Capítulo 8 - O pedido de Arieswar.
A vida que Pepelu imaginou numa longínqua noite logo após o fatídico dia de Fechar de Estações nunca existiu. Muitos meses se passaram desde que a cidade de Thais fora atacada por um misterioso monstro na noite da festa e desde então o modo do mundo fluir havia mudado drasticamente; e para pior. Muito pior.
O rei Tibiano III pôs em prática uma ditadura severa contra os não-thaienses, alegando parasitismo por parte daqueles que, ao estabelecerem-se na metrópole, ocupavam os empregos, a riqueza e o lugar social que por direito pertenceriam aos thaienses, verdadeiros donos de Thais. As medidas foram evoluindo gradativamente, desde uma maior taxação em cobrança de impostos até a expulsão da cidade e de todas as colônias por ela dominadas. Na prática, porém, a maior parte dos bárbaros foi enviada como mão-de-obra semi-escrava para províncias em ascensão, como as da Baía da Liberdade ou nas ilhas geladas, onde estava o novo projeto da corte: Svargrond.
Esse último destino era mais temido pelos não-thaienses do que a morte, já que seria inevitavelmente um caminho árduo e tortuoso para ela. O “inferno gelado”, como ficou conhecido, tornou-se sentença para os mais rebeldes bárbaros. Pepelu por uma ou duas vezes chegou a se perguntar por que trabalhar na construção da cidade de Svargrond seria tão pavoroso, mas certamente nunca mais faria isso ao ouvir os relatos de conhecidos que estiveram por lá.
Para começar, o governo bancava apenas uma refeição, uma sopa de verduras, por dia e um mísero abrigo comunitário para passarem as noites. Por mais humilhante que fosse o tratamento nesses abrigos, reunir-se em grupos no frio congelante acabava por ser algo razoavelmente bom, mas a escassez de comida era enlouquecedor. O corpo consumia toda a energia possível para manter-se aquecido e não contar com alimento para reabastecê-lo era o caminho da morte. Lógico que sempre havia o caminho da pesca e das caçadas, mas o risco de ser devorado por alguma criatura selvagem ou dar de cara com um nativo hostil (geralmente comungado com os carlinianos) eram imensas. Fora isso as más-condições de trabalho e a falta de perspectiva de futuro seguida da uma forte depressão que parecia se espalhar pela ilha como uma doença contagiosa faziam jus ao tal apelido “inferno gelado”.
Os bons tempos de Thais ficaram então no passado, ou na imaginação de otimistas como Pepelu. Lógico que seria muito fácil acusar o rei Tibiano por tudo que estava acontecendo, mas ele tinha o total respaldo do Senado e de uma parte da população constituída majoritariamente de thaienses nobres ou que haviam perdido pessoas queridas no ataque da festa de Fechar das Estações. Isso desfavorecia ainda mais o povo que sofria com as atitudes xenofóbicas de Tibiano. A atitude mais sensata para esse tipo de gente seria sair da cidade por espontânea vontade, apesar de isso, logicamente, não ser possível para todos.
Pepelu e Kala eram um desses casos. A vida deles era Thais e apenas Thais. E o mundo além dos muros da capital havia se tornado um lugar hostil para thaienses, ainda mais para os que haviam acabado de chegar a ele.
Há poucos meses nascera a filha de Pepelu e Kala. Seu nome era Eurídice, como planejado. A opinião dos pais, é claro, era suspeita, mas havia um consenso entre todos os amigos do casal de que aquela era uma adorável garotinha que tinha tudo para se tornar uma linda mulher.
Uma grande festa foi formada no dia do nascimento da menina, e, ao ver todos seus amigos reunidos novamente, Pepelu enxergou-se numa ilha de alegria em meio a um mar de problemas. Aquela, por sinal, foi a última vez que vira Diogo. Pepelu chegou até a pensar em pedir ao capitão para zarpar com ele a bordo do Esperança, levando sua família para longe do mundo cruel que a rodeava. Como seria bom se a vida fosse simples assim.
