Curtir Curtir:  0
Resultados 1 a 10 de 47

Tópico: GRIM

Hybrid View

Post Anterior Post Anterior   Próximo Post Próximo Post
  1. #1
    Avatar de Scholles
    Registro
    31-08-2007
    Localização
    Porto Alegre
    Posts
    499
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão


    CAPÍTULO 2:
    ÓDIO

    Centenas de pessoas estavam esperando fora da igreja, em um patamar onde duas escadas levavam até a entrada do local sagrado. Gente que tinha chegado mais cedo cumprimentava todos os que chegavam agora, e lágrimas escorriam pelos rostos de alguns poucos. Lentamente, a massa entrou na igreja e foi se acomodando nos assentos, logo aos lados do tapete vermelho estendido. Um murmúrio de excitação percorreu a todos com o começo da música orquestrada; cessou assim que o padre se ergueu da cadeira.

    Os casais escolhidos pelos que hoje iriam se unir, no geral, grandes amigos, estavam em suas melhores roupas, todos espalhadas em volta do altar.
    Os ouvidos mais atentos escutaram um único carro freando na calada da noite, e logo a noiva pisou no tapete vermelho, o vestido branco deslumbrante em contraste com sua pele negra. Minutos se passaram com as passadas lentas da mulher, acompanhada de seu pai; a música mudou para uma um pouco mais agitada, mas com uma batida ainda suave, e então o noivo entrou com sua mãe.

    Quando ambos pisaram no final do tapete, subiram o altar, logo á frente de uma bela escultura de Jesus, que devido à umidade, formara pátina em alguns cantos. O padre fez um discurso breve (muitos estavam ostentando em suas faces o sono devido ao horário do casamento), logo lendo o trecho da Bíblia escolhido pelos noivos. Ao terminar, o noivo e a noiva disseram as palavras finais e se beijaram. Os que ainda não tinham chorado, o faziam agora, com exceção de alguns poucos.

    ***

    A cerimônia já havia acabado e todos já estavam na saída, conversando fervorosamente, alguns já indo embora; porém um homem continuava sentado na primeira fileira de bancos.

    O padre se dirigiu a ele, com os óculos minúsculos pendurados sob seu nariz engordurado, o cabelo branco caindo livremente em cima de seu rosto bondoso. Deveria estar beirando os sessenta e cinco.

    - Senhor, tenho que trancar a igreja, poderia fazer o favor de se retirar? - falou, tentando não parecer hostil.

    - Joe. Não me reconhece? - o homenzarrão falou, os cabelos negros e desgrenhados. Era alto, tinha uma caixa torácica forte e era magro (o que, porém, não o impedia de ser largo e pesado). Sua voz ressoou grossa e rouca.

    O padre primeiramente não veio a se lembrar, mas após alguns segundos, arregalou os olhos e soltou uma exclamação, que por pouco não foi um palavrão. Falou, atônito:

    - Johnny! Você voltou?

    - Não, Joe. Estou de visita.

    - E o que está achando da cidade?

    Um estranho brilho pareceu perpassar os olhos de Johnny, que involuntariamente fechou a mandíbula. O leve sorriso que estava em sua face mudou rapidamente para um esgar de dor.

    - Uma bosta. Uma bosta completa. Desde que você e o resto daqueles filhos-da-puta começaram a meter baboseira na mente dos turistas e dos moradores, a cidade não virou mais a mesma. Não é mais aquele local de gente inocente que era antes. E também virou um local rotulado como sendo a sede dos fanáticos. Antes, tínhamos menos de dez turistas por mês, e agora temos quase mil! - explodiu. Pareceu tomar fôlego, e ao perceber que Joe ainda estava chocado, continuou - Não há mais calma por aqui. Virou um inferno. As ruas estão lotadas e os carros enchem nossas estradas. Quando isso estava iminente, eu dei o fora.

    - Não vou aceitar essa tamanha falta de respeito dentro da minha igreja! - Joe falou ríspido, mas ainda com a voz fraca - ainda estava abalado pela rajada de verdades que Johnny parecia saber.

    - Sei mais do que você pensa. - E então, completou: - Devon. - como que se sozinha a palavra já tivesse um sentido completo, levantou-se da cadeira e deixou Joe boquiaberto. O coração do padre bombeava mais forte, enquanto ele maldizia quem quer que tivesse convidado o antigo morador para fazer parte do casamento.

