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Tópico: O Arauto do Expurgo

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  1. #1

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    Foi bem inusitado o capítulo.

    Bem, eu gostei da reviravolta. Mas duas coisas me chamaram a atenção negativamente: 1- Não consegui imaginar o ambiente (especialmente a voz/aparência do Arauto. Eu me peguei imaginando ele com voz de galã de novela, sem querer. E quando me dei conta disso, estranhei bastante...). 2- Demorei pra entender como que se matando ele ia se safar. Afinal, como assim é difícil encontrar um cadáver? - O corpo estaria ali no chão, então tecnicamente ele seria fácil de ser encontrado. Bastaria então ao Arauto ressucitar Jean, por mais que demorasse, e então matá-lo denovo por ter falhado em fugir.

    Realmente não entendi. É a alma que não pode ser encontrada, e então o Arauto falha porque ela não estaria no corpo? Se for o caso, não ficou claro esse aspecto do jogo em nenhuma parte da história até agora.

    E olha que eu li várias vezes essa parte, até entender (o que não foi lá muito agradável. Prefiro quando leio e entendo sem precisar reler pra ver se não perdi algum detalhe importante. Se uma informação é crucial pra história, faça questão de dar algum destaque para ela e deixe-a completa, para ter certeza que quem está lendo não vai passar batido por ela). Isso porque a cadeia de raciocínios do Jean não está muito clara para o leitor em algumas partes. Ele se refere a acontecimentos passados que não aparecem na história, e isso confunde um pouco. (posso até estar falando besteira, mas não lembro dele ter morrido antes. Vai ver é porque tem bastante tempo entre um capítulo e outro...)

    Mas de qualquer maneira, as afirmações do Jean nesse capítulo acabam fazendo sentido pra quem lê mais pela reação que elas causam no Arauto. Pela reação dele dá pra ver que o que ele falou é verdade. Mas seria uma cadeia de raciocínio muito mais sólida se também tivesse base em acontecimentos da história, se causasse "flashbacks" no leitor. O que eu quero dizer é: Quando o leitor vê essas informações e afirmações que fazem uma completa reviravolta no jogo, ele não pensa "Ah! É claro! Eu lembro daquela parte "x" que ele ta falando, e realmente o que ele ta fazendo é um jeito de escapar! Porque não pensei nisso antes?" Pelo menos eu não pensei isso. Foi mais algo como "Hã? Como assim, ele ja morreu antes? Que regra é essa que ele ta dando a entender? Ué? Mas se o cadáver ta lá como o Arauto não pode achar?"


    (Mas novamente eu repito: posso estar equivocado por não lembrar direito dos capítulos iniciais. Porém, de qualquer maneira... Se eu não lembrei, você também tem culpa nisso pois não deu ao leitor meios de lembrar facilmente...)

    Vou esperar um manifesto seu para sair atrás da informação e fuçar nos capítulos anteriores.



    Próximo Capítulo?



    A.E. Melgraon I

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    Última edição por Melgraon I; 13-06-2008 às 15:46.

  2. #2
    Avatar de Emanoel
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    Citação Postado originalmente por Melgraon I Ver Post
    Foi bem inusitado o capítulo.
    Ótimo! Boa parte da diversão consiste na surpresa. Atingi meu objetivo com esse capítulo...

    Mas como nem tudo são flores, vou tentar responder suas dúvidas, além de admitir onde foi que eu pequei.