Enquanto não tinham como fugir da realidade maçante na qual viviam, Pepelu e Kala buscavam ao menos fantasiar um pouco a situação para a pequena Eurídice. Sempre que podiam, saíam de cavalo procurando por um ambiente natural e, principalmente, com paz a tranqüilidade. Isso fez Pepelu conhecer diversos “paraísos” perdidos espalhados pelo grande mundo criado por Uman.
Naquele exato momento, o casal e sua filha estavam em um dos seus paraísos preferidos: uma pequena praia na ilha de Fíbula, habitada quase que totalmente por thaienses.
A pequena Eurídice adorava engatinhar na areia, brincar com pedaços de conchas que achasse pelo caminho e eventualmente correr de siris que a ameaçavam com suas pequenas pinças, sempre com Kala em seu encalço protegendo-a da luz dos sóis e de todo o resto que achasse perigoso.
Para Pepelu, aqueles eram momentos de ouro, onde ele podia curtir sua família e um banho de mar sem quaisquer empecilhos. Ou quase. Naquele dia, durante a volta para casa, o arqueiro reparou em três sujeitos de aparência duvidosa cercando um casal a cavalo. Sua surpresa maior, porém, foi ver que o casal questão era ninguém menos que Octavian, um amigo quase tão antigo quanto Diogo, e Sara Lionheart, prima de Kala. Mudando seu rumo até onde o grupo estava ele assustou os homens desconhecidos, que, vagarosamente, se retiraram.
- Obrigado, Pepelu. – falou Octavian – Acho que aqueles caras queriam mesmo nos roubar.
- Pelo amor de Uman, nem nos arredores de Thais temos mais segurança. – bradou Sara – Não me surpreendo se Tibiano mandar todos os guardas para constuir sua cidadezinha de gelo!
Agora os dois casais tinham descido dos cavalos para conversarem melhor.
- Sinceramente, estou com um pouco de medo até de sair da cidade. Só vim mesmo porque Sara me pediu companhia para voltar para casa, em Fíbula. Mal sabe ela que o máximo que teria ao meu lado seria um cavalo a mais pra correr. Eu sou um mero escritor, afinal.
- Ah, é mesmo. – lembrou Kala – Como anda o clima lá no Diário Oficial?
- Tenso. Muita gente é contra o atual governo, mas não posso expor isso no jornal da coroa, sabe? E o pior é que há pessoas que, de verdade, concordam com Tibiano. E muito mais do que você imagina.
Todos ficaram em silêncio, exceto por Sara que agora pegava Eurídice no colo e a divertia com caretas. Aquilo bastou para Octavian mudar de assunto.
- E a menina, como vai?
- Ótima! – vangloriou-se Kala – Estamos começando a levá-la pra praia e ela está adorando.
- Fico muito feliz. Meus três já começaram a brincar de subir em árvores. Do meu quintal, lógico, pois não deixo mais eles na rua. – e ele voltou-se para Pepelu – E Diogo, manda notícias?
- Não ultimamente. – Pepelu já estava cansado de responder àquela pergunta. Sempre viam buscar dele informações sobre seu “irmão mais velho” – Mas, rapaz, você nem imagina o que ele deixou comigo. Tá certo que foi sob mil recomendações, mas...
- Não acredito! – exclamou Octavian contemplando uma chave partida no meio que era ostentada com orgulho pelo arqueiro – A chave-mestra?! Talvez eu vá querer ela para prender Sara em algum canto caso ela comece a me botar nessas roubadas de novo.
Pepelu deu um leve sorriso enquanto via Sara tentar dar uns tapas em Octavian. Gostava demais dos amigos e não conseguiu esconder a tristeza que foi vê-los, ao fim da conversa, montar seus cavalos e seguir o caminho contrário. Enquanto Octavian e Sara seguiram para Fíbula, ele e Kala voltaram para Thais e sofreram a inspeção que já havia se tornado rotina antes de terem o acesso liberado.
