- Então, finalmente vieste acabar com isso?
- Tolo presunçoso, o que te faz pensar que oferece-me algum desafio?
- Então, o que te trazes a este lugar, distante de vossos domínios?
- Quis contemplar
in loco o memorável feito daquele insolente.
- Que duro golpe recebeste, poderoso Zathroth! Dilios está mais determinado do que nunca!
- Idiota... Não percebe que tanto ímpeto só o mantém sob meus desígnios? Que tanto antes como agora ele não passa de um instrumento?
- ...
- Eis mais uma razão para que permaneças vivo, druida. Viverás para contemplar a corrupção deste lugar...
- Tenho esperanças que as ilhas sofrerão menos danos que o continente. Por isto permaneço aqui...
- É uma questão de tempo, druida. Até lá, mantenha-se vivo...
CAPÍTULO V: Hyacinth
A visita do jovem não consistia em nenhuma surpresa para Hyacinth, mas ele não pôde deixar de assustar-se com seu terrível aspecto. Aquele que outrora chamavam “o belo” agora assumia feições quase demoníacas. Suas roupas, em trapos, estavam tingidas de sangue e cinzas. Seu corpo ostentava toda a sorte de marcas: cicatrizes rituais, sangue coagulado, fuligem... Dispostas num padrão complexo. E sua expressão facial, assim como sua aura assassina, denunciava suas intenções.
- Sabe quem sou eu?
- Eu nem precisaria perceber a revoada dos pássaros, meu caro Dilios. O cheiro de sangue está impregnado em você.
- Então sabe porque estou aqui.
- Decerto. Mas seria uma desfeita se aquele a quem chamam “contador de histórias” não honrasse este velho com uma breve narrativa, por menor que seja.
- ... Faz muito tempo que não conto histórias...
- Sim, temo que sua verdadeira essência tenha sido perdida ao longo do tempo. Mas poderia conceder-me este último pedido?
- ...
- Seymour informou-me que assim que chegaste a este lugar, passaste muito tempo na academia, dedicado exclusivamente aos estudos...
- Precisava conhecer mais sobre este lugar, e sobre meus inimigos.
- ...E desapareceste quando não havia mais nada a ser aprendido. Conte-me jovem guerreiro, o que fizeste em todo este tempo sem retornar ao conforto e à segurança da cidade?
- Estou em treinamento, druida. Como dizes, o conforto e a segurança são para seus merecedores. Quando cheguei a este lugar, prometi a mim mesmo que daria prosseguimento à minha
agoge. Só estou cumprindo com minha palavra.
- Decerto.
Hyacinth ofereceu-lhe uma cadeira, mas ele preferiu ficar de pé, segurando firmemente sua lança. Mas livrou-se de parte dos trapos que usava, e aceitou o pano e o recipiente com água, limpando cuidadosamente seu corpo.
- Deixei a cidade em treinamento, disposto a só retornar quando fosse hábil o suficiente para deixar esta ilha. Aventurei-me por todo este lugar, arriscando a vida diversas vezes, como podem testemunhar aqueles que ousaram desbravar os territórios mais perigosos. Entretanto, como parte de treinamento, realizei missões, digamos, pouco usuais, para uma feiticeira chamada Odessa. Esta é a razão de minha atual aparência.
Com o aspecto renovado, Dilios diminuiu sua tensão, se dando ao luxo de sentar-se diante do velho druida. Tomou um pouco de água e saboreou alguns mirtilos, muito comuns em Rookgaard. Mais relaxado, ele continuou sua narrativa.
- O poder da feiticeira é nulo neste lugar, de modo que para que ela aqui se manifestasse, rituais e sacrifícios fazer-se-iam necessários. Vejo a pergunta em seus olhos, Hyacinth, e confesso: vidas humanas foram sacrificadas em nome de Odessa. Atentai, entretanto, que suas mortes não foram em vão: fortaleci-me muito neste ínterim, e em pouquíssimo tempo partirei para o continente.
- Como é possível? O assassínio não é permitido neste lugar!
- Você deve saber que há diversas maneiras de tirar a vida de alguém, meu caro druida. Foi nisso que me dediquei durante o tempo que estive desaparecido. Hoje, completarei meu aprendizado, realizando o último ritual...
- ...Que me envolve diretamente, eu presumo.
- Sim, e eu lamento ter de fazê-lo, druida. Mas nesse momento, seus serviços são requeridos...
Dilios retoma sua higiene pessoal quando um grupo de aventureiros adentra o refúgio do druida em busca de seus famosos
fluidos vitais. Hyacinth, assim que volta a ficar a sós com seu convidado, assume uma expressão serena.
- É interessante o quão relaxado ficaste enquanto contava-me suas histórias, meu jovem. O que me leva a questionar, e a questionar-te quanto sua real natureza. És mesmo o guerreiro frio e calculista que tentas aparentar?
- Se está tentando me demover de meu intento, Hyacinth, suas palavras não surtiram efeito algum.
- Então, meu caro, porque você já não o fez? Não me diga que tuas vítimas anteriores tiveram a chance de dialogar tanto com seu executor...
- Como eu disse, druida. O fato de pessoas terem sido sacrificadas não significa que elas foram mortas covardemente por mim. Tua sabedoria é vasta, mas aparenta não ir além do óbvio.