    Em primeiro lugar, devo dizer que adoro enredos sem muitas explicações, naturalmente confusos, principalmente quando não são lineares. Já tinha decidido que a história seria obscura, desde o início. Comentário meu, nesse mesmo tópico:

    Citação Postado originalmente por Emanoel Ver Post
    Sabe que eu até pensei em fazer o prólogo, explicando a história, o mundo, etc? Mas eu decidi criar um enredo quase-não-linear, sem ser baseado em apenas um personagem ou um grupo. A característica principal será a falta de explicações, estarei evitando ao máximo narrativas longas, sem diálogos e com muitos detalhes sobre o que se passa. A maioria dos detalhes da história serão explicados pelos próprios personagens. Eu não quero forçar nada, portanto, em capítulos em que o personagem já sabe tudo, ele não vai ficar repetindo o que pretende fazer... Se é que você me entende. Se não entende, vai entender com os próximos capítulos.
    Mas, admito que o meu erro foi a falta de planejamento. Não dei ênfase a duas partes importantíssimas do acordo: direito a segunda vida¹ e o modo de escapar do jogo². Ou seja, algumas "peças do quebra-cabeça" ficaram demasiadamente enigmáticas.

    ¹Acontece que quatro personagens da história fizeram um pacto com O Arauto do Expurgo: Vincent, Jean Palladino, Eleonora e Tomas. Mas todos eles aparecem DEPOIS de morrer pela primeira vez.

    ²Fugir é a única maneira de se ver livre.

    Citação Postado originalmente por Melgraon I Ver Post
    1- Não consegui imaginar o ambiente (especialmente a voz/aparência do Arauto. Eu me peguei imaginando ele com voz de galã de novela, sem querer. E quando me dei conta disso, estranhei bastante...).
    Sério que você não conseguiu imaginar O Arauto? Eu me esforcei para deixar essa cena da maneira mais convincente possível. Nunca tinha revisado tantas vezes um mesmo trecho.

    Quanto ao "ambiente", não levantei uma palha para descrever o cenário, admito. Não sou muito bom nisso, todas as descrições que pensei em fazer soavam vazias e sem significância para esse ponto culminante na história.

    Citação Postado originalmente por Melgraon I Ver Post
    2- Demorei pra entender como que se matando ele ia se safar. Afinal, como assim é difícil encontrar um cadáver? - O corpo estaria ali no chão, então tecnicamente ele seria fácil de ser encontrado. Bastaria então ao Arauto ressucitar Jean, por mais que demorasse, e então matá-lo denovo por ter falhado em fugir.
    Nesse mesmo capítulo, Jean diz:

    Citação Postado originalmente por O Arauto do Expurgo
    – Na última vez em que morri, você demorou algum tempo para me ressuscitar – continuou Jean, sorrindo de alegria enquanto falava. – E, caso não lembre, nosso pacto me garante a liberdade, basta você se atrasar mais de um dia. Vai ser difícil localizar um defunto, não é mesmo?
    E, logo no segundo capítulo, Vincent comenta:

    Citação Postado originalmente por O Arauto do Expurgo
    – Eu renasci alguns dias depois de minha morte, não sei ao certo quanto tempo... Meu corpo estava um pouco distante do campo de batalha e O Arauto estava ao meu lado. Eu parecia inteiro, não havia sangue e nem cortes. Era um corpo novo, eu até me sentia mais jovem e mais forte...
    Não ficou claro o suficiente para ser entendido em apenas uma leitura, mas eu quis deixar duas coisas explícitas:

    • O Arauto demora alguns dias para ressuscitar alguém.
    • Caso atrase mais de 24 horas, o acordo estará desfeito.


    E tem outro detalhe sobre isso, que será esclarecido no capítulo final. Eu guardei algumas surpresas interessantes.


    Eu não quero deixar ninguém boiando, mas também acho chato ficar explicando tin tin por tin tin. Se bem me lembro, existem mais algumas pequenas pistas espalhadas pela história... E adianto que pode ser um pouco difícil compreender acontecimentos do último capítulo.
    Última edição por Emanoel; 13-06-2008 às 16:59.

  3. #3

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    O Arauto demora alguns dias para ressuscitar alguém.
    Caso atrase mais de 24 horas, o acordo estará desfeito.
    Aí é que tá, isso eu entendi.

