A viagem entre Yalahar e Svargrond fora longa, então não havia tempo a perder. Tão logo o grandioso navio chegou à costa gelada de Hrodmir, o feiticeiro já saltou para a escada de escordas, descendo rapidamente até atingir o píer. O vento gelado cortava seu rosto, mas ele sequer parecia notar.
Preciso ser mais forte, pensava Batráquio Azrael.
A única forma de continuar com esta missão é ser mais forte do que eu jamais fui.
A Arena de Svargrond. Ele já a havia enfrentado uma vez, no nível mais fácil, como um passatempo. Mas agora era hora de enfrentar inimigos mais poderosos. Inimigos que seriam o teste perfeito para a varinha da escuridão.
Batráquio percebe-se em uma das covas da Arena. Não há tempo para pensar ou para se preparar: o primeiro inimigo, um golem de gelo gigantesco, logo ataca, e é preciso iniciar o combate.
Avalanche... Kreebosh, o Exilado... A Dançaria das Trevas... A Bruxa... Slim... Grimgor Grutater... Drasilia... Todos são meros vermes. Todos perecerão diante do meu poder. A cada novo inimigo, Batráquio certificava-se mais e mais do poder do seu artefato.
Os três últimos foram os piores. Um espírito que personificava a terra, outro que correspondia à água... E o último, a essência do próprio fogo.
Mas nem mesmo eles podem resistir ao poder da escuridão.
Você consegue resistir ao calor? Proclamava o Espírito do Fogo enquanto cobria o chão com suas chamas e atacava Batráquio com suas bolas de fogo.
Sim, eu consigo... pensou o feiticeiro.
Mas e você? Pode resistir ao inexorável fim que o aguarda...?
Batráquio deixou a última cova da Arena cansado, fumegante, sujo, ferido. Mas satisfeito com o que presenciara lá dentro.
Agora está na hora, pensou ele enquanto contemplava o pôr do sol naquela tarde antes de deixar Svargrond mais uma vez.
É chegada a hora de cumprir parte do que Malor me pediu.
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Dias depois, estava em Yalahar. A varinha da escuridão firme em sua mão esquerda, a mochila recheada de poções e runas, o corpo firme e o olhar decidido posto no horizonte enquanto caminhava pelo Quarteirão dos Mágicos em direção às Três Torres erguidas pelos Marid.
Hoje você irá sangrar, Fahim. Hoje é chegado o dia do seu julgamento.
Não sentiu a mínima dificuldade em abrir caminho pelas torres em busca do esconderijo do Marid. Seus servos não eram páreos para ele, tampouco para o brutal poder liberado pela sua varinha.
Insetos, apenas insetos. Onde estará a verdadeira ameaça?
Não tardou a descobrir.
No instante em que chegou ao outro lado do portal, Batráquio viu-se acima de toda a cidade, com a brisa quente soprando pelos seus cabelos. Parado diante dele, do outro lado do recinto, estava um Marid de aparência brutal, com uma expressão séria e resignada no rosto, carregando uma grande e reluzente cimitarra e respirando calmamente.
- 4669. - Disse-lhe o Marid, e sua voz soava como um relâmpago no céu. - Eu esperei ansiosamente por este momento.
Como se um choque elétrico percorresse seu corpo, Batráquio sentiu-se viajar. Sentiu que estava em outro lugar, em outro momento, ainda que seus pés não tivessem deixado o chão. Subitamente, sentiu uma série de suas memórias voltarem...
Estava acorrentado em algum lugar em Ashta'Daramai. Era ainda um aprendiz, fraco e tolo, em sua primeira missão fora da Necrópole. Diante dele, jazia o poderoso Gabel, cercado de seus mais leais súditos.
- Bonelord! - Dissera Gabel, apontando para ele sua cimitarra encrustada de safiras. - Você é acusado de invadir esta fortaleza em busca de nossos segredos mais antigos. Este crime é punível com a morte! Não toleraremos sua raça imunda em nosso lugar sagrado! Fahim, meu braço-direito, eu entrego a vida deste bonelord a você! Liquide-o!
