Capítulo 1 – Lar
06h00, Nova York
Finalmente, depois de seis exaustivas horas de viagem, chego em “casa”. Vejo a noite virar dia, contemplo minha cidade favorita, de pouca importância vista do alto do avião, mas crescendo enquanto o piloto se prepara para aterrissar. Já era hora, há tempos que não tiro uma folga...
O avião, por fim, pousa. Pego minha bagagem, uma maleta apenas, do guardador acima da poltrona. Mas, que merda, a deixo cair no chão...
- Pode deixar que eu pego pro senhor...
- NÃO, precisa.
- Está bem...
Não precisa, seu americano idiota. Gosto da cidade, porém odeio o povo. Minha mala, só eu a pego e carrego. Saio do avião, lugar insuportável, pequeno demais, cheio de pessoas. Ando pelos corredores do aeroporto o mais rápido possível, está cheio de gente, não gosto disso, muitas pessoas por perto, isso me irrita, me assusta, não me agrada...
Pego um táxi. Vou para um hotel. Terei sossego, paz. Até me chamarem de novo, mas não importa, aproveitarei enquanto isso...
- Para o hotel Buckingham, por favor.
- Pode deixar. Primeira vez que vem aqui, senhor?
O taxista puxa assunto, um homem negro de vestes simples, de aparência grosseira. Odeio isso, poderia ficar de boca fechada o caminho inteiro, seria bem melhor.
- Não, venho pra cá sempre...
- Ah ta. É que o senhor tem cara de ser de outro país, aí...
- Seria muito pedir pro senhor ficar quieto durante toda a viagem? – Ele olha para mim pelo pequeno espelho localizado na parte de cima do carro. Retribuo com uma face séria, de poucos amigos. Parece que entendeu o recado, ficando calado o resto do caminho...
- Bem, chegamos. Deu quarenta dólares.
- Toma cinqüenta, fique com o troco.
Até que enfim. Hotel Buckingham, meu “lar”. Um hotel de luxo localizado no coração da movimentada cidade de Nova York. Não tenho casa própria, minha estadia aqui é paga por eles...Eles que custeiam tudo, e só tenho que fazer meu serviço para que continue assim...
Entro, e sou recebido calorosamente por um jovem empregado que me leva até o balcão, onde faço minha reserva de sempre no mesmo quarto: Eles na verdade não ligam para mim, se importam mesmo é com o meu dinheiro, eu poderia ficar no pior e mais medíocre hotel da cidade, não me preocupo com luxo, mas não sou eu quem paga tudo isso mesmo...
- Aqui está senhor Bethlen, quarto 103, como de costume.
- Obrigado.
Como de costume, sempre pego esse quarto...Como de costume irei pelas escadas, não gosto de elevadores, são lugares fechados, demasiado pequenos...Doze andares apenas, eu agüento subir...
Dez minutos depois, e centenas de degraus deixados para trás, finalmente chego. Procuro pelo quarto, que fica no final de um corredor estreito, todo bem iluminado por castiçais dourados. Entro, primeira coisa que farei é descansar numa cama enorme revestida com um lençol de seda, e dormir, eu preciso disso, eu mereço, depois do que fiz...
Descansar, mereço...
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Dois anos antes, Washington
- Sua excelência, ele chegou. Irá explicar tudo para o senhor.
- Ótimo, já não era sem tempo.
Já não era sem tempo, dizia aquele homem que tinha tudo à suas mãos. Tinha poder, influência...E, queria explicações, detalhadas, do mais novo projeto criado por eles.
Surge um homem na sala, todo desajeitado. Jeferson Cusack, seu nome. Magro, de aparência nada assustadora e respeitável, segurava pastas e mais pastas, com uma grande porção de papéis, com informações que nem o homem mais poderoso presente na sala sabia e possuía...Sala que, com outras pessoas influentes do país, mas que se agacham perante o sujeito que tudo ali mandava, era escura, com uma mesa enorme no centro, onde todos se encontravam sentados, e de frente para tal havia um telão, onde se passaria informes das mais confidenciais possíveis. Esse pobre homem estava lá para contar, a essa pessoa “ilustre” e temida, o projeto que poderia ajudar e muito os Estados Unidos da América.
- Bem, senhor Jeferson, espero que comece logo o que tem a me dizer, e que esse atraso não se repita novamente.
- Desculpe, senhor presidente. Bem, começarei agora a contar sobre o projeto. Apresento ao senhor a “HSD”. – E passa para o então presidente fichas de homens aparentemente comuns, mas que na verdade, eram máquinas de destruição...
- HSD?
- “Homens Sem Destino”, é o nome da organização que cuidará deles.
- Hum, interessante, continue...
- Bem, temos oito agentes até agora. São homens com larga experiência militar que farão missões por todo o mundo sem estarem à mercê de nenhum governo, pelo menos oficialmente, não.
- Oras, senhor Jeferson, quer explicar isso melhor, por favor? Seja claro, e rápido!