    O que eu não saquei foi o porquê do cadáver daquele que fez o acordo não servir pro Arauto. É a pessoa que fez o trato que ta ali, só que ela ta morta. Então a pessoa não fugiu, ela ainda está ali (o seu corpo pelo menos). Ela matou (a si mesma) mas não fugiu, ao meu ver ela deveria perder o jogo. Sendo assim, qual é o problema? Bem, eu sei como é chato dar spoil.. Daí tu que sabe. O Arauto precisa achar a pessoa viva pra funcionar, é isso?

    (e agora lembrei da parte em que ele menciona que ja morreu. Realmente, eu ja suspeitava que fosse o caso de eu ter esquecido...)

    Já sobre ser um aspecto da história a confusão... Bem, eu prefiro entender a história quando estou lendo ela, haha. E se a confusão faz parte da história, o leitor precisa entender essa confusão. (Certo, brincadeiras à parte... É tu que escolhe como vai escrever.)

    Quero só ver quais surpresas estão reservadas. Hehe...


    Próximo Capítulo?



    A.E. Melgraon I

  4. #4
    Banido Avatar de Hovelst
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    Bah...

    Para mim esse era o XI, mas vamos lá.

    Citação Postado originalmente por Emanoel
    Quanto ao "ambiente", não levantei uma palha para descrever o cenário, admito. Não sou muito bom nisso, todas as descrições que pensei em fazer soavam vazias e sem significância para esse ponto culminante na história.
    Eu teria me contentado com uma boa descrição do local onde o Arauto estava. As janelas e tudo mais. O vento e a lua ao fundo. Algo assim.

    Outro ponto, que assim como o Melgraon, eu não entendi foi a dificuldade em se achar o cadáver. Existem algumas coisas pairando no ar no capítulo II, mas nada muito esclarecedor, então, obviamente você deixou esse ponto para o último capítulo, não?

    Eu não tenho mais muito o que comentar. O capítulo ficou pequeno, mas está realmente compensando pelas reviravoltas que acontecem, e agora resta só esperar pelo final da história e pelas surpresas que nos aguardam( Está parecendo até novela).

    Creio que seja isso.

    Hovelst
    Última edição por Hovelst; 16-06-2008 às 16:57.

  5. #5
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    Ah! O que se passa?! Alguns usuários que comentavam simplesmente sumiram do tópico, outros que abandonaram a história a bastante tempo reapareceram e não abriram a boca. Sem contar um ou dois conhecidos que eventualmente pousam aqui e não escrevem nada. Se um usuário fica duas horas parado no meu tópico, só posso presumir que está lendo alguma coisa.

    Pô! Já está chato pedir comentários, mas eu gostaria de saber se deixei de agradar em algum ponto ou se existe outro motivo para a escassez de posts. Outras histórias parecem ser frequentadas normalmente...

    Bem, tenho esperanças de conseguir mais alguns comentários. Vou atrasar o último capítulo em decorrência disso... Tomará que valha a pena. :o


    Já conversei bastante com CRonaldo 10 nas terras de Chimera. Então pulo para o Hovelst...

    Citação Postado originalmente por Hovelst Ver Post
    Outro ponto, que assim como o Melgraon, eu não entendi foi a dificuldade em se achar o cadáver. Existem algumas coisas pairando no ar no capítulo II, mas nada muito esclarecedor, então, obviamente você deixou esse ponto para o último capítulo, não?
    Creio que sim... :rolleyes:

    Citação Postado originalmente por Hovelst Ver Post
    Eu não tenho mais muito o que comentar. O capítulo ficou pequeno, mas está realmente compensando pelas reviravoltas que acontecem, e agora resta só esperar pelo final da história e pelas surpresas que nos aguardam( Está parecendo até novela).
    Opa! Chamar de novela está mais para insulto!


    Obrigado por todos os comentários.




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    Última edição por Emanoel; 19-06-2008 às 08:21.