O cenário da cidade era um desalento total. Por terem precisado vender suas casas devido às novas dívidas e taxações, havia muita gente morando nas ruas. Praças e parques não mais tinham jovens casais de namorados ou crianças brincando. Tropas de guardas encarregavam-se de retirar faixas, cartazes e qualquer tipo de protesto à coroa, punindo severamente os responsáveis. Nem o lixo das casas estava sendo recolhido como outrora, acumulando-se nos cantos e virando um banquete para ratos e outros animais imundos.
Quando o casal chegou em casa, na número 38 da Travessa do Pântano, os sóis já estavam baixos e Kala e Pepelu intimamente agradeciam por poderem colocar uma exausta Eurídice para dormir em seu berço confortável. Feito isso, eles desceram para o primeiro andar e foram namorar um pouco. Trocaram beijos ardentes e apaixonados enquanto tentavam enxergar um futuro melhor do que o presente caótico.
- Eu acho – falava Kala entre um beijo e outro– que Tibiano vai durar até acontecer algo que pare Svargrond. Quando essa insanidade acabar, aí sim, Cris, tudo voltará ao normal.
- E o que vamos fazer quando isso acontecer?
- Vamos nos mudar pra Costa Verde, como você quer. E sabe qual a primeira coisa que vou comprar para nossa casa nova?
- Não faço idéia. – dizia ele, beijando-a no pescoço e eventualmente dando-lhe leves mordidas na orelha – O que?
- Uma casa de bonecas. – falou ela, com um brilho nos olhos – Não dessas pequenas, sabe? Uma bem grande, de preferência maior que Eurídice! Aí eu vou mandar fazer várias bonecas de pano e dar a ela.
- Sinto que você está realizando também um pouquinho de um sonho seu. Ou estou enganado?
Ela riu.
- Pois é. Eu sempre quis ter uma casa de bonecas quando criança. Eu queria fazer meu mundo com elas, entende? Queria dar nome a cada boneca e que elas fossem crescendo junto comigo. Mas infelizmente meu pai nunca pôde comprar uma pra mim. Tentamos fazer juntos uma vez, mas não deu muito certo. Isso foi um pouco antes dele morrer.
Pepelu sentiu algo estranho crescer dentro de si. Conhecia sua mulher a tanto tempo, julgando-se capaz de entendê-la profundamente por uma mera troca de olhares, mas mesmo assim parecia que ainda faltava descobrir tanta coisa sobre ela; tantas pequenas coisas! Ele amava Kala verdadeiramente e queria apreciar cada mínimo detalhe de sua vida, cada casa de boneca que ela nunca teve ou cada sonho que planejava para Eurídice.
- Essa é a vantagem dos filhos, não é, Cris? Podemos realizar nossos sonhos através deles.
Ele respondeu com um sorriso, não precisando falar mais nada. Logo os dois estariam fazendo amor no sofá como dois adolescentes, até Kala não mais agüentar e cair adormecida nos braços do marido. Pepelu então a levou até seu quarto e a pôs na cama. Pensou em também deitar e dormir, mas ele sabia que não conseguiria tão facilmente. Desde o fatídico dia de Fechar de Estações ele haveria de ficar com insônia por todas as noites da sua vida.
Já se acostumando com aquilo, ele botou uma roupa e desceu as escadas. Acendeu um lampião e sentou-se à mesa para ler alguma coisa. Ignorou completamente o Diário Oficial, com seus textos manipulados, e pegou um livro qualquer, que identificou como sendo as crônicas de um viajante que rodava o mundo em seu navio. Logo ele lembrou-se de Diogo em como ele falava mal de escritores que ousavam sonhar com a aventura sem nunca terem posto o pé para longe da sua terra. Resolveu então pegar um romance que havia tomado emprestado de Octavian.
A história era muito bonita. Falava sobre a vida de quatro amigos inseparáveis e de como a vida deles mudou após um deles descobrir sua descendência na reealeza. Pepelu embrenhou-se na leitura até a parte em que o príncipe perdido estava sendo caçado por um sujeito misterioso que posteriormente se revelaria um antigo amigo do seu falecido pai, indignado pela coroação do garoto.