- Verdade, meu jovem? E quanto a ti? Há quanto tempo percebeste que és um instrumento nas mãos de Zathroth, o Destruidor?
- ...
- Foi o que eu pensei. Escute bem, Dilios. Aquela a quem chamas de Odessa nada mais é que a grande sacerdotisa de Zathroth. Este culto tem sobrevivido sob as sombras desde a aurora dos tempos, e ao que parece, encontrou em sua coragem e força o meio perfeito de obter cada vez mais poder.
- Isto explica a construção do templo... Mas respondendo sua primeira pergunta...
- Falou de um templo?
- Onde acha que os sacrifícios estão sendo feitos? E de como eles ocorrem constantemente? Odessa instruiu-me a encontrar outros como eu. E eles apareceram, pouco a pouco. Os sacrifícios são voluntários, druida. Os que envolvem vidas humanas, pelo menos. Não há sangue inocente em minhas mãos.
- P-Por todos os deuses!
- Nossa conversa só foi possível porque há muito que não confio em Odessa. Aconteceram-me algumas coisas antes que eu chegasse neste mundo que fizeram-me questionar suas intenções a meu respeito. Você pareceu-me saber dos segredos deste mundo. Vejo que estou certo.
- Então, o que fará agora?
- Eu vim para este mundo com um objetivo, e fiz um juramento diante de Toth, o Senhor dos Vermes. Serei poderoso a ponto de desafiar os próprios deuses, e retornar ao meu mundo natal. Não desistirei deste objetivo. Mas agora pude ver um pouco mais além, o que me leva a refletir sobre minhas atitudes. Diga-me, Hyacinth, o que achas de tudo isto?
- Acredito que seu grande inimigo é Odessa e seus acólitos, e não os deuses. É um erro desafiar seus desígnios...
- Parece-me razoável, mas estou farto de confrontar-me com tantos pontos de vista opostos. Seguirei o meu coração e farei o que julgar necessário. Então implore, druida, para que não estejas no meu caminho!
O jovem espartano levanta-se, determinado, e dirige-se à saída daquele lugar. Hyacinth também se levanta, com a mesma expressão serena de antes.
- Acredito que segues o melhor dos caminhos agora. Mas responda-me: disseste que não havia sangue inocente em suas mãos. E se não tivéssemos tido esta conversa, o que seria de mim?
Totalmente despojado de sua aparência demoníaca, o jovem sorriu.
- Como eu poderia te matar? Isto não é permitido neste lugar!
- Então...
- O último ritual envolveria ingredientes pouco usuais, do tipo que usas em seus experimentos.
- Mas...
- Julgaste-me por meu terrível aspecto, e tomaste conclusões precipitadas. Pelo que vejo, até mesmo os mais sábios podem enganar-se redondamente.
Hyacinth não teve outra reação senão sorrir, envergonhado. Mas, ocorrendo-lhe outros pensamentos, assumiu um semblante sério.
- Precisa dizer-me onde se encontra o templo de Zathroth, Dilios.
- Não se preocupe. Eu resolvo isto. Até a próxima, meu caro!
- A-Até a próxima, meu caro!
Haviam doze homens na caverna quando o jovem chegou. Nesse ínterim, trocou suas velhas roupas e cuidou um pouco mais de sua aparência. Olhando seu reflexo na superfície da água, ele sorriu. Embora não pudesse retornar aos velhos tempos, ele era novamente “o belo”, ainda que o tempo já tivesse exercido seu poder sobre seu corpo. Então recordou-se de seus últimos momentos, e se perguntou o que realmente tinha acontecido naquele fatídico dia. Mas isto ficaria para depois. Ele teria um trabalho a fazer.
- Lorde Dilios, tememos por vossa segurança. O senhor demorou...
- Como podem ver, eu preferi disfarçar-me, e assim, aproximar-me mais de Hyacinth. Aqui estão os últimos ingredientes. Os lobos estão prontos?
- Sim senhor, e estão famintos!
- Então preparem-se, todos vocês! Esta noite o grande ritual será realizado!
- Sim, meu Lorde, pela sábia e poderosa Odessa!
Os acólitos prepararam o ritual. Traçaram os pentagramas derramando o sangue armazenado em frascos de vidro, sacrificaram as ovelhas enquanto entoavam cânticos, e espalharam as tochas de acordo com a orientação de seu líder. Em seguida, queimaram os componentes obtidos por este – na verdade, cinzas, trigo, sangue e pontas de flechas envenenadas –, e uma névoa fétida tomou o local.
Dilios fingiu entoar os cânticos, e ordenou que o sacrifício fosse feito. Neste momento, os lobos foram libertados, e atacaram impiedosamente os acólitos, que nada fizeram para defender-se. Quando a morte de todos foi confirmada, o líder jogou as tochas nos vários feixes de trigo espalhados, incendiando o templo. Ele pôde esboçar um sorriso sarcástico para a forma demoníaca de Odessa, recém-invocada através de todos aqueles sacrifícios. Ela rogava-lhe toda sorte de maldições, mas ele manteve-se firme, observando o lugar até que nada mais restasse além de cinzas.
- O
Inferno dos Minotauros. Será meu último teste antes de partir...