    ***

    O antigo galpão, que levava na memória várias festas e eventos, estava abandonado fazia já alguns anos. Empoeirado e desorganizado; conteúdos de caixas estavam esparramados livremente pelo chão; o cheiro fétido de anos sem pegar quase nenhum ar; a única janela, estilhaçada e deixando entrar uma pequena rajada de sol.

    O homenzarrão, do lado de fora, deu mais um chute na porta. Ela desemperrou e o sol iluminou, finalmente, o local. Era ótimo, longe de qualquer intruso - no máximo, um turista se aventuraria ali, e sairia quando pedissem (caso contrário, poderia muito bem expulsá-lo à força).

    Cautelosamente, abriu o fecho da jaqueta e pegou uma cruz de ouro puro de dentro do bolso interno (deixou o cinto visível, antes escondido pela vestimenta). A cruz não tinha nenhum retrato, porém tinha algo similar a um gancho na ponta. Ele encaixou este gancho com uma corrente, também de ouro, que tirou do mesmo local do objeto anterior.

    Colocou-a ao redor do pescoço longo. Com a jaqueta aberta, cruz pendendo sob o peito, entrou no recinto. Um guincho fantasmagórico explodiu detrás de uma pilha de caixotes de cerveja.

    - Como eu tinha pensado. - Johnny sorriu, falando mais para confirmar a si próprio do que qualquer outra coisa. Sentiu ondas de prazer percorrem seu corpo, enquanto a adrenalina era largada e ele colocava a mão atrás do cinto de couro, sentindo a superfície fria do revólver em contato com sua mão quente.

    As cervejas foram empurradas, caindo da pilha organizada com um barulho desengonçado de estouro e formando uma espuma branca no chão. A espuma estava produzindo um barulho que lembrava vagamente um ovo fritando. Quem que tivesse empurrado, não estava mais á vista. Johnny levantou o revólver aos olhos, mirando cuidadosamente. Um vulto se mexeu, escondido nas parciais sombras que o lugar ainda conservava. O homem apertou o gatilho, acertando em cheio no peito; fez sem medo, mas suas mãos tremiam. O sangue jorrou da pessoa que agora caía, formando uma poça; o sangue mudando de vermelho para quase um laranja ao se misturar com a cerveja.

    O homem andou cuidadosamente até o corpo, tentando ao máximo não sujar os tênis (caros, por sinal) para caminhadas, mas não conseguiu pelos líquidos no chão. A calça jeans ficou respingada e as meias, encharcadas. Sem cerimônia, colocou a mão sobre as axilas do cadáver e o levantou, sentindo bastante pressão sob os músculos. Carregou-o até a parede do lado oposto de onde tinha entrado e o deixou escorado, o sangue vertendo da boca. Os olhos fora de foco, a saliva escorrendo e a magreza sugeriam que ele tivera passado um tempo terrível.

    Johnny pegou um pequeno celular preto do cinto e clicou em um botão vermelho. A tela foi preenchida com a mensagem ‘’ ENVIADO PARA TODOS OS CONTATOS ‘’ e então começou a produzir um bipe contínuo e irritante.

    ***

    - Senhores, a maioria de vocês já me conhece. Grande parte morava comigo aqui, em Lake Dallas. Foram chamados neste galpão antigo, pois todos aqui têm, de alguma forma, ódio pelo que a cidade se tornou ou quem tornou a cidade assim. Creio que poucos sabem o que acontece por trás dos panos...

    - Senhor Clander, aonde quer chegar? - interrompendo bruscamente Johnny, o homem falou - Não posso perder tempo aqui!

    - Não sou senhor nenhum. Apenas Johnny. Então, voltando onde eu estava... Joe não é o velinho piegas que aparenta ser. - algumas risadas começaram tímidas, e logo irromperam em gargalhadas - É, é, velhos tempos. Bom, antes eu disse que estávamos em Lake Dallas. Alguns devem ter percebido que não estamos. Se bem me lembro, estamos em Oak Point ou algum outro local aqui do Texas. O lugar em que quero chegar é que há uma seita que Joe participa. Eles idolatram uma pessoa, ou um demônio, o que seja. O que eu fiz nesses dez anos que eu saí daqui foi reunir informações sobre essa seita, apesar de ter muitas pausas e vários meses em que não fiz nada. Muitos devem achar que é perda de tempo. Mas eu tenho uma pessoa que quer isso muito, e me paga os objetos que facilitam isso e me dá moradia e comida. - continuou: - Eu não sei direito porque, nem ao menos como acontece, mas algumas pessoas ficam com apenas uma parte de sua vida, como se fossem monstros. - muitos começaram a rir descontroladamente. Johnny, porém, franziu o cenho - Acham isso engraçado?