Após isso, já cansado, Pepelu resolveu voltar algumas páginas e ler novamente a parte em que o protagonista ficava sabendo de sua descendência através de uma carta. Mal sabia aquele garoto, coitado, que aquela carta mudaria sua vida para sempre; seria um príncipe, verdade, mas suas verdadeiras amizades se perderiam em um mar de inveja e traição.
No entanto, naquele exato momento, era a vez de Pepelu ser um coitado que mal sabia das coisas. Isso pois ele nunca esperaria que sua vida inteira fosse mudar numa visita. Aquela visita.
Batidas na porta. O arqueiro toma um susto. Quase dormindo por cima do livro, ele levanta-se do sofá num pulo e corre para pegar sua balestra e algumas flechas. Feito isso, mansamente ele vai avançando à porta como um leopardo silencioso de olho em uma presa. Ainda mais delicadamente, ele destrava a porta e prepara-se para abrí-la com um chute. Mantém firme uma perna de apoio e usa da outra com força para chutar, quando então vê...
- Você?
Do lado de fora da sua casa estava ninguém menos que Arieswar. Pepelu ficou tão surpreso que mesmo que quisesse não teria reflexo para apertar o gatilho da balestra.
- Por favor, abaixe essa arma. Eu vim para conversar.
Pepelu não sabia o que fazer. Por um momento ele viu todos os fantasmas de um passado não tão distante voltarem para si e o medo fluiu junto com seu sangue por cada veia do seu corpo. E para piorar, dessa vez não haveria Diogo para ajudá-lo.
- O que quer comigo? – foi o que saiu da sua boca – O que quer com minha família?
- Eu não estaria aqui se não tivesse um bom motivo. – falava Arieswar com a voz mansa – Peço, por favor, que abaixe a arma.
Pepelu ficou indeciso. Pensou em Kala e Eurídice dormindo lá em cima e decidiu que o expulsaria, porém agora ele não podia mentir para si mesmo dizendo que não estava curioso para saber o que o cavaleiro tinha de tão importante para falar. Pensando nisso, e no fato de continuar com a balestra na mão independente de qualquer coisa, ele demonstrou receptividade.
- Obrigado, Pepelu. Agora será que eu poderia entrar?
Não, aquilo só podia ser brincadeira. Arieswar?! Na sua casa?! DENTRO dela?! Afinal, teria sido mesmo com aquele homem que ele havia lutado no Fórum?
- Seria uma honra. – falou Pepelu ironicamente, sabendo que iria se arrepender daquilo mais tarde.
Somente ao fechar a porta que ele se deu conta de que realmente estava com o inimigo dentro de casa. E um inimigo bem cordial pelo visto, já que procurou uma cabideira para colocar seu casaco e depois se sentou confortavelmente no sofá no qual há pouco o anfitrião e sua esposa haviam feito amor. Apesar de tudo, Pepelu, sempre muito observador, notou que ele parecia intimamente transtornado.
- Eu vou direto ao assunto, Pepelu. Eu sei que nós não temos uma relação lá muito boa e... – ele deu uma risadinha – bem, na verdade já tentamos nos matar uma vez. Eu assumo isso e peço que você reconheça o quanto eu estou falhando com minha própria honra e dignidade para vir até aqui.
Pepelu não sabia até onde aquilo iria, por isso continuou apenas ouvindo.
- Estou precisando de um grande favor seu, Pepelu. Vou entender completamente se você recusar e até mesmo se rir do meu desespero, mas talvez haja um coração piedoso em seu peito e eu não me perdoaria se não arriscasse.
“Você é um pai de família e tem uma esposa, que ao comentário de todos, é uma mulher invejável, por isso eu creio que você saiba o que é o amor. E é o amor que me fez vir até aqui, humilhar-me diante de você inclusive, se preciso, de joelhos. Você tem algo que pode me ajudar e eu preciso disso mais que tudo.”
- O que? – perguntou Pepelu, incrédulo.
