Acho que esse caso aí é representativo da mãe de todos os problemas das democracias modernas, principalmente as latinas, que é o patrimonialismo. A gente tem esse problemas desde a colonização, desde as capitanias hereditárias. É o uso do Estado para benefício próprio, como se o poder estatal e as propriedades públicas concedidas aos eleitos (e até aos concursados) fossem uma extensão da própria pessoa. Não existe separação ética do que é público e do que é privado. Os caras nem percebem a própria corrupção, fica tudo muito subjetivo, afinal, "como eu vou roubar o que já é meu"? Você vê isso nos últimos governos que tivemos: o Palácio do Planalto vira sala de recepção de amigos, o avião oficial vira fretamento para familiares e agregados, a polícia estatal vira equipe de segurança, as Forças Armadas e polícias viram milícias, os ministros viram secretários, o cartão corporativo vira cartão pessoal.
O Bolsonaro conseguiu ir mais longe porque, além de fazer tudo isso, ainda matou o decoro do cargo. Nem esconder esconde mais, não tem mais polícia para investigar, não tem oposição e os apoiadores estão hipnotizados em uma idolatria sem sentido. É filho que vai turistar em viagem oficial, é ministro que vai para os EUA visitar amigo, é cartão corporativo que paga férias para o presidente e todas as dezenas de assessores e agregados sem qualquer tipo de transparência.
Esse vazamento do áudio do ministro não é nada perto do que está acontecendo nas internas do MEC. O verdadeiro "se vocês soubessem ficariam enojados". A responsabilidade jurídica me impede de fazer afirmações mas dá para dizer que, hipoteticamente, a pasta da Educação tem "donos" e nada mais é feito se os "donos" não autorizarem. Quem puxa saco e fala o que eles querem ouvir, tem vantagens, ganha cargos, verbas parlamentares e garantias em distribuições de recursos nas prefeituras. Amém.
É o melhor momento para alpinistas sociais que querem cargos importantes, o nível de quem se submete é muito baixo. Se eu tivesse um pouco menos de escrúpulo e mais cara de pau, estaria em uma situação financeira melhor do que o salário de professor que não foi corrigido nem pela inflação.