bem... Pela quietude, parece que vocês desejam que meus druidas sejam quem dará a ela cuidado e proteção, estou certa?
— É o que esperamos encontrar aqui, Majestade. — Disse Aika, juntando as mãos, ainda preocupada e inquieta.
Dartaul fecha a cara. Ele parece já ter entendido tudo antes de todos. Por um breve instante, Elisângela olha para ele e sorri levemente de canto, e volta a olhar para Nightcrawler e Aika.
— Não. Eloise não é problema meu.
Silêncio dentro da sala. Caos dentro das cabeças dos presentes.
— Como é? — Pergunta Nightcrawler, tirando as mãos do bolso.
— É como eu disse. Ela será problema ou dos druidas, ou de vocês. Eu reneguei sua linhagem falha e iniciei a minha própria, inspirada na minha mãe. Tive autorização das ministras e tudo corre bem. Isso foi necessário para que toda a cidade ficasse limpa como está agora e para que eu não me preocupasse com nada além da situação de Carlin.
— Essa atitude é uma blasfêmia contra a cidade e o seu povo, Majestade. Não faz sentido nem em sua base.
— Claro que faz... Caso fosse revelado ao povo que a família de Eloise usurpou o trono.
O caos em suas mentes parece cobrir tudo que ouvem. Ele aumenta mais a cada palavra dita por Elisângela, que permanece calma como a brisa de uma manhã, e voraz como um lobo há semanas sem comer.
— Talvez não tenham reparado, mas... — Disse a rainha, retirando algumas mechas de cabelo que cobriam suas orelhas, revelando um formato pontiagudo — Sou uma elfa. Apesar de eu me parecer muito com uma humana, isso não passa de uma maldição imposta pela família de minha tia, a mesma família nobre de Thais que roubou o que deveria ser dos druidas e dos elfos, mandando-nos para Ab’Dendriel contra nossa vontade. Esperamos por dois séculos, indiferentes a longevidade élfica. Mas deu certo, no final. O ataque da Irmandade do Caminho de Sangue foi uma mão na roda. Carlin pode voltar a pertencer a quem sempre pertenceu, matando de uma vez a influência thaiana que existe no norte deste continente e dando-o para as raças que realmente seguem os deuses. E isso é tudo.
O grupo fica em silêncio. Havia algum barulho do lado de fora do quarto, mas este também cessou há algum tempo. Aparentemente, quem está do lado de fora também está ouvindo a conversa.
— No fim, você acabou dando um golpe de estado surpresa, não é? — Disse Dartaul. Não está nervoso nem sente medo, apenas está irritado.
— Ora. Golpe de estado? Aonde, aqui? — Questiona Elisângela, olhando para o rapaz de forma desafiadora — Não aconteceu nenhum tipo de golpe aqui, meu rapaz. Fui coroada legitimamente. Sou a única sucessora restante.
— Não. Você roubou o trono. Não tem sangue real, provavelmente foi adotada.
— Minha avó foi. Ela era uma elfa em segredo que foi assassinada por um viajante de Venore. O mesmo foi julgado há muitos anos. Mas não há necessidade para que eu tenha sangue real, afinal, o trono sempre foi dos elfos!
— Quem determina isso são os líderes élficos! Se fosse mesmo o caso, os arcanistas já teriam vindo aqui te visitar, não acha? Os elfos estariam entrando na cidade, estariam colaborando com os druidas para assegurar as redondezas, retirariam o sangue nos esgotos. Mas isso não está acontecendo pois você não é a líder legítima. Os elfos não te apoiam.
— Os elfos ainda não sabem quem eu sou. Mas logo saberão e virão para me auxiliar, e espalhar a palavra dos verdadeiros governantes desta parcela do continente.
— É aí que você está errada. — Disse agora Alayen, com os braços cruzados, encostado na cômoda de madeira — Os arcanistas não virão te ajudar, pois eu nunca os ouvi desejando o trono de Carlin. Preferem deixar na mão das ex-amazonas. Eu próprio os questionei, como parte do meu treinamento particular.
Elisângela parece estar perdendo sua resistente calma.
— De qualquer maneira, o corpo não é problema meu. Resolvam esse problema da forma que acharem melhor. Estão dispensados.
— Nunca vi alguém fazer pouco caso de uma parente dessa maneira. — Disse Nightcrawler, resignado.
Alguém parece ter aberto a porta, mas apenas alguns membros do grupo repararam. A rainha ainda rouba-lhes a atenção, principalmente pela sua visível mudança de humor.
— A RAINHA ELOISE NÃO ERA MINHA PARENTE! Essa linhagem morreu! E se vocês também não quiserem o mesmo destino, sumam daqui junto desse caixão. Essa audiência está terminada.
— Carlin também encontrou seu fim com você, rainha Elisângela.
— Como é? — Questiona a mulher, com uma das mãos sobre a mesa. Sua calma já se fora há algum tempo.
— Exatamente o que ouviu. Acha que Carlin se sustentou todos esses anos por causa que essa família era rica? Melhor dar uma revisada no seu conhecimento lendo alguns livros a respeito da história deste reino, pois o motivo de você ter esse castelo luxuoso e essas serviçais e guardas a sua disposição é apenas por causa da competência de cada líder que governou esse lugar depois de Xenom. Não seja estúpida. Carlin nunca foi governada por thaianos disfarçados e os elfos nunca desejaram esse reino. Você está sendo uma criança birrenta, achando que roubaram seu brinquedo, e agora está jogando tudo que acha no caminho no chão e nas paredes pra ver se te notam e te ajudam a recuperar o brinquedo que você nunca teve.
Elisângela arregala os olhos. Mal acredita no que está ouvindo naquele momento.
— Ama o povo de Carlin? Faça um favor para eles: Deixe esse trono. Pois eu próprio farei Eloise voltar a governar essa merda de reino, não importa se eu tiver que tirar um exército do meu cu e botar na porta dessa cidade. Pois se as mulheres daqui dependerem de você, elas vão estar mais fodidas do que caso fossem governadas por um homem.
Nightcrawler dá as costas para a rainha e vai em direção da porta. E ao abri-la, dá de cara com três guardas, várias serviçais e com a líder da Guilda dos Feiticeiros, Lea, totalmente surpresa. Entretanto, ele passa direto por ela, e vai até os marujos.
— Tirem o caixão daquele quarto. Estamos partindo de Carlin hoje mesmo.
Sem contrariar, eles concordam e correm até o quarto. Os restantes no quarto saem, liberando o caminho para os marujos trabalharem. A passos largos o detetive se vai, e a passos rápidos e desesperados alguém o segue. Próximo de descer para o próximo andar, ele decide parar e virar para trás, mas é surpreendido pelo abraço de alguém querido.
Lea abraça-o forte, mas Nightcrawler afasta a mulher. Ela insiste, deixando-o sem muitas opções.
— Achei que não tínhamos nenhuma relação forte.
Ela sente um aperto no coração.
— Claro que tínhamos, seu imbecil! Eu... Eu mal pude me perdoar por isso. Por não deixar você saber o quão inquieta e depressiva eu fiquei por todo esse tempo que você me deixou, visitando-me tão raramente... E sabendo que você iria para Yalahar, para atrair a Irmandade toda de uma vez e tentar destruí-la... Merda, Crawler! Eu realmente senti medo. Um medo tão forte que meu peito chegava a doer. Me dava até falta de ar imaginar uma faca entrando no seu coração...
— Melhor do que sentir dor nas costas o tempo inteiro.
Lea soca o braço do detetive. Ele sorri.
— Você sabe que eu nunca vou morrer pra esses desgraçados. Eu nunca fui pego por eles, e assim vai continuar até que eu os extermine.
