Capítulo II - Intimidade

- Acorde, Tesh. Acorde agora, pare de viver no mundo dos sonhos.

E, com essa telepatia no Dreamwalking, Teshial acordou. Na mesma cama onde repousava para acessar sua dimensão. Assustado com as vozes, levantou-se e começou a raciocinar o acontecido. "Eu não quis acordar, tentei ignorar as vozes. O quê tem o poder de interromper minha viagem? Jamais ponderei a existência de uma força maior que Apocalypse. Tenho receio de que os deuses interfiram nesta batalha, dadas proporções".

Caminhava para um lago próximo à Knightwatch Tower, onde poderia lavar-se e refletir sobre o ocorrido. Avistando o lago ao longe, pôde perceber que uma pessoa, de costas, parecia estar lá esperando-o. Aproximando-se com cautela, ao chegar a uma altura de três metros de distância, a figura virou de supetão, surpreendendo e entristecendo Teshial ao mesmo tempo. "Algo realmente quer me torturar para tomar a forma dela".

Diante dele estava Vainky, a maior e única paixão de uma vida que ele abandonara e esquecera muito antes da possibilidade de uma guerra. - O que é você? Porque está aqui? - perguntou o perturbado elfo.

- Vejo que consegui cumprir o objetivo de impactá-lo. - Respondeu a entidade. - Adotar uma figura familiar e melancólica prende a atenção. É dessa atenção que eu preciso. - Complementou.

- Não sabes quanta tristeza e rancor acabou de criar em mim. - Disse Teshial, abrindo-se inconscientemente. - Também não aguentarei lhe ver por muito tempo, apenas diga o que é e o que quer.

- É tão difícil perceber assim, Tesh? Não consegue entender a intimidade que criamos ao longo desses perpétuos anos? Eu não tenho estado muito contente com você. Têm perturbado a ordem natural das coisas, o potencial de sua criação pode alterar o futuro, e eu controlo o futuro.

- Pretende esclarecer o que com isso? Onisciência maior que a dos deuses? Que diabos é você?

- O Dreamwalking está lhe enfraquecendo, meu caro amigo. Sou a personificação do destino, chame-me de Destiny, para ser mais exato. Eu quero lhe abrir a mente, mostrar-te o que esta guerra fará com o nosso mundo. Não notou ainda? A escala global dessa guerra irá decretar o fim dos tempos. E quero continuar existindo, quero continuar escrevendo o futuro. Você e Apocalypse deverão coexistir, inevitavelmente, ou ambos perderão.

- E não é mais fácil para sua onipotência derrotá-lo, apagá-lo, iludi-lo? Não é mais fácil do que tentar convencer-me de algo?

- É mais fácil pra mim possuir você e agir em seu corpo, do que mudar a consciência de um demônio. Não há semente a ser plantada na cabeça deles, a total corrupção do mal nunca muda de ideia, não importa o que seja feito. Estou conversando, tentando persuadi-lo com minhas palavras antes de agir contra sua vontade. E sabe que farei isso, Tesh. Vou lhe dar uma leve lição, agora. Acha que ninguém está acima de Apocalypse? Que ninguém o comanda? O poder dele não é o maior de todos meu jovem. Caso fosse, você já estaria morto há muito tempo. Nenhum humano conseguiria resistir, coexistir e compartilhar algo como o Dreamwalking com alguém superior a ele. Estou falando dos deuses de ambos os reinos, céu e inferno. E eles existem, só odeiam romper o livre-arbítrio.

- Nunca nada personificou-se na minha frente. Isso parece mágica demais pra mim. O que mais pode existir? Estamos num mundo onde tudo é possível?

- Eu dito o possível e o impossível, querido. Eu sou o futuro, o passado, o que escreve e o que escreveu. Não há ordem natural para mim, mas é exatamente por causa da ordem natural que existo. Tudo é um ciclo. Em breve você conhecerá meu filho, chame-o de Lúcifer.

- Qual será a participação dele quanto a mim? Qual a função dele diante da guerra desencadeada? E que nome é esse, que nunca tinha ouvido falar?

- Você terá de desvendá-lo. Possui enorme potencial, e é facilmente corrompido para o lado de quem persuadi-lo melhor. Terá ele como sua maior arma nessa guerra, e verá o quão bondoso o destino e a ordem natural das coisas podem ser. Quanto ao nome, ah, esse nome representa muito poder em outra dimensão...

Antes de qualquer palavra indagativa de Teshial, o destino esboçou um sorriso sarcástico e desapareceu. O elfo permanecia perturbado, talvez mais do que nunca, e passara a refletir constantemente sobre seus atos. Tesh entendeu que pensava demais e pouco fazia, assim, realojou-se na Knightwatch Tower procurando pelos membros da Ordem. Postou-se a dormir, mas pela primeira vez em muito tempo, dormir sem entrar no Dreamwalking. Sonhar, sem estar na outra dimensão. Coisa que poucos conseguem fazer.