  6. #6
    Avatar de Scholles
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    Sem dúvida, foi um ótimo capítulo. Como os outros já disseram, não está muito clara a parte de que seria difícil achar um morto, mas acredito ter entendido.
    Sobre o Arauto, as ações ficaram bem convincentes, menos uma parte em que eu fiquei um pouco incerto se ia acontecer. Primeiro, o Arauto xinga o Jean por que perdeu no seu próprio jogo. Depois, fica frustrado. Ainda depois, goza da cara do Jean e tenta convencer ele de não se matar.
    Acho difícil que alguém ' retrucasse maldosamente ' e depois tentasse fazer com que a outra pessoa desistisse de algo.
    Fora isso, mais nada a acrescentar, a história está ótima.

  7. #7
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    Adorei a história, eu comecei a ler ontem e não consegui parar de ler (vc e culpado de nâo me dechar jogar) adoro histórias intrigantes onde se deve prestar bastante atenção na leitura e não só ler para entender a história.

    aguardo ansioso pelo próximo capítulo.
    Última edição por invu; 20-06-2008 às 09:22.
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    para aqueles que pensão que tibia e só um jogo onde a unica coisa a fazer é mata monstros para pega lvl,skills. esse e o tópico para abrir sua mente:
    (topico de wakka)
    http://forums.tibiabr.com/showthread.php?t=108841

  8. #8
    Avatar de Emanoel
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    Citação Postado originalmente por CRonaldo 10 Ver Post
    Vamos, Emanoel! Tô ansioso para ver o capítulo final!
    Certo, certo!

    Para ficar mais organizado, deixei para o próximo post.

    Citação Postado originalmente por EleMenTals Ver Post
    Sobre o Arauto, as ações ficaram bem convincentes, menos uma parte em que eu fiquei um pouco incerto se ia acontecer. Primeiro, o Arauto xinga o Jean por que perdeu no seu próprio jogo. Depois, fica frustrado. Ainda depois, goza da cara do Jean e tenta convencer ele de não se matar.
    Foi como "apostar todas as suas fichas". Quando você tenta convencer alguém (ou até a si mesmo), não experimenta várias abordagens? Foi essa idéia que eu quis passar...


    Muito obrigado por todos os elogios. Acreditem, é uma alegria chegar no tópico e encontrar quatro comentários favoráveis.

    --------------------

    Eu peço que comentem o último capítulo, falem quais foram suas impressões da história. E quem ainda não chegou lá, pode ir comentando sobre os capítulos antigos também, pois é sempre bom saber a opinião de outros leitores.


    E não achem que vão se livrar de mim. Estou escrevendo novas histórias e não deve demorar muito para elas aparecerem no fórum. :riso:

    Obrigado a todos os usuários que acompanharam e me ajudaram nesses oito meses e meio de O Arauto do Expurgo.

  9. #9
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    O Arauto do Expurgo

    Capítulo XIII
    Cadáver

    O funeral de Jean Palladino foi grandioso. Agkar inteira estava enlutada. Em uma tarde melancólica, alguns convidados importantes comprimiam-se no pequeno cemitério. O chanceler chorava silenciosamente a morte do seu novo amigo, enquanto suas filhas encaravam o túmulo com olhares perplexos, sem acreditar naquilo que estavam presenciando.

    Consideravelmente distantes do caixão e das pessoas que faziam suas últimas homenagens, Jeff e Gary conversavam aos sussurros.

    – Acredite no que eu estou dizendo, ele estava completamente louco... – disse o mais jovem. – Foi melhor ter se matado, provavelmente acabaria prejudicando a nós dois.

    – Melhor? – grunhiu Gary, extremamente carrancudo. – Aquele idiota acabou com o plano de minha vida, espero que apodreça no inferno.

    Serena passou vagarosamente pelos dois homens, coberta por um elegante vestido preto e completamente perdida em pensamentos. Seu rosto transparecia tristeza e desilusão, não chorava mais por falta de lágrimas.

    – E toda essa maldita cidade sofre a perda daquele imbecil – comentou Gary, enquanto admirava a beleza da moça. – Idiotas! Continuem assim, cultuem um impostor – encerrou o soldado em tom desdenhoso.

    ***

    A luz incomodou seus olhos, logo que foram abertos. Piscou seguidamente, sentou no chão de terra macia e alongou os braços de maneira preguiçosa.