— E agora... Você está indo até eles pra destruí-los?
— Precisamente. E eu não sei se irei voltar.
— Não... Nightcrawler. Ou melhor, Suzio. Me prometa...
As mãos de Lea chegam atrás de sua cabeça num instante para retirar o barbante transparente que prendia a máscara do homem. Ela retira devagar, revelando para ela olhos mais sombrios que da última vez que ela pôde ver esse rosto. Com as duas mãos na nuca do homem, ela beija-o apaixonadamente, e se afasta alguns instantes depois.
—...Que irá voltar.
Suzio dá um sorriso triste e toma a máscara das mãos de Lea para colocá-la novamente. O grupo está vindo ao longe, junto do caixão. Ele volta a pousar seu olhar no rosto esperançoso de Lea.
— Desculpe, Lea. Eu não posso.
Ele toma os braços da moça de si e abaixa-os, e vira-se para descer a escadaria até o próximo andar, sem se despedir. Lea fica ali, cabisbaixa, sem saber como reagir. Sua echarpe cai no chão, e o grupo, junto do caixão, passa direto por ela. E conforme ela nota isso, ela percebe que ninguém voltará por ela. E ninguém pode ajudá-la a matar essa solidão que a ronda por tantos anos.
E então, Dartaul pega a echarpe da mulher e deixa em seus braços, sem dizer nada. Ela fita-o, e por um momento, pensa ter visto Suzio, porém, muito mais jovem.
Ele vai embora. A hora de investir contra a Irmandade está chegando, e ela sabe que eles não possuem tempo para ajudar ninguém senão eles mesmos.
Próximo: Capítulo 27 – Divergentes
Capítulo 27 - Divergentes
Citação:
Postado originalmente por
Edge Fencer
E aí!
Bom, acabei deixando acumular dois capítulos novamente... Comentarei as minhas impressões sobre ambos.
No capítulo 25, achei certeira sua escolha de iniciar a narração com esse flashback do Dartaul. Além da qualidade excelente que teve, ele também deu uma carga emocional e até um certo suspense que enriqueceram bastante o capítulo. Sobre a Aika, muito mais dúvidas do que constatações, mas isso é o normal vindo de mim kkkk. Sei que o Dartaul provavelmente vai crescer bastante como personagem nesse final, mas devo admitir que ele já era um dos personagens que eu mais gostava na história; fico contente de ver que ele está tendo um desenvolvimento muito bem feito :)
Sobre esse último capítulo, rapaz, que treta você foi introduzir na história, hein? Bloodtrip já se mostrou bem imprevisível até aqui, mas envolver elfos e uma disputa pela coroa de Carlin foi outro nível. A expectativa pra isso tá altíssima, já que essa rainha usurpadora parece ser uma personagem muito interessante. Falando sobre essa rainha, eu gostei bastante das descrições que você forneceu sobre as atitudes e expressões dela, fez com que eu me sentisse realmente dentro daquela cena. Destaque pra essa passagem, achei muito massa:
Falando no geral agora, Carlos, esses dois capítulos mostraram uma versatilidade bem interessante da sua escrita. Já comentei aqui (mais de uma vez kkkk) que esse estilo de batalhas ninjas naruteiras, como diz o Skirt, e todo o sangue e violência que você traz aqui não é exatamente a minha leitura preferida. Por isso, ver esses capítulos nos quais você trouxe suspense, batalhas psicológicas, disputas políticas... É legal demais cara, de verdade. Não que o resto da história não tenha esses fatores, mas esses capítulos trouxeram isso em um nível excelente. Você tem muito talento, Carlos, nunca pare de escrever xD
Fico esperando a sequência, bem curioso pra descobrir as próximas ações do Crawler.
Abraço!
Diga aí Edge, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Dartaul já estava perturbado com muitas coisas desde o começo da história, ter esse sonho no começo daquele capítulo foi a melhor coisa que pude fazer para continuar seguindo com esse foco nele. Eu também queria contar mais a respeito dele e do porque ele ter mudado como personagem ao longo da história. Ainda continuarei fazendo isso, afinal, já dei muito foco no detetive mascarado, acho que agora ele também tá precisando. Os outros, bem... Quem sabe um dia. :smile:
A parte que inclui na história a respeito de Carlin é parte das tretas dessa versão de Tibia que eu criei, então acredito que não haja espaço para introduzir isso aqui, por hora. Mas, claro, não vai terminar assim.
Por fim, creio que os últimos capítulos terão esse foco mais psicológico para então voltar a porradaria. Eu venho planejando tudo há um bom tempo, então escreverei cada coisa com o melhor que tenho em escrita. Eu espero que goste!
Espero que goste desse capítulo também. Escrevi ele pensando em cada pessoa aqui que curte o Dartaul e o Nightcrawler.
Esse capítulo, originalmente, não existe. Decidi escrevê-lo pois achei necessário uma introdução para o próximo arco. Não quero que nada pareça seco demais agora, tudo passará a ter seus motivos e seu sentimento por trás, seja drama, suspense, ou até terror. E, claro, espero passar todos esses sentimentos para vocês sem problemas.
Espero que gostem do capítulo!
No capítulo anterior:
O grupo leva o corpo da Rainha Eloise para a nova rainha de Carlin, Elisângela, apenas para descobrir que ela abomina Eloise e sua linhagem, e deseja deixar Carlin para o povo élfico com ela no comando. Mas Dartaul lhe dá um senso de realidade, juntamente de Nightcrawler. E enquanto saem dali, o mascarado reencontra Lea, mas a deixa para trás, não prometendo voltar.
Capítulo 27 – Divergentes
O navio segue numa viagem quieta pelo golfo dos reis. Não demorará mais do que um dia para chegarem ao seu destino.
Dartaul está quieto em sua cabine. O olhar de Lea direcionado a ele, como se o próprio fosse sua última esperança, parece ter martelado fortemente dentro da sua cabeça, uma vez que, por mais que ele tente, o rapaz não consegue esquecer o que viu. Enquanto deitado, ele tenta organizar seus pensamentos, ao mesmo tempo que lida com os roncos baixos de Aika, que dorme abraçada a ele, com a cabeça em seu peito. Ele não chegou nem perto de pensar o suficiente sobre ela, principalmente sobre o seu retorno misterioso.
E agora, o maior mistério naquela história toda é sobre o próximo passo de Nightcrawler. Afinal, o detetive é totalmente imprevisível.
Dartaul vira o rosto para o lado, ainda pensativo, enquanto o navio balança calmamente. E ao olhar para a porta, nota ela entreaberta e com um rosto sorridente por trás dela.
— Feliz natal. — Disse Nightcrawler.
A respiração de Dartaul volta devagar.
— Filho da puta. Quase morro de susto. — Murmura Dartaul, tentando não acordar a feiticeira com a sua voz.
— Preciso que venha comigo. Vamos conversar.
— Conversar sobre o quê?
— Sobre a economia dos dworcs. É algo realmente interessante, pra não dizer complexo.
O investigador bufa.
— Vamos só conversar. Não há mal algum nisso. Anda, sai daí.
O rapaz decide se levantar, tomando cuidado com Aika. Ele puxa o travesseiro e coloca-o debaixo da cabeça da garota, na tentativa de enganar sua mente e dizer que ele ainda está ali.
Dartaul segue o detetive até a sua cabine. E ao entrar, mal repara em diferenças para a sua. Apenas há mais prateleiras com vários livros em ao menos três paredes do quarto. O rapaz fecha a porta e Nightcrawler dirige-se para uma mesa próxima, tomando para si dois copos cheios de uísque.
— Aceita? — Disse o mascarado, oferecendo um dos copos para o rapaz.
— Uísque? Num navio desses?
