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CAPÍTULO 17 – OS TRÊS MAIORES
O tapete aterrissou suavemente no chão lodoso, ao que Pino fez um sinal breve, orientando todos a desembarcar. Assim que o último deles desceu, ele simplesmente deu meia volta e partiu para Edron, deixando-os à própria sorte.
Jason ainda estava embasbacado quando percebeu que um inseto gigante – grande demais para ser de verdade – ia rastejando a distância, entrando na terra segundos depois.
— Que diabo era aquilo?
Rafael suava frio.
— Bichos de estimação.
Adiante, um mastro ornamentado de aproximadamente dez metros de diâmetro erguia-se do chão como um leviatã, disparando no sentido do céu, indiferente ao fim do mundo. Jason e John trocaram um olhar cheio de significado, e Leonard sacou seu arco, equipando uma flecha afiada nele.
Os amigos avançaram devagar, rumo ao mastro. Não faziam ideia de como subiriam, mas tinham a promessa de Poseidon.
Jason respirou fundo, pondo-se a andar.
A hora chegou.
*
Zathroth fechou a porta atrás de si, no alto da torre leste do castelo de Carlin. O relógio de parede lhe dizia que era meio-dia. Talvez fosse o mais adequado dos momentos.
Ele se sentou na cama simples, reflexivo, tirando a caixa de música de dentro das vestes e analisando-a longamente antes de abri-la. Obviamente, não tiraria a vida de nenhum daqueles homens, mesmo se quisesse – tinha um acordo para não o fazer. Inobstante, não deixava de se sentir ansioso pelo fato de ter visto a cena a partir dos olhos do assassino, e sabia que não era o Inominado.
A rainha, contudo, não precisava ter todas as peças encaixadas.
Ele passou o longo dedo nodoso sobre a superfície da pérola incrustada no anel toscamente talhado, deliberando. Sabia quem morreria, e, sinceramente, sua cabeça não sugeria qualquer saída prática para aquilo. Simplesmente aconteceria, e não havia nada que ele pudesse fazer.
Contudo, a experiência lhe dizia que, ainda que não houvessem saídas à vista, conhecer as pessoas com quem você estava negociando era importantíssimo para que a relação perdurasse, se ela estava para se iniciar. Conhecia aqueles 12 nomes há muitos anos e, secretamente, desejava que nunca pudesse lidar com qualquer um deles.
Pestilentos, traidores, nefastos e dissimulados, é o que eles são, pensou, sentindo um aperto terrível no coração. Carlin estava prestes a perder um dos homens mais importantes de sua história, simplesmente porque, desde Ulisses e desde Creta, havia um código de conduta que assim determinava.
Jason Walker não fazia a menor ideia do tamanho da armadilha para dentro da qual estava se esgueirando.
Contudo, Zathroth sabia que não podia interceder ao seu favor. Todavia, conhecer seus novos amigos poderia conceder a Carlin certas vantagens num futuro próximo.
Assim, sem pestanejar, ele enfiou aquele anel demoníaco de qualquer jeito no dedo médio da mão direita, preparando-se para a carnificina.
*
Eremo bebericou seu chá calmamente e sequer piscou quando um imenso dragão, negro como a noite, pousou em sua ilha sacudindo as estruturas da sua morada. O homem desceu do seu torso e o bicho permaneceu parado no mesmo lugar, aparentemente inerte a todo o restante.
Criaturas fabulosas os dragões, pensou Eremo, tomando outro bom gole do seu chá. O bicho bufou e se enroscou, deitando-se no chão e sacudindo a ilha pela segunda vez.
O homem diante dele tinha cabelos e barbas muito longos e desgrenhados, parecendo quase selvagem. Seu porte físico, escondido sob os feixes das malhas da sua armadura grega completa, se destacavam, e a espada de ferro estígio – como a de Lúcifer, pensou Eremo, que conhecia aquela bestialidade cristã mais do que desejava – era ameaçadora, mas permanecia embainhada calmamente em sua cintura.
Os olhos azuis do homem não deixavam dúvidas a respeito de sua descendência. Eremo sorriu ao vê-lo se sentar diante de si, tamborilando os dedos na mesa de plástico.
— Ares — cumprimentou, erguendo uma sobrancelha.
— Auxiliou os humanos no caminho até Krailos — não era uma pergunta. Sua voz era controlada, mas continha um quê de ameaça. — Não consigo deixar de me perguntar por quê.
Eremo bebeu seu chá novamente, erguendo os olhos devagar. Não pretendia respondê-lo com maldições, como seu instinto mandava que fizesse, mas não faria mal não lhe fornecer a história completa.
— Sabe quem é Jason Walker?
Ares deu de ombros, mas assentiu uma vez.
Por dentro, Eremo se sentiu bastante satisfeito. A fama do garoto sobe o palácio do Olimpo, pensou, orgulhando-se dele.
Conhecia Jason Walker desde que nascera, é verdade. Sabia quais eram seus laços com ele, e por que decidira isolar-se numa ilha num local insignificante do planeta em vez de acompanhar seu desenvolvimento, mesmo depois de Lawton Walker e Clarice Walker morrerem. Tinha lá suas responsabilidades, mas o garoto cresceria melhor se não fosse… se não estivesse com ele.
— Como deus da guerra, achei que o conheceria. Jason Walker causou confusões o suficiente no nosso continente. E venceu todas. Não é incrível?
