O Arauto do Expurgo
Capítulo X
Reincidência
Logo depois que Jean saiu do quarto, Lucina foi até a janela e não demorou a ver o homem aparecer nos jardins. Em sua companhia estava uma moça jovem e atraente, que chamava a atenção, tanto pelos seus longos cabelos negros, quanto pelo elegante vestido de noite que usava. Lucina observou os dois andarem por toda a extensão da propriedade, passarem pelos portões e saírem do seu campo de visão.
– Você acha que Vincent era má pessoa? – perguntou, com a voz tremida.
– Não sei – respondeu Myra, que agora estava deitada, olhando para o teto do seu quarto. Apesar da sensação de conforto e segurança, o coração da garota parecia querer pular pela boca.
Lucina depositou a arma na pequena mesa, ao lado do pano sujo de sangue. Sentou no banco onde Jean estava anteriormente e fitou a irmã. Estava muito abalada, não sabia o que fazer.
– E Jean? Ele te tratou bem?
Dessa vez, Myra não teve tempo de responder. O chanceler emergiu rapidamente pela porta e seu rosto revelava grande preocupação.
– Eu encontrei Jean nas escadas, ele me contou que vocês discutiram e ocorreu um disparo acidental... – comentou o homem, olhando discretamente para o revólver sobre a mesa. – Muita gente ficou assustada com o barulho, mas... Bem, por que tinha acontecido outra coisa e... – parou de falar, passando a coçar sua garganta nervosamente, como se tivesse algo entalado.
Um pequeno grupo passava apressadamente pelo corredor e Myra pôde ver aflição estampada em seus rostos. Tudo indicava que o chanceler não estava preocupado com o tiro e sim com algum outro acontecimento alarmante.
– Vocês estão bem, não é mesmo? – perguntou ele, enquanto olhava nervosamente para o séquito no corredor e voltava a encarar suas filhas.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou Lucina, visivelmente confusa.
O homem tentou falar, mas engasgou em seco. Não conseguindo mais controlar sua emoção, chorou copiosamente.
– Uma tragédia... – respondeu, depois de alguns segundos.
***
Jean convidou Serena para entrar em sua casa. Era uma residência pequena e simpática, com uma lareira aconchegante.
– Você não falou nada pelo caminho e agora simplesmente me convida para entrar? – provocou a mulher com sua voz lasciva, enquanto sentava no sofá.
Jean sorriu. Serviu vinho para ela e, depois de sorver um gole de sua própria taça, respondeu lentamente:
– Talvez eu estivesse precisando de companhia.
– Eu creio que você está – disse Serena, sorrindo de satisfação.
Sentados lado a lado, beberam silenciosamente, enquanto trocavam olhares desejosos. Durante uma aproximação cautelosa, a moça comentou:
– O banheiro masculino é mais perigoso do que eu imaginava...
Jean riu e ela aproveitou o momento para lhe roubar um beijo. O homem finalmente se entregou aos encantos de Serena, esquecendo completamente a situação pela qual tinha passado.
***
O céu já estava clareando quando Jean despertou, em sua cama, ao lado de Serena. Levantou cuidadosamente para não acorda-lá e foi até o banheiro.
Depois de urinar, lavou as mãos e rosto. E foi nesse momento em que se lembrou da noite passada, recordou-se de Lucina e sua resistência em acreditar nele. Já tinha conquistado a simpatia de muita gente importante, inclusive do chanceler e do rei, mas qualquer deslize poderia ser fatal. Uma ponta de preocupação cutucava sua cabeça insistentemente. Era a necessidade de fazer algo.
Parou diante do pequeno espelho quadrado para observar sua própria face. E enquanto analisava minuciosamente os seus ferimentos, levou um dos maiores sustos de toda sua vida. Por trás do homem surgiu uma terrível criatura que o fitava com grandes olhos esbranquiçados. Virando-se bruscamente, Jean tornou a ver O Arauto.
– Acho que cheguei em uma péssima hora – zombou o monstro, reparando que Jean encontrava-se completamente nu.
– O Arauto do Expurgo em minha casa. É uma honra – disse Jean sarcasticamente, enquanto vestia seu roupão.
– É assim que estão me chamando?
– Algumas pessoas acreditam que você é um mensageiro de Deus e que sua missão é limpar as impurezas desse mundo – explicou Jean. – Para ser sincero, eu considero o título excessivamente pomposo.
– Foi por isso que você matou Vincent? – perguntou O Arauto. – Achou que ele merecia morrer por ter alguma ligação comigo?
– Se fosse por isso, eu já teria cometido suicídio. Afinal, você está aqui, não está?
O demônio sorriu brevemente, espichou suas enormes asas que mal cabiam no aposento e continuou encarando Jean, como se estivesse esperando alguma reação. O homem não demorou a se aproximar e perguntar violentamente, porém em um sussurro quase inaudível:
– O que você quer de mim?