— O quê? Não estamos num navio pirata para bebermos rum. E eu não gosto de rum, também.
O rapaz aceita, e Nightcrawler se senta na outra ponta da mesa. Dartaul senta na cadeira mais próxima, ficando frente a frente com o mascarado.
Surpreendentemente, ele retira sua máscara e deixa-a sobre a mesa. Seu rosto quase coberto por queimaduras, além da estranha cicatriz no olho esquerdo, parecem ser o destaque central da sala. Afinal, não é todo dia que se vê algo assim.
— E então, rapaz, me diga: O que tem achado dessa missão toda?
O investigador se surpreende. Não havia pensado em algo assim até o momento.
— Bom... Não sei. Pra falar a verdade, não passou pela minha cabeça pensar sobre algo assim.
— Imagino. Tanta merda acontecendo ao mesmo tempo não nos dá o luxo de refletir sobre nossas vidas.
— Talvez eu possa dizer que foi uma experiência e tanto. Mas está longe de ser positiva.
O detetive parece intrigado. Entretanto, ele finge não estar, afinal, sem a máscara, outros podem ver suas expressões e se divertir com isso. E talvez seja um dos motivos do mesmo utilizar aquela máscara.
— E por que diz isso?
— Preciso explicar ainda, Suzio?
Dezenas de cenas onde Dartaul passara por problemas na missão chegam a sua mente, mas ele continua indiferente enquanto fita o rapaz.
— Bem, acho que não. Mas é sempre bom botar as coisas pra fora, não é?
— Justamente pra quem causou todas elas? Acho que ainda não é o momento.
— Ora, rapaz. Não me olhe como se eu fosse o diabo em pessoa. Sei que não sou nenhum santo e nem fui a melhor coisa para essa companhia, mas provavelmente você tem em mente que eu nem esperava que metade das coisas que aconteceram virassem realidade. Estou errado?
— Então você é um péssimo líder.
Suzio dá um riso abafado e triste.
— É, talvez eu seja. Mas, sabe, há uma razão. Não sou nenhum gênio, sou apenas um detetive com uma mente aberta. E antes disso, eu não era um gênio também. Quando eu estudei para ser um alquimista ao lado de um velho amigo, eu reparei que eu tinha a tendência de ser deixado para trás. Como durante o período que vivi com meus pais, que sempre me deixavam sozinho em casa para ir trabalhar e pouco se fodiam pras minhas condições. Deixavam que um vizinho ficasse de olho em mim e cuidasse de mim quando eu ficasse doente. Acho que, no fim, essa impressão nunca foi deixada para trás.
Dartaul fita-o seriamente, sem responder.
— Mesmo liderando essa companhia, eu não sentia que estava totalmente apto a guiá-la. Sentia sempre que estava faltando alguma coisa na minha conduta, que eu estava cometendo erros atrás de erros. Então, mesmo quando eu calava a minha boca frente as merdas que aconteciam com a gente, eu estava pensando... Porra, eu sou um retardado mesmo, um animal. Garanto que se fosse ele, algo diferente ocorreria. Algo melhor.
Suzio dá uma golada rápida em seu uísque.
— Então você sempre esteve se culpando pelo que fez?
— É por aí. É bem estúpido ao olhar dessa forma. Eu estou aqui, pensando que não sou capaz de liderar ninguém, ansiando por alguém para carregar por mim meu fardo. Mas veja por um lado: Todos alguma vez já pensaram assim, frente a alguma dificuldade.
— Eu nunca pensei.
Suzio engole em seco frente a Dartaul pela primeira vez desde que tudo aquilo começou.
— Certo, Dartaul. Então, de fato, você é forte, e eu, fraco e mesquinho. Mas é como eu te disse quando estávamos no hakugai: Eu nunca pedi por isso. Nós um dia desejamos crescer, e quando crescemos, queremos voltar de onde começamos. Afinal, um joelho ralado dói muito menos que um coração partido. Perder o dia de brincadeiras com os amigos por causa da chuva é menos doloroso do que ver suas expectativas para o futuro destruídas diante dos seus olhos. A inocência e ignorância da infância é mais confortável do que o conhecimento adulto sobre o mundo.
Dartaul permanece indiferente, mas Suzio não se incomoda com isso.
— Até hoje não sei o destino dos meus pais, nem do vizinho que cuidava de mim, nem dos meus amigos. Não sei o que aconteceu com meu velho amigo Senzo, nem com os amigos que consegui enquanto trabalhei em Yalahar. Acho que nem saberei. Me resta continuar trabalhando e cumprindo meu papel enquanto ainda estou vivo. Meu papel de detetive.
Finalmente o investigador parece entendê-lo melhor, e então, toma um golpe do uísque, em resposta.
— Você é bem emotivo pra alguém tão frio e babaca.
— Talvez.
— Além disso, você expressa coisas que eu mal cheguei a sentir. Afinal, eu não quero voltar pro meu início. Mal tinha amigos, tampouco tive tempo para ser inocente. Agora, eu não sinto que estou cumprindo algum papel. Na verdade, pareço mais um zumbi procurando cérebros. Esses cérebros talvez sejam o fim dessa missão, onde depois disso, continuarei andando por aí, sem rumo. Afinal, você fodeu comigo.
— Pensei em algo para ajudá-lo, nesse caso.
Suzio se levanta e pega uma pasta, cuja capa é feita de madeira e é bem escura. Ele coloca na mesa e deixa ela a disposição do rapaz, que abre com curiosidade. Vê relatórios que tinham sua letra, mas ele sabia que não tinha sido ele quem escreveu aquilo.
— Uma das minhas habilidades é copiar caligrafias. Fiz para você esse relato que você poderá entregar para a sua guarnição daqui um mês.
— E o que tem aqui para me ajudar? — Questiona Dartaul, alheio ao fato dele nunca ter mostrado sua caligrafia para Nightcrawler.
— Provas de que você me matou após a Arapuca de Yalahar. Que você tinha começado uma investigação independente para me capturar. Sei que Harkath mandou Trevor para cá justamente pra me capturar caso eu fizesse merda e botasse autoridades em risco. Deve lembrar que, para a chefe dos inquisidores thaianos, eu te capturei junto de Trevor. O relatório estava sendo escrito desde aquilo, e eu decidi ir até lá justamente para o fato de você ter me matado fazer sentido.
— Sempre sendo um detetive sem noção, não é?
— É o meu trabalho.
Dartaul sorri e bebe um pouco mais do uísque, e fecha a pasta. Suzio senta-se na cadeira próxima, e fita o rapaz.
— Ainda podemos conversar mais um pouco.
— O navio deve estar chegando ao nosso destino. Ilha Calcanea, não é?
— Isso. Depois iremos para Fibula e por fim chegaremos no continente para entrar em Thais pelo sul.
Ambos tomam um pouco mais da bebida em suas mãos e praticamente finalizam seus copos.
— Bem, vou voltar pro meu quarto. Quero descansar antes dessa jornada.
— Ah, tudo bem. Depois continuaremos nossa conversa de detetive maluco e investigador recruta.
Dartaul se levanta e pega a pasta que Suzio lhe entregou. E então, olha para o homem.
— Que bom que você consegue enxergar diferenças entre nós, Suzio. Pois você deve se lembrar que eu nunca serei como você.
— Perfeitamente.
Dartaul dá meia volta e sai do quarto, rumando até o seu, sem dizer uma palavra. Ainda há um resto de bebida no copo do detetive, do qual ele termina de beber. Ao deixar o copo na mesa, ele começa a fitar o nada.
— De preferência, não seja. Odeio imitadores. — Murmura para si mesmo, enquanto afunda-se em sua própria cadeira, cansado.
