
Postado originalmente por
Chuck 13
Não consigo acreditar que o Bolsonaro tem capacidade suficiente pra pastorear todo esse movimento. O que você vê como projeto político?
Com certeza não é o próprio Bolsonaro por trás de qualquer coisa que tenha o mínimo traço de sofisticação política nesse governo. Qualquer um que ouça ele falar por certo tempo (e olha que eu já sofri algumas horas assistindo essas lives dele), percebe que o cara tem uma capacidade mínima de abstração e associação, dificilmente teria o raciocínio necessário para bolar uma estratégia de comunicação utilizando uma rede de disseminação de informações que conta com hubs, bot farms e postagens coordenadas. O cara é basicamente o tiozão do zap. Na real, o indivíduo Bolsonaro nem é um grande problema, é um homem visivelmente inseguro, destemperado, com pouca capacidade empática, autoritário, um tanto preguiçoso e, eventualmente, manifesta Efeito Dunning–Kruger sobre vários assuntos. Não é muito diferente da média do brasileiro e dos políticos que estão lá, eu mesmo tenho uns tios assim.
Acho que não seria difícil inferir que existem pessoas por trás de toda a estratégia política do Bolsonaro. Eleger um presidente é um puta investimento, sempre vai ter gente interessada em auxiliar. Não é segredo (ao contrário, abertamente divulgado) o apreço que o próprio Bolsonaro tem pelo Trump e o contato dos bolsonaros com o Steve Bannon.
O projeto político seria o de criar uma massa ideológica radicalizada e fiel, que seria basicamente alimentada por essas redes de informação descentralizada que a internet oferece. Não que "criar massa ideológica radicalizada" seja uma inovação na história da política mundial ou brasileira. A novidade é o meio com que isso está sendo feito, com um volume gigante de desinformação, contrainformação e mentira sendo gerada e espalhada através dessas redes de radicalização.
O negócio é bem engenhoso:
1) Você dispara em uma rede uma quantidade diária enorme de informações que corroborem com a narrativa do governo. A maioria distorcida/parcial, algumas falsas e algumas verdadeiras (para se tornarem indistinguíveis das falsas).
2) Essas informações impactam as pessoas que estão na rede por fontes diferentes: uma parte pelos grupos próprios para política, outras partes encaminhadas por amigos e parentes, outra parte em grupos não relacionados à política (igrejas, família, trabalho), outra parte por perfis "sérios", outra parte como memes e coisas engraçadas. Isso passa a sensação de que "está todo mundo falando disso", "não vi isso só em um lugar", que é a ativação do viés de confirmação natural no ser humano.
3) Como nenhum ser humano tem capacidade cognitiva de lidar com um volume tão grande de informação (buscar fonte, buscar conhecimento necessário para interpretar a informação, buscar outros pontos de vista), o indivíduo que tem qualquer tipo de afinidade com a ideologia ou grupo político acaba sendo pescado.
4) Uma vez pescado, uma das mensagens inseridas nessas informações é o de "não procure informação em outro lugar". Outro signo inserido é o do medo, existe sempre um inimigo (que varia de acordo com o grupo mas existe um viés religioso e moralista bem grande) ou alguém ameaçando o
status quo do indivíduo.
5) No fim, você tem uma pessoa cada vez mais radicalizada e sem qualquer abertura a um contraditório. Colocar essa pessoa na rua ou em algum tipo de movimento mais "incisivo" é fácil. Principalmente se essas pessoas já fazem parte de outros grupos de radicalização. Dá pra invadir o Capitólio, o Congresso ou até mesmo o STF, por exemplo. É base de um movimento revolucionário.
6) profit
Isso não é exclusividade do bolsonarismo, a mídia tradicional também tenta fazer isso, criar um sistema parecido. Não conseguem porque, como o Gryllo mesmo disse, a mídia é lenta, enfrente alguns processos de checagem, é heterogênea e precisa responder a algum interesse específico (afinal, são empresas). Só que existe a questão fundamental que agregou tanta gente em torno das redes bolsonarista: o ódio e o medo personificados no PT e no Lula. Nada une mais as pessoas do que o ódio e o medo, principalmente se eles forem justificados.