    Johnny se virou e foi para trás de algumas caixas, deixando aquelas dezenas de pessoas esperando ansiosamente; voltou com algo tapado com um cobertor. O homem colocou-o no chão e puxou o cobertor. Um cadáver em decomposição, muitos presumiram. Mas logo notaram a podridão do ser e o buraco no peito, com sangue ainda manchando; a respiração ofegante.

    - Ah! Isso ainda está vivo! - uma voz de mulher, fina e esganiçada, quebrou o clima.

    - Descobri que estas coisinhas têm uma ligação muito forte com Joe. Encontrei dois desses zumbis dando voltas no quintal do padre. E ainda são resistentes pra caralho. Às vezes, três tiros não os abatem. São raros, muito raros os que saem de locais fechados. Tenho indícios de que a polícia está os caçando secretamente... Mas eu os chamei porque preciso de vocês. Quem não tem coragem o suficiente para segurar uma pistola e explodir os miolos de qualquer um que os atrapalhe, pode pegar se carro e voltar para suas casas.f

    Publicidade:


    Jogue Tibia sem mensalidades!
    Taleon Online - Otserv apoiado pelo TibiaBR.
    https://taleon.online
    Última edição por Scholles; 14-09-2008 às 01:00.

  2. #2
    Avatar de Keitaro
    Registro
    26-11-2006
    Idade
    33
    Posts
    494
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Gostei do visual sombrio do prologo, deixa muitos mistérios, e um visual tenebroso. Já o capítulo 1 é bom, mas apartir dele a história muda de rumo para uma ação, e deixa muito a desejar no ramo pscicológico, porem os leitores daqui devem gostar mais da ação. Não lhe conheço, mas teve um comentário que eu li, em que dizia que você não consegui terminar suas estórias. Eu tenho o mesmo problema, e acho que você colocou esta caracteristica no seu personagem Jonhy ao dizer "O que eu fiz nesses dez anos que eu saí daqui foi reunir informações sobre essa seita, apesar de ter muitas pausas e vários meses em que não fiz nada." bem talvez isso seja so ilusório. Não sei ao certo. mas em minha opnião gostária de personagens mais complexos.

    Em termos de linguística seu texto é fantástico, bem abstenho-me por aqui, esperarei o próximo capítulo ^^

  3. #3
    Avatar de Scholles
    Registro
    31-08-2007
    Localização
    Porto Alegre
    Posts
    499
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Citação Postado originalmente por Keitaro Ver Post
    Gostei do visual sombrio do prologo, deixa muitos mistérios, e um visual tenebroso. Já o capítulo 1 é bom, mas apartir dele a história muda de rumo para uma ação, e deixa muito a desejar no ramo pscicológico, porem os leitores daqui devem gostar mais da ação.
    A história continuará priorizando o sombrio, porém acho que parará de ter o ' terror psicológico ' que teve no prólogo. Isso vale tanto a você quanto ao Hovelst, este capítulo não é a trama principal.

    Não lhe conheço, mas teve um comentário que eu li, em que dizia que você não consegui terminar suas estórias. Eu tenho o mesmo problema, e acho que você colocou esta caracteristica no seu personagem Jonhy ao dizer "O que eu fiz nesses dez anos que eu saí daqui foi reunir informações sobre essa seita, apesar de ter muitas pausas e vários meses em que não fiz nada." bem talvez isso seja so ilusório. Não sei ao certo. mas em minha opnião gostária de personagens mais complexos.
    Eu me referi ' não fiz nada ' ao sobre o que ele estava falando. Não, não deixei tamanha ruptura no capítulo, é apenas algo pouco trabalhado (que tenho quase certeza que irei destacar melhor futuramente).

    Em termos de linguística seu texto é fantástico, bem abstenho-me por aqui, esperarei o próximo capítulo ^^
    Muito obrigado pelo elogio e pelo comentário.