Próximo: Capítulo 28 – O Antigo Lar
Capítulo 28 - O Antigo Lar
Citação:
Postado originalmente por
Edge Fencer
E aí!
Bem legal o capítulo, Carlos. Como você disse, foi uma espécie de introdução, bem curtinho e tranquilo de se ler. Apesar disso, o diálogo entre Dartaul e o Nightcrawler foi mais profundo do que parece, ao meu ver; é bem raro o Crawler ter uma conversa, digamos, de igual pra igual com alguém (com o Dartaul, então...), ainda mais sem sua máscara. Foi mais um ponto positivo na construção do personagem, e isso é excelente. Personagens como o Nightcrawler tem um risco considerável de se tornarem robóticos demais, até meio previsíveis; você, trazendo esse lado humano do detetive a tona de vez em quando, consegue evitar muito bem que isso aconteça.
É isso aí, fica a expectativa pra sequência desse arco novo, que deve trazer bastante coisa interessante pra história :)
Abraço!
Opa Edge, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Trabalhar esse capítulo e fazê-lo chegar numa boa conclusão foi um pouquinho difícil. No fim, eu consegui fazê-lo de uma forma peculiar: Foi como se eu estivesse conversando comigo mesmo. Além disso, era realmente necessário um capítulo assim, pois eu não só quero que compreendam as mudanças que Dartaul está sofrendo, como também quero que o Nightcrawler não pareça um simples detetive genial inalcançável que irá sempre resolver os problemas. Também posso dizer que você adivinhou bem minha intenção.
Esse arco pode ser um tanto curto, mas o farei o melhor possível. Espero que goste!
Eu demorei duas semanas pra fazer esse capítulo pois estive não só ocupado com um projeto, como também não estava conseguindo escrever muito bem. Foi um tanto difícil escrevê-lo e deixá-lo fluir. Acho que ainda lidarei com esse problema mais vezes, pois é o final da história. Já faz quase um ano que estou escrevendo ela, e preciso terminá-la. Não estava nos meus planos alongá-la tanto.
Bem, espero que tudo esteja correndo bem e que a história finalize deixando a sensação de que vocês leram uma bela obra tibiana. :)
No capítulo anterior:
Nightcrawler tem uma conversa franca com Dartaul, expondo quem realmente é. Entretanto, isso não parece significar muito para o jovem investigador, que não gosta muito do detetive. E ele continua não gostando.
Capítulo 28 – O Antigo Lar
Suzio se despede uma última vez de Harlow, o capitão do navio. Chegaram na ilha Calcanea há pouco, durante uma madrugada nevoenta. O homem, junto dos marujos, não fez questão de tardar muito naquele lugar; nada de bom era dito sobre a ilha.
Apesar dos mitos a respeito do lugar, não havia nada de grande destaque ali senão uma casa abandonada e várias árvores espalhadas pelo lugar. A ilha é inacessível, mas existe um acesso até Fibula. Nightcrawler guia o grupo até a casa, enquanto o navio do seu amigo se distancia. Tudo em um perfeito silêncio.
A casa, feita de madeira pintada de bege, com vigas já um tanto enfraquecidas sustentando o teto cheio de folhas, não possui aspecto chamativo. Tanto que as janelas estão fechadas por algo irreconhecível e manchadas por fora. Com cuidado, eles entram naquele lugar. Dentro dali, encontram um local escuro, onde há pelo menos dois cômodos.
— O acesso está por aqui. Alguém faça luz pra eu procurar. — Disse Nightcrawler, sem conseguir ver o que tem ali dentro.
— Utevo Gran Lux — Pronuncia Alayen, iluminando toda a casa.
O mascarado sente um breve arrependimento.
No cômodo correspondente a sala, há um grande corpo de uma aranha gigante. Ela não exala cheiro, mas também não parece ter sido morta há pouco tempo. Ela possui olhos vivos, mas seu corpo não demonstra vida. O chão tem vários corpos decompostos de aranhas e as janelas estão cobertas por seu sangue já escurecido pelo tempo, bem como as paredes. Sua presença assusta todo o grupo, que fica hesitante de dar algum passo.
— Necromancia. — Disse Aika, um pouco sombria — Quem fez isso sabia bem o que estava fazendo.
— Sim. Caso tenha notado, a aranha é o acesso a Fibula. Não há como entrar nessa ilha, mas esse é o único modo de sair. — Disse Nightcrawler.
— E o que temos que fazer? — Questiona Trevor, intrigado.
— Nada demais.
Nightcrawler se ajoelha em frente ao rosto da aranha. Ele pega uma faca dentro de seu sobretudo e, com ela, faz um corte numa de suas presas. Isso deixa o resto do grupo curioso, afinal, a próxima parte é puro mistério.
O detetive retira sua máscara e coloca uma mão abaixo da presa cortada, enchendo-a de veneno. Depois, leva-o a boca, assustando mais uma vez seus companheiros.
— Imbecil! O que você tá fazendo? — Grita Alayen, irritado.
Mas antes que os outros pudessem protestar, eles já estão em Fibula, ao norte.
— Nos tirando daquele cubículo. Exana Pox. — Disse o detetive, indiferente.
Ele coloca sua máscara de volta e se levanta. Não demonstra sinais de que o veneno agia em seu corpo. Ou melhor: O veneno realmente parecia não ser nada para ele.
— Ok, se alguém gritar agora, eu mato. Precisamos sair de Fibula com cuidado, evitando patrulhas ou qualquer outra coisa. A ilha pode estar sendo vigiada.
Mais seguros, o grupo decide acatar o que o homem disse. Talvez não houvesse problemas para ele beber aquele veneno. Entretanto, naquele momento, a máscara está sendo conveniente para Nightcrawler, que está com uma expressão de dor e com lágrimas saindo dos olhos. A magia não foi o suficiente.
Eles seguem ao sul pela estrada de terra, alheios às árvores sombrias nos arredores. Ao longe, veem o grande vilarejo de Fibula, parte das vastas terras thaianas. Conforme se aproximam, notam a ausência de luzes, sendo vistas apenas de alguns guardas, que portam tochas. Os muros do vilarejo foram reforçados nos últimos dias, e há guardas em cima deles também, além do portão estar fechado. Entrar lá será impossível.
Ao longe, conforme descem a pequena colina do norte, notam a Universidade de Fibula. O local é um edifício grande, porém, simples, com um teto triangular e portando uma estátua de mármore no topo, representando Banor, o primeiro humano, significado de conhecimento para a humanidade. A construção é feita de muitos tijolos marrons e possui colunas de ferro visíveis ao longe. É uma estrutura forte. Por fim, seu campus, que pega parte do vilarejo e parte do sul, traz lembranças.
Dartaul e Nightcrawler estudaram ali. Sentem-se nostálgicos, mas não sentem arrependimento por terem se metido naquela situação. Afinal, eles estudaram e se formaram para estar naquela situação.
Eles conseguem passar despercebidos pelos guardas e seguem pelo caminho comum até o buraco ao leste. Deram a volta nas árvores, pois, aparentemente, havia guardas dentro dela para surpreendê-los. Há luzes fracas ali e elas são o suficiente para fazer seus capacetes reluzirem no meio da noite.
Um a um, o grupo desce o buraco e vai embora da ilha. Os investigadores não se sentiam confortáveis em continuar ali.
~*~
A saída sudeste de Thais está sendo vigiada. Para tirar os guardas dali, Alayen faz uma pequena explosão ocorrer no porto, mas com um barulho forte o suficiente para chamar a atenção dos homens. Eles correm até lá e deixam apenas quatro guardas pra trás. Esses são nocauteados por Trevor. Após isso, todos eles correm para a área residencial da cidade, sem olhar pra trás.