    “Estou onde queria estar... Em um lugar calmo e seguro. O acordo foi cumprido mais uma vez”, pensou Jean Palladino. Encontrava-se no vale onde desjejuou com Myra e Vincent. Ao seu lado, estava aquele mesmo rio cristalino que tinha saciado a sede do trio.

    Correu suas mãos por todo o corpo. Depois, levantou-se e viu sua própria face refletida no espelho de água. Utilizava as mesmas roupas, mas não possuía ferimentos ou cicatrizes. Sentia-se incrivelmente bem, apesar da lembrança de sua morte ser tenebrosamente nítida.

    Distraído, Jean lembrou da refeição que fizera na margem do rio. Era exatamente o mesmo lugar, tinha certeza. “Eu não tive oportunidade de mostrar a ele”, pensou, lembrando que era claro demais para ligar sua lanterna.

    Não passou muito tempo naquele lugar, apesar de ter vontade de permanecer. Decidido em concluir uma única e última missão, novamente rumou na direção da cidade-estado Agkar.

    ***

    Doria nunca esteve tão pacata. Desde a estranha visita do Arauto, nenhum acontecimento marcante atrapalhou a vida de seus habitantes.

    Sirius, famoso guerreiro daquele vilarejo essencialmente bélico, estava aposentado desde que soube da morte de Vincent. Tinha poucos amigos e não costumava receber visitas, por isso estranhou quando bateram na sua porta em uma manhã.

    – Sirius? Prazer. Meu nome é Jean – falou o visitante. Tinha deixado seus cabelos crescerem, retomando um pouco de sua antiga aparência selvagem. Além disso, cultivava uma estranha barba. – Posso entrar?

    Sirius confirmou com a cabeça e analisou o homem de cima a baixo. Logo depois, escancarou a porta sem muitas mesuras. Não imaginava o que aquele sujeito queria lhe falar, mas estava levemente curioso.

    Jean sentou em uma cadeira de madeira, sem notar que a mesma possuía estranhas perfurações no seu encosto. Sirius serviu chá gelado e alguns biscoitos, antes de se juntar ao visitante na pequena mesa redonda.

    – Imagino que não seja uma visita de cortesia. É mais educado chegar depois do café – comentou Sirius, com um sorriso suave no rosto. – Então só posso presumir que você tem algo importante para me dizer.

    – Eu estou com o corpo de Vincent.

    Sirius tossiu. O guerreiro aparentava estar confuso com a notícia, mil perguntas atravessavam sua mente e tentavam sair pela boca. Jean não queria perder tempo, tinha um tom discreto de impaciência na voz quando continuou:

    – Eu conheci Vincent em um deserto, não muito distante desse vilarejo. Aproximadamente trinta dias atrás, ele morreu por complicações durante nossa viagem...

    – O Arauto... – começou Sirius, perplexo. Demorou alguns segundos para continuar, seu olhar mantinha-se fixo no chá. – Aquele monstro me disse que ele foi assassinado.

    Não foi necessário perguntar, ficou claro que Jean era o carrasco de Vincent. Quando o silêncio tornou-se insuportável, o viajante continuou sua história:

    – Ele foi inicialmente enterrado em Agkar, mas acredito que um guerreiro de Doria deve permanecer em Doria, mesmo depois de morto. Eu consegui resgatar o corpo, e acredite, foi bastante trabalhoso trazê-lo até aqui nesse curto espaço de tempo, ainda mais por que eu não tive muita ajuda...

    – Onde está? – interrompeu Sirius, agora ainda mais confuso. Estava diante do assassino de um rival e amigo, valoroso guerreiro e traidor de seus ideais. Não sabia o que fazer, sentia-se embaraçado e impotente.

    – No cemitério dos guerreiros, esperando um funeral digno... – sussurrou Jean. – Eu passei por lá e percebi que a morte de Vincent foi uma grande surpresa. Algumas pessoas comentaram que vocês eram grandes amigos e que apenas você acreditava na morte de Vincent. Então eles me indicaram o caminho até sua casa.

