Não existe mudança de opinião quando dá errado na política. Existe ou fingir que nada aconteceu ou colocar a culpa pelo erro na oposição. A gente vê isso direto: constrói-se uma narrativa, com muitos argumentos e projeções, toda militância engaja e se compromete intelectualmente com o racional. Quando dá errado, ninguém se questiona sobre motivações, credibilidade ou, até mesmo, visão de mundo. Simplesmente deixam pra lá, culpa a oposição ou algum outro grupo pelo erro, e o ciclo começa com a próxima narrativa, as próximas construções argumentativas, os próximos comprometimentos.
O bolsonarismo faz isso direto, o conceito de credibilidade já morreu naquelas bandas, gente que nunca acertou um posicionamento na vida pública e já deu pra trás dezenas de vezes, continua contando com a confiança (e com a grana) dos militantes. As taxas das blusinhas demonstra que é assim também no petismo. Não se questiona o racional por trás da ideia que levou o governo a praticar a taxação (que, no fundo, foi uma medida puramente fiscalista e arrecadatória, todo papo de protecionismo econômico se demonstra agora pura balela). Muito influencer e militante se comprometeu com a narrativa, o mais famoso, que fez o videozinho da dancinha dizendo que "as empresas iam arcar com os custos fiscais" (reproduzindo discurso da primeira-dama), sumiu da Internet por conta da repercussão negativa e do óbvio acontecer (nenhuma empresa arca com custos que comprometam suas margens, nem na China).
Agora, em uma medida populista e eleitoreira, a taxa cai. Toda argumentação da militância que defendia a taxa foi tirada pra merda. E as mesmas pessoas que fizeram um malabarismo cognitivo e retórico para falar bem da medida, vão precisar fazer o mesmo malabarismo para culpar terceiros pela falha e defender o passo atrás, com argumentos antagônicos e contraditórios.
É um fenômeno muito louco de se observar. Por isso é muito difícil ter agenda política e precisar se comprometer com uma posição. Acompanhar essas mudanças de narrativa e comprometer a própria credibilidade pública acaba sendo um sacrifício pessoal pela causa.