O local, que fica no sul da cidade, é iluminado por vários postes. Naquela hora da madrugada, ninguém mais decide andar por ali.
— E então, o que faremos? — Questiona Alayen, de braços cruzados, porém, atento.
— Agora é hora de sumirmos das ruas. Minha casa não fica longe, podemos ficar por lá. — Disse Trevor, mais atento ainda, olhando pros lados.
— Na sua casa? Sinceramente, isso não parece nem um pouco seguro.
— Ninguém está mais vigiando minha casa por ordens minhas. Há quatro quartos lá, vocês podem escolher entre três.
— Uma casa com quatro quartos é um belo de um privilégio, Trevor. — Disse Nightcrawler, brincalhão — O que você fez para consegui-la? Arrombou a porta dela e botou os riquinhos que moravam nela pra rua ou os matou e queimou os corpos?
— Não. Era o puteiro onde a sua mãe trabalhava, tomei para mim e mandei todas as mulheres e os donos pra fora. Sua mãe deve estar trabalhando pros venorianos agora. — Disse Trevor, com um meio sorriso.
— Heh, mas que filho da puta. — Disse o detetive, rindo baixo. — Leve-nos pro seu puteiro então, cafetão.
Trevor riu e tomou o caminho para a sua casa, seguido dos restantes. Dartaul e Aika estão logo atrás deles, e não parecem estar a vontade o suficiente para se meter nas gracinhas deles. Ao invés disso, Aika está usando seus olhos especiais para tentar ver perturbações nos arredores, mas tudo está tranquilo. Até demais.
A casa de Trevor realmente não era longe, entretanto, está um tanto perto da saída leste de Thais, o que talvez signifique perigo. Como imaginado, sua casa não está sendo vigiada, então Trevor consegue achar uma chave oculta debaixo da janela à direita da casa para abri-la. O grupo entra rápido e o guarda fecha a porta. Alayen ilumina o lugar e ajuda a cobrir as janelas com panos simples.
Trevor acende duas lamparinas, uma dentro da cozinha e outra na sala. A cozinha está dentro de um cômodo pequeno que, ao invés de ser cercado por paredes, é cercado por dois balcões, por onde ele pode colocar os pratos que prepara, como num restaurante. Entretanto, vendo do ponto de vista da entrada do local, há balcões à esquerda, e paredes cinzentas à direita. A sala possui dois sofás verdes, cada um de um lado, e uma mesinha de madeira em cima de um tapete verde. A casa possui dois quartos no andar térreo e um banheiro, e outros dois acima.
— É uma bela casa, Sr. Trevor. Mostrando o que tem pra oferecer, realmente. — Disse Nightcrawler, de braços cruzados.
— É, foi me dado quando virei tenente. Alguns outros moravam aqui, mas foram deixando a casa conforme iam sendo promovidos.
Trevor vai até a cozinha e começa a organizar as coisas dali.
— Está tarde pra comer, mas farei alguma coisinha pra quem quiser. Podem ir pegar seus quartos. O do final do corredor de cima é o meu.
— Calma aí, guardinha. Tem três quartos pra nós, e somos quatro sem contar você. — Disse Alayen, com as mãos na cintura e um olhar inquisitivo.
— É só uma dupla dormir no mesmo quarto. Pode ser no meu, que tem uma cama de casal. — Disse Trevor, olhando para todos reunidos em frente a cozinha. Ele, então, põe o olho no casal logo atrás. — Já tem uma dupla logo atrás de vocês.
Os olhares se voltam para Dartaul e Aika. A garota fica envergonhada com a situação.
— Hah. Sério? Tem certeza de que é bom deixar os dois no mesmo quarto?
— Algo me diz que eles precisam de um tempo maior. — Disse Trevor, com um sorriso de canto.
— Ah, caguei. Vou pro meu quarto.
— É... Acho que vou pro meu também. Preciso preparar meu santuário particular antes que alguém venha perturbar meu espírito. — Disse Nightcrawler, seguindo Alayen.
— Não sabia que você era dessas, tio.
— Estou sendo irônico, animal.
O detetive sobe as escadas e Alayen vai pro primeiro quarto do corredor. Um silêncio curto se estabelece.
— Pode ir, vocês dois. Eu me viro aqui.
— Eu te ajudo. — Disse Dartaul, sério como de costume.
— Posso ajudar também... — Balbucia Aika, ainda envergonhada com a situação que foi colocada.
— Não, Aika. Melhor ir pro quarto, você deve estar cansada de tudo isso. Na verdade, você anda cansada desde que voltou.
— Não exatamente, mas... Tudo bem.
Aika dirige-se até a escada e sobe-a devagar. Trevor volta as suas tarefas ali e Dartaul ajuda como pode. No fim, eles fizeram alguns pedaços de carne de galinha e pães com presunto dentro, e pegaram café para ambos. Há uma mesa com cadeiras no lado esquerdo da cozinha, onde se sentam.
Dartaul não deixa de ter suas dúvidas em sua mente, enquanto Trevor parece estranhamente tranquilo.
— Ei, Trevor. Não é totalmente arriscado pra você nos deixar aqui?
— Bem... Sim. — Disse Trevor, com uma voz baixa — Mas veja só. Estamos no olho do tornado. Ninguém pensará em procurar o que perdeu dentro do tornado, mas sim fora. É o senso comum.
Trevor toma um gole de café e reflete um pouco.
— Na cabeça dos inimigos, estamos bem longe de Thais e das cidades aliadas. Estamos bem escondidos, tentando não se manter expostos o tempo todo. Ainda assim, eles não baixaram a guarda totalmente. A prova é a vigia que encontramos em Fibula e aqui no sul da capital. Essa tática do tornado é bem conhecida, então talvez algum aliado do Harkath esteja pensando assim. Talvez o Harsky. Ele é bem inteligente.
— Pensei que todos os cães do rei eram imbecis.
— Não todos. Mas olha só, Dartaul. Tenho certeza que, quando terminarmos essa palhaçada toda, você receberá seu cargo de volta. Talvez será até promovido. Eu mesmo posso te recomendar para o cargo de investigador de primeira classe.
— Por que tudo isso?
— Pois você evoluiu bastante nessa missão. Está mais sério e focado. Sua mente está afiada e preparada. Eu diria que foi pouco tempo para isso acontecer, mas você deve ter seus segredos a respeito disso.
— Eu me forcei a ser. Só isso.
— Borges teve alguma contribuição com isso, não é?
Um flash tenta destruir as estruturas da mente já frágil de Dartaul. Ele relembra os últimos momentos de Borges. E o terror que passou nos esgotos de Yalahar.
— Talvez. — Disse Dartaul, voltando a comer em silêncio.
Passam-se pelo menos dez minutos com eles comendo em silêncio. Ao terminar, Trevor recolhe os pratos e copos e leva-os a cozinha. Alguém desce as escadas enquanto isso, e aparece logo ao lado de Trevor, assustando-o.
— Seu retardado. Pare de fazer isso.
— Não resisto. — Disse Nightcrawler, ainda usando sua máscara. Está sem seu chapéu e seu sobretudo, estando apenas com um casaco e calças negras, além de sapatos marrons.
— Bem, eu estou indo pro meu quarto. Recomendo irem dormir logo.
— Boa noite, Trevor. — Disse Dartaul, com um pequeno sorriso.
Trevor segue em silêncio, enquanto Dartaul volta a pensar consigo mesmo. Num instante, o detetive surge ao seu lado e senta na cadeira onde Trevor estava. Em seguida, coloca seus braços sobre a mesa, com olhos fixos no investigador.
— Você é sempre muito caladinho, mas ultimamente você anda bastante calado. Qual é a sua?
