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Prólogo
.......As hordas dos minotauros marchavam ao longe, uma ameaça que a cada dia se tornava mais próxima. O impacto dos cascos contra a fina areia do deserto produzia um som que parecia se tornar mais forte a cada passo, lembrando o Observador de que o fim de seus dias se aproximava, em um ritmo constante como o marchar das bestas. Nesta batalha, a derrota seria a única certeza para seu povo. O sol refletia nas brilhantes armaduras prateadas dos inimigos, fazendo seus números parecerem ainda maiores. Quantas centenas de soldados havia ali? O Observador sabia que eram pelo menos cinco vezes mais numerosos que seu povo. Sabia que seriam massacrados, e que qualquer resistência seria inútil, como lutar contra um cheque-mate já decretado. Esse era um jogo que ele não haveria como ganhar.
.......Do topo de sua torre, o ser contemplou suas tropas, que aos poucos iam se agregando. Algumas poucas fileiras de seus semelhantes, munidos apenas de seus conhecimentos ancestrais. Não desfilavam com armaduras pomposas, como os exércitos de outras raças faziam. Sabiam que esses equipamentos apenas restringiam seus poderes mágicos, enquanto ofereciam pouca ou nenhuma proteção à maioria dos ataques. A fina pele dos seres estava completamente exposta. Quantos teriam sua tez perfurada pelos dardos inimigos? E quantos tombariam tentando fugir do corte dos machados inimigos? Quantos morriam com os temidos chifres inimigos cravados em seu corpo, na mais brutal e primitiva forma de batalha?
.......Para o Observador, a pior das derrotas talvez fosse saber que seriam vítimas de uma espécie tão primitiva quanto os minotauros.
.......— Meros bárbaros! — murmurou para si mesmo, e para todos de sua espécie, que partilhavam de seu pensamento.
.......Sabia que seus semelhantes estavam cientes da derrota que lhes seria imposta. Suas mentes eram interligadas, e nenhum pensamento passava despercebido pelo Observador. Ele sabia que sua espécie lutaria pela terra. Sabia que todos feitiços e conjurações que eles aprenderam ao longo dos séculos de existência seriam proferidos. Ele via os seus servos despertarem das trevas, formando um dos maiores exércitos profanos já reunidos. A necromancia estava ao seu lado, porém os números eram contra.
.......Números não mentem. Era a única certeza de sua espécie. Sua linguagem numérica comprovava a fé que essas criaturas tinham nos números. Capazes de decidir guerras sozinhos. Números, que reduzem o valor e o poder dos seres a uma mera estatística. Uma vez a cada geração, ou talvez duas, surgia um ser capaz de desafiar esses carrascos do destino. Não era o caso da espécie do Observador. Ninguém entre os seus era capaz de enfrentar as incontáveis fileiras de inimigos. Se havia algum desses seres extraordinários, ele estava do outro lado da batalha.
.......Um estrondo numa terra distante foi ouvido, e subitamente os vários olhos da criatura anciã não fitavam mais a massa de inimigos que se aproximava. Direcionou-se para o noroeste, ultrapassando as águas serenas do oceano que separava os continentes. Uma casa, com paredes brancas que haviam sido pintadas há pouco repousava imponente perante o pântano que a circundava. Ao olhar mais atento, porém, era possível ver que essa casa se desfazia diante de seus olhos. Sim, a casa estava condenada à destruição. O Observador buscou então, em meio aos escombros da construção, o infeliz que deveria ter se juntado ao reino dos mortos. Sua espécie tinha afinidade por cadáveres, e os seus parentes moradores do pântano certamente iriam adorar um novo servo. O defunto, no entanto, não pôde ser achado por seus hábeis olhos. Mas como? Sua visão nunca falhara antes. O morto deveria estar ali. A não ser que... ele estivesse vivo! Soterrado, mas vivo! Ora essa, o destino enterrara o ser sob a terra alagada do pântano, porém teve o capricho de deixá-lo viver! Concentrou-se então no homem em quem a sina pregara uma peça. O poder… não era compatível com a raça dos humanos! Aquele era um ser extraordinário, certamente. E seu coração, repleto do mais puro amor pelo seu povo. Ah, o amor. O sentimento mais poderoso e o corrompido com maior facilidade. Tudo que bastava era um empurrão…
.......O Observador passou então a enxergar que uma nova peça fora inserida naquele jogo. Junto a esta peça, a esperança também se mostrou presente. Tudo o que ele necessitava fazer era preparar o tabuleiro. Com um sorriso em sua boca colossal, a criatura anciã contemplou a vitória que se tornara novamente palpável.