— Graças à ajuda de amigos mais talentosos do que ele — Ares fez uma careta, desdenhando. — Com a Espada de Crunor ou com o Machado Infernal, ele nunca seria capaz de me vencer.
Eremo sorriu, pensando. Jason Walker pode vencê-lo sem arma alguma, paspalho, refletiu, divertindo-se.
— Zeus irá ajudá-lo?
Ares fez um biquinho.
— Zeus ajudará a humanidade, porque esse é o desejo de Crunor, e nós somos leais a Crunor, por mais imbecil que ele seja. Não estou exatamente certo sobre se Zeus ajudará Jason Walker, especificamente. Conhece o código de conduta do Olimpo. Um deles morrerá hoje. Aposto no garoto.
Eremo ergueu as sobrancelhas, certo de que a visita de Ares não era exatamente dissidente de uma coincidência qualquer. Ele queria informações. O druida sabia muito bem sobre como Zeus tratava seus visitantes, e sabia que o deus dos raios e dos trovões era presunçoso, exatamente como Gaia, sua avó, e Urano, seu avô.
— Qual a razão da aposta?
— Zeus quererá canalizar energia. Matar o detentor de uma relíquia histórica parece ser uma excelente forma de fazê-lo.
— John Walker tem o Livro.
— O Livro não pertence a John Walker como a Espada de Crunor pertence a Jason Walker — Ares bocejou, entediado. — Conheço meu pai, e sei o que fará. Ele preferirá matar aquele que for o mais capaz de conceder-lhe algo de que precise. Jason Walker está na vez.
Eremo franziu o cenho, pensativo novamente. Conhecia o ego de Zeus e sabia que ele comandava o Olimpo com mão de ferro, mas matar o único homem cujos poderes seriam capazes de rivalizar com os do Inominado parecia um tanto quanto estúpido.
Por maiores que fossem os desejos do deus dos raios, sabia que ele não era burro. Já negociara diretamente com ele em diversas ocasiões e tinha certeza de que, para ele, o melhor acordo era aquele em que sua barganha fosse a melhor quanto fosse possível.
A Espada de Crunor não lhe serviria de nada, disso Eremo estava certo. Era correto também dizer que Zeus era um ser um tanto quanto volátil, e que não hesitaria em matar Jason Walker se isso fosse o que estivesse em sua cabeça. Mas, mesmo para Zeus, aquilo era um tanto quanto ininteligente, quase um retrocesso. E o comandante do Olimpo não tolerava retrocessos.
— Presumo que não tenha vindo até aqui somente para tomar chá comigo.
Ares fez que não, erguendo uma sobrancelha.
— Me diga o que é necessário para que eu possa evitar a morte de Jason Walker hoje.
Foi a vez de Eremo de levantar as sobrancelhas, surpreso.
— Realmente quer isso?
— Tive um filho que me decepcionou. Você conhece sua história. Hefesto forjou para ele a melhor das armas, e ela passou a fazer parte integrante do seu sistema nervoso. Não era necessário que ele movimentasse as mãos para manusear seu armamento pesado. Bastava que pensasse. É óbvio que você o conhece.
Eremo fez que sim. Todos os grandes historiadores sabiam o seu nome.
— Infelizmente — continuou Ares, soturno —, a ambição de Kratos foi a sua ruína. Tentar matar Zeus… quão longe ele foi.
— Qual sua relação com Jason Walker?
Ares fez que sim uma vez, como se quisesse dizer que ainda não finalizou seu raciocínio.
— Jason Walker é um grande guerreiro, e sabe como gosto de grandes guerreiros. Entendo que, no longo prazo, ele poderá desempenhar um trabalho formidável em favor do Olimpo e, por via reflexa, em favor de toda a humanidade. Se fizermos os ajustes corretos, ele e a jovem Melany poderão viver conosco. Ártemis adoraria ter essa amazona, especificamente, mais próxima dela. É a melhor de todas.
Eremo curvou o corpo para frente, aproximando seu rosto do outro. Ele deliberou.
— Entende que salvar Jason Walker significa desperdiçar outra vida?
Ares assentiu enfaticamente.
— Estou disposto a garantir esse sacrifício.
— Então, escute-me com atenção.
*
O palácio do Olimpo era o mais próximo do paraíso que Jason havia imaginado. Todos os deuses eram simplesmente grandes demais para serem de verdade, e seus tronos, dispostos de forma semicircular na parte meridional da sala, que era inteira vazada e sustentada por colunas altas e muito brancas e com um pé direito também muito alto, eram intimidadores.
Poseidon piscou para ele uma vez, dando-lhe um meio sorriso. Ele retribuiu, contrafeito. Um dos tronos estava vazio.
— Ajoelhem-se — ordenou Zeus, e sua voz ressoou como um trovão.
Os amigos entreolharam-se, ao que Zeus se levantou. Não foi necessário um segundo aviso. Todos puseram-se de joelhos.
— O Olimpo tem um código de conduta bastante específico — disse ele, e Poseidon, que já tinha ouvido aquela história, exatamente com as mesmas palavras, um milhão de vezes, pôs-se a lixar as unhas com o tridente. — Chegaram até aqui, e serão congratulados por isso. Daremos a todos uma audiência. Contudo… as regras existem para serem seguidas.
Ele se adiantou e, magicamente, reduziu ao tamanho de um homem normal, sacando sua afiada espada e apontando-a para a cabeça de Jason Walker.
— Sacrifício é necessário.
Jason arregalou os olhos, descrente.
— Eu escolho você, espadachim.
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