- Vocês completaram o primeiro passo antes de tornarem-se dignos de morrer pela cidade. Mas derramarão ainda muito sangue antes de se consagrarem cidadãos. É hora de honrar a Artémis com um sacrifício de sangue e de dor, e só então deverão viver de suas bênçãos, durante os três próximos anos. Estas montanhas serão vosso novo refúgio, e seu túmulo, se não forem dignos do sangue de Héracles.
As pedras serão seus calçados; Helios, Selene e os inclementes ventos, suas vestes. Honrem-os, honrem sua pátria e honrem a si mesmos, e voltarão triunfantes, forjados pela natureza assim como a boa espada é forjada nas mais intensas chamas. E se um dia temerem o sofrimento e a morte, mergulhem na escuridão e no esquecimento destes desfiladeiros.
E então, quem será o primeiro a pagar seu tributo aos deuses?
CAPÍTULO I: Dilios, o belo
Todos os jovens foram voluntários. E cada um recebeu as chicotadas até mal ficarem de pé. Não houve um gemido - era nisto que consistia a competição, o sacrifício à vingativa deusa da caça, Artémis. Terminada a cerimônia, todos marcharam sem reclamar até os desfiladeiros, onde viveriam por conta própria por três anos, quando retornariam a cidade e seriam inclementemente testados até terem idade para ingressar no exército.
Estavam ansiosos, ávidos por caçar sua própria comida e dormir sob o gélido vento que soprava nas montanhas. Seriam testados a cada momento, tendo de disputar a caça tanto com os predadores locais quanto com seus companheiros. Mas esta era a tradição - seus pais, seus avós e todos os seus descendentes homens tinham passado pela agoge. Eles deveriam honrar a tradição se quisessem ver seus filhos fazendo o mesmo.
Entre tantas crianças de olhos brilhantes e sonhadores, havia um, cuja beleza o destacava dos demais. Dilios, o Belo, como era chamado pelos companheiros, sonhava com as histórias que contaria quando retornasse. Por mais rígido que fosse o tratamento dispensado às crianças esparciatas, sempre havia o momento de descanso, em que os grandes feitos seriam contados em volta da fogueira. E neste momento, a imponente voz desta criança, e sua habilidade com as palavras impressionava até os paidónomos que supervisionavam os festins.
Mas aqui não era Athenas, com seus filósofos e poetas. Formavam-se guerreiros aqui:
- Vocês vão ficar aqui ouvindo histórias, ou caminharão comigo pela madrugada?
A voz daquele que chamavam "o Belo" foi uma das que soaram mais altas, aceitando o desafio de seu superior.
A marcha logo tornou-se dura escalada, e para aqueles jovens pouco paramentados, as rochas eram como garras de fera, arranhando todo o seu corpo. "Cicatrizes. Bom", pensava Dilios. "Poderemos falar delas também".
Meses se passaram, e boa parte do grupo já tinha se dispersado a fim de aumentar suas chances de sobrevivência. Era inverno, e a caça era quase inexistente.
O belo jovem perseguia um moribundo roedor pelos estreitos corredores de pedra quando deparou-se com um companheiro caído no chão.
- Mas é Licurgo!
- D-Dilios, belo Dilios! Minhas preces foram atendidas! Em nome de Nêmesis, Dilios, vinga-me!
- Dize-me o que aconteceu! - O jovem tenta, mesmo sabendo ser em vão, estancar o profundo corte no abdome de Licurgo.
- Per-perfídia, Dilios! Theron atacou-me à traição, por um mísero... um mísero pedaço de carne!
- Não pode ser! O que se passaria na cabeça de Theron para...
Não houve tempo para terminar a frase. Como que por instinto, Dilios salta para frente, evitando o golpe fatal. Ergue a lança feita pelas próprias mãos em direção a seu atacante... Theron!
- Que os deuses o amaldiçoem, Theron! O que pensa que está fazendo?
- Hehe... Cada um faz o que pode para sobreviver, Dilios. Quero garantir meu retorno para casa. E se este imprestável não foi capaz de defender-se do meu ataque, não será de muita serventia... Mas você não. É habilidoso. Dê-me sua caça, e permitiremos que parta.
- Permiti...remos?
O descuido do grande Theron alertou o jovem bem a tempo. Dois companheiros esgueiravam-se às suas costas. Em posição defensiva, esperava pelo momento certo de agir. Ele morreria, mas feriria seus inimigos de uma maneira que não seria esquecida.
- Ataquem!
Num impulso, ele se lançava encosta acima, afastando-se do seus algozes. Segurava a lança firmemente, firmava sua base. Por enquanto, tinha a vantagem de estar em terreno elevado. Mas teria de tomar alguma atitude. Primeiro, ele brandiu sua língua habilidosa:
- Como um bando de cães sarnentos, hein? Mas quem ousará morrer primeiro como um cão? Você, Lisandro? Ou você, Ágis? Cobris nossa cidade de vergonha, e, pelos deuses, pagarão por isto! Vai ficar se escondendo atrás de seus filhotes, Theron? Porque não sobe aqui, e...
Theron aceitou o desafio, e rapidamente escalou o rochedo. Antes que Dilios pudesse aproveitar a oportunidade, ele foi mais ágil, e segurando a lança, jogou Dilios desfiladeiro abaixo. Este foi igualmente rápido, jogando a lança de volta para seu inimigo, e tentando segurar-se nas rochas.
- Dilios, maldito! Espero que sobreviva, pois irei arrancar seus olhos!
"Acertei", pensou. Mas não tinha tempo para aproveitar a vitória. Tinha que lutar para não parar no fundo do precipício. Tentava encontrar um abrigo sob as rochas, para escapar das pedras que Lisandro e Ágis lançavam.
"Sobreviverei e tomarei suas cabeças, criaturas vis..."
O instinto voltou sua cabeça para cima. Seus inimigos estavam prestes a lançar uma grande rocha, que o atingiria inevitavelmente. "Deuses, dêem-me a chance de morrer no campo de batalha, em honra do meu povo..."
Os deuses responderam seu pedido. Negativamente. A rocha acertou em cheio o pequeno platô sob o qual ele se abrigava. Debatendo-se desesperadamente, na vã tentativa de evitar a morte pela queda, Dilios chocou-se diversas vezes nas paredes de pedra antes de chegar ao chão gelado. "Como o solo do meu país é confortável", foi seu último pensamento antes que tudo ficasse escuro, e estranhamente agradável.
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