    Citação Postado originalmente por Hovelst Ver Post

    Bah, cara.
    Achei desnecessário aqui você falar a idade do padre. Deixar apenas na descrição as marcas da velhice seria bem melhor. As rugas, as olheiras, os olhos cansados, são formas de mostrar isso mais veemente, e encobertar a idade da personagem, deixando o leitor imaginar. E não "induzir"-nos até uma imagem semi-pronta de um idoso de sessenta e cinco anos.
    Além disso, acho que quando uma pessoa é idosa, os cabelos já não caem mais sobre o rosto.
    Não costumo falar sobre os personagens, porém não possuo capacidades descritivas o suficiente para diferenciar as idades,ou seja, posso fazer os leitores acharem que uma pessoa com sessenta seja de oitenta e assim por diante. Sobre o cabelo, well, existem pessoas que mesmo velhas continuam tendo cabelo. Mas um implante de cabelo pode ser encaixado ali também

    Aqui, existem partes que poderiam estar em outro lugar, onde ficariam com mais ligação/conexão em relação à outra. Além de existir uma repetição.
    o homenzarrão falou, com uma voz grossa e rouca. Ele era alto, com cabelos negros e desgrenhados, e uma caixa toráxica forte contracenando com sua magreza.
    Dei uma remodelada na frase e achei que assim ficaria melhor. Tirei apenas a parte entre parentêses, mas se quiser colocá-la, à vontade.
    Obrigado pelo aviso. Já vou avisar que não vou mudar, pois prefiro levar como um 'ensinamento' futuro. Ainda mais que eu posso comparar as partes originais antigas com as que estou fazendo novas.


    Olha Elementals. A impressão que fica pra mim com esse capítulo é um enredo bem batido. Não sei o que vai ocorrer, mas esse chamado por pessoas para ajudá-lo é um clichê bem batido. Seitas, também é uma coisa bem velha e "zumbis" nem precisa comentar.
    Você tem que tomar cuidado com esse enredo, porque se o ponto central dele foi o que acabamos de ler, vai ser clichê.
    Não, será como uma ' subtrama '. Porém, terá muita importância pro resto da história... Que não deve se parecer com isso.

    Obrigado pelo comentário. Abraços para vocês =D

  4. #4
    Avatar de Manteiga
    Registro
    07-05-2006
    Localização
    Porto Alegre
    Idade
    32
    Posts
    2.877
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Bah, meu fórum pirouy esses tempos e parou de acusar os últimos posts, o que justifica meu balão no meu post em "Onda de Choque". Btw, cá estou com o mais que aguardado capítulo um. Como sou sempre o mais atrasado do grupinho dos prestigiadores de plantão da seção, não sobraram erros pra mim corrigir =( Se bem que eu mal arrumo os meus né >.<

    Bem, antes de ser alertado pro flood (e outras coisinhas mais), preciso dizer... Wow, maligno. Gosto disso :p Claro, com o tom certo de suspense, anda meio óbvio, mas nem muito aterrorizador. Vou ver como vai esse sombrio. Bem, reuniões secretas, zumbis... Nada de inovador, mas porra, não posso falar nada sobre isso nesse primeiro capítulo. Vou esperar ver no que vai dar, mas acho bom você trabalhar isso bem. Eu confesso que gostei do capítulo, com as falas deu pra imaignar como foi a cidade e como é. Vou esperar o dois para ver se argumento mais, mas só lhe peço quie desenvolva bem o sombrio e não faça clichês plx ;-;

    Manteiga.
    Dezesseis anos depois, estamos em paz.

  5. #5
    Avatar de Scholles
    Registro
    31-08-2007
    Localização
    Porto Alegre
    Posts
    499
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Valeu pelo comentário e pelo elogio, Manteiga.

    Gente, segunda passada eu tava mal pacas... Terça e quarta tive que até faltar a aula, 39.5° de febre, puta dor de garganta, etc. Fiquei um tempão sem nem abrir o Word, e por isso não espero terminar o capítulo muito cedo, não. Como já falaram pelo fórum, postar sem terminar as histórias faz com que tu te apresse para não decepcionar os leitores e a qualidade cai... Vou decepcionar vocês mesmo =P
    Uma semana pra mais até o capítulo sair, se eu estiver com inspiração.

    Como o Stephen King diz, existe o escritor popular e o escritor pessoal. O escritor popular escreve para as pessoas, e o pessoal escreve para ele próprio. Eu escrevo para mim mesmo. O que não muda nada do que eu disse até agora, só acrescenta alguns pontos a mais...

    Abraços e desculpem-me.