— Você sempre me ignora, mas ultimamente tem dado um foco esquisito em mim. Está planejando me violar?
O detetive não deixa de rir.
— Eu não. Mas sei que você planeja fazer isso com a mocinha ali em cima.
Dartaul permanece indiferente.
— Por falar nela, ainda não acha suspeito a forma de como ela apareceu para nós? Matei Adumo e ela apareceu do lado do buraco. É como se aquela que estava conosco nunca tivesse sido real.
— É, mas não me importo. Ela está aqui, é o que importa.
— Ela estar aqui não significa muito pra mim. Mas se você gosta dela, tudo bem.
— Então por que ainda duvida dela? Ainda quer jogá-la numa cela?
— Não posso negar esse desejo. — Disse Nightcrawler, colocando sua cabeça sobre uma das mãos. Ele finalmente consegue fazer Dartaul fitá-lo, mesmo com ódio nos olhos. — Olhe. Sua garota foi usada pela Irmandade para nos espionar. A irmã gêmea dela a usou. Ela tentou me matar por ter matado ela, e eu entendo, foi um ato precipitado. Mas ainda agora, nem mesmo eu acredito que o que eu fiz com Miraya foi o suficiente. Aika não tem mais uma energia suspeita, mas o fato dela ter retornado como era antes, com as mesmas memórias, os mesmos sentimentos... Acho que nenhum perito em espíritos ou coisa do tipo saberia explicar o que aconteceu.
— É, mas ela está aqui. Não sinto nada através dela ou dentro dela.
— Nem Varmuda.
Dartaul esboça uma rápida surpresa através dos seus olhos, mas desfaz totalmente essa expressão. Nightcrawler tira a mão da cabeça, intrigado.
— Você sabia disso, não é? Que quem sente energias desconhecidas nos outros é Varmuda. E se você sente, significa que tem uma conexão com ela.
— Não. Eu não sabia.
— Ué. Acha que eu acreditarei que toda a sua mudança súbita de personalidade e até mesmo aquela coisa que você fez na cabine do Harlow foi pura coincidência? Acha que eu não sei que você tem algo aí contigo?
— Estou agindo por minha conta, mascarado. Fique na sua.
O clima muda subitamente. As luzes quase se apagam quando Nightcrawler surge ao seu lado de repente, com o poder etéreo e alaranjado cobrindo sua mão esquerda, cuja está sobre a mesa que os separava. Ele olha com ódio para o rapaz sentado.
— Não, não está. — Vocifera Nightcrawler, irritado. — Você firmou algo com Varmuda e não quer me dizer o que é. Eu vou arrancar essa informação de você agora.
Dartaul permanece indiferente. Nem mesmo olha em seus olhos.
— É, faça isso, amigo do demônio. Assim, você destruirá todos os nossos esforços de passar despercebidos pelos thaianos e de nos reorganizar para ir contra a Irmandade novamente. Destrua tudo isso tentando tirar informações de mim, seu covarde de merda. Aja como o detetive escroto que você é, mais uma vez.
Nightcrawler parece ter sido pego de surpresa, mas não desfaz sua postura.
— Tudo bem, garoto. Mas lembre-se de uma coisa: O poder dessa vadia é uma maldição, e não um privilégio. É carregado de tudo que há de pior nesse mundo e em qualquer outro. É o poder de um demônio. Não ache que será capaz de passar por tudo porque tem uma fração desse poder no seu sangue. Pois, quando você menos esperar, ele irá te consumir, e você não será mais capaz de se reconhecer.
O poder cessa e as luzes voltam ao normal. O detetive vai embora dali, subindo as escadas com pressa. Dartaul fica no mesmo lugar, ainda refletindo sobre algum assunto aleatório.
Muito bem, muito bem. Tire-o do nosso caminho, por enquanto. Ainda temos coisas a discutir, Dartaul Aurecino.
O rosto de Dartaul se fecha mais ainda. Ele compreende que tem uma maldição o atormentando.
Próximo: Capítulo 29 – Desejo
Capítulo 29 - Junketsu II
Citação:
Postado originalmente por
Edge Fencer
E aí!
Cara, que capítulo complexo. Não me surpreendo por você ter tido dificuldade em escrevê-lo, pq foi tenso do começo ao fim. Mas gostei do resultado, pode se orgulhar do que escreveu aqui!
Mais uma vez o foco esteve sobre o Dartaul, e agora deu pra entender melhor a razão da mudança de comportamento dele. Muito complicada essa história da Varmuda, Aika e ainda essa mulher dos delírios dele. Você narrou isso muito bem, conseguindo passar pro leitor o sentimento de confusão e agonia que o rapaz sentia a todo momento.
Sobre a cena da relação dele com Aika, ficou muito bem escrito, de vdd. Talvez esse tipo de coisa seja a maior barreira pra muitos escritores (amadores ou não), porque é difícil conseguir captar tudo que você pretende demonstrar em apenas algumas linhas. Acabou me lembrando um pouco (de novo e.e) o George R. R. Martin, que usa muito bem as cenas de sexo para enriquecer a trama e desenvolver seus personagens. Considere isso um grande elogio, pq sou fã da escrita do véio :D
Isso aí, Carlos. Tá interessante demais a história, e tô bastante curioso pra descobrir quem é esse membro misterioso da irmandade e o que raios tá acontecendo com o Nightcrawler. Aguardo pelo próximo capítulo.
Abraço!
Diga aí Edge, obrigado pelo comentário que está sempre salvando o tópico e pelos grandes elogios.
Realmente, o capítulo foi bem arrastado pra escrever e talvez pra ler. Foi difícil fazer esse capítulo focando na narração, ainda mais pra fazer essa cena de sexo, considerando que eu nunca tive essa experiência... :okay: mentira, na verdade minha primeiríssima não passou nem perto disso aí, quis dizer que nunca descabacei ninguém
A confusão entre Dartaul e essas duas serviu para adequar melhor ao leitor a mente do jovem investigador, assim como a cena principal. Fico feliz que eu não tenha feito merda, ainda mais em ser comparado com Martin. Agora que entendo um pouco mais a obra dele, percebo que estou me tornando um escritor próximo dele, alguém que provavelmente não sente nada em tirar personagens da jogada ou fazê-los sofrer. Até Trevor já passou sufoco no passado, quero retratar isso aqui em breve.
O capítulo vai responder suas dúvidas finais, mas... Vai trazer mais dúvidas ainda. Pois é o que eu gosto de fazer. :biggrin:
Yo galero, foi meio difícil ganhar a disposição pra escrever esse capítulo, mas terminei ele em dois dias. Espero que esteja do agrado. Apontem erros se encontrarem, como de costume. Minha revisão não é lá tão eficiente.
Espero que gostem!
No capítulo anterior:
Dartaul está sendo assombrado por Varmuda e por uma mulher misteriosa que habita o vácuo. Aika tenta aliviar sua agonia dando-lhe a sua virgindade, mas parece que isso atraiu problemas, como o responsável pela Irmandade.
Capítulo 29 – Junketsu
Parte 2
Dartaul encara aquela mulher no meio do vazio sem entender como foi parar ali. Ela podia realmente ser a responsável pela Irmandade? O investigador não duvida muito, considerando a situação em que está. Ele também nota seu poder e sua presença forte e diferente de qualquer outra.
A mulher parece fitá-lo. O rapaz percebe que sua voz voltou e agora pode tirar suas dúvidas.
— Você! Você é quem comanda os Sangues? Me diga agora!
Ela não responde. Dartaul começa a se irritar.
— Me diga! Você não é normal. Esse vazio ao redor de mim não é normal. Todo esse escuro ao redor de mim, meu corpo inerte, é tudo coisa sua! Diga, você é Sarutevo?