– Eu não aceito perder, Palladino. Em todos esses anos, você foi o único que conseguiu me derrotar em meu próprio jogo. Não posso deixar que termine dessa maneira – disse O Arauto. – Eu quero que você faça o acordo novamente, aqui e agora. Com as mesmas vantagens e desvantagens de antes – continuou após uma pausa inquietante.
– Você acha que eu sou idiota? Eu não cometeria o mesmo erro duas vezes e você sabe disso.
– Eu sei muito sobre você, Palladino. Posso destruir seus planos e fazer de sua vida um inferno – argumentou O Arauto, aumentando gradativamente o tom de voz. Ele não estava nervoso, pelo contrário, demonstrava contentamento. – Não existe escapatória, ou aceita minha oferta, ou eu vou ter de acordar a bela moça que repousa no quarto ao lado.
– Quem acreditaria em você? É um maldito monstro! – bradou Jean, perdendo o controle.
– Quer experimentar? – provocou o demônio com uma expressão irredutível.
– Certo, certo... – ponderou Jean. – Mas essa será a última vez... Eu quero dizer, se eu escapar novamente, você vai me deixar em paz. Correto?
– Correto. Eu nunca menti para você e não vou começar agora.
O Arauto tocou a testa de Jean com apenas um dedo. Satisfeito com o resultado, disse:
– Está feito. Você já está sólido... Agora é a minha parte favorita – completou, mostrando dois dados macabros que tinham aparecido instantaneamente na palma de sua outra mão.
Jean conhecia o procedimento muito bem. Não demorou a pegar os objetos e deixar ambos caírem no chão.
– Onze! Você está com sorte – falou o demônio, excitado com o resultado, enquanto esticava seu longo braço para pegar os dados. – É bastante tempo, não é mesmo? Quem será a vítima?
– Vá embora. Terminamos por aqui – ordenou Jean, rispidamente.
O demônio gargalhou, deixando a mostra os seus dentes pontudos e podres.
– Vincent era esperto, sabia? Com exceção de você, ele foi o que chegou mais perto de escapar... – comentou O Arauto, com um largo sorriso no rosto nefasto, divertindo-se com o aborrecimento de Jean. – O rapaz era criativo, quase me enganou uma vez.
– Eu já mandei você ir embora.
Jean estava muito sério e suas palavras tiveram algum poder, pois O Arauto não sorriu mais. Antes de sair voando pela grande janela do banheiro, o demônio comentou maldosamente:
– Você é o meu primeiro e único reincidente. Boa sorte.
– VAI PARA O INFERNO! – gritou Jean, enquanto observava o monstro cortando o ar e se distanciando da casa. – Bem capaz de alguém ver essa aberração voando por aí – completou, em um tom de voz enfadado, porém mais baixo.
Quando o homem se virou, na intenção de voltar ao quarto, encontrou Serena com um semblante aterrorizado. A moça mantinha uma das mãos na maçaneta e a outra sobre a boca. Aparentemente tinha escutado boa parte da conversa.
– O que era aquilo? – perguntou com a voz fraca.
Jean não soube o que fazer. Olhou de um lado para o outro, desesperado com o terrível flagrante. Muitas idéias passaram pela sua cabeça, mas seus músculos enrijecidos não conseguiram realizar nenhuma ação.
– Vai embora daqui, Serena... – foram suas únicas palavras, depois de alguns segundos angustiantes.
A mulher permaneceu parada e muda, enquanto Jean passou por ela, atravessou o curto corredor e voltou ao quarto. O homem passou a coletar roupas e objetos de Serena, espalhados pela cama e chão. Andava de um lado para outro, alvoroçado e confuso.
– Você precisa ir... E eu preciso pensar, tenho muito para pensar... – falou o homem, atordoado, depois de tropeçar na mesma cadeira pela segunda vez.
Jean entregou todos os pertences e arrastou a moça pelo braço, enquanto ela se vestia apressadamente e em pé. Chegando à porta que dava para a rua, ele disse:
– Você realmente precisa ir... Eu sinto muito.
– Você está tão assustado...
Mas ele apenas ofereceu um sorriso nervoso, abriu a porta e empurrou a mulher para a rua com o máximo de delicadeza que conseguiu reunir.
***
Algumas horas mais tarde, Jean encontrava-se deitado no sofá, olhando para o teto. Não fazia idéia de quanto tempo tinha estado naquela posição, pensando no encontro com O Arauto e no seu próximo passo.
Foi grande a sua surpresa quando batidas entusiasmadas ecoaram na porta de madeira. Jean abriu distraidamente, sem ao menos perguntar quem era do outro lado. Gary entrou e saudou o homem com grande agitação. Sua alegria contrastava com a irritação da noite passada, até parecia outra pessoa.
– Comemore, Palladino! – falou o visitante, extremamente contente, porém com um tom de voz baixo e cauteloso. – O rei faleceu ontem à noite, pouco tempo depois que você saiu.