    Publicidade:


    Jogue Tibia sem mensalidades!
    Taleon Online - Otserv apoiado pelo TibiaBR.
    https://taleon.online

  6. #6
    Avatar de Scholles
    Registro
    31-08-2007
    Localização
    Porto Alegre
    Posts
    499
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    CAPÍTULO 3:
    SUBMUNDO


    Um lúgubre tom arroxeado tomava conta do céu daquele lugar. Era um vasto campo de grama amarelada e sem vida, onde uma criatura asquerosa segurava um machado, ao lado de um objeto similar a uma guilhotina. Tinha o rosto inchado, a língua afobada pendendo da boca estraçalhada. Usava uma roupa que sugeria luto, apesar de os olhos azuis e o sorriso mostrarem sarcasmo profundo.

    Com as duas mãos, o ser colocou o machado sob a lâmina do instrumento. Deixou a esquerda segurando a arma e com a mão direita apanhou uma pequena manivela, que girou com velocidade surpreendente, fazendo o instrumento rodar, afiando sua arma.

    Após alguns instantes fazendo o trabalho manualmente, a criatura pareceu relaxar os músculos e deixou de lado os instrumentos que estava usando, e começou a observar um corte irregular surgir no céu, manchando de preto a coloração roxa. Dois dedos ossudos passaram pela pequena fissura e esgarçaram-na, revelando duas mangas espaçosas caindo e deixando a mão à vista. O resto do corpo estava coberto por vestes pretas e o rosto, por um capuz.

    - Tenho ordens diretas. - falou o ceifador, pousando com incrível facilidade no solo, a voz sibilante se arrastando de dentro dele - O Plano Superior quer que tu executes ainda hoje, Carrasco.

    - Hoje? - o carrasco pareceu achar aquilo muito divertido. - Não. Preciso de pelo menos um dia.

    - Tudo bem, posso pedir para outro. - falou. Estendeu as mãos em um gesto tentador, pegando um frasco da cintura. O frasco estava cheio de uma coisa branca, meio esfumaçada. A criatura respondeu com um rápido movimentar de língua em volta de seu beiço, escondido pelo inchaço da cara.

    - Eu preciso de pagamento adiantado.

    - É uma operação difícil. Você pode fracassar.

    - Eu sou o melhor, não sou? É por isso que me procuraram. Quem é? Um demônio? Sabe que meu machado tem tantos limites quanto sua foice.

    - Vox acha que é um dos servos dos Procurados. Ele se rebelou e conseguiu matar dois guardas e quase levou um ceifador.

    - Puta que pariu. Ele não é do Plano Inferior, é? - ao ceifador assentir, o ser soltou um grunhido. - Não, não posso. Eu não vou arriscar.

    - Mas e daí? A maioria dos executados é do Plano Inferior.

    - Mas aqueles lá não são perigosos! - o carrasco blefou.

    - Com pagamento adiantado?

    O carrasco, então, balançou a cabeça positivamente. A tampa foi aberta, e então a fumaça fantasmagórica deslizou até a criatura, que abriu a boca e soltou um inspiro rápido, sugando o material. A névoa, mais ou menos do tamanho e largura de uma criança, preencheu espaço na garganta do carrasco, enquanto ele fechava os lábios, com uma leve exclamação de prazer.

    ***

    A cabeleira preta cobrindo parcialmente o rosto, os olhos com profundas marcas envoltas (que pareciam assustadoramente com maquiagem), a pele marcada - como um surfista que passou tempo demais no sol -, os olhos ameaçadores, o corpo nu e forte. Duas pesadas correntes de metal pendiam de seus braços, presas nas mãos de um homem, que com a ajuda de outro companheiro, cuidavam do prisioneiro.

    Sob o olhar autoritário dos guardas, caminhou até sua cela. Estaria sorrindo, não fosse o terrível mal-estar que estava sofrendo. Era uma solitária. Foi jogado sem nenhum cuidado para o lugar que o aguardava, em uma rápida manobra em que as correntes foram retiradas.

    Bateu na parede, fazendo um corte no ombro; um pouco de sangue escorreu do machucado, mas nem ao menos percebeu. A porta foi fechada, extinguindo a luz que ainda vinha. Havia agora apenas a escuridão. Fechou os olhos e esperou.

