I
- Armem a catapulta, seus miseráveis!
Gritava e ordenava sem parar, de forma efusiva, o general. Estavam sendo atacados, pela segunda vez na semana, por eles...
- Mais munição, rápido! Só falta um!
Realmente, só faltava um. Porém era um que seria capaz de dizimar todo aquele lugar, aquela cidade, em minutos, se não fosse rapidamente impedido...
Mas esse “um”, finalmente encontraria seu destino...
- Pronto general, catapulta armada!
- Não lancem ainda!
- Mas ele está na mira e...
- Não lancem! Eu que farei isso!
Um general de sangue frio e calculista, ele era. Aproxima-se do arremessador de pedras, mira no ser fabuloso e ao mesmo tempo medonho que vinha de longe, e... Espera. O dragão, possuidor da cor vermelha do rubi, chegava cada vez mais perto de seu alvo, o corajoso... Ou burro... General. O que ele queria fazer não atirando de vez a pedra, enorme e pontiaguda, em cima do monstro que a cada segundo se aproximava mais e mais?
- Vem pra cima, seu feioso, vem...
Parecia que o dragão ouvira e obedecera o que ele dissera. Chegava cada vez mais perto, voando ferozmente em sua direção. Os outros soldados olhavam curiosos e também temerosos para o seu superior.
“Ele quer morrer”, alguns pensavam.
“Ele está louco”, outros refletiam...
Não, ele não estava. Mas seus grandes olhos rubros, que não tiravam a visão de seu inimigo, observando cada movimento do mesmo, davam essa impressão: Parecia um indivíduo paranóico, insano... Talvez por isso fosse o general temido por todos.
A distância entre os dois diminuía rapidamente. O dragão tomava posição de ataque, batendo suas asas cada vez mais rápido e abrindo a sua boca nada pequena, mostrando numerosos e afiados dentes que mastigariam ossos como se fossem reles pedaços de pano... Ossos que poderiam ser do general, em breve.
Mais perto...
Mais perto... Tão perto que o comandante já poderia sentir no ar o hálito quente e fétido que exalava das narinas daquele monstro...
Ele agora sobrevoava em cima do general, em cima da catapulta, se preparando para soltar suas labaredas de fogo.
A catapulta...
- Toma!
Ele lançara a pedra, a última esperança que tinha para acabar com seu oponente antes que ele o queimasse vivo. O dragão, esquecendo totalmente da arma e prestes a atingir seu objetivo, deixara seu tórax, uma parte frágil de seu corpo, totalmente desprotegida; e era para esse lugar que a pedra rumava, atingindo-o bruscamente, o ferindo mortalmente...
Soltara um estridente e triste brado de agonia, e cai com um baque surdo no chão, fazendo com que se formasse em volta uma densa fumaça de areia que por alguns segundos cobre o monstro derrotado. Agonizava de dor, sofria. Os soldados, que antes só assistiam e chamavam seu superior de louco, comemoram com gritos ensurdecedores, e logo em seguida partem para cima da pobre criatura, que, agora sem forças e tendo sua vida se esvaindo, via seus inimigos correndo para cima de si com lanças cortantes que penetravam seu corpo duro e escamoso, o fazendo padecer ainda mais, se definhando aos poucos, ficando aos pedaços... Não podia fazer mais nada, acabara de encontrar seu lúgubre e doloroso final.
- Parabéns general! – Gritava de forma entusiasta um de seus subordinados, seguido por urras dos outros companheiros, enquanto cortava um pedaço do dono do hálito de fogo, já morto, abatido...
- Creio que com esse monstro, mais os outros três derrubados, nos garantirá uma boa provisão de comida para os soldados. Um mês ao menos, general Cádis. Mas, é estranho, eles estão atacando muito nos últimos meses... – Proferia Aluthis, sacerdote da cidade e fiel companheiro de Cádis, enquanto olhava com repúdio para os soldados, que não paravam de celebrar a vitória, ao mesmo tempo em que pensava
"Para que celebrar? Virão mais, e mais, e provavelmente, sempre mais..."
- Isso não importa agora, sacerdote. Enquanto houver eu aqui, Carloc estará protegida destes traidores. – E, deixando o ancião sozinho com seus pensamentos, se juntara aos subordinados, para também desfrutar da vitória obtida.
Apesar do ocorrido, este fora apenas um dia relativamente comum, ou quase, para os residentes de Carloc, antiga Carlin, antiga cidade daqueles repugnantes humanos, como seus atuais moradores, os orcs, pensavam deles...
Depois de serem massacrados pelos seus antigos aliados, essa raça impetuosa e selvagem não viu outra solução a não ser se refugiarem para algum canto remoto de Tibia. E foi assim que vieram para o lugar que primeiramente era a bela cidade humana Carlin, que fora totalmente pulverizada durante a
Guerra da Traição, numa sangrenta batalha entre humanos e anões. Todos os seus antigos moradores, ou os míseros que haviam sobrevivido da batalha, os humanos, saíram desta terra destruída e marcharam para outros cantos do continente, para, assim como os orcs, se esconderem e se protegerem dos novos donos de Tibia...
Os orcs sabiam onde os humanos estavam. Os humanos tinham noção do lugar onde os orcs moravam. Assim como as outras duas raças superiores, também conheciam as terras em que os antes seus inimigos ficavam. Mas ninguém, ou poucos, se atreviam a caminhar por estas terras amaldiçoadas por criaturas aladas. Eram prisioneiros, e cada qual ficava “no seu canto”, como se fossem simples ratos, defendendo seus territórios de eventuais intrusos que apareciam...
Carloc nada lembrava da morta Carlin. Não tinha a mesma beleza e nem de longe a mesma limpeza. Estradas de barro e casas de madeira eram tudo, nada de caminhos ladrilhados com pedras ou casas de até dois andares suntuosas. Os orcs não se importavam com isso, desde que sempre tivessem algo para comer e algum lugar para se proteger...
E era por uma dessas simples estradas de barro que corria loucamente e desesperadamente um dos servos do rei, com um recado para o glorioso general:
- GENERAL CÁDIS! GENERAL CÁDIS!
O general, de forma enfática, se vira para o pequeno orc que gritava seu nome, e que fora o culpado por fazê-lo interromper o banquete que estava tendo com os restos de seu inimigo.
- O QUE É? – Fala, ou melhor, grita, BERRA, e, rangendo seus dentes afiados e com pedaços de carne presos, olha furiosamente para o pobre infeliz que o chamara.
- O-o-o re-rei, e-ele está esperando você, ge-general.
Ele nada fala, e sai de cena, levando consigo um pedaço de carne de tamanho considerável, que comia enquanto caminhava em direção ao esplendoroso castelo do rei.
- O que esse desgraçado quer agora...
Só indo lá para saber, general Cádis...
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No mesmo instante, duas pessoas (pessoas?), dois seres, olhavam com mórbida curiosidade aos fatos que ocorreram na pequena Carloc:
- Será que ele contará a verdade?
Nada se ouve.
O silêncio e a indiferença de seu ouvinte em relação à sua pergunta tornam-se uma resposta melhor do que qualquer palavra que fosse dita naquele momento...
Não se sabe.
Bem, aqui está, quis já de começo postar prólogo e capítulo um. Críticas e correções serão bem-vindas, logicamente. Bem, talvez me arrependa de ter postado isso antes de concluir a história, mas não importa....