Dessa vez, a mulher coloca o indicador esquerdo no queixo, como se estivesse em dúvida.
— Sarutevo não era quem estávamos caçando?
O peito de Dartaul dói.
O rapaz agora é invadido por múltiplos pensamentos. Ele conhece aquela voz, aquele jeito, provavelmente sabe quem está na sua frente. Mas como? Como ela está ali, como ela tem todo esse poder? Isso pode ser possível?
— Não está me reconhecendo, Dartaul? É... Acho que estou muito brilhante ainda. Vou tentar melhorar.
Ela coloca seus braços a frente de seu busto e encolhe mais seu corpo, fazendo a luz diminuir. É possível ver melhor seus traços e curvas, bem como seu rosto. E mesmo ainda muito brilhante, Dartaul consegue reconhecê-lo.
Zoe Nubila está na sua frente.
— Impossível.
— Impossível era a chance de você me escutar, e veja só, você não me escutou!
— Porra... O que você quer dizer? Eu juro que não estou entendendo mais nada.
— Eu sei. Mas antes de tudo, preciso explicar o erro que você cometeu ao ficar junto de Aika. E de ter tirado o junketsu dela.
Dartaul não responde. Zoe é a última pessoa que ele pensaria que ficaria contra Aika.
— Junketsu é um selo poderoso de rastreamento. Foi colocado nela usando a virgindade dela como base. Isso foi feito por Miraya, num processo que durou dois anos. Em suma, desde que ela deixou Svargrond. Foi uma precaução da irmã dela para que ela pudesse chegar até Aika caso ela estivesse em perigo, e acabou sendo usado pela Irmandade como ponto de viagem. Foi assim que eles chegaram até nós em Yalahar. E agora, você quebrou o selo, e todos os membros da Irmandade sabem onde vocês estão.
O rapaz engole em seco.
— Eu ouvi Varmuda, a demônio asquerosa que deu poderes a Nightcrawler e planeja fazer o mesmo com você. Ela disse que eu poderia ser o cérebro por trás da Irmandade pois a energia deles inteira está virada para cá e se misturando com outras, como a minha. Mas, pra falar a verdade, ninguém sabe o verdadeiro cérebro por trás deles. Entretanto, não é humano.
— Então logo todos eles virão pra cá... Por causa do que eu fiz?
— Não, Dartaul. Apenas poucos virão, pois eles tem medo de sacrificar contingente importante no mesmo lugar onde Nightcrawler está.
— De qualquer maneira, a culpa é minha.
Zoe parece fazer uma expressão de pena.
— Não, não é. Você não sabia. Nenhum de nós sabia. Mas agora não é hora de chorar pelo leite derramado, vocês precisam combater o que está por vir. Além de mim, há duas figuras. Derrube-as.
— Espera... E você? O que aconteceu com você?
— Simplesmente diga a eles que eu me tornei parte do vazio do universo.
Toda a escuridão ao redor de Dartaul desapareceu. Ele está de volta ao quarto dele, em sua cama, de onde ele se levanta abruptamente. Ao pousar os olhos no chão, ouve um barulho.
Um machado levemente familiar. Tão familiar como a cena onde Zoe aparentemente havia morrido no Arsenal de Ratos.
Dartaul dispara para o quarto de Nightcrawler e bate na porta, inutilmente. Avança para as escadas, mas percebe uma quantidade ridícula de sangue no chão do andar abaixo.
— Não pode ser.
Temer o pior já é totalmente possível. Ele volta para o seu quarto, onde vê Aika acordada e confusa. Ele não está pensando muito bem e está mais confuso ainda, e vai direto até ela, assustando-a.
— O q-que foi?
— Aika. O que sua irmã fez contigo nos últimos dois anos?
A garota arregala seus olhos e cria uma crescente expressão de horror. Como se tudo que ela esqueceu um dia estivesse voltando tudo de uma vez. Dartaul nota que nada bom foi feito.
— Não... Eu não quero lembrar daquelas coisas de novo. Aquelas coisas odiosas... E vergonhosas... Não... — Disse Aika, colocando suas mãos na cabeça.
— Calma, tá tudo bem, não fique assim. — Disse Dartaul, trazendo a cabeça dela até seu peito — Sei que foi horrível, mas algo estranho está acontecendo agora. A Irmandade está atrás de nós.
Dartaul sente uma presença atrás dele. Mas ao virar para trás, não vê nada. Subitamente, essa mesma presença parece se dividir e se espalhar por vários lugares ao redor da casa onde estão. Ele ouve múltiplos passos lentos, escuta barulhos de líquido sendo derramado ou simplesmente se mexendo fora da casa e um cheiro insuportável de sangue.
Mais uma vez, o rapaz vai até a janela, mas não vê nada. Olha para o céu, mas não vê nada incomum. Não está preso em uma dimensão como antes. Ao voltar a olhar para o quarto, continua sem ver nada incomum, nem sombras grandes, fantasmas, nada. Aquilo está torturando-o. Ele não vê nada, mas sente que tudo está atrás dele. É como se ele sentisse que a qualquer momento uma faca atravessará suas costas.
Aika fita-o confusa. Também não consegue entender, mas sente como se eles fossem os únicos vivos dentro daquela casa. Assim como Dartaul.
— Varmuda. — Pensa Dartaul. Falar dentro da sua mente pode talvez chamar a atenção da demônio.
— Ora. Achei que não precisasse de mim. Agora está até me chamando. Huhu...
— Onde estão os outros dentro dessa casa?
— Você me desculpe, mas eu não sinto a presença de nenhum deles. Nem de Nightcrawler.
Dartaul engole em seco. Seus olhos estão bem abertos e fixos na porta, e seu corpo involuntariamente se move até próximo da porta.
— Bom, não sei o que está acontecendo. Mas vou te dar a chance única de reverter essa situação. Você vai lutar contra o que estiver por aí, salvar a si mesmo e Aika. Eu perdi minha rainha, e agora você é o meu rei no meio de um tabuleiro onde minhas peças já foram perdidas. Estou quebrando as regras, Dartaul. Estou pra te dar o poder da rainha.
— O que quer dizer?
— É só se lembrar daqueles olhos, Dartaul. Aqueles olhos sombrios de Suzio.
Dartaul lembra-se das inúmeras vezes em que fitou os olhos sombrios e mortos de Suzio. Ele não sabe o que fez aquele homem se tornar alguém assim, mas não quer o mesmo. Por mais que não estivesse num caminho tão distante do detetive.
— Não. Eu não quero!
— Você não tem querer, moleque. Precisa parar a Irmandade, agora que ela parece ter descoberto vocês. Aquela coisa divina está por aí, e eu te darei todo o meu poder se for preciso pra parar ela.
— Aquela coisa divina é Zoe! Ela não é nossa inimiga!
Varmuda aquieta-se por um instante.
— Ok... Não estou entendendo mais nada. Mas vamos, te darei o que precisa. Só precisa me aceitar, Dartaul. Aceite meu poder.
— Prefiro morrer.
No instante em que ele diz isso, o mesmo fantasma de antes surge no canto direito do seu quarto. Ele sorri alegremente para ele com um rosto totalmente distorcido, de olhos e boca desproporcionais e negros. O mesmo fantasma se multiplica em vários em menos de um segundo.
Dartaul finalmente entende quem está segurando a Irmandade.
— Vamos, filho da puta. Basta apenas dizer para que eu te dê poder, e eu te darei. Pense na garota do seu lado. Eu sei que você ama ela. Não entendo sentimentos mundanos, mas sei que ela é importante para você, não é? Prefere que ela morra também? Pois é o que vai acontecer se você não me aceitar.