    Sua visão estava falha, porém melhor do que na penumbra. Via tudo em um tom surreal, um verde-limão. Um cheiro muito forte vinha de um lugar que estava perto, mas parecia distante, impossível de ser alcançado. Ele repudiava o cheiro, porém um fio de baba escorreu dos seus lábios, tanta sua fome. Seu estômago parecia estar remexendo, quase dançando ao som de um barulho irritante, que vinha de sua própria boca; o corpo estava pesado demais para se levantar. Uma dor irritante, pontiaguda, não o perdoava, pinicando constantemente em suas paletas.

    Percebeu que seu corpo havia se arrastado para a porta, que obviamente estava trancada. Uma das paletas emitiu um som de rasgo, e então o homem gritou desesperadamente, com todas suas forças, quando ambos os ossos pareceram se deformar e crescer para fora do corpo. O sangue quente escorreu por suas costas, enquanto ele se debatia, gritava, esperneava, soltando guinchos de terror. Seus ombros ardiam, mas ele não podia se virar e olhar para ver o que tinha acontecido. Exigia força demais, coisa que ele não podia abusar no momento. Absurdamente, sua respiração estava leve, mostrando que apesar do corpo mutilado, ainda estava bem.

    Uma nítida e assustadora palavra ecoou pela sua mente: echo. Lembrou-se do antigo cântico de ninar que seu pai o contara uma vez, em um tempo longínquo:

    Voe, pequeno sanguinário, voe pelo céu, voe como se tivesse que ecoar, como que tudo fosse acabar, voe, voe demônio!
    Pelas terras distantes, o eco irá se espalhar. Voe, demônio, pois o tempo há de se acabar!


    Na época ele não poderia entender, mas mesmo hoje, sabendo seu terrível destino, aquelas frases pareciam velhas besteiras. Seu pai havia tentado o prevenir, tentara até criar um portal para Terra. Mas os malditos ceifadores o impediram de lhe salvar. Disseram que o que tinha que acontecer iria acontecer.

    O homem começou a chorar, pois sabia que, sim, o tempo se acabaria. E sabendo isso, não havia como não ficar triste. Porém, com lágrimas escorrendo, ele sorria. Sua pele começara a sangrar, dando a sensação de incômodas agulhadas perfurando cada centímetro do seu corpo. Sua mão começou a formigar e as unhas tiveram um início de crescimento. O processo seria longo e doloroso.


    ---
    Por favor, não tirem conclusões precipitadas sobre os Planos. O próximo capítulo será bem diferente da temática que eu já abordei - se eu conseguir fazer o que pretendo.
    Espero que gostem. Abraços.
    Última edição por Scholles; 14-09-2008 às 01:00.

  7. #7
    Avatar de Manteiga
    Registro
    07-05-2006
    Localização
    Porto Alegre
    Idade
    32
    Posts
    2.877
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    A primeira parte foi bem legal. Bem descrita, deu pra imaginar um campo no meio do nada com o céu roxo... Seria mais ou menos assim? O ceifador saindo da fenda foi realmente bem clichê com os ceifadores que a gente vê da TV, mas não dá pra evitar usar portais e fissuras como transporte. É bem tentador XD Afinal, o que tinha no frasco? Maconha em vapor? XD Todo caso, esta parte me deixou curioso.

    A segunda eu não entendi quase nada ;-;' Espero que seja melhor explicada futuramente, porque sério, não processei nada que se deu lá na solitária. Fora que o cara tava.. Sei lá virando um negócio o0

    Lamentando a demora e esperando o próximo.
    Manteiga.
    Dezesseis anos depois, estamos em paz.



Tópicos Similares

  1. Respostas: 130
    Último Post: 03-08-2008, 17:20
  2. Grim Reaper - Desenvolvimento
    Por Trans~ no fórum Tibia
    Respostas: 10
    Último Post: 22-07-2008, 20:10
  3. Royal Morfar Hunt Grim Reaper
    Por WedNesDay no fórum Tibia Videos
    Respostas: 5
    Último Post: 19-07-2008, 12:56
  4. Hunt Grim Reaper ~ 3 pessoas =x
    Por ..:: AthondoRRrr ::.. no fórum Tibia Videos
    Respostas: 2
    Último Post: 19-07-2008, 03:32
  5. Fandr, Artror - RP 226, EK 218 - Hunt Grim Reaper
    Por Fandrr no fórum Tibia Videos
    Respostas: 23
    Último Post: 05-07-2008, 18:28

Permissões de Postagem

  • Você não pode iniciar novos tópicos
  • Você não pode enviar respostas
  • Você não pode enviar anexos
  • Você não pode editar suas mensagens
  •