O Arauto do Expurgo
Capítulo XII
Queda
Jean entrou no Palácio através do grande portal e subiu a escadaria lateral aos saltos. Estava suado e cansado. Por enquanto, pretendia apenas repousar.
Enquanto passava em frente ao quarto de Myra, ouviu duas pessoas conversando. Aproveitou que a porta estava entreaberta e espiou. A garota dormia placidamente em sua cama, enquanto Lucina e seu pai discutiam aos sussurros.
– Esse homem é perigoso. Eu tenho certeza disso – afirmou Lucina, impaciente.
– Eu já cansei de ouvir sobre suas teorias conspiratórias, Lucina – disse o chanceler, não menos impaciente. – Jean Palladino merece nosso respeito.
– Você não acha muito estranho Alfred ter morrido logo após a chegada desse... – parou a mulher, por alguns segundos, tentando encontrar um bom adjetivo. – Herói! – completou, em tom irônico.
– Lucina! Chega! – respondeu o chanceler, muito nervoso. – Eu confio na palavra de Jean. É bastante provável que ele reine sobre Agkar, mas isso ainda não é uma certeza. Eu sei que você não gosta dele por algum motivo, mas tente viver com isso.
A mulher não falou mais nada, apenas balançou a cabeça em um gesto de desacordo. Jean recuou e atravessou o corredor ao perceber que o chanceler estava prestes a sair do quarto.
Depois de subir mais alguns andares, chegou ao seu enorme aposento. Apesar de estar muito cedo, deitou e dormiu quase que instantaneamente.
***
O Arauto pousou na enorme janela como um pássaro empoleirado. Estava prestes a amanhecer, haviam se passado aproximadamente onze dias desde o último encontro. De alguma maneira que ninguém nunca ousou perguntar, ele tinha facilidade para encontrar as pessoas e nunca se atrasava.
Jean estava deitado e acordado. Desviou o olhar da penumbra e encarou o monstro com uma expressão entediada. Era incrível ter se acostumado com aquela presença demoníaca.
– Você não matou ninguém. Sentiu remorso? – perguntou a criatura, enquanto se aproximava da cama. – Só lhe resta uma hora.
– Eu senti pena de mim mesmo, por ter vivido todos esses anos em um círculo vicioso do qual demorei a me livrar – desabafou Jean, levantando-se de sua cama confortável. – E eu nunca vou conseguir ser livre, se eu ficar brincando de rei em Agkar.
O Arauto o encarou por alguns segundos com seus terríveis olhos nublados. Discretamente, lambeu os beiços com sua língua comprida e horripilante, para então ameaçar:
– Você sabe como terminam as pessoas como você, não é? Se não pode matar ninguém para mim, eu levarei sua vida...
– Exatamente – interrompeu Jean. – Dessa vez, eu vou oferecer a minha primeira vida como oferenda. Você concordou com as mesmas vantagens e desvantagens do acordo, portanto eu tenho o direito de morrer mais uma vez – afirmou, triunfalmente.
O monstro não tinha avaliado essa possibilidade quando resolveu chantagear Jean. Observou o homem com um olhar confuso, perdido em pensamentos repletos de arrependimento. Pela primeira vez em muito tempo, parecia totalmente desarmado.
– Idiota, você não faria isso... – disse O Arauto, sem nenhuma convicção.
– Na última vez em que morri, você demorou algum tempo para me ressuscitar – continuou Jean, sorrindo de alegria enquanto falava. – E, caso não lembre, nosso pacto me garante a liberdade, basta você se atrasar mais de um dia. Vai ser difícil localizar um defunto, não é mesmo?
– Maldito... – sussurrou o monstro, aceitando sua derrota.
– Dessa vez foi ainda mais fácil. Não vou precisar correr e me esconder. Muito menos matar pessoas para satisfazer seus desejos sádicos. Eu te peguei no seu próprio jogo – riu o homem, enquanto passava ao lado do Arauto e subia na grande janela onde o monstro tinha pousado alguns minutos atrás. – Tenho a vitória em minhas mãos e você não pode fazer nada.
– Eu não acredito que vou te perder por alguns minutos – comentou o demônio, frustrado. – Você poderia ter se matado antes, mas esperou...
– Só para poder ver o seu desespero – completou Jean. – Exatamente, eu não sou bom o suficiente para te perdoar, depois de tantos anos de escravidão – deliciou-se Jean, enquanto sentia uma leve brisa bater em seu rosto. – Agora eu preciso ir, antes que meu prazo expire.
O Arauto esperou o homem se atirar ao chão, mas isso não aconteceu. Demorou alguns segundos para Jean se virar mais uma vez e encarar aqueles olhos esbranquiçados. Nesse momento, apenas desilusão e melancolia pairavam no rosto de ambos.
– Por acaso, você já tentou ser diferente? – perguntou Jean.
– Não – respondeu O Arauto, sem precisar pensar muito. – E você, já tentou não ser um assassino? – retrucou maldosamente.
– Eu estou tentando, agora mesmo... – respondeu o homem. – Jean Palladino cometeu muitas atrocidades, mas ele vai morrer em breve. Não terei nada de valor para prezar e você nunca mais irá me chantagear.
– Você está quebrando um laço muito forte... Lembre-se que essa será sua última chance nesse mundo.
– Eu não sou um assassino, também não sou rei...
– Mentira... – resmungou a criatura. – Aceite seu destino.
– Eu sou um sobrevivente – afirmou Jean, com firmeza em suas palavras.
E então se jogou para a morte. O seu corpo produziu um baque surdo ao cair do décimo segundo andar daquela construção gigantesca.
***
Naquela mesma noite, toda a cidade ficou sabendo do suicídio de Jean Palladino. Alguns habitantes estavam convencidos de que ele foi assassinado, pois uma camareira afirmou ter ouvido Jean conversando com alguém no quarto, pouco antes de sua morte. Apesar disso, nenhum indício de violência foi encontrado.
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Dragon of Nightmares & CRonaldo 10: Muito obrigado pelos grandes elogios, mas acredito sinceramente que estou longe da perfeição. Fico feliz em ver que ambos postaram seus roleplays no fórum.
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