O rapaz recua até a janela vendo os fantasmas e Aika está tentando segurar o grito, também recuando. A sensação de estar no mesmo quarto que aquelas assombrações é parecida com a de estar com uma faca colocada no pescoço. Como se a própria morte estivesse sussurrando coisas em seu ouvido.
— Demônia desgraçada. Essa é a situação perfeita pra você se apoderar de quem você quer, não é? Você colocou Suzio na mesma situação, estou enganado?
— Suzio se colocou nessa situação antes que percebesse. E você também.
Ele se irrita mais, fechando as mãos e cerrando os olhos. Sabe que a culpa é dele, mas não consegue aceitar o fato de se tornar um morto-vivo assombrado por um demônio. Mesmo que fosse por Aika.
E agora, os fantasmas se juntam. Eles estão dando forma para alguma coisa. Algo escuro, coberto por névoa. Não sabe o que é, não sabe o que está acontecendo, mas sabe o que tem que fazer. É uma situação horrível.
Um machado surge nas mãos daquela coisa e ela toma a forma de um membro da Irmandade, com uma coroa de prata com asas na cabeça. Ele avança em alta velocidade em direção de Dartaul, mas para por um breve instante pra rebater uma magia de Aika, que pensou mais rápido que o rapaz. No mesmo instante, ele gira o corpo e a arma para tentar acertar o investigador, mas outra magia é lançada por Aika, dessa vez acertando-o e fazendo-o recuar.
Mesmo com a máscara de manequim, é possível perceber que ela, Bryca, está encarando com ódio o investigador. Então, ela encara Aika, e decide avançar até ela.
— É a sua última chance, investigador de araque!
Aika chuta seu rosto e lança uma magia de fogo em resposta. Ela avança novamente e golpeia o tornozelo da garota. Está chegando ao fim.
— Tudo bem! Eu...
— Cala a boca, Dartaul. Não vai aceitar ninguém.
Inesperadamente, a porta é arrombada e Bryca é jogada para a parede da esquerda, próxima de Dartaul. Nightcrawler surge na sua roupagem padrão, com sua máscara de teatro sorridente e uma nenhuma porcentagem do poder de Varmuda acompanhando-o. Sua mão está estendida pra frente, e conforme mais ele se aproxima da membro, mais ela se sente pressionada contra a parede.
— Nightcrawler? — Murmura Aika, com a mão no tornozelo.
Um círculo surge na parede atrás de Bryca, junto de um pentagrama e um hexagrama combinados. Eles possuem coloração laranja, acompanhados de símbolos numa idioma que talvez Aika conhecesse. Todos eles significam a mesma coisa.
— Expurgo... — Murmura mais uma vez Aika, lendo os símbolos na parede. Ao ouvir isso, Dartaul finalmente entende o que está acontecendo.
Palavras da mesma língua são pronunciadas por Nightcrawler para punir a membro. De alguma forma, o homem está conseguindo exorcizá-la.
— Watashi wa anata ga daredearu ka o handan shimasu. Watashi wa anata no kako no jinsei o omoiukabemasu. Anata wa hiretsudearu tame ni! — As únicas palavras que Aika e Dartaul conseguiram compreender foram essas. A maga arregala os olhos ao reconhecer aquilo.
— Isso é... Hanrajiinês*... Como é possível... — Disse a garota, recuando ainda mais para trás da cama. Parece ter mais medo ainda de Nightcrawler.
Conforme as palavras são ditas, Bryca se contorce. Sempre mais e mais. Seu machado cai da sua mão e desaparece, e uma aura de energia cobre pouco a pouco a mulher, eletrocutando-a e dando-a uma experiência cada vez mais dolorosa. O quarto começa a tremer. O rapaz mais uma vez teme o pior.
— Sonogo, iku. Tochu. Kono jinsei wa mohaya anata no monode wa arimasen!
Bryca parece estar chorando enquanto seu corpo treme.
— A culpa não é minha... — Disse ela, uma voz assustadoramente doce e triste — Eu nunca pedi por isso...
— Fakku. — Disse Nightcrawler, abaixando a mão e virando-se, com as mãos no bolso. — Dare mo kinishinai.
Bryca urra. Um espírito com cores semelhantes a água de esgoto sai dela e escorrega pela parede, derramando como líquido, e some. A garota perde todo o uniforme, bem como a roupagem de manequim, e desaba de cara no chão, nua. Seus cabelos loiros e pele branca parecem confundir quem uma vez pensara que ela era algo pior do que o diabo.
O homem fita Dartaul próximo da cama, e Aika, cuja perna sangra e mancha o lençol da cama de Trevor. Ele respira fundo.
— Vá olhar a porra do machucado da sua garota, Dartaul. Já está terminado.
Ele parece despertar de um devaneio. Corre para olhar o machucado da garota, e pede para que ela tire a mão para olhá-lo. Felizmente, não é profundo.
— Você pode se curar, não? E sua mana?
— N-Não sei. Acho que não consigo usar ela.
— Por causa do meu ritual. Perdão, Aika, mas vai precisar usar bandagens como uma boa pessoa normal sem poderes mágicos.
Pessoas surgem na porta. São Trevor e Alayen, e ambos estão bem, sem machucados.
— Crawler? O que aconteceu aqui? — Disse Trevor, confuso.
— Membros da Irmandade. Não sei como nos encontraram, mas dei um jeito em um deles.
— Tinha outro? — Questiona ele novamente.
— É. A sala estava cheia de sangue, mas parece que ele sumiu, né?
— Sei lá! Eu acordei com um grito vindo daqui.
— Ah, então tudo funcionou nos conformes. O outro membro era Anni’al, irmão de Stanni’al, um dos oito grandes. Bryca também é um deles, mas agora ela foi sentar no colo do capeta.
— Algo me diz que o capeta se deu bem com isso. — Disse Alayen, avaliando as curvas do corpo de Bryca.
Nightcrawler se esforça para que seus olhos voltem ao normal. Ambos estão negros, com pupilas laranjas em forma de losango. Além de sentir uma dor esquisita no corpo todo. Mas, se os olhos dele não voltam ao normal, significa que ainda há uma ameaça grande próxima dele. Grande até demais.
— Q-Que c-comentário indecente, Alayen...
Todos do quarto se assustam. Nightcrawler parece se assustar mais ainda ao perceber que isso veio do corpo no chão, e que ele está vivo.
— E-Ei... Alguém pode me arranjar uma roupa, por favor? Eu não estou em condições de levantar desse jeito...
A voz tímida é impossível de não ser reconhecida. É Zoe quem está falando.
Próximo: Capítulo 29 – Junketsu III
Notas:
*: Eu juntei as palavras japonesas Hanran e Jiin, cujas significam, respectivamente, rebeldes e templos, no plural. Aika quis dizer que Nightcrawler está falando japonês. O motivo da palavra ser assim é que ele surgiu entre os rebeldes de North Zao para se comunicarem entre si, sem ser o chinês, conhecido como idioma dos High Lizards. Ele foi para Chor e virou o idioma dos lizards bandidos e contrários a sua raça, um idioma que incita revolução, cujo Aika aprendeu sem querer e que gerou a ela medo de quem o conhece. Eu fiz isso pois o japonês é um idioma com várias semelhanças com o chinês, além de usar o kanji, algo padrão do chinês. Mas essa parada do idioma ser algo dos lizards rebeldes é uma criação minha, não existe isso no Tibia.
Eu também podia dizer o que Nightcrawler está dizendo, mas não vou, afinal eu não sou um autor de ficar falando tudo que rola no plot. Descubram sozinhos. :fckthat:
E fiquem a vontade para me chamar de otaco tambem por enfiar essas coisas na minha historia.