- Certo...Esses oito homens, eles não “existem” mais. Seus documentos, seus trabalhos, suas vidas, foram apagadas, “deletadas”. São indigentes. Trabalharão para o governo dos Estados Unidos e de outros países sem terem um salário, ou bônus, férias, nada. Trabalharão como se fossem por conta própria, por assim dizer, sozinhos. Se forem pegos, estarão sozinhos. Se forem descobertos, estarão sozinhos. Se forem mortos, não descobrirão nunca quem são, ou quem foram...
Uma cara de espanto e surpresa se forma na face do imponente homem ali presente. Sabia e tinha certa noção de como seria o projeto, mas não achava que seria assim, tão, estarrecedor. Preocupado, ele estava, mas sabia das vantagens que algo assim poderia lhe render...
- Senhor Jeferson, que tipo de missões, eles fariam?
- Missões que um governo sério e pacífico, ou ao menos é assim que quer que pareça para o povo, não pode se responsabilizar em fazer, como o nosso, senhor presidente. – Responde, se intrometendo no assunto, o sargento Klavius: Homem rude, de atos mesquinhos, e um dos principais apoiadores da criação do projeto desde o início...
- Deus...Mas, quais países estão envolvidos nisso?
- Alguns países da Europa, outros da América do Sul, mais Japão. Cada qual tem um agente, e os gastos com essas missões serão divididas por todos eles.
- Senhor presidente, entenda que dessa maneira poderá enfrentar potenciais inimigos sem levar a culpa de nada, sem ninguém ter provas contra o senhor e nossa nação. Poderemos enfrentá-los das maneiras mais cruéis possíveis sem sermos crucificados pela mídia! Poderemos evitar novos atentados e ataques terroristas!! Poderíamos evitar um novo 11 de Setembro!
Palavras duras, disse o sargento. Comum para uma pessoa como ele. Os outros espectadores, só ouvem, não dizem nada, não querem dizer nada, ou simplesmente, tem medo de dizer algo...Onze de setembro, dia fatídico para uma nação tão poderosa...
- Eu sei, mas, mesmo assim, não achava que seria desse jeito. E a as conseqüências disso, serão altas, se descobrirem...Mas bem, me fale dos oito tais agentes que temos até agora.
- Ah, o senhor irá gostar de cada um deles!
- Espero...
- Agente A1, o japonês Akira. – Começa a passar slides no enorme telão, mostrando diversas fotos de diferentes situações e momentos do citado ser humano - Exímio lutador em artes marciais, trinta e três anos, foi “morto” num acidente de carro...Ele...
- Senhor Jeferson, não quero detalhes, só preciso saber nomes e de onde são, nada mais.
- Sim senhor...Agente A2, o francês Jaques, trinta anos, “assassinado” semana passada...
- Também não quero saber como “morreram”.Odeio franceses, são muito metidos. Por que será que nunca jogamos uma bomba neles?
Ele ri. Como pragmática, todos os outros presentes também riem. Mas, foi uma piada sem graça, e também um tanto preconceituosa, mas, ele que está no poder, ele quem manda em tudo...E em todos.
- É, hum...Certo. – E o coitado, assustado, suando, começa a passar slides rapidamente pela tela, mostrando só as faces dos indivíduos - Agente A3, Salvatore, da Itália, vinte e cinco anos. Agente A4, Gonzalo, quarenta anos, da Espanha. – Os únicos barulhos que se ecoam pelo recinto são de slides sendo passados um a um pela tela, enquanto o pobre rapaz fala o mais rápido possível - Agente A5, Bethlen, trinta e oito anos, da Alemanha. Agente A6, Nicolau, vinte e três anos, da Grécia. Agente A7, Francisco Souza, trinta e um anos, do Brasil. E pra terminar, agente A8, Pablo, da Argentina, vinte anos...Bem, são esses... – Finaliza, exausto, atônico, quase sem voz...
- Bem, senhor presidente, o que achou? – Pergunta o crápula Klavius.
- Pelo menos aparentemente, são normais, mas lerei a ficha de todos depois. Vocês têm total permissão para continuar com isso, e verbas também, ilimitadas. Mas me mantenham informado de tudo.
Últmos dizeres de vossa excelência. Palmas saúdam suas palavras. Palavras que concordaram em continuar com um projeto que, futuramente, traria maus agouros a todos...
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Época atual...
Ai, que saco. Que barulho chato, música chata. Meu celular, vibra em cima do criado ao lado da cama. São eles, Mas mal terminei um serviço, será que já estão me chamando para outro?
- Alô?
- Precisamos de você novamente.
- Mas acabei de che...
- Não importa. É urgente. Seja rápido e pegue um avião para vim pra cá.
- Ta, ta, já vou...
Droga!! Minhas “férias” terminaram...
Pego minha mala, nem tirei nada dela, nem precisa, sairei novamente mesmo...Bebo um pouco de vodka com gelo, pego meu maço de cigarros, saio do quarto e o tranco. Hora de ir trabalhar, de novo...
Bem, ai está. Sugestões, críticas e o escambau são bem-vindas x)
Dard*