- Há algum tempo encontramos dois guardas aprisionados perto da sala que chamamos de “O vácuo”. Aquele é um velho aposento secreto, inspirado numa sala mágica muito longe daqui. Esses guardas falaram que haviam sido nocauteados por você e pelo capitão Natharde, que certamente os abandonaram ali. Acontece que para chegar onde chegaram, vocês precisariam ter passado por uma porta com uma trava reforçada e, como chequei há algum tempo, não havia sinais de arrombamento no local. Isso me fez acreditar que você teria um objeto um tanto quanto especial, capaz de abrir portas, não?
As coisas começavam a fazer o mínimo sentido.
- Sim...quero dizer, não. Na verdade a chave-mestra é de Diogo, não minha, mas ela realmente existe. – depois ele ficou se perguntando se não havia falado demais e resolveu mentir um pouco – Mas ela está muito longe daqui. Diogo a levou. E o que você quer com ela? E que papo é esse de amor?
Ele tomou fôlego para responder, mas um grito ecoou pela sala cortando sua atenção. Descendo as escadas, vinha Kala, que ao vê-lo, apavorou-se. Pepelu correu para tranqüilizá-la, mas ela já estava assustada o suficiente para quase não conseguir ficar de pé. Arieswar então começava a pensar que talvez tivesse sido um erro ter ido ali, incomodar a vida de pessoas que ele nem conhecia e tampouco gostava.
- Me desculpem. – disse ele, levantando-se – Eu não deveria ter vindo aqui, muito menos a essa hora. É que era...minha última esperança. Estou indo embora.
Ele então se encaminhou para a porta, pensando o quanto tinha sido idiota em acreditar que sua inimizade com Pepelu seria superada por um pedido desalentado. Já estava com a mão na maçaneta quando ouviu uma voz feminina falar:
- Espere! – falou Kala – Há algo que errado nessa história. O que você realmente quer, senhor Arieswar? Você certa vez quase mata o meu marido, e só não o fez por que não conseguiu, e agora vem na nossa casa, em plena madrugada, nos pedir um favor. O que deu em você? Ficou maluco ou o quê?
Ele abaixou a cabeça e pensou. Parecia querer dar uma resposta elaborada para aquela pergunta, mas não conseguia juntar as palavras.
- É verdade, senhora. Perdoe-me por eu quase tê-la feito viúva e por te acordar a essa hora. Não sei o que dizer, senão pedir desculpas.
- Então tente dizer o que está sentindo.
Aquilo parecia mais fácil; bem mais.
- Eu estou confuso. Pela primeira vez conheci uma mulher na qual vale a pena investir e arrancam-na de mim. Tentei recuperá-la das mais diversas formas, mas não consegui e resolvi apelar para o grande trunfo que seu marido, ou o amigo de vocês como fiquei sabendo, possui. Além disso, estou sofrendo demais pelos meus irmãos não-thaienses, já que eu também não sou desse império, e ela me fazia esquecer os problemas da vida. Desde que o rei Yorik morreu as coisas têm sido difíceis.
O casal se entreolhou. Havia muita sinceridade naquelas palavras.
- Quem é essa mulher? – perguntou Pepelu, já prevendo a resposta.
- Uma pessoa que ainda deve fazer parte dos seus sonhos mais íntimos. A sacerdotisa que você viu ser atacada enquanto se escondia embaixo daquele altar, na Igreja da Criação.
- Então você realmente a seqüestrou, como ouvi falar?
- Não, eu apenas a transferi da enfermaria para o meu quarto. Acho que isso não caracteriza um seqüestro. Acontece que nos apegamos muito desde então, e inevitavelmente eu fui me apaixonando por ela e ela por mim. – e ele abriu um sorriso tímido - Quem não sabe dessa his´toria deve me achar o guerreiro mais religioso de toda Thais, pois depois dela ter voltado para a igreja, fui visitá-la todos os dias.
“No entanto, ela tem alguns problemas jurídicos sérios; herança de família se quer saber. E sentia que cada vez mais o governo a pressionava. Por sorte ela é de uma família tradicional thaiense, e Tibiano não teve coragem de pôr as mãos nela deliberadamente, mas uma série de acontecimentos recentes fez a cúpula do Senado mudar de idéia e ela teve que ser levada por medida de segurança.”