Num piscar de olhos, estava em outro lugar, em outro momento...
- Gabel decidiu que quer me matar novamente. - Ele mesmo dissera a Ireas, em algum lugar em Liberty Bay. - Deve ter descoberto que voltei a trabalhar com os Efreet. Enviou alguns Marid para me emboscarem em Yalahar há alguns dias, mas dei cabo deles... Depois descobri que o verdadeiro responsável pelo ataque fora seu antigo general. Um Marid chamado Fahim.
- Fahim...? - Ireas parecia vasculhar na memória onde já ouvira aquele nome antes.
- Fahim. - Concordou o bonelord. - Já nos estranhamos no passado. Ele quase me matou uma vez. Suponho que esteja ansioso para ter outra oportunidade...
- Nos encontramos novamente. - Disse Batráquio ao Marid após recordar-se de tudo.
Duas vezes ele já tentou me matar. Duas vezes eu sobrevivi. Como pudera esquecer? De repente, a morte de Fahim adquirira um caráter mais urgente, mais imprescindível do que antes.
Isso já não é mais sobre Malor. É sobre mim.
- Mas, desta vez, você não viverá para contar a história. - Retrucou Fahim, avançando vagarosamente em sua direção.
- Veremos. - E, dizendo isso, Batráquio mirou a varinha da escuridão diretamente no peito de Fahim, disparando-a, seguindo de imediato por um tiro de uma runa de morte súbita. O combate iniciou-se.
- Você... Não descansará... Jamais... - Disse-lhe o agonizante Fahim após receber o ataque final. Batráquio encarava-o do alto, com o rosto impassível e a varinha firmemente segura em sua mão. - Gabel o encontrará... Me vingará... Você não... Ven... Cerá... - E, dizendo aquelas palavras, aquele que chamavam de Sábio morreu diante do feiticeiro, como se jamais tivesse sido qualquer coisa além de um animal ordinário.
Depois daquilo, sentindo-se vazio e tolo, Batráquio retornou ao andar inferior e começou sua descida de volta ao térreo. Enquanto descia, eliminava os Marid chocados que encontrava pelo caminho.
Eu não senti absolutamente nada. Aquele pensamento lhe era estranho. Malor prevenira-o de que talvez não estivesse com seu emocional completo... Mas era estranho pensar que liquidar um de seus antigos inimigos não lhe surtira o menor efeito.
Quem sou eu agora? O que estou fazendo aqui, afinal?
Logo, Batráquio percebeu-se novamente no térreo.
Preciso terminar o que comecei aqui. Ele podia ouvir os demais djinns aproximando-se, prontos para vingarem seu mestre morto.
Não haverá paz para mim enquanto estas torres permanecerem em pé. Resignado, Batráquio fechou seus olhos por um instante enquanto canalizava o máximo possível de sua energia. Estendendo as palmas das mãos para os lados, o feiticeiro voltou a abrir seus olhos, suas pupilas tendo adquirido um tom púrpura extremamente claro.
Então, subitamente, a atmosfera tornou-se mais densa, o ar começou a estalar ao seu redor e uma porção de escuras nuvens surgiram no céu.
O feiticeiro então pronunciou seu encantamento.
Mil relâmpagos desceram dos céus e se esvaíram por suas mãos.
Mil relâmpagos correram pelo chão, subiram pelas torres e voltaram aos céus.
Mil relâmpagos danificaram a estrutura daquelas edificações com violência.
Enquanto a chuva caía, tal qual as Três Torres à sua volta, Batráquio Azrael seguiu seu caminho para fora do lugar, deixando para trás três pilhas de pedra, uma nuvem de poeira, e os corpos esmagados de incontáveis Marid.
É hora de relatar a Malor o que aconteceu aqui.