    Sirius levantou-se e, mais uma vez, escancarou a porta.

    – Venha comigo. O que está esperando? – reclamou, antes de sair da casa.

    “Que inferno isso está sendo”, pensou Jean, enquanto seguia o guerreiro.

    Correram por um pequeno trecho do vilarejo. Algumas poucas pessoas desviaram seus olhares ao ver os dois homens passarem rapidamente, mas nada disseram ou fizeram. Alguns minutos depois, já era possível ver a casa funerária e o terreno próximo, onde eram enterrados todos os habitantes da vila e – em uma área especial – os guerreiros.

    Não demoraram a perceber que a notícia tinha se espalhado. Alguns guerreiros que conheciam Vincent estavam espremidos no pequeno aposento, ao redor de um escuro caixão de madeira que permanecia com a tampa levantada. O dono do estabelecimento olhava de um lado para o outro, enquanto ajeitava seus óculos que insistiam em escorregar do rosto, prevendo confusão.

    – Você não vai querer ver isso – comentou um homem com feições severas, ao perceber a aproximação de Sirius.

    Mas era tarde, não demorou muito para os guerreiros mais jovens abrirem espaço e deixarem o rosto pálido de Vincent a mostra. Sirius não conseguiu se conter, fraquejou ao perceber como aquilo era real e imutável, ajoelhou-se no chão e fez uma breve reza pelo amigo.

    Jean esperava na porta, temendo os guerreiros de Doria. Já se arrependia de estar fazendo aquilo, correndo grande risco de ser executado.

    Alguns minutos depois, Sirius levantou-se e encarou Jean com os olhos vermelhos e inquietos. Não sentia raiva ou gratidão, sua mente continuava em conflito, ocupada em retardar uma profusão de sentimentos confusos.

    – Eu não queria acreditar... – falou o guerreiro.

    Jean assentiu respeitosamente com um aceno de cabeça. Logo depois, pensou em ir embora, sem dizer mais nada, mas foi impedido pelas palavras do próprio Sirius:

    – Para onde Vincent foi?

    Jean estava com a boca seca. Seu rosto denotava consternação e sua resposta não foi agradável.

    ***

    A choupana e a plantação de trigo formavam uma paisagem pitoresca, ainda mais naquele fim de tarde. O velho trabalhador pretendia se recolher e dormir, pois aquele tinha sido um dia especialmente cansativo.

    Porém, algo desviou sua atenção repentinamente. Uma estranha criatura vinha do céu em grande velocidade. Era escura e magricela, possuía um rosto com traços finos e alguns poucos cabelos em sua nuca. Olhares desatentos considerariam que aquele era O Arauto do Expurgo, criatura cruel e temida por muitos, mas não passava de um dos seus seguidores.

    Ao perceber a rápida aproximação do monstro, o homem largou a ferramenta de trabalho e correu para casa. Depois de trancar a porta desesperadamente, encolheu-se na janela, observou a criatura pousar no meio da plantação e cobrir-se com suas enormes asas podres.

    Seus olhos, ao contrário do resto do corpo, não se assemelhavam aos do seu mestre, pois possuíam a mesma constituição do olho humano. Naquele momento, eles piscaram convulsivamente, como se a criatura estivesse prestes a chorar.

    O monstro não possuía livre arbítrio e nem grande capacidade de raciocínio, mas algo o tinha impelido até aquele lugar. Recordações de uma outra vida, lembranças tristes e marcantes, talvez até arrependimento.

    Pouco depois de o sol ter ido embora, a criatura assombrosa abriu suas asas e alçou vôo. Precisava se reunir com seus semelhantes.

  10. #10
    Avatar de Neal Caffrey
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    Vamos, Emanoel! Tô ansioso para ver o capítulo final!

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    Jason Walker e o Retorno do Príncipe
    Sexta história da série de Jason Walker e contando. Quem sabe não serão dez?

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