- Levada? – perguntou Pepelu, surpreso – Levada pra onde?
- Pra um lugar terrível, uma espécie de prisão. Nem eu posso tirá-la de lá por meios legais, e não poderia matar dúzias de antigos colegas meus para tomá-la de volta; talvez nem conseguisse fazer isso.
- E quais seriam os...hã, problemas jurídicos dela? –perguntou Kala.
- Já disse, uma herança de família. Algo que ela não deveria ter a infelicidade de carregar.
E Pepelu imediatamente lembrou-se do velho no Monte Sternum. Aquela igreja guardava um grande segredo: poderia reviver os mortos, mas é claro, tudo tem seu preço e para aquela dádiva havia a maldição de se carregar um segredo assim e talvez Lynda estivesse mesmo sofrendo dela agora.
- Eu creio que não seja bem isso, Arieswar. – falou Pepelu, surpreendendo a sua esposa e ao cavaleiro – Seja sincero conosco.
- Como assim? – perguntou ele num sorriso de canto de boca – Eu não estou te entendendo.
- Tudo bem, Arieswar, sei que ela certamente pediu para manter o segredo. Eu te emprestarei a chave, mas não por você, que fique bem claro, mas por ela.
O rosto dele se impregnou de alívio, apesar de parecer confuso com o que Pepelu falava.
- Muito obrigado, Pepelu. Quando eu posso pegá-la?
O arqueiro pensou um pouco antes de responder.
- Amanhã...pela noite, acho melhor.
- Certo, é até melhor pois tenho que resolver algumas coisas antes.
Pepelu assentiu com a cabeça. Ainda não acreditava no que estava fazendo, mas desde o incidente da noite de Fechar de Estações ele sabia que uma estreita ligação entre ele, a sacerdotisa e o misterioso homem havia se criado. Sentia isso todas as noites, quando ficava se revirando na cama se conseguir dormir.
Kala, sentindo a aflição do marido, passou-lhe as mãos pelas costas e ficou a observar o cavaleiro, que agora já ia embora definitivamente. Arieswar rodou a maçaneta, abriu a porta e, antes de sair, deu suas últimas palavras:
- Pepelu, nunca te fale isso, mas você foi uma das minhas melhores lutas. Até amanhã.
****
“Amanhã” chegou mais rápido do que o arqueiro imaginava, pois, estranhamente, ele conseguira dormir o resto da noite inteira. Seria uma parte de sua dívida com a moça da igreja sendo paga?
Ao acordar, porém, Pepelu ficou todo o tempo a pensar no que acontecera na sala de sua casa há poucas horas. Os pensamentos dele foram longe, até mais ou menos aquela casinha do Monte Sternum e voltaram. Então havia mesmo um segredo; havia alguma coisa a se esconder naquela igreja. Será que fora por isso que o homem misterioso a invadira durante a festa? Certamente. Será que Arieswar, naquele dia, o conduzira até ali de propósito? Não, o cavaleiro nem conhecia Lynda e o segredo. Mas será que as autoridades o conheciam? Com certeza, caso contrário não teriam por que perseguir a sacerdotisa.
Além dessas perguntas sem resposta certa, durante toda sua rotina diária no Armazém ele só conseguia pensar em mais uma coisa: na chave-mestra e no pedido de Diogo para que ele zelasse por ela. A princípio Pepelu achou aquele pedido até mesmo cretino, pois ele tinha tanto apego à chave quanto seu dono, mas agora tudo mudara. O que pensaria Diogo se soubesse que ele a havia prometido para Arieswar, o homem que quase os matara no Fórum? Foi então que ele tomou uma decisão tão importante quanto a carta que chegara ao jovem garoto do livro que lia à noite.
- Olá, meu amigo! Já temos aquela remessa que eu encomendei?
O primeiro cliente do dia o trouxe de volta ao presente, mas nada o impedia desde então em ficar a pensar como seria aquela noite toda vez que a loja estava vazia.
··Hail the prince of Saiyans··







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